«A TERRA A QUEM A TRABALHA!»

9 de Fevereiro de 1975: em Évora, tinha lugar a I Conferência dos Trabalhadores Agrícolas do Sul, organizada pelo PCP, e em cujos trabalhos e comício de encerramento participaram mais de 30 mil trabalhadores.
Era o primeiro passo dessa caminhada exaltante que foi a construção da Reforma Agrária.

Para trás, ficavam décadas de luta do proletariado agrícola do Sul - luta corajosa e determinada contra o latifúndio opressor e explorador, contra o fascismo. Pela liberdade e pela democracia. Pela Reforma Agrária.

No comício de encerramento da Conferência, Álvaro Cunhal disse:

«Vivemos um momento histórico nos campos do Sul. Pelas mãos dos trabalhadores, a Reforma Agrária deu os primeiros passos. Do Alentejo das terras incultas, das charnecas, dos pousios, do gado raro e miserável, dos baixos rendimentos das culturas; do Alentejo do desemprego, da fome e da miséria, os trabalhadores, com o apoio do Estado democrático, farão um Alentejo com uma agricultura que dará em abundância os produtos de que os trabalhadores e o País necessitam.
A Reforma Agrária surge natural como a própria vida, aparece como resultado da necessidade objectiva de resolver o problema do emprego e da produção, como solução indispensável e única».
E, mais adiante, acrescentava:

«Os latifúndios têm sido e são a miséria, o atraso e a morte.
A entrega da terra a quem a trabalha significa a própria vida, a vida para os trabalhadores desempregados e seus filhos, vida para a agricultura abandonada, sabotada pelos grandes agrários e pelos grandes capitalistas»
.

E assim foi.
Menos de um ano após a Conferência de 9 de Fevereiro, a Reforma Agrária era uma realidade - uma realidade que, para além dos enormes êxitos alcançados em matéria de produção agrícola e pecuária, resolveu o problema do desemprego, da miséria e da fome; realizou uma impressionante obra social e cultural; transformou as relações de produção em relações de cooperação e solidariedade, com a abolição da exploração do homem pelo homem - e por tudo isso, e muito mais, foi, nas certeiras palavras de Álvaro Cunhal,
«a mais bela conquista da Revolução».

Da mesma forma que a construção da Reforma Agrária constituiu o momento mais luminoso desse tempo luminoso que foi a Revolução de Abril, também a sua destruição constituiu o momento mais sombrio deste tempo sombrio que tem sido o tempo da contra-revolução.
Com efeito, a ofensiva contra a Reforma Agrária - iniciada pelo primeiro governo PS/Mário Soares e prosseguida por todos os governos que se lhe seguiram integrando os restantes partidos da política de direita (PPD/PSD e CDS/PP) - foi, em muitos aspectos, um regresso ao passado.
Foi o regresso aos campos do Alentejo e Ribatejo das perseguições, das prisões, dos interrogatórios pidescos, das torturas, dos julgamentos sumários, dos assassinatos.
Foi o regresso do latifúndio - antes sustentáculo do fascismo, agora sustentáculo da contra-revolução.

A Reforma Agrária confirmou ser uma componente indispensável da democracia e do desenvolvimento de Portugal.
Por isso ela é indispensável no futuro democrático de Portugal - nesse futuro pelo qual lutamos todos os dias, combatendo a política de direita ao serviço dos interesses do gande capital, e tendo como objectivo conquistar uma política de esquerda ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.

Por isso, «A TERRA A QUEM A TRABALHA!» é uma palavra de ordem cheia de actualidade - e cheia de futuro.

POEMA

ORDEM DO DIA


Homens novos temperados pela guerra,
das fábricas enormes e cinzentas
- rasgai poema na terra
com as vossas ferramentas!

Homens das oficinas e dos cais,
dos campos e da faina sobre o mar
- porque não ensinais
os poetas a cantar?

Algemados - não importa por que leis -
seja qual for a vossa raça e a vossa casta,
vinde dizer o que sabeis!
- Por agora é quanto basta.

Vinde das minas, dos fornos, das caldeiras,
vergados da descarga do carvão!
Vinde! Porque chegou enfim o dia
de apressar a tarefa inconcluída!

- E a poesia, esta poesia,
é um facho que vai de mão em mão
pelos caminhos da vida.


Sidónio Muralha

(«Companheira dos Homens» - 1950)

OU TALVEZ NÃO

Estas tragédias, ditas naturais, que de de vez em quando flagelam a humanidade, tendem a despertar os bons sentimentos dos cidadãos - mesmo dos cidadãos que só nessas ocasiões revelam ter sentimentos...

No caso do Haiti, vimos como de imediato se desenvolveu em todo o planeta um movimento de solidariedade para com aquele martirizado povo - solidariedade que, em termos concretos, tem demorado a chegar onde devia, atrasada com demoras à primeira vista inexplicáveis.

Vimos também como artistas famosos de todo o mundo se mostraram solidários, contribuindo, nuns casos, com dinheiro contado, noutros casos oferecendo o lucro de um CD que lançaram ou irão lançar...

A meu ver, todos estes contributos são importantes (desde que cheguem onde devem chegar, insisto) - e mesmo que, como por vezes acontece, por detrás destes contributos haja a intenção, mais ou menos calculada, de a benemérita acção passar a fazer parte dos «currículos humanitários», digamos assim, desses artistas...

Vem isto a propósito de uma notícia publicada no Correio da Manhã na sua rubrica «Vidas de domingo».
A notícia, com chamada de primeira página e quase uma página interior, relata-nos a realização de uma «quermesse de solidariedade e apoio às vítimas do Haiti», organizada por «cerca de 40 figuras da TV».

As «figuras da TV» ofereceram roupas que já não usavam ou que apenas usavam em situações especiais - como é o caso de duas camisolas que ali foram leiloadas: uma do FCPorto, «assinada pelos jogadores», que rendeu 180 euros; outra do Sporting, esta não assinada, que rendeu 510 euros.
Muito disputado foi também «o colete que o presidente da AMI, Fernando Nobre, usou no Haiti», que acabaria por ser arrematado (o colete, obviamente) por 300 euros.

E assim, com estas e outras, a quermesse rendeu 10 mil euros - o que não é nada mau, mas também não é nada por aí além, tratando-se de «figuras da TV»...

