POEMA

RENTE AO CHÃO


1.

Era azul e tinha os olhos de deus,
o meu pequeno persa
- agora rente ao chão onde iria?,
a voz quebrada,
o peso da terra sobre os flancos,
a luz deserta na pupila.


2.

Chamo por ti; digo o teu nome
tropeçando sílaba
a sílaba; repito o teu nome
para que voltes com a lua
nova, o sol de março,
o pão de cada dia:
o rigor do frio, a sua teia branca,
por companhia.


Eugénio de Andrade
(«Rente ao Dizer» - 1992)

ALTERNATIVA ÓBVIA

A evolução da situação nas Honduras justifica inteiramente as «desconfianças» manifestadas pelo Cravo de Abril logo que foi aprovado o «acordo» que, supostamente, iria repor a legalidade constitucional naquele país - «acordo» que previa, designadamente, a formação de um «governo de unidade e reconciliação nacional» (?) e a «possível» (?) restituição do poder ao presidente legítimo, Manuel Zelaya.

As «desconfianças» decorriam (decorrem) de dois factores essenciais: o conteúdo do «acordo» (envolvendo uma insólita paridade entre os golpistas e as vítimas do golpe) e, mesmo assim, o mais do que duvidoso cumprimento desse «acordo» por parte dos golpistas.

Quanto à «possível» restituição do poder a Zelaya... o Congresso Nacional ainda não reuniu nem dá sinais disso: muitos membros do Congresso «estão de férias»... muitos outros «estão em campanha eleitoral visando a reeleição»... e, como não têm o dom da ubiquidade, não podem estar em dois lados ao mesmo tempo...
Aliás, os representantes dos golpistas insistem em que «não foi estabelecido um prazo» para isso - e, paralelamente, insistem em que «foi estabelecido um prazo», isso sim, «para a formação do governo de unidade e reconciliação nacional»...
Sobre o assunto, pronunciou-se também a ministra do Trabalho dos EUA, Hilda Solis, declarando que «estão a ser desenvolvidos todos os esforços para a formação do governo»... - «governo» do qual o golpista Micheletti - o filho querido do imperialismo norte-americano - se assumiu, já, como líder...

Quer isto dizer que é cada vez mais clara a suja manobra congeminada e posta em prática pelo governo dos EUA e pelos seus homens de mão nas Honduras.

Postas as coisas assim - e confirmado que está que não há acordos possíveis com os golpistas e os seus mandantes... - não há muitas alternativas para Manuel Zelaya e os seus apoiantes...

Para a classe operária, para os trabalhadores, para o povo hondurenho a alternativa é óbvia: continuar a luta até à derrota dos golpistas e à reposição, de facto, da legalidade constitucional e democrática.
Luta para a qual poderão contar com a solidariedade de todos os homens, mulheres e jovens progressistas do mundo.
Luta que vencerão.

POEMA

O PEQUENO PERSA


É um pequeno persa
azul o gato deste poema.
Como qualquer outro, o meu
amor por esta alminha é materno:
uma carícia minha lambe-lhe o pêlo,
outra põe-lhe o sol entre as patas
ou uma flor à janela.
Com unhas e dentes e obstinação
transforma em festa a minha vida.
Quer-se dizer, o que resta dela.


Eugénio de Andrade
(«O Outro Nome da Terra» - 1988)

CURIOSO, ESTE TRATADO

Agora que o presidente da República Checa o assinou, o Porreiro, pá! entra em vigor em 1 de Dezembro.

Curioso, este Tratado que dependia apenas de uma assinatura - mas que sem essa assinatura iria em frente na mesma, como não se cansaram de dizer os tratantes-mores...

Curioso, este Tratado que só passou porque os tratantes trataram de proibir terminantemente a realização de referendos que o iriam chumbar - e no único caso em que houve referendo e o respectivo povo disse «não» repetiram o referendo para o povo dizer «sim»...

Curioso, este Tratado que cria o cargo de «Presidente do Conselho Europeu» - cargo cuja natureza democrática é visível no facto de a ele ser candidato um criminoso de guerra chamado Blair...

Curioso, este Tratado, sobre cujo processo de «aprovação» José Sócrates disse: «Foi um largo caminho para as ratificações, mas valeu a pena» - «largo caminho em matéria de desprezo pelas mais elementares normas democráticas», diria Sócrates se quisesse dizer a verdade...

Curioso, este Tratado de cujo dia da «ratificação final» o mesmo Sócrates disse ser «Um dia feliz para a Europa» - «para a Europa do grande capital» diria Sócrates se quisesse dizer a verdade...

Curioso, este Tratado, o seu processo de elaboração e de aprovação - um processo perfeitamente integrado nas normas democráticas que têm presidido a todo o processo de construção desta União Europeia: sempre à revelia da opinião dos povos e sempre em total sintonia com a opinião dos grandes grupos económicos e financeiros.

