astrolábio

dormirei, já esta noite, no alentejo. dormirei. dormirei. dormirei. ah, a minha casa!

lains de ourém, de partida. 16 de março de 2012

muro das lamentações

é nos muros de deus que esbarram todas as interrogações,
gumes do delírio na solidão sempre manca
notas gastas das músicas que sabemos de cor.

há uma ausência estridente que não me deixa dormir
ossos crepitantes privados já de carne
a tua morte.

os deuses só existem no nosso desconserto
vagas onde se desfazem todos os marinheiros ao sair
da barra da lucidez.

onde sombras, o nosso pavor, gritos onde esbarra
a luz do silêncio que habitava o mundo antes
dos bichos e dos estalos das plantas

negando às trevas o domínio absoluto do precário.
são de vagos dedos os meus segundos
tacteando os destinos dos caminhos ocultos
da condição que não pedi mas habito

contra a vontade de tudo o que é plausível ou explicável
na azeda explicação que o corpo oferece ao luto.
polifonia do desespero que os homens assimilam em rituais

onde o sangue das aves habita o grito
de tudo o que nasce para ser sacrificado à fome desconhecida
que só goya ainda soube aproximar.

todo o homem é um verso nunca lido
ladainha inútil mesmo para os deuses que inventamos
amaríssimo dedilhar de tudo o que já foi ou está para ser e não sabemos.

a maternidade é a única esperança
e mesmo essa, inexplicável... de tanto que percorre
os caminhos nauseabundos da beleza.

todo o homem é luz. toda a luz se apaga.

aljustrel, 16 de setembro de 2009. nos dias do meu luto

lains de ourém

absolvição

não chove
e eu não escrevo.

Sofro a página em branco. Como pedem água as raízes da sede.
Sei agora que o trauma faz a vez das barragens nos ribeiros da dor.


Casa das glicínias, 12 de Março de 2012
Lains de ourém

POEMA

HOMENAGEM A 4 POETAS E 1 CINEASTA

Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
— foda-se! —
de morango.


Ana Paula Inácio


(do novo álbum dos A Naifa)

Greve Geral - 22 Março

Castelo Branco TV

http://www.castelobranco.tv/

SÁBADO!!!!

Exposição


Tabernas do sul

Ao sul, encontra-as quem percorrer uma fiada de cal, feita casas ou o grito dos homens. Desce-se, habitualmente, dois ou três degraus, reminiscência do gesto feminino de ir à cisterna. Aqui, ao contrário dos livros sagrados que nos querem impor junto com a exploração, a frescura está rente ao subsolo, talvez poeticamente buscando as raízes das glicínias ou dos limoeiros onde todos procuram mezinhas, mais para sossego da consciência do que das chagas. Tabernas do sul. São faróis ao cansaço dos homens, teimando ante a canícula a fúria de estarem vivos. Ainda que velhos. Os novos partiram. Ficaram sonhos, aguardando o seu regresso. Depositados no local das navalhas, do vinho, das raivas e dos afectos, estão junto a estes homens que o João fotografou. Sintam-lhe o cheiro. E saberão que vento de ternura é este de que vos falo.
António Lains Galamba
Antropólogo

lembrando o amigo morto

faz cinco anos, não tarda muito, e «vi» morrer um amigo. Violentamente! Zé Balão era o porta-estandarte no Grupo Coral »Os Trabalhadores» de Ferreira do Alentejo. Ferido, profundamente, pela notícia, embrulhei as lágrimas no papel e nas letras que agora partilho. Porque há homens, desculpem, homes, tão ternurentos que ficam sempre referência nas vidas de quem com eles privam. Faço deste blog a ponte entre amigos que aqui nos visitam, e este amigo que bem gostava que tivessem conhecido.
Aqui fica pois a carta que ele nunca poderia ter lido, a não ser que me tenha adivinhado entre os cigarros partilhados.


