Tenho medo de perder a maravilha
Tenho medo de perder a maravilha
de teus olhos de estátua e aquele acento
que de noite me imprime em plena face
de teu alento a solitária rosa.
Tenho pena de ser nesta ribeira
tronco sem ramos; e o que mais eu sinto
é não ter a flor, polpa, ou argila
para o gusano do meu sofrimento.
Se és o tesouro meu que oculto tenho
se és minha cruz e minha dor molhada,
se de teu senhorio sou o cão,
não me deixes perder o que ganhei
e as águas decora de teu rio
com as folhas do meu outono esquivo.
Federico García Lorca
CAMARADA
O
camarada é o companheiro de luta - da luta de todos os dias, à qual dá o
conteúdo de futuro, transformador e revolucionário que está na razão da
existência de qualquer partido comunista.
O
camarada é aquele que, na base de uma específica e concreta opção
política, ideológica, de classe, tomou partido - e que sabe que o seu
lugar é o do seu partido, que a sua ideologia é a da classe pela qual
optou.
O
camarada é aquele com cujo apoio solidário contamos em todos os
momentos - seja qual for o ponto da trincheira que ocupemos e sejam
quais forem as dificuldades e os perigos com que deparamos.
O
camarada é aquele que nos ajuda a superar as falhas e os erros
individuais - criticando-nos com uma severidade do tamanho da
fraternidade contida nessa crítica.
O
camarada é aquele que, olhando à sua volta, não vê espelhos... vê o
colectivo - e sabe que, sem ter perdido a sua individualidade, integra
uma outra nova e criativa individualidade, soma de múltiplas
individualidades.
O
camarada é aquele que, vendo a sua opinião minoritária ou isolada, mas
julgando-a certa, não desiste de lutar por ela - e que trava essa luta
no espaço exacto em que ela deve ser travada: o espaço democrático,
amplo, fraterno e solidário, da camaradagem.
O
camarada é aquele que, tão naturalmente como respira, faz da
fraternidade um caminho, uma maneira de ser e de estar - e que, por isso
mesmo, não necessita de a apregoar e jamais a invoca em vão.
O
camarada é aquele que olhamos nos olhos sabendo, de antemão, que lá
iremos encontrar solicitude, camaradagem, lealdade - e sabemos que esse
olhar é uma fonte de força revolucionária.
O camarada é aquele a cuja porta não necessitamos de bater - porque a sabemos sempre aberta à camaradagem.
O
camarada é aquele que jamais hesita entre o amigo e o inimigo - seja
qual for a situação, seja qual for o erro cometido pelo amigo, seja qual
for a razão do inimigo.
O
camarada é o que traz consigo, sempre, a palavra amiga, a voz fraterna,
o sorriso solidário - e que sabe que a amizade, a fraternidade, a
solidariedade, são valores humanos intrínsecos ao ideal comunista.
O
camarada é aquele que é revolucionário - e que não desiste de o ser
mesmo que todos os dias lhe digam que o tempo que vivemos é coveiro das
revoluções.
Camarada é uma palavra bonita - é uma palavra colectiva: é tu, eu, nós: é o Partido. O nosso. O Partido Comunista Português.
José Casanova
Camarada é uma palavra bonita - é uma palavra colectiva: é tu, eu, nós: é o Partido. O nosso. O Partido Comunista Português.
José Casanova
in Avante!, 20.6.2002
POEMA
AMIGO
Mal nos conhecemos
inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão.
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill
Mal nos conhecemos
inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão.
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill
Hay un almanaque lleno de 26
¿Cuestión de julios?
Más o menos siempre es julio.
¿Cuestión de hombres más o menos?
Por ahí andan.
¿Cuestión de decisiones?
Más o menos, casualmente,
momento más ser humano suman 26.
¿Cuestión de seres superiores?
No lo creo.
¿Cuestión de hombres con “H” grande?
Eso sí.
Si le cupiera más de un corazón
a un ser humano,
cada de uno de ellos
tuvo de seguro 26.
Amanece,
y a cualquier hora se siente,
pero ahora está amaneciendo.
¿Cuestión de esquemas y valores?
No lo dudo.
¿Cuestión de haber nacido a tiempo?
Puede ser.
¿Cuestión de mostrarse similares?
Siempre hay tiempo:
hay un almanaque lleno de días 26.
Amanece.
Noel Nicola (1968)
RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA
Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.
Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.
Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.
Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.
José Carlos Ary dos Santos
13 de Fevereiro de 1928
19 de Maio de 1954
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.
Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.
Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.
José Carlos Ary dos Santos
13 de Fevereiro de 1928
19 de Maio de 1954
Meus Irmãos...