POEMA

O SORRISO


Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


Eugénio de Andrade
(«O outro Nome da Terra» - 1988)

PRAGMATISMO...

Notável, o pragmatismo que presidiu à solução do (aparentemente) complexo problema das eleições presidenciais no Afeganistão.

A primeira volta das ditas, realizada em Agosto, ficou marcada por uma FRAUDE de todo o tamanho - e tão FLAGRANTE que até o Governo dos EUA ficou sem condições para a defender.
Na altura, chegou a ser anunciada a vitória de Karzai, o grande organizador da fraude, com mais de 50% dos votos, mas também essa manobra, de tão escandalosa e obscena, não teve pés para andar.
Assim, houve que recorrer a uma segunda volta com os dois candidatos mais votados: Karzai e Abdulah.

Há dias, Abdulah anunciou a sua desistência pelo facto de, em matéria de fraudes, se manter a situação existente quando da primeira volta.
Esta desistência caíu como sopa no mel dos planos dos ocupantes que logo começaram a opinar sobre o que deveria ser feito - e a denominada comissão eleitoral independente assim fez: anulou as eleições e proclamou Karzai «presidente eleito» do Afeganistão.

Tudo isto a confirmar que o crime compensa e que a fraude é o caminho mais curto para se ser «eleito» presidente num país ocupado pelos EUA.
Por isso o Governo de Obama felicitou Karzai pela «vitória nesta eleição histórica»...

Tudo nos conformes, como se vê - e tudo desnudando o conceito de democracia em vigor em todo o lado onde os EUA, pela força das armas, estão instalados.

POEMA

COM ESSA NUVEM


Para que estrela estás crescendo,
filho, para que estrela matutina?
Diz-me, diz-me ao ouvido,
se é tempo ainda,
eu e essa nuvem, essa nuvem alta,
de irmos contigo.


Eugénio de Andrade
(«O Outro Nome da Terra» - 1988)

PS&PSD, Lda.

«Quem passou mais tempo no Governo?» - pergunta o Expresso.
E, feitas as contas, responde: Durão Barroso, com 4474 dias lidera, logo seguido de vários colegas do PSD, aos quais se seguem vários colegas do PS e, depois, uns tantos colegas do CDS/PP.

Esta liderança nominal do PSD não tem qualquer significado especial ou, pelo menos, não quer dizer que o PSD tenha desempenhado um papel mais relevante do que o desempenhado pelo PS nestas três décadas de governação.
Não: PS & PSD, Lda. constituem uma sociedade perfeita enquanto executante fiel da política de direita ao serviço dos interesses do grande capital - sendo certo que o PS tem sido o chefe de fila dessa política de direita, beneficiando do facto de, fraudulentamente, se apresentar como um partido de esquerda.
E a verdade é que se o actual Governo PS/José Sócrates se mantiver no poder até finais do próximo ano, o ranking passará a ser comandado, nominalmente, por três actuais governantes do PS: Mariano Gago, Luís Amado e José Sócrates.

Aliás, neste caso os nomes nada contam: o que conta é a política e a família que executa essa política.
Vistas as coisas nesta perspectiva, facilmente concluiremos que quem está no poder há 33 anos é uma família - uma família política e ideologicamente unida, mas que, às vezes, por razões tácticas (e estratégicas), tem que fingir divergências para melhor levar a água ao moinho familiar da política de direita.

POEMA

COMO NO POEMA


A chuva cai na poeira como no poema
de Li Po. No sul
os dias têm olhos grandes
e redondos; no sul o trigo ondula,

as suas crinas dançam no vento,
são a bandeira
desfraldada da minha embarcação;

no sul a terra cheira a linho branco,
a pão na mesa,
o fulvo ardor da luz invade a água,
caindo na poeira, leve, acesa.

Como no poema.


Eugénio de Andrade
(«Branco no Branco» - 1984)

O QUE ELES DIZEM

Eis o que eles dizem, lá nas Honduras.

Sobre a tarefa que lhe cabe de apresentar ao presidente do Congresso o «acordo» que prevê o «possível regresso» de Manuel Zelaya ao cargo de Presidente das Honduras, o congressista Ramón Velásquez, disse:
«Só farei a entrega na próxima terça-feira, porque este fim-de-semana estou em campanha eleitoral para a minha reeleição como congressista e porque segunda-feira é Dia de Finados e tenho que cumprir compromissos na minha localidade».
E mais não disse.

Sobre a data da reunião do Congresso para decidir o «possível regresso» de Manuel Zelaya à presidência das Honduras, o presidente do Congresso, José Alfredo Saavedra, disse:
«Não adianto uma data específica para convocar os congressistas, fá-lo-ei logo que possível».
E mais não disse.

Sobre a situação de Manuel Zelaya, o fascista Micheletti disse:
«A situação do senhor Zelaya é a de visitante na casa do Brasil»
E mais não disse.