Carta ao amigo morto:

tinhas alcunha de criança... redonda como os olhos amêndoa, azeitona, de menino ternurento que agora se findou. zé balão. vejo-te, recordo-te agora descendo a rua que te leva, que te traz ao Cante. eras o porta-estandarte! mãos grossas, dedos bons como o coração das coisas ternas. e o orgulho que tinhas dos amigos na bandeira que erguias. tua pobreza humilde tinha talvez a resignação das flores em terreno ácido. recordo-te debruçado no balcão - talvez maior que tu (não me lembro, ofuscado que estava no teu sonho!) - da tasca do lota. enganando o luto pela morte da tua mãe. com goles de passarinho (porque te associo sempre eu às coisas pequenas, meu homem pequenino, meu amigo grande?) assobiando no copo de traçado as injustiças que outros obrigaram a carregares às costas. Nunca te disse, nunca meu amigo morto, meu irmão vivo, nunca te disse mas foste a única coisa pela qual tive pena de deixar de fumar. lembra-me tanto balão. lembras-me tanto. os dentes que faltavam abrindo-se no negro da tua pobreza, dedos esticados - que era uma das tuas formas de me abraçar -"oh tóino, dá aí um dos teus cigarrinhos, já feitos." E dizias "já feitos" para que lembrasse que tinhas uma onça, assim eu dos teus quisesse. e era um dos nossos momentos profundos, na tua profundidade de homem simples. passava-te o maço para as mãos mas o lume saía das minhas... ver-te aconchegado à chama pequenina - oh momentos da nossa intimidade- ...
vou agora fazer-me à estrada, percorrer os quilómetros que separam as nossas diferentes condições. e choro. choro profundamente, um choro convulso, de boca hiante como a tua fome de menino. opróbrio da tristeza, a tua morte. fico por aqui. vou em direcção à planície que - também tu - me fizeste amar.
Cantaste-me um dia:« eu sou devedor à terra/ a terra me está devendo/ a terra paga-me em vida/ eu pago à terra em morrendo». Vou ajudar-te na tua dívida. carregar-te as tábuas. atirar-te à cova. calcar-te a terra, como quem tapa um amigo para a noite. depois regresso a casa e em tua homenagem planto um limoeiro. o seu fruto rima contigo. limão. meu bom amigo. zé balão.


Lisboa, 10 de julho de 2007
tóino sérgio

em memória

sobram-te uns foguetes e algum fogo de artificio.
para resto de sonho não está mau...
e algumas frases soltas de ocasião:
«vinte e cinco de abril sempre»
pelo menos até ao próximo spínola.
como o permites, povo de amarga condição?

casa das glicínias, 23 de fevereiro de 2012.
em memória de josé afonso
lains de ourém

ansiedade

sou reflexo do silêncio dorido mordendo a cal. pássaro sozinho diante da primavera inteira. meu sul, meu sul, minha espera de cansaço...

lains de ourém
22 de fevereiro de 2012

Milheiriças


vieram bicar-me à janela. estão habituados às sementes de alpista e agora veem o limiar da fome reduzido à minha vontade. são bonitas as milheiriças vestidas para a primavera. trazem consigo a infância que deixei. vêm, em nome dos meus mortos, cobrar-me a doçura nos sugos (às vezes «pintarolas») que me foram dados. vêm cantar serenatas à solidão que assim premedita. Vêm trazer novas do mundo da ternura que os homens ignoram.

auditório liberdade
22 de fevereiro de 2005
lains de ourém

Manifestação imensa

memórias. ou ensaio para uma biografia da infância

Haverá um dia em que entrarás novamente, às seis da tarde, vindo de Lisboa e do trabalho, pela porta da casa de Cascais para me levares a ver o mar, os comboios e as gaivotas. Desceremos novamente, entregues um ao outro e à comoção profundíssima de sermos amigos, a avenida que nos separa da casa dos frangos e da rua direita, onde mais tarde, compraremos o jantar. Hoje pode ser sem picante, que sei que preferes. E ainda que não soubesse, talvez seja apenas esta a desculpa de me não saberes ainda crescido e capaz de o comer sem chorar ardor. Olha tio, esta tarde joguei à bola entre os pinheiros que cercam a nossa casa. As pedras têm um cheiro bom como só a infância sabe distinguir, e as agulhas dos pinheiros são ânsias da idade que há-de vir mas que ainda não tenho e que me permita afastar-me, um pouco mais, do reino que guardaste para mim na razoabilidade da tua preocupação. Sabes, hoje vi passar a porteira do prédio vizinho. Porque têm um olhar tão carregado os pobres que conheço? Levava na mão um balde cheio de restos de peixe. Quando passou só não tapei o nariz porque tive medo que reparasse. Depois aproximaram-se gatos. Muitos. Vinham talvez partilhar a condição da fome. E da solidão, ainda que muitos e todos juntos. Os gatos não falam, pelo menos de forma a que a gente entenda logo e, talvez por isso, sinto-os bichos muito sozinhos. Mas haverá um dia em que te veja, regressado da cidade grande, a sair do autocarro que te traz sempre do comboio à avenida infante dom Henrique. Mala dos livros na mão direita, gabardine ou casaco leve de verão deitado no braço esquerdo. Boina basca cobrindo a careca e deixando adivinhar a alvura dos cabelos que te restam. Nesse dia, vou descer de quatro-em-quatro, como sempre fazia, as escadas do prédio para te ir apanhar à rua, junto da terra arenosa e do cheiro a praia que sempre abunda porta fora. (...)
lains de ourém