Mas não é isso que está em causa.
O que me impressionou foi a forma como tudo aquilo nos foi contado... a sensação que tive de que, em todo aquele relato, a preocupação maior tinha a ver, não com o terrível drama do povo haitiano, mas com a promoção das «figuras da TV»...

Talvez esteja a ser injusto.
Ou talvez não.

POEMA

COMENTÁRIO


Era tão embaladora a sua poesia,
tão vestida de rendas e tão despida de violência,
que ele por vezes adormecia
naquela cadência.

- Coitado.
Trabalhou com tanto afinco
e andou de lá para cá,
de cá para lá,
arrastado
numa tempestade amena...

- Poeta do chá das 5
a poesia dissolveu-se no chá.

Foi pena.


Sidónio Muralha

(«Companheira dos Homens» - 1950)

VOLTANDO À DEMOCRACIA...

Lembram-se de David Kelly?
Era um alto funcionário do Ministério da Defesa da Grã Bretanha.
Era, também, «especialista em guerra biológica».

Foi ele que, em 2003, contestou a afirmação de Blair de que o Iraque estava em condições de «desencadear um ataque químico em 45 minutos».
David Kelly desmentiu, a um jornalista da BBC, tal possibilidade - ao mesmo tempo que revelou que o relatório do Governo que sustentava a patranha fora falsificado pelo director de Comunicação e Estratégia de Blair, um tal Alastair Campbell.

A notícia, divulgada pela BBC, foi como que uma bomba.
O Governo obrigou a BBC a divulgar a fonte da informação divulgada...
E David Kelly foi submetido a interrogatórios e o seu nome arrastado na lama.

Na altura, foi divulgada uma conversa entre David Kelly e um embaixador britânico, David Broucher.

Broucher: «O que acontecerá se o Iraque for invadido?».
Kelly: «Provavelmente serei encontrado morto numa floresta».


O Iraque foi invadido.
E David Kelly foi encontrado morto num bosque...

Na altura, o Governo de Blair entregou a averiguação do caso a um juiz, de seu nome Lorde Hutton - o qual, de um dia para o outro, concluiu tratar-se de suicídio, por corte no pulso.
Caso arrumado.

Há dois meses, um grupo de seis médicos pediu a reavaliação do caso (designadamente o acesso ao relatório da autópsia), alegando - e fundamentando cientificamente a alegação - que, nas circunstâncias, o corte no pulso «não poderia ter causado a morte de Kelly».

O pedido dos seis médicos foi , agora, recusado.
Fundamentos da recusa: logo em 2003, o juiz Hutton emitiu uma ordem que proibe a divulgação do relatório da autópsia por um prazo de 70 anos e proibe a divulgação dos testemunhos obtidos por um prazo de 30 anos...
Caso definitivamente arrumado.

Como se vê, estamos perante um juiz altamente previdente...
Um juiz à altura da democracia blairiana.
Que é, também, a democracia socratiana, e a democracia berlusconiana, e a democracia sarkoziana, e por aí fora...
Todas irmãs gémeas, filhas-da-mãe-democracia-obamaniana.
Todas elas, enfim, constituindo a democracia dominante.

POEMA

SERENIDADE


Serenidade podre como um peixe a boiar.
Paisagem de papel azul esconde a paisagem humana.
As árvores tormentadas são pintadas de luar
e os frutos são de cera, e os ninhos de porcelana.

Serenidade da violência mascarada de afago,
serenidade dos gritos camuflados de trilos,

serenidade como o espelho de um lago
infestado de crocodilos.


Sidónio Muralha

(«Companheira dos Homens» - 1950)

«OLHA QUE ISSO PODE PREJUDICAR-TE...»

A reportagem do Público sobre a manifestação dos trabalhadores da Administração Pública é uma peça estranha.
Não tanto pelo que nos conta, mas especialmente pelo que não nos diz.
Na verdade, sobre a dimensão da manifestação - se os manifestantes eram muitos; se eram poucos; quantos eram - nada nos é dito.
E lá vem a habitual fotografia manhosa, daquelas a que o Público usa recorrer para (não) nos mostrar as manifestações de massas...

Por isso esclareça-se desde já que foram mais de 50 mil, os trabalhadores que, ontem, desfilaram até ao Terreiro do Paço, numa grandiosa manifestação, e que ali afirmaram, inequivocamente, a sua firme determinação de darem continuidade à luta - à semelhança, aliás, do que aconteceu há uma semana com a igualmente grandiosa manifestação dos enfermeiros.

Mas voltando à reportagem do Público: o repórter optou por conversar com alguns manifestantes e ouvir e registar diálogos travados entre eles - diálogos por vezes interessantes e, até, muito esclarecedores sobre as razões que ali os levaram a manifestar o seu protesto e as suas exigências.

Num desses registos diz um manifestante:
«Eu sou comunista. Desde os 16 anos. Desde o 25 de Abril».
Um companheiro aconselha-o a não dizer aquilo em voz alta:
«Olha que isso pode prejudicar-te, pá»


Ora aqui está um diálogo por demais elucidativo do estado da democracia em Portugal - uma democracia em que o facto de um cidadão assumir a sua condição de comunista... «pode prejudicar-te, pá»...

POEMA

EPITÁFIO


A Pátria, de olhos sem fundo como dois buracos,
vela o teu corpo e põe-te uma promessa nas mãos frias...
- tu que foste a força dos fracos,
tu que foste maior que todas as poesias.
Tu, puro e oculto como as cisternas de água,
tu que eras presente e invisível como a aragem,
tu que continuas a ligar-nos pela mágoa
como sempre o fizeste pela coragem.

Por todo o sofrimento, por todas as desgraças,
e em nome das madrugadas que rasgam as vidraças,
a Pátria põe-te uma promessa nas mãos frias.

Largos versos irrompem no teu silêncio de granito,
e tu vives inteiro em cada grito,
tu que foste maior que todas as poesias.


Sidónio Muralha

(«Companheira dos Homens» - 1950)

O PORTO DE ABRIGO

Os terroristas que actuam na América Latina têm nos EUA um porto de abrigo seguro e certo sempre que a sua actividade é detectada e, quando podem, fogem do país onde actuaram.
Não admira, já que, na sua maioria, eles são formados nas experientes escolas de terrorismo daquele país - que é, também, o principal organizador, financiador e beneficiário das actividades terroristas que desenvolvem.