Sobre a data da reunião do Congresso para decidir do «possível regresso» do Presidente Manuel Zelaya, um jornal disse:
«Os congressistas estão de férias e muitos deles ocupados em actividades eleitorais, tendo em vista as eleições de 29 de Novembro»
E mais não disse.

Pronto: ao que parece está tudo dito - pelo menos até terça-feira.
Depois veremos.

Do outro lado disto tudo, o povo hondurenho diz:
A LUTA CONTINUA!

POEMA

DEIXO AO MIGUEL AS COISAS DA MANHÃ


Deixo ao Miguel as coisas da manhã -
a luz (se não estiver já corrompida)
a caminho do sul,
o chão limpo das dunas desertas,
um verso onde os seixos são
de porcelana,
o ardor quase animal
de uma romã aberta.


Eugénio de Andrade
(«O Peso da Sombra» - 1982)

A LUTA É O CAMINHO

Os jornais de hoje dão grande destaque ao «acordo alcançado para resolver a crise nas Honduras».
Registe-se que nunca a situação nas Honduras mereceu tamanho destaque nos média nacionais - os quais, como é sabido, primaram por um cirúrgico silenciamento em torno quer do golpe fascista, quer da repressão que se lhe seguiu.
Daí a minha surpresa com o destaque agora dado por esses mesmos média a este «acordo» - surpresa e, confesso, desconfiança.

Quais as razões da minha desconfiança com tudo isto?
Vejamos:
O referido «acordo»- que foi discutido e assinado por duas comissões compostas por representantes do Presidente legítimo, Manuel Zelaya, e do golpista Micheletti - prevê, designadamente, a formação de um «governo de reconciliação» - que governo será este? - e o «possível regresso» de Manuel Zelaya - «possível»?...

Acresce que este «possível regresso» está dependente da decisão do Congresso Nacional das Honduras, que deveria reunir de emergência mas cujo Presidente não está, de momento, em Tegucigalpa, nem se sabe bem onde estará...

Acresce, ainda, que o Congresso, «pode demorar vários dias ou várias semanas a reunir» - é este mesmo Congresso que, duas horas depois do golpe fascista, estava reunido a dar posse ao governo gopista...

Acresce, finalmente, que, segundo o representante de Micheletti na «comissão do acordo», «o acordo não estabelece um prazo para que o Congreso se pronuncie sobre o regresso de Manuel Zelaya»...

Se tivermos em conta, ainda, que
1 - o «acordo» foi anunciado horas depois de o delegado norte-americano para a América Latina, Thomas Shannon, ter estado com o fascista Micheletti e ter declarado publicamente que «sem um acordo dificilmente a comunidade internacional poderá apoiar as eleições que Micheletti marcou para 29 de Novembro», e que
2 - para Micheletti e para os seus planos, este apoio da comunidade internacional às suas eleições é crucial...

Bom, se tivermos em conta tudo isto, é caso para dizer que tudo isto faz desconfiar... - e que o povo das Honduras não pode parar a sua luta, pois só através dela conseguirá derrubar o governo fascista e repor a legalidade democrática.

E na luta, isso sim, há que confiar plenamente - porque a luta é o caminho.

POEMA

OS NOMES


Tua mãe dava-te nomes pequenos, como se a maré os
trouxesse com os caramujos. Ela queria chamar-te
afluente-de-junho, púrpura-onde-a-noite-se-lava,
branca-vertente-do-trigo, tudo isto apenas numa sílaba.
Só ela sabia como se arranjava para o conseguir,
meu-baiozinho-de-prata-para-pôr-ao-peito.
Assim te queria. Eu, às vezes.


Eugénio de Andrade
(«Memória Doutro Rio» - 1976-1977)

SE EU PUDESSE DECIDIR...

Os salários estão na ordem do dia.
Entenda-se: os salários de quem trabalha e vive do seu trabalho, ou seja, dos trabalhadores.
Porque outros salários há, os chorudos, sobre os quais ninguém fala - o que é compreensível se tivermos em conta que os «especialistas» que todos os dias nos vêm dizer que os salários dos trabalhadores não podem aumentar são, ou beneficiários dos tais salários chorudos, ou beneficiários directos dos baixos salários dos trabalhadores, à custa dos quais arrecadam lucros todos os anos maiores, seja qual for a situação da economia nacional...

Neste caso está o muito mediático Van Zeller - grande patrão e porta-voz dos grandes patrões - cujas preocupações maiores incidem no salário mínimo nacional, o qual, segundo diz, não pode aumentar os 25 euros acordados - por razões muitas e muito fundamentadas, às quais acrescentou, agora, um outro demolidor argumento: o de que os 25 euros de aumento não aquentam nem arrefentam nas condições de vida dos trabalhadores...
Tal argumento leva-me a pensar que é bem provável que na cabeça deste Van Zeller esteja a germinar a ideia de baixar em 25 euros o dito salário mínimo: se mais 25 euros não aquentam nem arrefentam, menos 25 também não...
Por mim, se pudesse decidir nesta matéria, punha o patrão Van Zeller a salário mínimo nacional durante um ano - assegurando-lhe, ainda, três meses de salário em atraso.