Meus irmãos
É preciso atrelar os nossos poemas
à charrua do boi magro
É preciso que este se enterre até aos joelhos
na vaza dos arrozais
É preciso que eles façam todas as perguntas
É preciso que recolham toda a luz
É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos
balizem as estradas
É preciso que sejam o sinal a anunciar a aproximação do adversário
É preciso que batam tambor na selva
É preciso atrelar os nossos poemas
à charrua do boi magro
É preciso que este se enterre até aos joelhos
na vaza dos arrozais
É preciso que eles façam todas as perguntas
É preciso que recolham toda a luz
É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos
balizem as estradas
É preciso que sejam o sinal a anunciar a aproximação do adversário
É preciso que batam tambor na selva
E enquanto na terra houver um único país ou um único homem escravo
E enquanto no céu restar nem que seja uma única nuvem atómica
É preciso que os nossos poemas dêem tudo por tudo, corpo e alma para a grande liberdade.
Nazim Hikmet
E enquanto no céu restar nem que seja uma única nuvem atómica
É preciso que os nossos poemas dêem tudo por tudo, corpo e alma para a grande liberdade.
Nazim Hikmet
TOMAR PARTIDO
Tomar partido é irmos à raiz
do campo aceso da fraternidade
pois a razão dos pobres não se diz
mas conquista-se a golpes de vontade.
Cantaremos a força de um país
que pode ser a pátria da verdade
e a palavra mais alta que se diz
é a linda palavra liberdade.
Tomar partido é sermos como somos
é tirarmos de tudo quanto fomos
um exemplo um pássaro uma flor.
Tomar partido é ter inteligência
é sabermos em alma e consciência
que o Partido que temos é melhor.
Ary dos Santos
que pode ser a pátria da verdade
e a palavra mais alta que se diz
é a linda palavra liberdade.
Tomar partido é sermos como somos
é tirarmos de tudo quanto fomos
um exemplo um pássaro uma flor.
Tomar partido é ter inteligência
é sabermos em alma e consciência
que o Partido que temos é melhor.
Ary dos Santos
Memória
"Conhecer-te foi a maior felicidade da minha vida... podes crer, eu esperava por ti, sabia que, em qualquer parte do mundo, tu existias... e foi bom ver-te chegar, com a tua amizade total, com o teu riso aberto, com os teus livros dentro da camisa, com a tua timidez exposta, com as tuas convicções fortes, com essa força interior que conforta todos os que te conhecem.
Quando te vi chegar, soube que tinha chegado o meu amigo, aquele em quem eu confio mais do que em mim próprio, a quem confidenciarei tudo o que jamais direi seja a quem for...
Interrompe-o Francisco, procurando disfarçar a comoção: Se continuas assim, fazes-me chorar. Vasco põe um sorriso terno: Chora, então, porque eu vou continuar..."
O Caminho das Aves, de José Casanova
POEMA
OS MENINOS NASCEM
Vós podeis, tiranos, forjar ainda mais sólidas algemas,
chapear de aço as paredes das nossas e vossas cadeias,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, cravar mais fundo as vossas baionetas,
esmagar-nos nas ruas debaixo das patas dos vossos cavalos,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, roubar, incendiar, fuzilar sem descanso,
vedar os caminhos ainda livres, envenenar as fontes ainda puras,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, vir de novo descarregar a vossa cólera
sobre Oradour,
lançar vossa chuva de raios sobre nosso humano desejo de viver,
e fazê-lo-eis,
Vós podeis, tiranos, inventar ainda piores suplícios,
mordaças mais espessas, baixezas mil vezes mais desumanas
para Buchenwald,
inutilmente o fareis:
Esta simples criancinha dormindo em seu berço,
este menino ainda na barriga de sua mãe, olhai
como vos fitam
serenos e terríveis.
Papiniano Carlos
(publicado por Fernando Samuel em 7.11.2008)
RELEMBRAR O NOSSO CAMARADA AURÉLIO SANTOS
- Edição Nº 1862 - 6-8-2009 - Avante
Aurélio Santos
Alianças à esquerda – porque não?
No
momento político português é inevitável constatar que reclamações
(designadamente ao PCP) de integrar uma «nova
política de alianças», mantêm um silêncio pudicamente discreto sobre
quais as bases em que essas alianças poderão estabelecer-se.
Verifica-se infelizmente a olho nu que muitos dos que falam da necessidade (real) de uma «convergência da esquerda» não têm sido capazes de avançar ideias sobre o conteúdo político das alianças a prosseguir, nem sobre as causas da tão referida (e real) «crise da esquerda».
Do que se trata, então? Procurar uma política que permita novas alianças ou enveredar por alianças políticas sem base em princípios? Ou seja: visando apenas encontrar lugar marginal no aparelho de um poder sem princípios, tão capaz de servir os mesmos interesses, de uma direita «pura e dura» ou uma direita «moderada», de acordo com as conjunturas?
Para nosso mal, tem acontecido entre nós essa falsa «alternidade» duma mesma política, que erradamente se etiquetou também de «bipolarização».