Assim, centenas de mercenários do terror, responsáveis pelos mais bárbaros crimes - como Posada Carriles e Orlando Bosh, para citar apenas dois exemplos - vivem nos EUA, uns gozando de chorudas reformas, outros preparando-se para novas incursões terroristas.

Para lá foi ( e lá está) há uns meses um boliviano chamado Branco Marinkovic.
Filho de um nazi croata, formado na Universidade do Texas, e um dos maiores latifundiários da Bolívia, Marinkovic foi o criador de um grupo terrorista que actuava na região de Santa Cruz e, em meados de 2009, preparou uma acção visando assassinar o Presidente Evo Morales - acção que Marinkovic financiou com 200 mil dólares.
Esse grupo terrorista incorporava vários mercenários europeus (o irlandês Michael Dwyer; o húngaro Arpád Magyarosi) e era chefiado pelo mercenário croata, Eduardo Rózsa Flores.

O grupo terrorista foi desmantelado pelas forças revolucionárias bolivianas e os terroristas que lograram fugir, refugiaram-se... na casa paterna.
E lá estão.
No porto de abrigo seguro e certo.
Na pátria do terrorismo.
Nos Estados Unidos da América.


Registe-se que todos estes facínoras estavam também ligados a organizações nazis muito activas:
Marinkovic liderava a FULIDE, organização que, nas suas manifestações fazia questão de exibir cruzes suásticas, e que estava ligada à Fundação Friedrich Naumann (alemã) - esta, por sua vez, estreitamente ligada ao Departamento de Estado norte-americano.
Por seu lado, um dos assessores principais de Eduardo Rózsa Flores - Jorge Mones Ruiz, é dirigente da UnoAmérica, fundação nazi ligada à CIA.
Registe-se ainda que estas organizações nazis tiveram presença activa nas Honduras ao lado dos golpistas de Micheletti.

Tudo isto a confirmar o acerto do poeta que um dia escreveu que «isto anda tudo ligado»...

POEMA

CAPOEIRA


Sacudindo subitamente o silêncio e o sono, um galo
anunciou alegremente a madrugada.
E bom será declará-lo:
aquilo não foi um canto, foi um grito
vibrado como um dardo. Um grito
lúcido, largo, límpido como a madrugada.

Na impossibilidade de ser julgado o galo,
o dono vai responder pelo delito.

Mais nada.


Sidónio Muralha

(«Companheira dos Homens» - 1950)

CRISE? QUAL CRISE?

Estava eu a matutar no Orçamento de Estado - e nos cuidados dele em, «por causa da crise», por um lado defender implacavelmente os interesses do grande capital e, por outro lado, flagelar impiedosamente os interesses da imensa maioria dos portugueses - eis que uma notícia me diz que
abriu, na FIL, o Salão Náutico Lisboa Boat Show - que expõe e vende «muitos barcos de luxo, entre os quais vários iates de sonho».

Luxo caro e inacessível?
Um «empresário do ramo» diz que nem por isso.
E explica: comprar «um barco de luxo» ou «um iate de sonho» não é «um luxo tão caro e inacessível como se possa pensar».
E aponta para um dos exemplares à venda, um dos mais baratos, certamente, um barquito jeitoso, muito em conta e que «custa apenas 700 mil euros (mais IVA)» - verba que, como sabemos, está ao alcance de qualquer bolsa portuguesa...
Além disso, esclarece o «empresário do ramo», isto de comprar um barco de luxo, não é tanto uma questão de dinheiro, entendem?, é - isso sim e acima de tudo - «uma opção de vida».
Entendem?: «uma opção de vida»...
E felizmente, continua o «empresário do ramo», há cada vez mais gente a fazer essa opção.

Apesar da gravíssima crise em que o País está mergulhado e que o Orçamento de Estado tão bem reflecte? - isto digo eu.
Crise?, qual crise? - isto diz o «empresário do ramo»: «no sector não há crise. 2009 foi o nosso melhor ano» - e, como «a procura de barcos de luxo está a aumentar», 2010 vai ser ainda melhor.

Agora percebo a razão pela qual os que fizeram da compra de «barcos de luxo e iates de sonho» uma «opção de vida» estão tão satisfeitos com o Orçamento de Estado...

POEMA

COMPATRIOTA


Que todos os meus anseios de poeta
possam cair no teu regaço,
velha lutadora, velha analfabeta
que não sabes dos versos que te faço.

Vejo-te de joelhos,
de joelhos e de mãos postas,
de joelhos e de mãos postas num velho esfregão
lavando, lavando casas...
A tua cabeça branca é uma acusação
- passa um poeta - e a acusação tem asas.

Velha que conheceste algumas gerações
e devias ser tratada como os doentes e as crianças
- atira o teu esfregão contra os nossos corações
e grita nos meus versos agudos como lanças.


Sidónio Muralha

(«Companheira dos Homens» - 1950)

Ó DIABO!...

Sócrates prossegue a comemoração dos 100 dias do seu actual Governo, assim tentando vender a falsa a ideia de que há coisas boas para comemorar...
E assim prosseguindo, também, a farsa de fingir que, antes destes 100 dias, não esteve lá quatro anos - e que, antes desses quatro anos, não estiveram lá, anos e anos, outros governos PS...

Mas adiante: ao encontro com a Sociedade Civil no CCB, seguiu-se, ontem, o «encontro com 100 jovens» - tantos quantos os dias que estão em comemoração.
Os jovens eram «oriundos de diferentes áreas» e tiveram direito a fazer uma pergunta cada um - perguntas às quais Sócrates respondeu em tom comemorativo...
Mas também - atenção! - reconhecendo que, até agora, o seu Governo «negligenciou a cultura».
A autocrítica, que peca por repetitiva..., foi produzida em resposta a um jovem oriundo da área da cultura que, por sinal, lhe colocou uma pergunta da qual já sabia a resposta e que dava para o primeiro-ministro brilhar...
Sócrates iniciou assim a resposta:«Como é que você disse que se chama? Jorge?».
O jovem - que se chama José Luís Peixoto e é escritor - lá o esclareceu e a coisa compôs-se.