Do lado dos salários chorudos, temos nem mais nem menos do que o funcionário do Estado mais bem pago em Portugal: o inimitável Vitor Constâncio que, sabe-se bem porquê, continua à frente do Banco de Portugal, não obstante as múltiplas demonstrações de ausência total de vocação para tal tarefa.
Diz o Governador do BP que isto assim não pode ser!; onde é que já se viu um país desenvolver-se com tão elevados salários como são os dos trabalhadores portugueses!; contenção, contenção salarial é que é preciso...
Por mim, se pudesse decidir nesta matéria, punha o Governador Constâncio a salário mínimo nacional durante um ano - assegurando-lhe, ainda, três meses de salário em atraso.

Temos, ainda, um tal «Camilo Lourenço, economista» - cujo nível salarial desconheço mas que, pelos sinais exteriores do discurso, não é difícil adivinhar que é dos chorudos.
Diz ele, o «economista»: «Não é preciso ser doutorado em economia para perceber que em 2010 os aumentos devem ser nulos. Se o custo de vida não sobe, não faz sentido nenhum aumentar os salários».
Pois não, «não é preciso ser doutorado em economia»: basta ser «Camilo Lourenço, economista».
Por mim, se pudesse decidir nesta matéria, punha o economista Lourenço a salário mínimo nacional durante um ano - assegurando-lhe, ainda, três meses de salário em atraso.

Passado esse ano, convidaria o patrão, o governador e o economista para uma mesa redonda sobre salários - e ficaria a ouvi-los...

POEMA

SOBRE O CAMINHO



Nada

nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu

Despe-te
não há outro caminho


Eugénio de Andrade («Véspera da Água» - 1972-1973)

CONTRA O BLOQUEIO

Uma resolução no sentido de «pôr fim ao bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América a Cuba» foi ontem aprovada na Assembleia Geral da ONU.
Do conjunto dos 192 países, 187 aprovaram a resolução - a maior votação favorável de sempre desde há 18 anos - enquanto dois se abstiveram (Ilhas Marshal e Federação de Estados da Micronésia) e três votaram contra: EUA, Israel e Palau.
A votação é bem elucidativa da dimensão planetária do apoio a Cuba - e do isolamento dos EUA nesta matéria.

É claro que, mais uma vez, os EUA não irão cumprir a resolução: Obama fará agora o que Bush, Clinton, o outro Bush... fizeram nos seus reinados.
Aliás, é prática normal dos EUA - bem reveladora do conceito de democracia ali reinante - só cumprir as resoluções da ONU com as quais concorda - e mesmo essas, regra geral, cumprindo-as à sua maneira...

Vale a pena relembrar que este bloqueio criminoso dura há quase 50 anos - tendo tido início logo que o povo cubano fez a sua inequívoca opção socialista.
Vale a pena relembrar, também, que em 1962, na sequência da chamada «crise dos mísseis», a URSS comprometeu-se a retirar os mísseis que havia instalado em Cuba e, em contrapartida os EUA comprometeram-se, entre outras coisas, a pôr fim ao bloqueio.
A URSS cumpriu com a palavra dada.
Os EUA... mantiveram o bloqueio até hoje.

Quer isto dizer que a luta contra o bloqueio vai continuar - fortalecida com a expressiva votação ontem verificada na ONU.

POEMA

ARTE DE NAVEGAR


Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.


Eugénio de Andrade
(«Obscuro Domínio» - 1970-1971)

PESSOA E SARAMAGO EM TRAVNIK

O Record enviou um jornalista e um fotógrafo à Bósnia - país cuja selecção nacional de futebol defrontará a selecção portuguesa no playoff de acesso ao Mundial 2010 - certamente com o intuito de ir preparando os seus leitores para o grande jogo.
A reportagem ontem publicada mostra-nos que jornalista e fotógrafo resolveram - e ainda bem - visitar a cidade de Travnik, que é, no país, «uma das mais conceituadas a nível cultural».
A Casa-Museu Ivo Andric (Prémio Nobel da Literatura em 1961 e de quem está publicado, em Portugal, um excelente romance: A Ponte sobre o Drina) foi um dos locais visitados.
Ali chegados, os dois portugueses foram recebidos pelo responsável da Casa-Museu, um jovem de nome Enes Skrgo, que cheio de simpatia começou por dizer-lhes: «Amigos, sou um dos maiores admiradores de um compatriota vosso...»
O jornalista («imbuído do espírito da bola"») arriscou: «Cristiano Ronaldo?, Eusébio? Figo?»...
Não: «Fernando Pessoa, esse é que é o maior de sempre», respondeu Enes Skrgo, mostrando-lhes vários livros de Pessoa editados na Bósnia, e acrescentando: «É um dos maiores mestres de sempre e aqui em Travnik tentamos fazer com que a sua memória não se perca. Fizemos na década de 90 uma apresentação de obras dele em teatro e correu muito bem. Ganhou ainda mais admiradores».
E também José Saramago: «Ler O Ano da Morte de Ricardo Reis foi uma experiência única. Bem sei que Saramago é controverso, mas é um génio vivo».
Nas despedidas, o jovem Enes deixou um recado: «Gostaríamos de ter um maior acesso à cultura, pintura, cinema do vosso país, mas às vezes é complicado».