Tiremos-lhe o «bi», que não faz mal a ninguém e só se presta a confusões ideológicas.
Há de facto uma polarização de interesses económicos em torno do PS e do PSD, os dois partidos capazes de seduzir por obediência canina a atenção do grande capital. Este tem sido um dos principais factores de instabilidade e da crise da democracia (e da esqquerda) nos países em que uma falsa e falseadora «bipolarização» se impôs.
Não será isso que leva também ao descrédito da democracia, quando reduzida a ilusionismo de ludíbrio cada vez mais mediático, em que o jogo das etiquetas no mesmo modelo tenta substituir a definição clara de princípios e de políticas - ou por que não: de políticas com princípios?
Sem ideias ou propostas concretas, sem princípios claros de orientação política, que razões poderiam levar o PCP a entregar o seu património (aliás único no quadro partidário português) e que constitui parte essencial do próprio património da esquerda, fundamental para o futuro dessa esquerda, em troco de uma qualquer participação em um jogo de vista curta?
SERENATA DA FIDELIDADE
Foi a noite passada, no Teatro Karl Marx, em Havana, na Serenata da FIDELidade - espectáculo organizado pela Fundação que tem o nome do grande pintor equatoriano Oswaldo Guayasamin.
Falando em nome da família de Guaysamin, Alfredo Vara, o organizador do espectáculo, disse que «esta Serenata da FIDELidade não é só uma homenagem a um ser humano que reúne notáveis virtudes e valores; é fundamentalmente um acto de gratidão, de reconhecimento, ao líder vitorioso - ao Irmão da Humanidade, ao Eterno Comandante - e um tributo, através da sua pessoa, ao heróico povo de Cuba e à Revolução Cubana».
Na verdade, ninguém mais apropriado do que Fidel para ser o portador de tal mensagem ao povo cubano.
De Moncada à entrada vitoriosa em Havana; da assumpção do carácter socialista da Revolução à resistência heróica face ao criminoso bloqueio decretado pelo imperialismo norte-americano - sempre, sempre com uma postura de exemplar solidariedade internacionalista - a sua vida e a sua acção marcam impressivamente a história da luta libertadora não apenas do povo de Cuba, mas também dos trabalhadores e povos de todo o mundo.
O nome de FIDEL ficará, para sempre, como um dos maiores na história do movimento revolucionário mundial do século XX.
Publicado por Fernando Samuel em 13.8.2011
Provavelmente
Provavelmente
não terei a força, o verbo, o tamanho para falar duma revolução
que rebentou no coração daqueles que, desde o primeiro vagido, a desejaram.
Provavelmente
esquecerei nomes, trocarei datas, falarei dos heróis que o não foram
e dos cobardes que tiveram a coragem de não puxar gatilhos,
de permanecerem poetas e não matarem
ainda que com essa negação da morte ficassem
com os corpos presos, que a alma não.
Provavelmente
louvarei demasiado os que me são queridos, cantarei as paisagens
onde nasci e chegarei mesmo ao despudor de gritar
que o Alentejo é o mais lindo país do mundo,
que uma papoila vermelha floresce diariamente
nos dedos dos que trabalham a terra.
Provavelmente
deixarei nas margens deste recado essoutros que em Marços
e Setembros saíram para a rua agarrados à estrela da manhã
para com ela (somente com ela) defenderem a liberdade.
Provavelmente
não saberei pronunciar os nomes das crianças
que num mês de Abril inventaram novos símbolos,
debruaram de cravos as redacções escolares, as paredes dos jardins,
os troncos dos abetos, e inundaram com as aguarelas da ternura
os olhos dos homens cansados.
Provavelmente
e porque não? direi que vi soldados vestindo a farda que o povo usa,
essa camisa lavada e branca dos nossos irmãos operários,
camponeses, trabalhadores de todos os misteres.
Provavelmente
trocarei as notas à melodia que semeou o luar, desvirtuarei
a cor da baioneta que defendeu o sol, não saberei agarrar
o espanto das mãos que seguravam o vento como quem
agarra essas bandeiras de carne a que chamamos filhos.
Provavelmente
não citarei nomes de capitães, dragonas de almirantes,
siglas dos partidos, as multidões dos comícios, as cores
dos panfletos, o eco dos gritos que rebentaram a veia tensa
deste quase meio século que sufocou o pulmão
da nossa Pátria sempre adiada.
Provavelmente
só vos falarei dum Homem com rosto de homem, palavra
de homem, o gesto simples do Homem simples e sincero
que todos esperámos na lonjura da esperança,
como o Criador esperou o nascimento do mundo.
Provavelmente
escreverei: Vasco Gonçalves.
Provavelmente
acrescentarei: - Por aqui passou um Homem!