Acontece que, José Luís Peixoto, para além de jovem, é um escritor credenciado, aplaudido pela crítica e com livros publicados em vários países, e o facto de Sócrates o desconhecer foi notado...
Daí a entrevista do Diário de Notícias ao jovem escritor, o qual, sobre a ocorrência, concluiu assim: «O facto de o primeiro-ministro não me conhecer é sinal de falta de atenção à cultura».
Bom, a conclusão parece-me um tanto precipitada e, até, um tanto... egocêntrica, digamos assim... mas, enfim, percebe-se que o escritor - um dos 100 jovens convidados por Sócrates para comemorar os 100 dias - esperasse que quem o convidou soubesse quem estava a convidar...
Mas a verdade é que quem aceita convites de gente duvidosa sujeita-se às consequências.
Quero eu dizer com isto que se José Luís Peixoto tivesse declinado o convite não teria passado pela vergonha de vir a saber que quem o convidou não sabia quem ele era...

É claro que, ao que parece, o jovem escritor não vê as coisas como eu as estou a ver - e longe de mim a ideia de lhe negar o direito de ver o que vê.
De facto, à pergunta do DN sobre o que pensava destes 100 dias de Governo Sócrates, José Luís Peixoto respondeu que «Ainda é cedo para fazer um balanço».
«Ainda é cedo»?
: ó diabo!...
E a idêntica pergunta - neste caso sobre a prestação da ministra da Cultura Gabriela Canavilhas - o escritor respondeu que «Cem dias não chegam para fazer uma avaliação. Por agora, temos esperança».
«Temos esperança»?: ó diabo!...

POEMA

HERANÇA


Lá onde o ser tarde ou cedo
é um jogo de claridades,
vivem a ignorância e o medo,
criadores das divindades.
E, acocorado no chão,
um velho negro selvagem,
vai desenhando a carvão
para deixar como herança
um deus, feito à sua imagem
e perfeita semelhança.


Sidónio Muralha

(«Companheira dos Homens» - 1950)

COMEMORAÇÕES



Sócrates
anda numa lufa-lufa comemorativa: mal despachou o Centenário da República, ei-lo metido em cheio na comemoração das bondades dos cem dias do seu Governo - comemoração misteriosa, esta, e só concretizável com o recurso a uma fértil imaginação criadora, ou nem isso...
Na verdade, quer nos últimos cem dias quer no mandato completo que os antecedeu, a governação de Sócrates tem sido uma calamidade in-comemorável, um mar de maldades que submerge e afoga a imensa maioria dos portugueses, uma verdadeira tragédia nacional - e, como é sabido, as calamidades, as maldades e as tragédias, não se comemoram: lamentam-se...

Mas Sócrates quer comemorar.
(E Soares, que só tem olhos para a política de direita, também acha que «estes cem dias foram muito positivos» e que, agora, com o Orçamento de Estado aprovado, ainda vai ser melhor; e Alegre, que só tem olhos para Belém, não tem nada a dizer sobre este Orçamento de Estado que ele, pela primeira vez, não vai aprovar, sabe-se bem porquê...)

E Sócrates comemora: ontem, o Governo comemorou reunindo e anunciando, com trombetas e fanfarras, a sensacional, a espectacular, a inacreditável Conta Poupança Futuro - que é uma generosa oferta de Sócrates aos pais dos recém-nascidos: uma cana comprida, muito comprida, com dezoito anos de comprimento, e com uma cenoura de 200 euros na ponta...

Mas a comemoração de Sócrates não é só isto: informa o Público que o primeiro-ministro se encontrou, ontem, no CCB, com a Sociedade Civil.
Francamente, não conheço tal senhora, mas presumo que seja pessoa importante, tanto mais que Sócrates, ele próprio, nos diz que ela, a Sociedade Civil, «representa um país dinâmico e positivo».
Por isso ele a convidou para o CCB.
Por isso ele lhe «falou da obra feita pelo seu Governo».
Por isso ele lhe pediu que fizesse «sugestões para novas políticas».
Infelizmente, o jornal não diz se a senhora sugeriu alguma coisa.

No entanto, fonte bem informada garante-me que Sócrates apreciou e aceitou, comovido, a sugestão de as comemorações prosseguirem até ao dia em que os recém-nascidos de 2010 recebam os 200 euros que Sócrates ontem comemorou...

POEMA

LÍRICA SEM NEBLINA


Já nos versos dos Vedas,
há 2 500 anos,
crepitavam as labaredas
dos problemas humanos.
Já então, quando as aves emigravam,
os homens não falavam de saudade,
mas simplesmente levantavam
uma canção à liberdade.
Então e sempre entrou a luta na poesia
como um pregão pela janela aberta
e enriqueceu-se dia a dia
numa perpétua descoberta.
Nem narcóticos, nem neblinas, nem adornos, nem véus,
pega o poeta em palavra, tijolos e argamassa,
e constrói um arranha-céus
que cada hora se ultrapassa.
E nesta maré de novo e de renovo,
movimento ascensional,
em cada poema o povo
põe a sua impressão digital.


Sidónio Muralha

(«Companheira dos Homens» - 1950)

ISTO ANDA TUDO LIGADO...

Os jornais dos últimos três dias dedicaram páginas e páginas às «comemorações oficiais» do Centenário da República, ontem iniciadas, com pompa e circunstância - ou seja, com blá-blá-blá até dizer chega...

Esses mesmos jornais deram, igualmente, grande destaque a uma «comemoração» do mesmo acontecimento - realizada à margem das «comemorações oficiais»: um almoço, também no Porto, com Manuel Alegre y sus muchachos...

Esses mesmos jornais - todos! - silenciaram a iniciativa com a qual o PCP abriu o seu programa de comemorações da implantação da República: a inauguração de uma exposição sobre o acontecimento e uma sessão pública na qual esteve presente o secretário-geral Jerónimo de Sousa e em que interveio um membro do Secretariado do Partido, Albano Nunes.

Percebe-se o silenciamento da iniciativa do PCP: não convém que se saiba que há quem tenha da implantação da República e de todo o processo que se lhe seguiu, uma visão que não coincide, entes diverge profundamente, da visão das «comemorações oficiais» - e muito menos convém se, quem tem essa visão não coincidente e divergente, é o PCP.