Apresentação do livro «Mineiros de Aljustrel» - Setúbal

AINDA UM POEMA...

Ontem, ao final da tarde, recebi uma boa notícia.
Tão boa que me fez voltar aqui para, antes da anunciada pausa, a assinalar devidamente - e não há coisa melhor para o fazer do que um poema...
Aqui fica, então, para o Serioja, meu grande amigo, este belo poema que pedi emprestado ao Armindo Rodrigues e que nos fala da nossa longa espera... - e da certeza de um futuro em que os meninos de hoje, com vozes de alvorada, proclamarão o novo dia...
Porque «a vitória é difícil, mas é nossa».



A LONGA ESPERA

Até onde chegará a nossa
resistência?
Até onde
suportaremos nós,
homens de carne e osso,
a tortura inumana?
Até onde, pacientes,
metódicos,
secretos,
seremos capazes de levar
as nossas palavras
firmes e consoladoras?
Até onde ecoarão elas,
e em que ouvidos?
Até onde teremos de mascarar-nos,
de mentir,
de fingir?
Revolução
porque tardas?
Já escarva o chão,
pronto a investir,
o gigantesco toiro,
de baba espessa,
de olhos chispantes
e frementes músculos.
Já desabrocham cravos
no silêncio contido.
Já as ocultas labaredas
se preparam para desfraldar-se
resgatadoras,
ao vento solto.
Já as multidões,
com a sua ira,
quebram em estilhaços
o lavado cristal do dia atento.
Revolução,
porque tardas?
Desdobra, cotovia amável,
como um harmónio,
a tua alacridade,
sob o frio dos escombros.
Semeia, sol,
a luz e o calor fertilizadores
pelos campos lavrados.
Dai as mãos e anunciai,
trabalhadores de todo o mundo,
o grande recomeço.
Soldados,
quebrai com ímpeto
as vossas armas arrependidas
e pisai-as.
E tu, menino, proclama,
com a tua voz de alvorada,
para além dos teus desejos,
os teus sonhos realizados.


Armindo Rodrigues

DE CABEÇA LEVANTADA

A história que se segue foi-me enviada por um amigo - e completada por umas quantas buscas minhas na internet.
É a homenagem do Cravo de Abril à memória dos heróicos jogadores de futebol do Dínamo/FCStart, que souberam morrer de cabeça levantada enfrentando os criminosos nazis.


Nos ano de 1941, as hordas nazis invadiram a Ucrânia - então uma República da União Soviética.
O país, e de forma especial a cidade de Kiev - a capital - transformou-se num inferno de violência, repressão, perseguições, prisões, terror.
A dada altura, os alemães levaram para Kiev centenas de prisioneiros de guerra, que não estavam autorizados nem a viver nas casas nem a trabalhar, pelo que, doentes e desnutridos, vagueavam pelas ruas, na mais absoluta indigência.

Entre esses soldados estava Nikolai Trusevich, o outrora famoso guarda-redes daquela que era a mais popular de todas as equipas de futebol da época - o Dínamo de Kiev.
Aí o descobriu, um dia, um tal Josef Kordik, adepto fervoroso do Dínamo, dono de uma padaria e que, por ser alemão se movimentava relativamente à vontade na cidade ocupada.
Kordik, violando as leis dos ocupantes nazis, levou para a padaria o seu ídolo Trusevich, com o qual viria a firmar grande amizade e ao qual deu a tarefa de encontrar os seus antigos colegas de equipa.