Eduardo Olímpio
(Fevereiro de 1976)
ATÉ SEMPRE CAMARADA MIGUEL URBANO RODRIGUES
Há homens que lutam um dia e são bons,
há outros que lutam um ano e são melhores,
há os que lutam muitos anos e são muito bons.
Mas há os que lutam toda a vida e estes são os imprescindíveis.
(B. Brecht)
LÍDER HISTÓRICO DO PCP GARANTE QUE PARTIDO NÃO SERVIRÁ DE SUPORTE AOS SOCIALISTAS: Álvaro Cunhal acusa PS de se distinguir de PSD pela «forma mais subtil de mentir»
(Notícia publicada a 07 de Março de 2001 no Jornal Público)
Álvaro Cunhal rejeitou esta noite, em entrevista à RTP, que o PCP possa vir a ser uma "peça de suporte do PS", acusando os socialistas de se distinguirem dos sociais-democratas pela "forma mais subtil de mentir".
O líder histórico dos comunistas portugueses garantiu que "o PCP não quer ser, nem será, uma peça de suporte do PS". Cunhal lamentou ainda a "perversão e degradação actual da democracia política", criticando a lei eleitoral para as autarquias e a lei de financiamento dos partidos.Rejeitando a figura de mito do PCP, Cunhal fez questão de salientar que a sua contribuição "foi sempre inserida no colectivo do partido" e que "o PCP teve muitos outros militantes de grande mérito", nomeadamente os primeiros dirigentes Bento Gonçalves e Alfredo Dinis.
"O 25 de Abril, a resistência à contra-revolução e depois a resistência à perversão da democracia" foram referidos pelo líder histórico comunista como os motivos de maior orgulho enquanto esteve à frente do PCP.
Cunhal afirmou ainda que continua a acreditar que a "criação de uma sociedade nova e socialista" é possível hoje como era há 80 anos, quando o PCP foi fundado.
In:
https://www.publico.pt/2001/03/07/politica/noticia/cunhal-acusa-ps-de-se-distinguir-de-psd-pela-forma-mais-subtil-de-mentir-13608
1º de Maio
Todos
que marchais pelas ruas
e deteis as máquinas e as fábricas,
todos
desejosos de chegar a nossa festa
com as costas marcadas pelo trabalho,
saí a 1º de Maio,
o primeiro dos dias.
Recebê-lo-emos, camaradas,
com a voz entrecortada de canções.
Primavera,
derretei a neve.
Eu sou operário,
este dia é meu.
Eu sou camponês,
este dia é meu.
Todos,
estendidos nas trincheiras
esperando a morte infinita,
todos
os que num carro blindado
atiram contra seus irmãos,
escutai:
Hoje é 1º de Maio.
Partamos ao encontro
do primeiro dos nossos dias,
enlaçando as mãos proletárias.
Calai vossos morteiros!
Silêncio, metralhadoras!
Eu sou soldado,
este dia é meu.
Todos,
das casas,
das praças,
das ruas,
encolhidos pelo gelo invernal,
todos
torturados de fome,
das estepes,
dos bosques,
dos campos,
saí neste 1º de Maio!
Glória à gente fecunda!
Desabrochai, primavera!
Verde campos, cantai!
Soai sirenes e apitos!
Eu sou de ferro,
este dia é meu.
Eu sou a terra,
este dia é meu!
Mayakovsky
que marchais pelas ruas
e deteis as máquinas e as fábricas,
todos
desejosos de chegar a nossa festa
com as costas marcadas pelo trabalho,
saí a 1º de Maio,
o primeiro dos dias.
Recebê-lo-emos, camaradas,
com a voz entrecortada de canções.
Primavera,
derretei a neve.
Eu sou operário,
este dia é meu.
Eu sou camponês,
este dia é meu.
Todos,
estendidos nas trincheiras
esperando a morte infinita,
todos
os que num carro blindado
atiram contra seus irmãos,
escutai:
Hoje é 1º de Maio.
Partamos ao encontro
do primeiro dos nossos dias,
enlaçando as mãos proletárias.
Calai vossos morteiros!
Silêncio, metralhadoras!
Eu sou soldado,
este dia é meu.
Todos,
das casas,
das praças,
das ruas,
encolhidos pelo gelo invernal,
todos
torturados de fome,
das estepes,
dos bosques,
dos campos,
saí neste 1º de Maio!
Glória à gente fecunda!
Desabrochai, primavera!
Verde campos, cantai!
Soai sirenes e apitos!
Eu sou de ferro,
este dia é meu.
Eu sou a terra,
este dia é meu!
Mayakovsky
A TESE HÍBRIDA
Por Catarina Casanova

“Por isso, quando a pequena burguesia (pela voz dos seus intelectuais radicalizados) se afirma anti-capitalista e socialista, imagina um novo modelo de <socialismo>, um socialismo sem o papel dirigente da classe operária, um socialismo em que ela, a pequena burguesia, possa sobreviver como classe, um socialismo à sua própria imagem...”.