Pior ainda se, com as suas comemorações, o PCP pretende:
«contribuir para um melhor conhecimento do que foi e do que representou a revolução de 1910; avaliar que circunstâncias sócio-económicas e ideológicas a determinaram e que problemas e contradições se propôs resolver e superar; analisar quais as classes e camadas sociais que nela se empenharam, que reivindicações e bandeiras levantaram e quais foram afinal os seus principais beneficiários; saber como foi possível o avanço e finalmente o triunfo das forças mais reaccionárias e do grande capital no golpe militar de 28 de Maio de 1926 que abriu caminho a quase meio século de ditadura fascista» - como se vê, tudo questões que se situam a milhas de distância das preocupações das «comemorações oficiais»...

Muito pior ainda se, como aconteceu, o dirigente comunista, aludindo às «comemorações oficiais», afirmou:
«Não está na natureza do PCP integrar-se no cortejo de um comemorativismo que dá uma visão deformada e passadista dos acontecimentos, (...) que subestima o papel decisivo da componente popular no 5 de Outubro, (...) que ignora as motivações profundas das grandes luta operárias e populares que percorreram os dezasseis anos da República, (...) que passa ao lado da violenta repressão que frequentemente se abateu sobre os trabalhadores».

Assim sendo, silenciar estas opiniões impedindo que elas cheguem aos leitores e estraguem a festa das «comemorações oficiais», é obviamente a tarefa desses jornais.
Nem outra coisa esperavam os donos deles - que, aliás, aplaudem entusiasticamente as «comemorações oficiais»...

Não há dúvida: isto anda tudo ligado...

POEMA

COMPANHEIRA DOS HOMENS


A poesia dos senhores que propagam o nevoeiro e confundem as gentes
poesia tão pessoal como uma escova de dentes,
a poesia que eles queriam guardar nas suas casas
numa gaiola, como um pássaro a quem mutilassem as asas,
a poesia quebrou as algemas e saiu da prisão
e arrastou-se nas trincheiras, e dormiu nos campos de concentração,
e amou aqueles que negam mas que nunca se renegaram,
e conheceu prostitutas que nunca se entregaram,
e comeu na malga dos soldados aquela sopa de massa
que é igual para todos como o pré e a desgraça.

E os homens aprenderam nas noites de inclemência
a cantar os seus versos, a recitá-los de cor,
e a murmurá-los nessas horas em que tudo é confidência
e em que cada palavra ganha uma ressonância maior.


Sidónio Muralha

(«Companheira dos Homens» - 1950)

MAIS SANGUE!

O assassino não só não pediu desculpas pelos crimes que cometeu como quer mais sangue.
Falo (outra vez, desculpem lá...) de Blair e das declarações que proferiu na comissão de inquérito sobre a guerra do Iraque.

Segundo o Público de hoje, Sir Richard Dalton, antigo embaixador da Grã-Bretanha em Teerão, chamou a atenção para o facto de Blair, nas declarações proferidas - nas quais «mencionou o Irão 58 vezes» - para além de defender a «legitimidade de derrubar o ditador iraquiano Saddam Hussein», ter «avisado» que «o Irão constitui uma grave ameaça»...
Disse Blair que o Irão «desenvolveu uma capacidade nuclear maior do que aquela que o Iraque tinha em 2003». Portanto...
Disse Blair que, «se estivesse no poder, não correria o risco de o Irão criar e usar armas nucleares». Portanto...

Portanto... «se estivesse no poder», Blair tomaria medidas para que a carnificina do Iraque fosse repetida no Irão.

São assim os assassinos compulsivos: quanto mais morte, mais morte... quanto mais sangue, mais sangue...

São assim os chefes da «democracia» hoje dominante no mundo...

POEMA

SONETO IMPERFEITO DA CAMINHADA PERFEITA



Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.


Sidónio Muralha

(«Passagem de Nível» - 1942)

DUAS PALAVRAS BASTAM

Ouvido na comissão de inquérito sobre a guerra do Iraque, Blair disse que «voltaria a fazer o mesmo» - isto é, voltaria a juntar-se ao governo de Bush na criminosa invasão, destruição e ocupação do Iraque.

As declarações de Blair não surpreendem: é um criminoso de guerra a falar, a exibir, com orgulho, as mãos cobertas de sangue de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças, vítimas inocentes de uma das mais bárbaras carnificinas da história - e sabendo que o crime que cometeu vai ficar impune...

Também não surpreende que o carniceiro nos venha dizer que «acreditei sem a mínima dúvida que o Iraque dispunha de armas de destruição maciça»: com isto apenas confirma que, hoje, mente com a mesma desfaçatez e desvergonha com que mentiu quando usou essa patranha para justificar o crime.

Aliás, a existência ou não de armas de destruição maciça no Iraque, era uma questão secundária quer para o lacaio Blair quer para o seu boss Bush: ambos sabiam que essas armas não existiam - como, na altura, sabia toda a gente informada e lúcida, e como, hoje, sabe toda a gente.
Existia, isso sim, era a decisão tomada pelos EUA e servilmente apoiada por Blair de ocupar um país onde o petróleo abunda...

A dada altura, o asqueroso crocodilo simulou uma lágrima: «Sinto uma enorme responsabilidade e não há um dia em que não pense nos custos da guerra» - mas logo retomou a sua postura normal de assassino sem escrúpulos, garantindo que «faria tudo outra vez» e que «hoje, olho para o Iraque com um imenso orgulho».

«Mentiroso, assassino!»: gritou-lhe alguém da assistência - a confirmar que duas palavras bastam para o qualificar.

POEMA

PARA VÓS O MEU CANTO...


Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos;
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais o leito de um rio;

- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim: e confio;

- para vós os meus versos, companheiros da vida!

Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores,
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios pra cantar...

Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
e crivo de bocejos as meninas fúteis...
Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.

E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia do Juízo...

Que o Dia do Juízo
não é no Céu... é na Terra!


Sidónio Muralha

(«Passagem de Nível» - 1942)

O ECO FIEL

Muitas razões têm os EUA para amar o seu ministro Amado.
De facto, ele é um leal porta-voz dos interesses do imperialismo norte-americano.
Mais do que isso: o ministro Amado é o eco fiel dos chefes da Casa Branca.
Obama diz que a segurança dos EUA começa no Afeganistão e logo a voz de Amado ecoa garantindo que «a fronteira da segurança de Portugal está no Afeganistão»... - acrescentando, até, que o mesmo acontece com a segurança de todos os países da União Europeia...