E em remate final: «Vocês têm bem mais do que apenas bons futebolistas».

E é que temos mesmo.

POEMA

REQUIEM PARA PIER PAOLO PASOLINI


Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável.
Era Novembro, devia fazer frio, mas tu
já nem o ar sentias, o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa; uma navalha, o rumor
de abril podem matá-lo - amanhece,
os primeiros autocarros já passaram,
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na primeira
página, o sangue apodrece ou brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida,
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meritíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Saló, não se importariam de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital, a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa a nojenta farsa essa continua.


Eugénio de Andrade
(«Epitáfios» - 1949-1979)

MODERNIZAÇÃO

Estas cerimónias de tomada de posse dos governos são iguais há 33 anos.
Iguais em tudo: nos figurantes, nas poses dos empossados, nos risos, sorrisos e risinhos inter-ministeriais, nos discursos, em tudo.
É claro que os figurantes de ontem não eram exactamente os mesmos que em 1976, naquele mesmo local, juraram essas coisas todas a que o protocolo obriga.
Mas eram da família, dessa grandecíssima família da política de direita que, de há 33 anos a esta parte, tem vindo a destruir a mais progressista e mais avançada democracia alguma vez existente em Portugal: a Democracia de Abril.

Lá estavam todos, então - por «todos» entenda-se: os que, por efeito de uma alternância meticulosamente armadilhada, cumprem o actual turno de serviço à política de direita.
E os discursos foram muito lidos, ouvidos e vistos: os jornais escreveram, as rádios falaram, as televisões mostraram - enquanto os analistas analisaram, os comentadores comentaram, os politólogos politologaram, etc, etc.

Cavaco Silva, pernóstico até dizer chega, garantiu «lealdade institucional» ao Governo e sentenciou que «o nosso futuro colectivo é uma responsabilidade de todos» - por «todos» entenda-se: os que lá estavam mais os que aguardam a hora de cumprir o turno de serviço que lhes compete.

José Sócrates, exuberante, informou sobre as suas três grandes prioridades governativas - «combate à crise, modernização e justiça social» - sendo óbvio que a «modernização» é a sua preferida.
E a verdade é que, antes mesmo de tomar posse, o Governo de Sócrates já andava a «modernizar» por tudo quanto é sítio: na Quimonda, na Delphi, na Covina, no «congelamento de salários» proposto pelo inefável Constâncio, no congelamento do salário mínimo disparado pelo boss Van Zeller - e muitas outras semelhantes «modernizações».

O que não surpreende, sabendo-se que a «modernização» é a pedra de toque da vida, da acção, da prática, da postura do actual primeiro-ministro - e de tal forma assim é que bem pode dizer-se que, ao contrário dos simples mortais que nasceram de parto, José Sócrates chegou de e-mail...

POEMA

DISCURSO TARDIO
À MEMÓRIA DE JOSÉ DIAS COELHO



Éramos jovens, falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
onde começa o verão; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
do ventre, espaço denso, redondo, maduro,

dizias: espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave -
repara como voa, e poisa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela não a tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina, ou José - o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida pela brisa?


Eugénio de Andrade
(«Epitáfios» - 1949-1979)

HOMEM DE PALAVRA...

Num breve resumo da história dos «governos minoritários» desde 1976, o Diário de Notícias diz, a dada altura: « Foi Mário Soares quem primeiro tentou levar um executivo minoritário a bom termo. Tendo o PS vencido as eleições de 1976 (37,9 %) cumpriu a promessa de um Governo "só, só, só PS"».

Ora, se a primeira parte da afirmação (que, aliás, não tem qualquer relevância) é verdadeira, o mesmo não se pode dizer da segunda parte.
Pôr alguns pontos nalguns is, torna-se, por isso, necessário - sem a mínima ilusão de que a voz do Cravo de Abril possa chegar onde chegam as vozes que escrevem a história do poder dominante; mas com a consciência de que, mesmo assim, vale a pena ir relembrando aspectos da história desse tempo, desse primeiro Governo Soares/PS e do papel por ele desempenhado no processo de liquidação da Revolução de Abril.


