Peniche! a liberdade nas grades da prisão.

Passaram dias desde Peniche. E ainda agora estou bloqueado, porque nem todas as experiências traumáticas são amargas. Não. estou bloqueado pela comoção profunda. pelas lágrimas que me escorreram a ouvir o Pedro e o Casanova. E o Samuel, mais tarde, naquela fala de homem nascido... não consigo condensar nas letras do alfabeto nem nas frases da sua junção o misto de alegria, revolta, comoção, raiva, ternura, amor, pátria, entrega, brandura e coragem que me foram transmitidos pelos camaradas com quem passei este fim de semana. dos que comigo foram de Aljustrel e dos que encontrei, como bando de aves buscando o crepúsculo, às portas do forte de Peniche, pedra agreste que torturou muitos de nós, mesmo quando ainda não existíamos, na solidariedade que hoje nutrimos pelas vitimas do fascismo. nesse país de música de mãos sem nada, como lembra o grande Adriano. não consigo ainda camaradas. permitam que absorva primeiro a alegria imensa de vos pertencer. e de saber que há, e houve, quem perante a brutalidade fascista, resistiu com bolinhas de pão, atiradas de janela em janela. Obrigado zé, meu querido amigo a quem devo a liberdade do meu país de verde pino, por nas horas da tua tortura teres sabido, ensinar o futuro pelos meios de uma criança. bolas de pão. bolinhas de pão. de janela a janela. como aves, levando a mensagem das searas e dos mares. é de gotas e de espigas que se faz a imensidão. foi com bolinhas de pão que fintaste as bestas e escreveste a tua parte da palavra colectiva REVOLUÇÃO.
camaradas, escreverei quando emergir das minhas lágrimas. bons momentos reminiscentes de um dia lindo. foi muito bom rever uns, conhecer pessoalmente outros. fazer das palavras abraços e dos abraços junção.

(foto: camarada à porta do Forte de Peniche, 12 de Abril de 2008)

6 comentários:

poesianopopular disse...

É verdade camarada, tivemos o previlégio, no 1º aniversário do "Cravo de Abril"de sermos acompanhados na vizita ao Forte (prisão) de Peniche, por dois camaradas protagonistas, da sua própria hitória...-e que história, de luta que ia para além deles próprios, era a luta dos explorados e óprimidos, a luta pela liberdade.
Desta tribuna vai o meu agradecimento aos camaradas Manuel Pedro e José Casanova e ao Sérgio Ribeiro pela boa vontade e paciência demonstrados, neste dia de convívio que nunca irei esquecer.
Excelente almoço culminando com a actuação do Samuel "Cantigueiro"impecável a organização, a todos que se deslocaram até Peniche, um grande abraço Comunista.
José Manangão

Alice disse...

Foi realmente magnifico o dia em Peniche!O resto do fim de semana nem por isso!!!!! LOL
...operários!
Beijos grandes!

XICA disse...

Belo texto! Muita emoção misturada com muita aprendizagem.

samuel disse...

Os Homens e mulheres que o Casanova e o Manuel Pedro tão bem representaram na nossa ida a Peniche, fazem-me lembrar um poema de Sidónio Muralha, já publicado aqui, que fala exactamente dos homens/poetas que não se limitam a ser "figurantes" na História.

"E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,
Que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas."

Abraço

Antuã disse...

Um excelente texto apesar da comoção.

Maria disse...

Sei o que acontece a quem, de nós, visita o forte de Peniche pela primeira vez. Ou pela segunda ou pela terceira.
Por isso quando há visitas assim guiadas eu fico a ver o mar, para que as lágrimas não façam subir a maaré...
Foi bom conhecer-vos. Foi com estar convosco.
Obrigada, Cravo de Abril.

Abraços