Só que as coisas não estão a correr como Amado queria.
Ele o disse, ontem, na Conferência sobre o Afeganistão que está a decorrer em Londres.
Amado espanta-se pelo facto de as pessoas não entenderem uma coisa tão simples e de tão fácil entendimento, de não verem uma coisa que está tão, tão à vista, ou seja: que «a fronteira da segurança de Portugal está no Afeganistão»...
(Amado traz-me à memória o embaixador de Salazar na ONU - um tal Vasco Garin, se a memória me não falha - que, para justificar o voto contra a proposta de desarmamento geral apresentada pela URSS, argumentou com uma possível invasão da Terra por marcianos...)

Para colmatar esse não-entendimento das pessoas, diz Amado que é necessário «elaborar uma estratégia de comunicação» que leve os povos da Europa, o português incluído, a ver que as «fronteiras de segurança» dos seus países se situam no Afeganistão...
Porque só assim é que é possível continuar a enviar militares portugueses para o Afeganistão sem protestos e no meio de entusiásticos aplausos do povo português...
(E para lá foram já mais de 250, dos quais 150 são tropas de combate)

Por outro lado, Amado está cheio de esperança em que «a nova estratégia que está a ser consolidada» nesta Conferência de Londres seja o caminho para a resolução de tudo o que está em causa no Afeganistão...

E o que é que está em causa no Afeganistão?
Muito provavelmente aquilo que o tenente-coronel Reinhard Herde - chefe dos Serviços de Informação da Bundeswehr - apontou, no final do século passado, como... «nova estratégia»... como objectivo essencial do ciclo de guerras em curso (e que o Avante! desta semana resume e recorda):
«O século XXI será a época de um novo colonialismo»;
«As colónias do futuro serão sobretudo fontes de matérias primas e mercados para os produtos das potências coloniais»;
«Os governos dos países ricos terão de estabelecer corredores de segurança físicos e digitais para o transporte das riquezas naturais e do comércio, assim como para informação e vigilância»;
«As grandes guerras do século XX processaram-se entre estados ricos. No próximo século, os estados ricos vão ter de defender a sua riqueza contra os povos dos estados e regiões pobres. Para se obter aquilo que antes se podia comprar vai ser necessário recorrer à guerra».
Convenhamos que não se pode ser mais terra-a-terra...

É claro que para dominar estados pobres como Portugal, as «potências colonialistas» não terão necessidade de «recorrer à guerra»: a política de direita em curso garante-lhes que há sempre um Amado, de cócoras, a pôr-se a jeito... e a gritar - perigosamente ridículo, pateta e patético - que «a fronteira da segurança de Portugal está no Afeganistão»...

POEMA

TEATRO


Na sala vazia sentaram-se os quatro.
E os quatro ficaram olhando, no fundo,
a mancha de luz do pequeno teatro.

- O dono do teatro - um vagabundo
que trouxera o teatro do outro lado do mundo -
por trás das cortinas puxava os cordéis...
Puxava os cordéis aos fantoches, fiéis
aos seus dedos infiéis de vagabundo.

.................................................................

Dos quatro meninos, um deles voltou,
e, tanto viu, que decorou
as falinhas mansas e a maneira
invertebrada dos fantoches de feira.

De dois dos meninos ninguém mais falou,
(e o outro é poeta e ninguém lhe perdoa...)
mas do menino-fantoche como é bom falar!...

- porque o menino-fantoche é hoje a pessoa
mais importante do lugar.


Sidónio Muralha

(«Passagem de Nível» - 1942)

ESTES SÃO OS FACTOS

2010 vai ser certamente um ano em que iremos ler e ouvir muito sobre a II Guerra Mundial - de cujo fim se comemora o 65º aniversário.
Certamente, iremos ser massacrados com as mil e uma patranhas que desde há 65 anos vêm sendo amplamente difundidas com o objectivo de se instalarem como verdades absolutas.

Uma dessas patranhas - uma das maiores e mais perversas - é a que diz respeito às razões invocadas pelos EUA para lançar as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasáqui..

«Exigências militares» e «evitar milhares de mortes de americanos e aliados», foram as razões apresentadas.
Vejamos, com factos concretos, como ambas as razões são falsas.

1 - «Exigências militares»?
Truman sabia que o imperador do Japão tinha decidido render-se desde 20/6/1945 e que, quer o Embaixador japonês em Moscovo quer o Príncipe Konoye, tinham encetado contactos com a URSS pedindo a sua interferência no sentido de pôr termo à guerra.
Truman sabia que a Alemanha nazi capitulara em Maio (três meses antes de Hitoshima... )
Truman sabia que o Japão perdera quase toda a sua aviação e a sua marinha - e que a defesa antiaérea japonesa havia sido totalmente liquidada pelos 7 000 raids dos B29 norte-americanos.
Truman sabia que o bombardeamento de Tóquio, em 10 de Março, arrasara a cidade - e provocara mais de 125 mil mortos e feridos.
Enfim, Truman sabia que o Japão estava irremediavelmente derrotado.

Testemunhos insuspeitos:
O almirante W.Leahy analisou assim a situação:
«Os japoneses estavam já derrotados e prestes a capitular. O uso desta arma bárbara (...) não trouxe nenhuma contribuição material ao nosso combate contra o Japão. Os Estados Unidos, como primeiro país a utilizar esta bomba, adoptaram normas éticas semelhantes às dos bárbaros da Idade Média».
E a verdade é que, como afirmou então o Chefe da Força Aérea dos EUA, general Curtis Le May, entre os objectivos do governo norte-americano estava o de «fazer regressar o Japão à Idade da Pedra»...

2 - «Evitar milhares de mortes de americanos e aliados»?
É falso - pelas mesmas razões que era falso o «argumento» das «exigências militares».
Aliás, o desvario de Truman e de Churchill na invenção do número de vidas salvas é bem elucidativo.
Vejamos:
Truman começou por dizer que «o lançamento das bombas poupou a vida a 250 mil americanos».
Logo a seguir, corrigiu: afinal tinham sido salvas «500 mil vidas - 300 mil americanas e 200 mil aliadas». Mais tarde, informou que foi de «500 mil o número de vidas americanas poupadas» - e, finalmente, arredondou as contas: «o lançamento das bombas poupou 1 milhão de vidas»...
Por seu lado, Churchill deu-lhe uma preciosa ajuda elevando o número para «1. 200. 000 vidas salvas» - e o marechal britânico Arthur Harris, em delírio demencial, fechou a conta: as bombas sobre Hiroshima e Nagasáqui «salvaram 3 a 6 milhões de vidas»...