“Por isso, quando a pequena burguesia (pela voz dos seus intelectuais radicalizados) se afirma anti-capitalista e socialista, imagina um novo modelo de <socialismo>, um socialismo sem o papel dirigente da classe operária, um socialismo em que ela, a pequena burguesia, possa sobreviver como classe, um socialismo à sua própria imagem...”.
(Álvaro Cunhal, in Radicalismo Pequeno-Burguês de
Fachada Socialista, 1971)
Em 1940, Mao-Tse Tung teorizou
sobre a “nova democracia” na China, dizendo que esta seria uma forma
original de organização social e política na etapa da revolução democrática.
Essa “nova democracia”
caracterizava-se por ser um regime nacional com carácter transitório, em que o
poder seria exercido “por diversas
classes revolucionárias” (Mao-Tse Tung, 1940).
Esta tese continuou (e continua) a ter apoios em muitos partidos que se
dizem comunistas. Em Itália, no PCI o conceito de “democracia progressiva” aparece com Togliatti e é desenvolvido
posteriormente por Berlinguer defendendo-se uma espécie de evolução gradual do
capitalismo para o socialismo. Por sua vez, em França, o PCF[1]
no seu manifesto intitulado «Por uma democracia avançada, por uma França
socialista» (1968), também
conhecido por “Manifesto de Champigny”, defende que a classe operária deve ser aliada de
“outras camadas sociais não capitalistas” e
menciona que “através de múltiplas acções
de massas da classe operária e das mais largas camadas populares que a relação
de forças sociais e políticas poderá́ ser modificada a favor da democracia e do
socialismo” (“Por uma Democracia Avançada, Por uma França Socialista”,
1968).
Esta tese de maoístas e eurocomunistas revê aspectos essenciais da teoria
marxista. Marx e Engels (1848) tinham referido no
“Manifesto do Partido Comunista” que: “Os estados médios [Mittelstände]
— o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês —, todos
eles combatem a burguesia para assegurar, face ao declínio, a sua existência
como estados médios. Não são, pois, revolucionários, mas conservadores. Mais
ainda, são reaccionários, procuram fazer andar para trás a roda da história. Se
são revolucionários, são-no apenas à luz da sua iminente passagem para o
proletariado, e assim não defendem os seus interesses presentes, mas os
futuros, e assim abandonam a sua posição própria para se colocarem na do
proletariado” (op. cit.).
Será que algo se passou entre a publicação do “Manifesto
do Partido Comunista" e estas
revisões?
Parece-nos que não: a estrutura do modo de produção
não se alterou, as relações de produção mantiveram-se, a dinâmica de
proletarização da pequena burguesia não desapareceu e portanto a sua luta só
pode ser para “assegurar, face ao
declínio, a sua existência como estados médios” (op. cit.).
Parece continuar a ter toda a validade a tese do
VI Congresso da Internacional Comunista que afirma que na actual fase de
desenvolvimento do sistema capitalista o imperialismo gera instabilidade nas
relações capitalistas (desde logo com choques inter-imperialistas), uma massa
de “elementos sociais desclassificados”
oriundos “das massas pequeno-burguesas, dos intelectuais e
doutros meios sociais”,
inclusivamente d“os meios operários, onde
recruta os elementos mais atrasados” são a base de massas de políticas
reacionárias e, se necessário, do próprio fascismo (Programa da Internacional
Comunista adoptado pelo VI Congresso Mundial, 1928).
Não há qualquer papel revolucionário
a esperar por parte das classes intermédias na sociedade capitalista (ou ditadura
da burguesia), como aliás vem
sendo verificado desde o “Manifesto do Partido Comunista” (1848), e como a
Internacional Comunista, no seu tempo, voltou a confirmar.
Deste modo, todas as teses sobre uma tomada de poder conjunta entre
proletariado e sectores intermédios carecem de qualquer validade do ponto de
vista não apenas teórico mas também da prática histórica[2].
Sem visitar o caso extremo em que os sectores intermédios foram bases de
massas do fascismo, no caso português podemos atentar no comportamento das
classes intermédias durante o período revolucionário de 74/75 e do seu partido
de classe: o PS.
É certo que em determinadas circunstâncias as classes intermédias puderam
apoiar reivindicações democráticas, sobretudo à medida que o aprofundamento da
exploração e opressão dos trabalhadores comprometia as suas liberdades individuais. Contudo, a luta pela democracia pode muito facilmente nada ter a ver com a luta
pelo socialismo (recordamos mais uma vez o exemplo português com a atitude
do PS e do recentemente falecido Mário Soares). Há quem repita insistentemente
sobre a existência de uma conhecida tese marxista-leninista que considera a luta pela
democracia e pelo socialismo inseparáveis[3].