Recordemos, então, os factos: durante a campanha eleitoral de 1976, Mário Soares expressou repetidamente o seu objectivo e a sua convicção de que o PS iria alcançar «entre 40 e 42 % dos votos (...) o que permitirá obter a maioria absoluta na Assembleia da República e formar sozinho o governo».
E tão certo estava de que assim seria que ousou, mesmo, afirmar: «se o PS tiver uma votação menor do que aquela que teve nas últimas eleições, portanto se ficar abaixo dos 38%, nós consideramos que o povo português não nos quer dar um mandato para governarmos».

Contados os votos, constatou-se que o povo português não queria dar ao PS um mandato para governar.
Com efeito, em relação às eleições anteriores, o PS perdeu quase 300 mil votos e desceu de 38% para 34,9% (não 37,9% como, certamente por lapso, diz o DN)

E também ao contrário do que diz o DN, Soares não cumpriu promessa nenhuma: dando o dito por não dito - matéria em que é, desde há muito, o maior especialista nacional - formou governo: rejeitando as insistentes propostas do PCP para a formação de um governo de esquerda, avançou para a formação de um Governo... «só, só, só PS», como diz o DN?
Não: um Governo dito do PS sozinho, mas, de facto, aliado à direita.
(Recorde-se que Soares não se cansava de dizer que o PCP não era um partido «democrático» e que «democráticos», isso sim e de primeira, eram o PPD e o CDS...)


Foi esse Governo PS/Soares aliado à direita que iniciou a brutal ofensiva contra os direitos dos trabalhadores; contra a Reforma Agrária e as Nacionalizações; contra a Constituição da República aprovada meses antes; contra a Revolução de Abril.
Foi esse Governo PS/Soares aliado à direita que iniciou a política de recuperação capitalista, imperialista e latifundista e que iniciou a entrega da independência nacional ao imperialismo.
Foi esse Governo PS/Mário Soares aliado à direita que iniciou a política de direita desde então levada à prática por todos os seus sucessores (Balsemão/Freitas, Cavaco, Guterres, Barroso/Santana, Sócrates).

E foi assim que Soares - homem de palavra... - «cumpriu a promessa de um Governo "só, só, só PS"»...

POEMA

CASA NA CHUVA


A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei porque voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.


Eugénio de Andrade
(«Escrita da Terra» - 1971-1975)

ELES ANDAM POR AÍ...

Dizem as notícias que corre por aí uma «petição» com o objectivo de «restituir à Ponte 25 de Abril o nome de Salazar» e que, entre os subscritores da dita, há muitos «nomes de família: Media, D'Orey, Mello, Roquette, Van Zeller»...
Não há razão para surpresas: se não estou em erro, esta é a segunda ou terceira tentativa visando esse objectivo (e, certamente, não será a última), e os «nomes de família» também não são novidade...

Estas arremetidas fascistóides têm vindo a suceder-se, nos últimos anos, a um ritmo intenso e crescente.
Pode dizer-se que elas tiveram início logo a seguir ao 25 de Abril e beneficiaram, desde então, de estímulos e incitamentos vários.
Recorde-se, por exemplo, que ex-ministros fascistas foram chamados a integrar governos do PS; que torcionários da PIDE foram condecorados por bons serviços prestados à Pátria e premiados com chorudas «indemnizações» - isto para além das manifestações fascistas, da provocação do «museu Salazar» em Santa Comba Dão, etc, etc.

Na situação actual, estas arremetidas têm como pano de fundo e suporte básico três factores essenciais:
1 - a operação de branqueamento do fascismo levada a cabo pela turba canora de historiadores do sistema - os quais, habitando áreas politico-ideológicas que vão da direita assumida à dita «esquerda», não se cansam de demonstrar todos os dias que em Portugal não existiu fascismo...

2 - a poderosa ofensiva anticomunista e, nesta, a linha de propaganda provocatória que equipara fascismo e comunismo - uma linha que, nos seus desenvolvimentos naturais, confirma que o anticomunismo é sempre antidemocrático e, por isso mesmo, constitui alimento precioso para as forças reaccionárias e fascistas.

3 - a política de direita praticada há 33 anos por PS/PSD/CDS-PP, política contra Abril, as suas conquistas transformadoras, os seus ideais libertadores; política que tem como preocupação exclusiva servir os interesses do grande capital, os interesses das tais cem famílias do antigamente, que detêm mais de 1/5 da riqueza nacional - e que assinam a petição para que a Ponte 25 de Abril passe a ter o nome do sanguinário ditador fascista...


Cuidado! Eles andam por aí!

POEMA

NOCTURNO A DUAS VOZES


- Que posso eu fazer
senão beber-te os olhos
enquanto a noite
não cessa de crescer?

- Repara como sou jovem,
como nada em mim
encontrou o seu cume,
como nenhuma ave
poisou ainda nos meus ramos,
e amo-te,
bosque, mar, constelação.

- Não tenhas medo:
nenhum rumor,
mesmo o do teu coração,
anunciará a morte;
a morte
vem sempre de outra maneira,
alheia
aos longos, brancos
corredores da madrugada.