É claro que estes aumentos dos números de vidas salvas verificaram-se à medida que o HORROR de Hiroshima e Nagasáqui se ia tornando conhecido no mundo.
E é claro, também, que da parte dos carniceiros, a preocupação em aumentar esses números nada tinha a ver com problemas de consciência...

Testemunhos insuspeitos:
James Byrnes, secretário de Estado norte-americano (que, com Truman e o ministro da Guerra, Henry Stimson, integrou o trio que decidiu o lançamento das bombas): «Agora, com a posse e o uso da bomba atómica, a URSS será controlável».
Lord Allanbrooke (alto responsável militar britânico): «Para Churchill, nós tínhamos agora nas mãos qualquer coisa que restabeleceria o equilíbrio com os russos (...) Churchill imaginava-se já em vias de liquidar todos os centros industriais soviéticos e todas as zonas com forte concentração populacional. Ele via-se como único detentor dessas bombas, capaz de as lançar onde quisesse, tornado todo poderoso e em condições de ditar as suas vontades a Staline».


Estes são, resumidamente, os factos,
Comprovados.
Indesmentíveis.
Irrefutáveis.

POEMA

A MENINA FÚTIL


A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental...
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal...

- Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental...

A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela...
- Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela...

... e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela...
Promessas... porque o resto era pecado
e pecar não é com ela...
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela...)

Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental...

Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;

- e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais pôe avental...


Sidónio Muralha

(«Passagem de Nível» - 1942)

Palavras para quê???

Banca teve "comportamento espectacular" nesta crise

19:53 Bruno dos Reis

O presidente do Banco Espírito Santo considera que a banca teve "um comportamento espectacular nesta crise" e declarou ter pena pelo facto de o Estado português agravar os impostos ao sector.





espetacular! pois. a julgar pelos lucros! já não falando das fraudes!

POEMA

PASSAGEM DE NÍVEL


Velho dos dias sem sol e das noites sem estrelas
que passas junto de mim apregoando,
apregoando cautelas,

- até quando?

Menina da casa estreita e sem janelas
que vives trabalhando, trabalhando...

- Quando virá o Dia, quando?

Quando vier, eu que estou à sua espera
hei-de sentir na minha poesia
um hálito de Primavera...

Mas não a Primavera dos sonetos de almanaque,
encarcerada em versos bafientos,

em que um sujeito de fraque
desfiava pensamentos...

Meus versos serão límpidos, correntes,
porque se beijam na rua os namorados
e não são indecentes nem decentes
- são simplesmente apaixonados.

Verei janelas rasgadas, fatos limpos,
mãos dadas numa franca simpatia,
- e hei-de sentir a Primavera
a desprender-se da minha poesia...

Até lá, um rio de raiva rola, ecoa
nos meus versos, rebenta no meu coração...

- E aquele que não me perdoa
que saiba que eu não peço o seu perdão!


Sidónio Muralha

(«Passagem de Nível» - 1942)

TUDO ISTO A LEMBRAR-NOS...

Há 65 anos - precisamente no dia 27 de Janeiro de 1945 - uma unidade do Exército Vermelho, comandada por um então jovem oficial com 21 nos de idade - mas que já tinha passado três anos na linha da frente - libertou Auschwitz, o campo de extermínio instalado pelos nazis na Polónia em 1940 e onde foram assassinadas cerca de 1,1 milhões de pessoas.

Ivan Martinouchkin é o nome do comandante da unidade do Exército Vermelho que libertou Auschwitz - e que hoje, com 86 anos, é, ao que parece, admirador de Putin...
Diz ele que, quando entrou em Auschwitz não fazia ideia do que se lhe ia deparar.
Depois viu... O HORROR.
E diz: «vou lembrar-me do que vi até ao fim dos meus dias».

Cerca de três meses após a libertação de Auschwiz, um soldado soviético hasteava uma bandeira vermelha no edifício do Reichstag: a Alemanha nazi capitulava - e a esperança da humanidade no advento de uma era de paz e de justiça social parecia, finalmente, a caminho da sua concretização...
Todavia, cerca de três meses após a capitulação da Alemanha nazi, eis novamente O HORROR - desta vez em Hiroshima e Nagasáqui; desta vez comandado pelo imperialismo norte-americano.

Tudo isto a lembrar-nos a essência exploradora, opressora e criminosa do capitalismo - seja na sua versão de regime fascista, seja na sua modalidade de democracia burguesa.

POEMA

PRELÚDIO


A minha poesia é uma árvore cheia de frutos
que um sol de tragédia amadurece;
mas eu não os arranco nem procuro:
- o meu sol de tragédia aquece, aquece,
e o fruto cai de maduro.

No resto, sou empregado de escritório
que não procura desvendar abismos,
e passa o dia (glorioso ou inglório)
a somar algarismos...

A minha poesia é uma árvore cheia de frutos
que um sol de tragédia amadurece;
mas eu não os arranco nem procuro:
- sei a miséria da estrada percorrida;
o meu sol de tragédia aquece, aquece.

- e o fruto cai de maduro
no chão da minha vida.


Sidónio Muralha

(«Passagem de Nível» - 1942)

JUSTIÇA?


Ali Hassan al-Majeed
- «Ali, o Químico» - que foi ministro e homem de toda a confiança de Saddam Hussein foi ontem executado no Iraque.
Sobre ele pesava a acusação de, em 1988 - no decorrer do processo da guerra Iraque/Irão - ter dado a ordem para o bombardeamento com armas químicas da cidade de Halabja - um massacre no qual mais de 5000 curdos foram barbaramente assassinados.

Que «Ali, o Químico» deu essa ordem - obedecendo a uma ordem de Saddam - não há dúvida: ele próprio o reconheceu, sem ponta de remorso e, até, de alguma forma, vangloriando-se...
E também não há dúvida de que, por isso, foi executado. Ontem.

Assim tendo sido, dir-se-á que foi feita justiça - tanto mais que quem lhe deu a ordem - Saddam Hussein - também já foi executado pelo mesmo motivo.