Em primeiro lugar trata-se de uma afirmação redundante. Em segundo lugar, de acordo
com Lenine (1915), enquanto existir capitalismo todas as conquistas
democráticas serão sempre incompletas e deformadas – competindo aos comunistas – apoiando-se na
democracia já existente – desmascarar o seu carácter incompleto e afirmando que
a “base necessária tanto para liquidar a miséria das
massas como para a completa e integral
realização de todas as transformações
democráticas” será “o
derrubamento do capitalismo, a expropriação da burguesia” (Lenine 1915). Faça-se notar que Lenine se refere a todo o
capitalismo, e não apenas ao dos monopólios, e a toda a burguesia, pequena,
média, e grande. A luta que o comunismo propõe é pela democracia dos trabalhadores,
que resulta da transformação do modo de produção dominante. O capital, sabemo-lo desde Marx (ex:
1849), não é nem uma coisa nem um
conjunto de pessoas: é uma relação social. Sem a liquidação dessa relação social,
dessa forma específica de relação com os meios de produção e das classes entre
si, não é possível construir qualquer democracia que não seja burguesa.
Qualquer proposta desse tipo, ainda que se disfarce, como no exemplo maoísta ou
eurocomunista, de tese revolucionária, é a de uma reforma “reaccionária” (para usar a expressão do “Manifesto do Partido
Comunista”); procura permitir a sobrevivência da pequena burguesia como classe
para lá do actual modo de produção, coisa que é impossível.
Outro aspecto que importa discutir é que em muitos textos eurocomunistas [e maoístas (Mao-Tse Tung, 1940)] fica claro que passam a existir “etapas
intermédias” entre o capitalismo e o socialismo. Em alguns textos (veja-se o já
referido “Manifesto de Champigny”, 1968) estas etapas não são caracterizadas
como capitalismo, como revolução socialista ou como socialismo. Ora entre o capitalismo e o socialismo não
existe nenhuma etapa, fase, patamar, nível degrau ou estágio. O socialismo,
sendo a última forma económico-social classista imediatamente antes do comunismo,
para que possa vingar, terá que esmagar a burguesia e acabar com as relações de
produção capitalistas. Para o fazer terá que exercer o seu domínio político (via
ditadura do proletariado). Portanto, para liquidar um Estado burguês tem que
existir um Estado proletário. O socialismo pode ter recuos (veja-se a esse
propósito a NEP) mas tudo o que seja falar de “fases” ou “etapas” fora de
contextos históricos reais (que têm que ser caracterizados) não passa de um exercício
de mera ficção (porque historicamente infundada), que apenas ilude os
trabalhadores e os comunistas com a perspectiva de uma possível caminhada
gradual e mais ou menos pacífica e dialogante para o socialismo. Se a etapa da
“democracia avançada”, “democracia progressiva” ou “nova democracia” se situa no capitalismo
(ditadura da burguesia), então a mesma é nada mais nada menos que uma reforma
do próprio capitalismo uma vez que continuamos a viver no domínio político da
burguesia. O facto desta etapa se chamar “democracia
avançada”, “democracia progressiva”
ou “nova democracia” não a torna menos
capitalista nem representa uma forma evolutivamente gradualista rumo ao
socialismo. Por isso, os comunistas do PCF, PCI ou PCE estão a defender a luta
por uma reforma dentro do sistema capitalista e não pela revolução socialista
(ou o socialismo).
Alguns falam de “relação dialéctica” entre estas formas de democracia (“avançada”, “progressiva” ou “nova”) e
o socialismo e da não existência de uma separação estanque entre estas e o
socialismo. Todavia, nenhuma “relação dialéctica” não sofística consegue
enlaçar ou fazer a ponte entre a democracia capitalista e a democracia
socialista. Como escreveu Lenine (1917): “A democracia para uma ínfima minoria, a democracia para os ricos - tal é a
democracia da sociedade capitalista” – democracia, pois “truncada, miserável, falsa”. Na verdade
a diferença entre capitalismo e socialismo é radical e qualitativamente distinta,
tal como definida por Marx (1875) e Lenine (1917): o socialismo (a que Marx se
referiu como a fase
primeira da sociedade comunista) implica nada menos do que a apropriação do poder do Estado por parte dos
trabalhadores e a subsequente eliminação da posse privada dos meios de produção
pela burguesia. Do ponto de vista histórico estamos perante um verdadeiro alto.
Se estas formas de democracia não implicarem, pelo menos, o domínio político do
proletariado (com vista ao desaparecimento das relações de produção
capitalistas), então a luta pelo socialismo fica na gaveta pois ela é
impossível do ponto de vista prático.