- Não é de medo
que tremem os meus lábios,
tremo por um fruto de lume
e solidão
que é todo o oiro dos teus olhos,
toda a luz
que meus dedos têm
para colher na noite.

- Vê como brilha
a estrela da manhã,
como a terra
é só um cheiro de eucaliptos,
e um rumor de água
vem no vento.

- Tu és a água, a terra, o vento,
a estrela da manhã és tu ainda.

- Cala-te, as palavras doem.
Como dói um barco,
como dói um pássaro
ferido
no limiar do dia.
Amo-te.
Amo-te para que subas comigo
à mais alta torre,
para que tudo em ti
seja verão, dunas e mar.


Eugénio de Andrade
(«Ostinato Rigore» - 1963-1965)

AGUARDEMOS

A primeira página do Sol diz-nos que um arguido do caso Freeport declarou que um responsável político recebeu 750 mil euros de luvas a troco da aprovação do projecto.
Em página interior, o Sol diz-nos que administradores da Freeport confirmam esse pagamento.

Assim sendo, só falta, agora, julgar e (comprovando-se os factos) condenar o recebedor e o pagador - o que parece ser coisa fácil e de rápida resolução.


A não ser que haja atrasos no processo - porque, se assim for, um dia destes seremos informados de que o processo foi «arquivado»...

Aguardemos.

POEMA

NATUREZA-MORTA COM FRUTOS


1.
O sangue matinal das framboesas
escolhe a brancura do linho para amar.

2.
A manhã cheia de brilhos e doçura
debruça o rosto puro na maçã.

3.
Na laranja o sol e a lua
dormem de mãos dadas.

4.
Cada bago de uva sabe de cor
o nome dos dias todos do verão.

5.
Nas romãs eu amo
o repouso no coração do lume.


Eugénio de Andrade
(Ostinato Rigore» - 1963-1965)

A FRASE DO DIA

Lendo a longa entrevista de José Rodrigues dos Santos (JRS) à Visão, deparei com um elevadíssimo número de afirmações dignas, todas elas, de serem eleitas «frase do dia».
O tema da entrevista foi o novo livro de JRS - «Fúria Divina» - que será apresentado ao público no próximo sábado.

Diz quem já leu, que o romance gira em torno da velha «ambição islâmica de recuperar o AL-Andaluz (sul de Portugal e Espanha), que já foi árabe há muitos séculos» - «ambição» que leva os «islâmicos» a construir uma bomba atómica, não percebi bem para quê, mas que pelos vistos é coisa fácil de construir, como o próprio JRS ensina na referida entrevista.

As preocupações de rigor do romancista levaram-no a contratar um especialista na matéria romanceada - um «consultor» - de seu nome Abdullah Yusuf.
Este «consultor» de JRS é pessoa brutamente credenciada e com currículo invejável, como o atesta o facto de ser ex-membro da Al Qaeda, e de, ao serviço dessa organização, ter planeado, mesmo, um atentado terrorista - não se percebendo por que razão o referido «consultor» não só não está em Guantánamo... como estará em Lisboa, no próximo sábado, onde será o «apresentador do romance» de JRS...

Mas voltemos à «frase do dia».
Depois de aturados esforços, optei por esta - que aqui vos deixo, sem comentários:

«O romance não exprime a minha opinião sobre nada. O que temos são personagens a interpretarem opiniões».

POEMA

VARIAÇÕES EM TOM MENOR


Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.

Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
te queria para ser
canção breve, chama pura.


Eugénio de Andrade
(«Mar de Setembro» - 1959-1963

POBREZA E MAIS POBREZA...

A Amnistia Internacional/Portugal e a Rede Europeia Antipobreza, em conjunto, realizaram um inquérito sobre a pobreza em Portugal.
Os resultados obtidos não surpreendem: a maioria dos inquiridos diz que a situação piorou nos últimos cinco anos, que irá continuar a piorar e que são poucas, ou nenhumas, as esperanças de melhorar.
Quanto às causas da pobreza, a maioria dos inquiridos situa-as no emprego - e, presumo, nos salários, já que a pobreza, hoje, atinge milhares e milhares de pessoas que, tendo emprego, ganham salários de... pobreza.

Quanto à questão essencial - a de saber quem é que tem a responsabilidade e a obrigação de resolver o problema da pobreza - a mesma maioria dos inquiridos respondeu que é o Governo.

Quanto a essa questão essencial, a opinião dos promotores do inquérito é diferente da dos inquiridos: pensam os inquiridores que atribuir tal responsabilidade ao Governo «pode sugerir que existe uma demissão colectiva dos cidadãos em relação à sua directa responsabilidade», coisa que, dizem, configuraria uma «ausência de vontade de participação cívica» que «poderá constituir um dos principais e mais fortes impedimentos ao combate à pobreza».