Trusevich percorreu a cidade devastada dia e noite e foi descobrindo, um a um, os seus colegas do Dínamo. Na busca, encontrou ainda três futebolistas da equipa russa do Lokomotiv, que antes fora grande rival do Dínamo.
Daí a criarem uma equipa de futebol - sempre fortemente estimulados pelo padeiro Kordik - foi um passo .
Como o Dínamo tinha sido proibido pelos nazis, deram à nova equipa o nome de FC Start, que, em 7 de Junho, de 1942, realizou o seu primeiro jogo, precisamente com uma equipa formada por soldados alemães - o FC Start venceu por 7 a 2.
O segundo jogo foi com uma equipa da guarnição húngara e o FC Start venceu por 6 a 2.
O terceiro, com uma equipa romena e o resultado final foi 11 a 0...
E assim sucessivamente, até que as vitórias do FC Start começaram a irritar os ocupantes nazis, que, a 17 de Julho, enviaram uma equipa do exército alemão para esmagar a canalha... e o resultado foi 6 a 2 - vitória do FC Start, obviamente...
Entretanto, a equipa do FC Start tornara-se um caso sério de popularidade: as suas vitórias sobre equipas dos ocupantes ganhavam um significado político e os campos de futebol enchiam-se de entusiasmados adeptos do Dínamo disfarçado, que eram, ao mesmo tempo, patriotas e militantes anti-nazis.
Os alemães requisitaram, então uma equipa de muito maior qualidade - o MSG, da Hungria - para acabar com aquilo: no primeiro jogo, o FC Start venceu por 5 a 1 e no jogo de desforra exigido pelos vencidos, voltou a ganhar, desta vez por 3 a 2.

Foi então que os alemães decidiram arrumar de vez a questão. Uma equipa composta por membros da Luftwaffe - o Flakelf, que era uma forte equipa e, como tal, era utilizada como instrumento da propaganda hitleriana, foi chamada a pôr ponto final nas façanhas desportivas dos futebolistas do FC Start...
Ou seja: os nazis recorreram ao melhor que tinham para acabar de vez com a atrevida invencibilidade do FC Start e estavam certos de que era isso que iria acontecer.
Por isso, foi grande o seu espanto e maior ainda a sua raiva quando, no final do jogo, a equipa de Hitler saiu derrotada por um humilhante 5 a 1...

Era demais!
E, de Berlim chegou a ordem para acabar com todos eles, o padeiro Kordik incluído.
Todavia, os chefes nazis ocupantes não se contentaram com isso: não queriam que a última imagem de todo aquele processo fosse a da equipa invencível e que, ainda por cima, tinha derrotado a selecção de Hitler.
E decidiram que, antes de os fuzilar, iriam fazer o grande jogo - e que, perante os badamecos soviéticos iriam demonstrar a superioridade da raça ariana...

O jogo foi em 9 de Agosto de 1942, com o estádio Zenit cheio de uma multidão que aplaudia e incitava os jogadores do FC Start - e vaiava os alemães.
Antes do início do jogo, um oficial das SS foi à cabine e, em russo, informou que iria ser ele o árbitro da partida e que todos deviam respeitar as regras, a começar pela de fazer a saudação nazi...
Alinhadas as duas equipas no campo, os jogadores do Flakelf - de camisolas brancas e calções pretos - bateram os calcanhares, fizeram a saudação nazi e gritaram «Heil Hitler!», enquanto os do FC Start - de camisolas vermelhas e calções brancos - levaram as mãos ao peito e gritaram «Fitzculthura!» - expressão soviética que proclamava a cultura física.


Ao intervalo, apesar da absoluta e escandalosa parcialidade do árbitro, o FC Start vencia por 2 a 1... e um outro oficial das SS foi à cabine dizer como era e que pode resumir-se em meia dúzia de palavra: se ganharem o jogo serão todos mortos.

Os atletas do FC Start consideraram a situação, pesaram prós e contras, colocaram a hipótese de não reentrarem em campo para a segunda parte... mas pensaram nas suas famílias em grande parte assassinadas pelos nazis... pensaram nos crimes cometidos pelos ocupantes... e ouviam a multidão, nas bancadas do estádio, gritando por eles...
E decidiram ir jogar - com a consciência de que com tal opção estavam a condenar-se à morte.