[1]
O
PCF, à semelhança do PCI e do PCE, ao abraçarem o eurocomunismo desistem das
concepções revolucionárias pois abandonam o socialismo como objetivo, abandonam
o papel de vanguarda do partido operário, a perspectiva revolucionária da
transformação da sociedade. Acabam por abandonar o marxismo-leninismo e as suas
principais teses.
[2]
Na década de 30 do
século passado a Internacional Comunista discutiu a existência de interesses
concordantes entre “classes e camadas” (atingidas nos seus interesses objetivos)
especificamente para combater o nazi-fascismo via «frentes populares». Tais
frentes foram portanto limitadas no tempo e no espaço e a um contexto muito
particular de objectivos. Adicionalmente, tal unidade nunca colocou em causa a
perspectiva antagónica de classes e nunca se aceitou a diluição os interesses
da classe operária nos interesses da pequena burguesia.
[3]
Não
deixa de ser curioso que o texto eurocomunista do “Manifesto de Champigny”
(1968) referia a “causa inseparável da
democracia avançada e do socialismo” e que caberia ao PCF, “sem se substituir aos órgãos do Estado, às
instituições representativas e às administrações”, “traçar em cada etapa as perspectivas do desenvolvimento socialista nos
diferentes sectores da vida económica, social, política e cultural”. Portanto,
estes capitulacionistas ideológicos defendem que cabe à vanguarda da classe
operária – o Partido Comunista – ser uma espécie de observatório da qualidade
da democracia burguesa.
Referências
Cunhal,
A. 1971. Radicalismo Pequeno-Burguês de
Fachada Socialista. Edições Avante!
Lenine,
V.I. 1915. O Proletariado Revolucionário
e o Direito das Nações à Autodeterminação. Obras escolhidas em seis tomos,
Editorial Avante! 1986, T2, pp.272-78.
Lenine,
V.I. 1917(1977). O Estado e a Revolução.
Editorial Avante! (http://www.dorl.pcp.pt/images/classicos/t25t088.pdf)
Mao
Tse Tung, 1940. A Nova Democracia na
China. Yenan, 1 (https://www.marxists.org/portugues/mao/1940/01/15.htm)
Marx,
K. 1849. Trabalho Assalariado e Capital.
Obras escolhidas em três tomos, Editorial Avante! [Tradução
de José Barata Moura e Álvaro Pina
(https://www.marxists.org/portugues/marx/1849/04/05.htm)]
Marx,
K. 1875 (2009). Crítica do Programa de Gotha. Editorial Avante! (https://www.marxists.org/portugues/marx/1875/gotha/index.htm)
Marx,
K. e F. Engels. 1848. Manifesto do
Partido Comunista. Editorial Avante! (http://www.pcp.pt/sites/default/files/documentos/1997_manifesto_partido_comunista_editorial_avante.pdf)
Por uma democracia avançada, por uma França socialista. 1968
(http://aaweb.org/pelosocialismo/components/com_booklibrary/ebooks/2013-08-16%20-%20Manifesto%20Champigny.pdf)
Programa da Internacional
Comunista adoptado
pelo VI Congresso Mundial, 1928 (http://www.hist-socialismo.com/docs/ProgramaIC1928.pdf
A LONGA ESPERA
Até onde chegará a nossa
resistência?
Até onde
suportaremos nós,
homens de carne e osso,
a tortura inumana?
Até onde, pacientes,
metódicos,
secretos,
seremos capazes de levar
as nossas palavras
firmes e consoladoras?
Até onde ecoarão elas,
e em que ouvidos?
Até onde teremos de mascarar-nos,
de mentir,
de fingir?
Revolução
porque tardas?
Já escarva o chão,
pronto a investir,
o gigantesco toiro,
de baba espessa,
de olhos chispantes
e frementes músculos.
Já desabrocham cravos
no silêncio contido.
Já as ocultas labaredas
se preparam para desfraldar-se
resgatadoras,
ao vento solto.
Já as multidões,
com a sua ira,
quebram em estilhaços
o lavado cristal do dia atento.
Revolução,
porque tardas?
Desdobra, cotovia amável,
como um harmónio,
a tua alacridade,
sob o frio dos escombros.
Semeia, sol,
a luz e o calor fertilizadores
pelos campos lavrados.
Dai as mãos e anunciai,
trabalhadores de todo o mundo,
o grande recomeço.
Soldados,
quebrai com ímpeto
as vossas armas arrependidas
e pisai-as.
E tu, menino, proclama,
com a tua voz de alvorada,
para além dos teus desejos,
os teus sonhos realizados.
Armindo Rodrigues.
Poema de Abril
A farda dos homens
voltou a ser pele
(porque a vocação
de tudo o que é vivo
é voltar às fontes).
Foi este o prodígio
do povo ultrajado,
do povo banido
que trouxe das trevas
pedaços de sol.
voltou a ser pele
(porque a vocação
de tudo o que é vivo
é voltar às fontes).