Ora, esta ideia de assacar responsabilidades a uma indefinida «ausência de participação cívica», cheira-me a paleio que mais não visa do que aliviar de responsabilidades aquele que é o verdadeiro e principal responsável, ou seja, o Governo que, com a sua política de direita, espalha pobreza por todo o lado.
Por este caminho, um dia destes ainda vamos ler por aí que os os responsáveis pela pobreza são... os pobres.

POEMA

PEQUENA ELEGIA DE SETEMBRO


Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos poisados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade
(«Coração do Dia» - 1956-1958)

ALBA

Criada em 2004, em Havana, por Cuba e pela Venezuela - e hoje integrando nove países - a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) constitui o mais original e revolucionário processo de integração económica, política, social e cultural dos tempos actuais.
Trata-se de uma aliança dos povos e para os povos - precisamente o oposto do que é, por exemplo e para não irmos mais longe, a União Europeia, união do grande capital contra os povos.

De entre os relevantes êxitos alcançados nestes primeiros quatro/cinco anos - traduzidos numa cooperação sem precedentes, em todas as áreas, entre os países que a integram - a ALBA é responsável pelos maiores avanços de sempre, na América Latina, em matéria de Saúde e de Educação: mais de três milhões e meio de latino americanos aprenderam a ler e escrever; muitos mais milhões de pessoas passaram a ter acesso a serviços de saúde e, pela primeira vez nas suas vidas, viram um médico; com a Operação Milagro, cerca de dois milhões de cidadãos aprenderam... a ver.

É claro que estes são exemplos intoleráveis para o imperialismo norte-americano, exemplos que é preciso aniquilar rápida e implacavelmente.

Foi nesse sentido, como estamos lembrados, que o Governo de Bush tomou as medidas que tomou.
Foi nesse mesmo sentido, como estamos a ver, que o Governo de Obama, alargou, aprofundou e intensificou essas medidas.
Exemplificando: Bush deu a medalha da liberdade ao narco-fascista Uribe; Obama vai instalar sete bases militares na Colômbia, de forma a fazer daquele país uma base de ataque aos países que têm vindo a libertar-se da garra imperialista - que são, está-se mesmo a ver, os países que integram a ALBA...
E é ainda nesse sentido que age o rebanho de mercenários contratados pelos EUA: mercenários operacionais, como são os governantes tipo Uribe, Micheletti, etc; e os propagandistas mercenários que, espalhados aos milhares por jornais, rádios, televisões (e internet...), diabolizam os dirigentes dos países da Alba e difundem a imagem santificada do império criminoso, explorador, opressor e belicista. O império que tem como chefe máximo, nem mais nem menos do que o Prémio Nobel da Paz - um prémio flagrantemente deslocado e injustificado, mas que poderia justificar-se se, por exemplo, Obama ouvisse as certeiras e sensatas palavras proferidas pelo Presidente Evo Morales na recente VII Cimeira da ALBA:
«Se o Presidente Obama quer justifica o Nobel da Paz, tem três tarefas a desempenhar: levantar o bloqueio económico a Cuba; retirar as tropas do Afeganistão e do Iraque e as bases militares da América Latina e do mundo; devolver a democracia às Honduras»

Só que o negócio do Nobel da Paz é a guerra...

POEMA

CANÇÃO


Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da madrugada.

Tu eras água.
Água do mar se te beijava.
Alta torre, alma, navio,
adeus que não começa nem acaba.

Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.

Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.


Eugénio de Andrade
(«Até Amanhã» - 1951-1956)

«O MAIS TEMÍVEL PROJÉCTIL»

José Sócrates foi entrevistado pela Visão.
A dada altura, foi-lhe perguntado:
«Com esta crise internacional na economia, sentiu necessidade de ler Marx?»

Sócrates, assustado e irritado, respondeu:
«Marx? Era o que faltava!... Não. Já li Marx há muito tempo. E as críticas a Marx. Não conheço em pormenor a sua obra, mas tenho uma opinião muito crítica sobre o determinismo histórico».

O tom e o conteúdo desta resposta permitem concluir que, verdade, verdade, Sócrates não leu nada da obra de Marx...
Mas sabe - porque lhe disseram - que se trata de uma obra... do diabo, uma obra que, mal nasceu, pôs o capitalismo a tremer - uma tremideira tal que já lá vão mais de 160 anos e ainda não parou...
E Sócrates tem medo. Um medo que disfarça fingindo que está a atacar a obra de Marx, quando, na realidade, o que está é a defender-se dela.
Assim confirmando, sem o saber, que O Capital «foi o mais temível projéctil jamais lançado à cabeça dos burgueses e dos proprietários fundiários» - que o mesmo é dizer dos patrões de Sócrates...

POEMA

VEGETAL E SÓ


É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
febril de tantos lábios,
sem nenhum rumor de lágrimas
nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como um rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.


Eugénio de Andrade
(«As Palavras Interditas» - 1950-1951)