Deram um baile de futebol aos nazis. A dada altura, o avançado Klimenko, fintou o guarda-redes alemão deixando-o caído no terreno e, com a baliza à mercê, num gesto de desprezo, de superioridade absoluta, deixou a bola na linha de golo e virou as costas ao guarda-redes - assim com quem diz não marcamos mais golos porque não queremos...
O FC Start ganhou por 5 a 3.
Os jogadores saíram do campo sob os aplausos vibrantes da multidão que enchia as bancadas - e, hoje, 70 anos passados, os possuidores dos bilhetes daquele jogo memorável, têm entrada livre no estádio do Dínamo de Kiev.

O primeiro a morrer, torturado em frente de todos os outros, foi o padeiro Kordik.
Klimenko, Kuzmenko e Trusevich (este com a camisola do FC Start vestida) foram brutalmente assassinados no campo de concentração de Siretz...
Os restantes foram torturados até à morte - à excepção de dois - Goncharenko e Sviridovski - que conseguiram fugir e sobreviver até à libertação de Kiev, pelo Exército Vermelho, em Novembro de 1943.

Um monumento erguido em Kiev, homenageia esses heróicos futebolistas e cidadãos soviéticos - e nele pode ler-se: «AOS JOGADORES QUE MORRERAM DE CABEÇA LEVANTADA ANTE O INVASOR NAZI».

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Meus amigos:
A partir de hoje, vou fazer uma pausa - breve, espero - nestes encontros diários convosco.
Voltarei.
Talvez em Abril - com os Cravos...

E não esqueçam: dia 11, o encontro é no Terreiro de Paço.

Abraços.
Fernando Samuel

POEMA

MULHER-RESISTENTE

A Mariana Janeiro em nome de todas
as mulheres que lutaram contra o fascismo


Eram tantas as torturas...
O Chicote sobre a carne
que o corpo te inchava
inchava
pelas vergastas cortado

Eram dias sobre noites
em que os olhos te queimaram
em que as veias te romperam
e os ouvidos te rasgaram

Eram meses sobre meses
na cela

isolada

Torturas quantas sofreste
minha irmã
sempre calada

Que à polícia não se fala
nem que se morra
à pancada!


Maria Teresa Horta

SANTA E DA MISERICÓRDIA?

Eis uma história simples, banal, muito comum, com esta ou com configuração semelhante, nos dias que correm:

Catarina Fachadas é trabalhadora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde teve, sempre, como avaliações ao seu trabalho um «muito bom».

Sempre... até ao dia em que foi eleita delegada sindical: aí, começaram as perseguições - perseguições «democráticas», obviamente, porque é numa «democracia» que vivemos... - que redobraram quando, tempos depois, foi eleita para a direcção do seu Sindicato: o CESP - CGTP-IN.
A partir daí, passou a ser uma «má trabalhadora»...
Má?:péssima, se faz favor, de tal modo que lhe foi movido um processo disciplinar com a acusação de «maus tratos a crianças».
A acusação era falsa?: falsíssima, mas isso que interessava?: Catarina era dirigente de um sindicato da CGTP- se fosse da UGT outro galo cantaria... - portanto era preciso correr com ela definitivamente e afastar a sua actividade sindical da pia instituição que é a Santa Casa da Misericórdia.

Catarina não se conformou com a injustiça: decidiu lutar pela verdade e pelos seus direitos, que são os direitos de todos os trabalhadores.
O caso foi para tribunal e a decisão chegou há duas semanas, com a absolvição de Catarina das acusações que lhe foram movidas.

De tudo isto, conclui a USL/CGTP - e conclui bem! - que «vale a pena lutar, vale a pena resistir, a luta e a não resignação é o caminho».

Quanto à Santa Casa da Misericórdia... se é assim com esse nome, olha o que seria se não fosse santa nem da misericórdia!!!...

POEMA

TESTAMENTO


Abre os olhos - o sol é teu.
Mergulha as mãos - a água é tua.
Deixo-te o sol, o mar o céu
que poisa no beiral da nossa rua.
E os trigais do dia que desponta
e as flores da terra que me cobre.
Toda a riqueza milenar, sem conta,
de mais um poeta pobre.

Deixo-te as palavras que não gritaram
estranguladas pelo nó do medo;
e as outras, fuziladas, que tombaram
nos pátios do degredo.
E os sonhos por abrir; hoje, no sono
dos séculos que chamaram eterno.
Toda a Primavera, todo o Outono,
das minhas árvores de Inverno.
E a luta que fundiu meu coração
num canto que sangrou certeza:
depois de mim virás, ó meu irmão!,
mais claro e mais limpo de tristeza.