Todavia, as coisas não são assim tão simples: na verdade, a montante da ordem de Saddam a «Ali, o Químico», há as ordens superiores que Saddam então recebia e que decorriam do facto de ele ser, na altura, homem de toda a confiança dos EUA.
E, como é sabido, foi o governo de Ronald Reagan que decidiu a guerra Iraque/Irão e que, para isso, forneceu ao Iraque as armas de que necessitava, incluindo as armas químicas utilizadas no bárbaro massacre de Halabja.

Quero eu dizer com isto que para a justiça ser, de facto, completa, era necessário que os mandantes superiores de Saddam e de «Ali, o Químico» - para o caso Ronald Reagan e o seu secretário de Estado, George Schultz - fossem, também eles, condenados à morte.
Ainda que fosse a título póstumo...

POEMA

POEMA DO NOSSO FUTURO


Há-de trazer os nossos traços,
e a tua confiança, e a minha rebeldia,
e o dia, aquele dia, o nosso dia,
e eu hei-de recebê-lo dos teus braços

para que seja grande esse momento,
para que seja meu e teu,
- não hás-de ser como a Virgem Maria
que teve um filho que caiu do Céu...

- Hás-de embalar vertigens e cansaços.
Depois, hás-de parir em sofrimento,
para que seja grande esse momento
e eu possa recebê-lo dos teus braços.

Talvez eu consiga, então,
beijar a Vida nos olhos, devagar,
e dar-lhe o meu perdão,

- se ainda souber perdoar... -


Sidónio Muralha

É UMA SÉRIE PORTUGUESA, CONCERTEZA...

Chega a notícia de que está em preparação uma série televisiva que passará na RTP em Outubro, por altura da comemoração do 100º aniversário da proclamação da República - série que, em oito episódios de 50 minutos cada, se propõe falar-nos de «cem anos de política portuguesa, entre 1910 e 2010».
Ora aí está uma excelente ideia!

A notícia prossegue, informando que esses cem anos chegar-nos-ão «através do olhar privilegiado de Mário Soares», que é «a personagem principal» da série e que nos «vai contar as suas memórias».
Ora aí está como se estraga uma excelente ideia!

A notícia diz, também, que «o testemunho de Mário Soares será, depois, cruzado e confrontado com os testemunhos de outras personagens» pertencentes «a todos os quadrantes políticos».
Lendo os nomes dessas «outras personagens» constata-se que estão lá «todos os quadrantes políticos»... menos o dos comunistas...
Ora aí está no que uma excelente ideia pode dar!

Quem está a realizar a série é um cineasta sobrinho de Mário Soares, de seu nome Mário Barroso - apoiado numa «equipa ecléctica de oito intelectuais», ou seja: também pertencentes «a todos os quadrantes políticos».
Lendo os nomes dos oito eclécticos constata-se que nenhum deles é comunista - nem pouco mais ou menos...
Ora aí está a ideia!...

Posto isto, está-se mesmo a ver o que aí vem: é uma série portuguesa, concerteza, é concerteza uma série portuguesa...

GUANTÁNAMO CONTINUA...

Se a promessa feita por Obama - antes de ser eleito e após a eleição - tivesse sido cumprida, hoje estaríamos a festejar o fecho do campo de concentração de Guantánamo.
Mas não, a promessa não foi cumprida - e cerca de 200 presos continuam em Guantánamo sujeitos, não à lei dos EUA, mas à lei... de Guantánamo, isto é ao «quero, posso e mando» do Governo de Obama.
(«Aqui não entra a lei»: diziam os pides - e a «lei» a que se referiam era a «lei» fascista...)

No dia em que o campo de concentração deveria ter sido encerrado, o Governo de Obama anunciou que «cerca de uma centena de presos podem ser libertados», mas... - há sempre um «mas»... - entre esses há uns 30 que não podem ser libertados e que foram colocados «numa categoria específica».
Porquê? : porque são iemenitas e porque a «Al-Qaeda se está a revelar activa no Iemene»...
(«Se não foste tu, foi o teu pai»: disse o lobo ao cordeiro...)

Mas o caso mais curioso tem a ver com 47 prisioneiros que o Governo de Obama decidiu que devem ficar «presos por tempo indeterminado», embora não sejam acusados de nada em concreto e «não existam provas suficientemente boas para os levar a tribunal».
(«Vamos continuar a interrogar-te enquanto nos apetecer»: disse o torturador Kouvas, na Grécia dos coronéis, a um preso...)

Acresce que o Governo de Obama anunciou a decisão de libertar... perdão: de «transferir parte dos detidos para uma prisão no Estado de Illinois» - isto apesar de não ter quaisquer provas contra eles.
Esta decisão mereceu o seguinte comentário de Anthony Romero, presidente da União Americana das Liberdades Civis: «É preocupante que, quando Guantánamo finalmente fechar, algumas das suas políticas mais vergonhosas continuem em território norte-americano».

É preocupante?: talvez.
Mas não surpreende: na verdade, é assim que funcionam as coisas nos Estados Unidos da América.
Ai de quem tiver a infelicidade de ver o seu nome incluído em qualquer das «listas negras» elaboradas na «pátria da liberdade, da democracia e dos direitos humanos»...

POEMA

CASA DE PENHORES



I

Rua estreita - não sei quem lá passou.
Porta aberta - não sei quem lá entrou.
Não sei - não sei dizer e não me importa,
nem a rua, cansada de ser rua,
nem a porta cansada de ser porta.

Mas foi aqui, na rua triste e nua,
e junto à porta aberta, fria e larga,
que me surgiu aquela frase amarga
e nunca mais me deixou:

- Schubert empenhou o violino e o mundo não estoirou!


II

Mas não falemos de Schubert... Falemos da velha tonta...
- A velha tonta que perdeu a neta
e anda, de porta em porta, a imitá-la...

Diz assim, aflautando a sua fala:

«Ó velha, conta... ó velha, conta
aquela história triste do poeta...»

- A velha tonta que perdeu a neta
todos os dias ajoelha
em frente da lamparina...

(O Cristo empenhou-o a velha
para salvar a neta pequenina...)

E a velha tonta reza à lamparina:

- «Meu Deus, perdoa-me a audácia
de ter teu Filho empenhado...
- Foi por causa da conta da farmácia...
Perdão, meu Deus, perdão!»

- E o Cristo, resignado,
em três meses de juro crucificado,
espera o dia do leilão.


Sidónio Muralha
(«Beco» - 1941)