Foi este o prodígio
do povo ultrajado,
do povo banido
que trouxe das trevas
pedaços de sol.
Foi este o prodígio
de um dia de Abril,
que fez das mordaças
bandeiras ao alto,
arrancou as grades,
libertou os pulsos,
e mostrou aos presos
que graças a eles
a farda dos homens
voltou a ser pele.
de um dia de Abril,
que fez das mordaças
bandeiras ao alto,
arrancou as grades,
libertou os pulsos,
e mostrou aos presos
que graças a eles
a farda dos homens
voltou a ser pele.
Ficou a herança
de erros e buracos
nas árduas ladeiras
a serem subidas
com os pés descalços,
mas no sofrimento
a farda dos homens
voltou a ser pele
e das baionetas
irromperam flores.
de erros e buracos
nas árduas ladeiras
a serem subidas
com os pés descalços,
mas no sofrimento
a farda dos homens
voltou a ser pele
e das baionetas
irromperam flores.
Minha pátria linda
de cabelos soltos
correndo no vento,
sinto um arrepio
de areia e de mar
ao ver-te feliz.
Com as mãos vazias
vamos trabalhar,
a farda dos homens
voltou a ser pele.
de cabelos soltos
correndo no vento,
sinto um arrepio
de areia e de mar
ao ver-te feliz.
Com as mãos vazias
vamos trabalhar,
a farda dos homens
voltou a ser pele.
Sidónio Muralha
Contribuição para as Teses do XX Congresso
Catarina Casanova
É difícil escrever sobre Teses de 81 páginas no espaço
que é dado. Não querendo deixar de o fazer, opto por escrever apenas sobre
alguns aspectos das Teses em discussão.
1. É estranho que as Teses não refiram nem uma única vez
que o regime sob o qual vivemos é uma democracia burguesa. Quer esta ausência
se deva a uma obstinação em não caracterizar o regime, ou (o que seria pior) a
uma concepção da democracia como regime neutro e supraclassista – tese
contrária ao marxismo-leninismo -, importa referi-la, e propor a sua correcção.
O carácter burguês, e por isso mesmo antipopular, do regime, é uma realidade
objectiva, e vê-se no conteúdo de todas as políticas aplicadas por sucessivos
Governos de PSD, CDS, e PS.
2. Nas Teses a caracterização do papel do PS no período
analisado é manifestamente insuficiente. Nos quatro anos passados entre o XIX
Congresso e o Congresso actual, em que o poder foi exercido por PSD e CDS, o
ataque aos trabalhadores só teve a gravidade que teve pelo apoio empenhado do
PS a uma expressiva maioria das medidas propostas por esse Governo, sobretudo
as do Pacto de Agressão. Quem de facto fez oposição ao Governo PDS/CDS foram os
trabalhadores e o seu partido de classe, o PCP. O PS foi o grande ausente da
resistência à troika estrangeira. Tal não é sequer referido.
3. Estes dois pontos têm uma visível convergência na
estratégia seguida desde as eleições de 4 de Outubro de 2015: a viabilização do
Governo do PS, plasmada na Posição Conjunta e referida nas Teses, é quanto a
mim consequência quer da incompreensão de que vivemos sob democracia burguesa,
quer da análise optimista, por assim
dizer, das potencialidades de um Governo PS. Se porventura o Estado fosse um
instrumento inerte que pudesse ser usado por qualquer classe, haveria sentido
nesse compromisso. Com o Estado burguês plenamente montado (e não em
desagregação, como em 1974/75), o apoio a uma solução governativa, em
abstracto, não significa senão o alimentar de ilusões nas instituições
burguesas, atrasar a consciencialização das massas e gerar expectativas
eleitoralistas e legalistas. Na situação concreta de uma correlação de forças
parlamentar onde o PCP está em inferioridade numérica quer perante o PS, quer
perante o próprio BE, tal acordo só seria admissível se contribuísse para o
avanço da consciencialização das massas, expondo os limites da via
institucional e reforçando acentuadamente a luta de massas. Manifestamente,
nada disso está a ocorrer.
4. A tarefa dos comunistas (e repetimo-la, porque os
comunistas recusam dissimular as suas posições, como escreveram Marx e Engels),
é erradicar as ilusões nas instituições do Estado burguês e dos seus partidos,
e dirigir as massas numa via revolucionária. Cumpre, portanto, romper com a
Posição Conjunta e corrigir o rumo político que vem sendo seguido: deve
seguir-se uma estratégia de reforço da organização e combatividade dos
trabalhadores contra a burguesia, os seus partidos, e o seu regime. As Teses
devem, por isso, deixar patente que a luta de classes é o motor da história, e
que ela se ganha nas ruas e locais de trabalho, e não nos parlamentos.
(Texto publicado no Avante! de 10 de Novembro de 2016, secção "Tribuna do Congresso"
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