Luís Veiga Leitão

LÍBIA

Durante meses, rádios, televisões e jornais de todo o mundo - como que obedecendo a uma orientação geral - fizeram da Líbia tema central dos seus noticiários.
Segundo esses média, Kadhafi - mau como as cobras... - reprimia e matava civis barbaramente, enquanto Obama - bom como um cordeirinho... - sofria com o sofrimento dos civis líbios...
E tanto sofreu o negro da Casa Branca que, às tantas, não suportando mais a dor, lembrou-se que era Prémio Nobel da Paz e pensou que era chegada a hora de salvar os civis das garras do tirano Kadhafi...
E se bem o pensou, melhor o fez: às suas ordens, vagas de aviões lançaram toneladas e toneladas de bombas sobre a Líbia, destruíram o país e - sempre salvando civis! - mataram milhares de civis, numa acção humanitária que só terminou quando os amigos de Obama assassinaram o malandro do Kadhafi, com requintes herdados dos nazis.
E pronto: a partir daí, os jornais, rádios e televisões de todo o mundo - como que obedecendo a uma orientação geral - deixaram de falar da Líbia - obviamente, depois de informarem abundantemente os seus utentes de que o país era, agora, dirigido por um grupo de «valentes rebeldes», todos com certidão de democratas passada por Obama e que, portanto, a Líbia era, finalmente, uma democracia modelar, com liberdade a dar com um pau e com os direitos humanos todos no seu devido lugar...

Não obstante este silêncio dos média dominantes, na Líbia continuam a morrer civis: uns, por efeito de conflitos armados ocorridos entre os «valentes rebeldes» sedentos de poder; outros, por efeito da repressão sobre civis que têm vindo a protestar um pouco por todo o país contra as brutais condições de vida que lhes estão a ser impostas- e que, na cidade de Benghazi, que foi, como sabemos, o «bastião dos rebeldes», envolveram muitos milhares de pessoas, muitas das quais assaltaram edifícios governamentais.
Sobre tudo isto, as televisões, rádios e jornais de todo o mundo - como que obedecendo a uma orientação geral - dizem pouco, ou quase nada, ou nada...
Também sobre eventuais preocupações com a morte de civis por parte de Obama, nada se sabe...

Entretanto, há dias, partidários de Kadhafi ocuparam a cidade de Bani Walid.
O que significa que não desistiram de lutar.
Ou que, como nós por cá dizemos, a luta continua.

POEMA

COM A NATUREZA APRENDE


Com a natureza aprende,
mas para a modificar.
O honrado não se vende.
Renega quem te pagar.
Não há acção sem matéria,
nem matéria sem acção,
nem inteligência séria
sem séria meditação.
Na variedade do mundo
reside a sua unidade.
Até de um poço profundo
pode nascer claridade.


Armindo Rodrigues

Apresentação do livro «Mineiros de Aljustrel» na Casa do Alentejo








(fotografias de João Galamba de Oliveira)

DIA 11: TERREIRO DO PAÇO

Guimarães nasceu, anteontem, capital europeia da cultura.
E como cultura é com eles, eles foram assistir ao parto: eles: o Presidente da República e o primeiro-ministro.

Ao que parece, antes das inevitáveis orações, combinaram que Coelho iria ter um gesto solidário com Cavaco e a reforma que não lhe dá para viver...
Coelho cumpriu o combinado: no discurso da praxe, na inevitável parte dedicada aos «sacrifícios», depois de ter insistido e insistido na tecla dos «sacrifícios que são para todos», solidarizou-se assim:
«O que eu quero dizer aos portugueses, a começar pelo Presidente da República e a acabar em qualquer cidadão, é que esses sacrifícios vão valer a pena».

Vemos assim confirmado o imenso drama que constituem para Cavaco, os sacrifícios que vai ter que fazer para (sobre)viver com uma mísera reforma de 10 mil brasas/mês - mais carro com motorista, casa, mesa e roupa lavada, etc, etc.
Ficámos também a saber que os sacrifícios para todos «vão valer a pena»...
O que é verdade: que o digam os banqueiros e restantes chefes dos grandes grupos económicos, cujas grandes fortunas vão crescer na proporção directa da miséria da imensa maioria dos portugueses...

Por isso, estavam cheios de razão os muitos vimaranenses que vaiaram o Cavaco - e os que, fazendo bem as contas, lhe gritaram:«Queres trocar a tua reforma pela minha?».
Que é como que diz: queres trocar os teus sacrifícios pelos meus?
Perguntas que lhe devem ser feitas em todo o lado onde vá - para que ele saiba que a malta está acordada.

A propósito: dia 11 de Fevereiro, o nosso encontro é no Terreiro do Paço.

POEMA

QUATRO QUADRAS DO ALEIXO
(Escritas hoje...)


Acho uma moral ruim
trazer o vulgo enganado:
mandarem fazer assim
e eles fazerem assado.

Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade
que, baseada nos mitos,
pode roubar à vontade.

Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!

Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba.


António Aleixo

ISTO ANDA TUDO LIGADO...

Volto, hoje, após uma longa pausa higiénica, àquele Alberto Gonçalves - lembram-se?, exactamente esse... - que todos os domingos despeja uma maré negra de reaccionarismo requentado numa página inteira do Diário de Notícias.
Hoje, como era mais do que expectável, o troglodita investiu contra a CGTP - e fê-lo naquele estilo que só não é original porque descende em linha recta das prosas outrora vertidas pelos seus saudosos antepassados no seu não menos saudoso Diário da Manhã.
Para dizer algo de novo?: não, de novo, o fascistão nada tem a dizer: repete-se e repete o que muitos dos seus colegas de ofício não se cansam de bolçar todos os dias.
E, repetição concluída, recebe o bago...Obviamente.

Escreveu ele, o cavernícola, que «não é estranho que a CGTP tenha abandonado o encontro da "concertação social" (...) porque «o único objectivo da CGTP em matéria de trabalho é conseguir que a maior quantidade possível de pessoas percam o seu» - e explica; «"Seu", das pessoas» - e ainda mais didáctico, desvenda, concluindo que «O trabalho deles, dirigentes sindicais, foi trocado há décadas por essa estranha forma de vida que consiste em prosperar à custa da desgraça alheia»...

Comentários para quê?
É óbvio que se a CGTP fosse o que o cavernoso Gonçalves diz que é, ela seria alvo dos mais rasgados elogios por parte do grande capital - e, portanto, todos os gonçalves do cadaveroso reyno da política de direita estariam, agora, obedientemente entregues à tarefa de tecer à CGTP os mais rasgados elogios...
Assim, resta-lhes a tarefa, que cumprem exemplarmente, de verter ódio - ódio de classe, pois claro - sobre aquela que é a grande, a verdadeira Central Sindical dos Trabalhadores Portugueses.

Enquanto lia o troglodita Gonçalves, veio-me à memória um excelente post publicado há dias no também excelente Cantigueiro, onde um dos personagens - por sinal um outro cavernícola: António Chora (sim, esse mesmo, o próprio...) - dizia, mais palavra menos palavra, o que o Gonçalves agora disse, a saber: que os sindicalistas comunistas fazem o que podem para que haja mais despedimentos, mais desemprego, mais fome...

Pois é: os bons espíritos encontram-se sempre:
Gonçalves/Chora - Chora/Gonçalves: Deus-Capital os fez, Capital-Deus os juntou...


A confirmar que, como muito bem dizia o Poeta, isto anda tudo ligado...

POEMA

MÃO DE OBRA


Os pobres trabalham cedo
cedo começam a vida
tudo neles é sempre cedo
até a fome e a desgraça
uma estrela concebida
com duas chagas de medo
abertas esponjosas fundas
no corpo magro e doído
do homem desde criança
condenado a ser vendido
pesado numa balança
por qualquer preço colhido
na engrenagem ou teia
de uma aranha gigantesca
que em ventres de lua cheia
ainda no sangue os pesca
os domina suga enreda
em meandros de uma trama
que cobre a cidade toda
esta cidade que acorda
na marmita de um rapaz
com doze anos apenas
e poucas horas de sono
caminhando para a luta
dos olhos do capataz
que faz as vezes de dono.
Esta cidade que acorda
molhada triste dormente
e em vez de algum bombom
no ventre daquele menino
(com doze anos apenas
e poucas horas de sono)
lhe amassa o pão numa açorda
que a própria fome da mãe
(a insónia do pão duro)
dá ao filho porque o dono
lhe marca bem o futuro
Que míseros escudos ganha
esta vítima da aranha.


João Apolinário

RUMO A BOLIQUEIME

Aqui para os meus lados, os contentores de lixo - particularmente os que se situam às portas das chamadas «grandes superfícies» - estão a ser assaltados por uma vaga de «clientes» - homens, mulheres, crianças... - que, muitas vezes, disputam acesamente entre si... o lixo que os belmiros & santos, Lda. caridosamente lhes proporcionam...

Trata-se, certamente, de pessoas sem trabalho, nem subsídio de desemprego, em muitos casos, porventura, sem qualquer pensão ou reforma - e que constituem produtos naturais nascidos da política de direita praticada há mais de 35 anos, em serviço combinado, pelo PS, o PSD e o CDS.

Trata-se também, muito provavelmente, de pessoas que integram aquele mais de meio milhão de portugueses que «vivem» de pensões abaixo dos 250 euros/mês (ou seja: cerca de 7 euros/dia...) - e que constituem outra imagem de marca dessa mesma política de direita.

E, pelo rumo que as coisas estão a tomar - e em consequência do «acordo social» perpetrado pela sinistra ugêtroika - é mais do que certo que o número dos «clientes» dos contentores do lixo dos belmiros & santos Lda. subirá vertiginosamente...


É neste cenário de tragédia social que o Presidente da República vem a público, num lamento plangente, queixar-se de que as reformas que recebe - 10 000 euros/mês - não lhe dão para viver...

Que dizer deste lamento?

Que com ele, Cavaco Silva mostra o que é?: Não, porque o que ele é, já nós sabíamos desde que o começámos a ouvir..
Que é inacreditável que Cavaco tenha dito o que disse?: Não, porque inacreditável seria ele não ter dito o que disse...
Que o «presidente de todos os portugueses» não deve falar assim?: Não, porque Cavaco é o presidente de meia dúzia de portugueses e, por isso mesmo, deve falar assim...
Que deve pedir desculpas do que disse aos portugueses?: não, pedir desculpas não.

Basta - para já - que enrole a trouxa, pegue na sua Maria e se faça à estrada rumo a Boliqueime (ou à praia da Galega...).

POEMA

O BICHO


Vi ontem um bicho
na imundície do pátio
catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
não examinava nem cheirava:
engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


Manuel Bandeira

ENCONTRO COM ABRIL

Quem gosta muito do Álvaro da economia é o Luís Filipe Menezes.
E faz muito bem em gostar já que estão muitíssimo bem um para o outro...

Diz o Menezes que o trabalho do Álvaro é o máximo e que o recente «acordo social» é bem a prova disso.
É verdade, diz o Menezes, que a CGTP não assinou o «acordo», mas que importância tem isso? - e sublinha: «A CGTP nunca assinou um acordo em 35 anos»; e explica: «porque não é esse o seu papel».
Acertou, o Menezes: de facto, assinar acordos que se situam nos antípodas dos interesses dos trabalhadores não é o papel da CGTP - que existe, precisamente, para defender os interesses dos trabalhadores.
Esse é o papel - sujo, muito sujo - que está reservado à UGT - que existe para, travestida de fato de trabalho, defender os interesses dos seus donos.
E a verdade é que quer a CGTP quer a UGT desempenham cada uma o seu papel de forma exemplar.

Mas o que o Menezes mais aprecia nos tais «acordos» é o que eles significam em termos de defesa do «interesse nacional» - sendo certo que, para o Menezes, o «interesse nacional» não é o interesse dos trabalhadores, do povo e do País, mas sim o interesse do Belmiro, do Amorim, do Santos, do BES & Cia. Lda... (e por arrasto, dele, Menezes...)

Diz o Menezes, entusiasmado, que - ouçam bem, por favor - «foram os grandes acordos de concertação social que fizeram o país avançar nos últimos 35 anos, com governos diversos»!!!...


Pois é: nos últimos 35 anos, o país - sempre com «acordos» e sempre com governos PS/PSD/CDS - fartou-se de avançar...
Avançou, avançou, avançou... e chegou à luminosa situação de naufragado em que hoje se encontra.

Naufragado graças aos governos PS/PSD/CDS...
Naufragado graças aos «acordos de concertação social»...

Naufragado até que os trabalhadores e o povo o resgatem e o façam retomar os caminhos de Abril.

Dia 11 de Fevereiro, no Terreiro do Paço, com Abril que nos vamos encontrar.

POEMA

A COR DA LIBERDADE


Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.


Jorge de Sena