DEMOCRACIA DE PADRINHOS

A Irlanda é o único país da União Europeia que vai referendar o Tratado - num referendo que se coloca como a grande tarefa do governo e no qual o «sim» tem que ganhar, custe o que custar.
E para cuja vitória vale tudo.
Para bem cumprir o seu papel, o governo da Irlanda já pôs em marcha uma campanha de desinformação e manipulação do eleitorado, com poderosos apoios pelo menos da Grã-Bretanha e da Comissão Europeia.
Aspectos dessa campanha vieram a público num jornal inglês que transcreveu parte de uma mensagem enviada ao governo inglês por uma sua diplomata na Irlanda. Nessa mensagem, são relatadas reuniões da referida diplomata com responsáveis do Ministério dos Negócios Estrangeiros irlandês - reuniões cujo exclusivo objectivo é ver o que é preciso fazer para «assegurar a vitória do "sim"».

Segundo informa a diplomata britânica, o governo irlandês está preocupado com os resultados do referendo. A sua esperança maior num bom resultado reside, mesmo, na ignorância do eleitorado. Dizem eles, satisfeitos, que a maioria dos eleitores não vai ler, nem entender, o Tratado, o que é excelente, porque, assim, no dia do referendo, «vão seguir as recomendações dos políticos»...
Não há como a ignorância para dar conteúdo democrático ao voto...

Mesmo assim, e precavendo-se face à eventualidade de alguns eleitores lerem o Tratado - e, lendo-o, rejeitá-lo - a campanha eleitoral do governo «vai concentrar-se sobre as vantagens globais da União Europeia, evitando falar sobre o Tratado em si».

É assim que os «construtores da Europa» entendem a democracia.
Neste processo da aprovação do Tratado, começaram por dar um passo em frente no desrespeito público pelos princípios democráticos ao afirmarem, sem vergonha nem pudor, que não haveria referendos para não correr o risco de os povos rejeitarem o Tratado, o que que dizer que fariam referendos em todo o lado se estivessem certos de que o «sim» ia ganhar - nisto se resumindo exemplarmente o seu conceito de democracia e de eleições democráticas...
Agora, face ao único caso em que há referendo, tomam as medidas necessárias - todas as que forem necessárias - para assegurar a vitória do «sim»

É assim que funciona esta Democracia de Padrinhos...

3 comentários:

poesianopopular disse...

Fazem-nos lembrar aqueles que traçaram as froteiras de África a régua e esquadro sobre os mapas, depois deu no que deu.
Abraço
Manangão

Fernando Samuel disse...

josé manangão: aí está uma boa comparação.

Abraço amigo.

mosqueteira disse...

"Ich weiss nicht, was soll es bedeuten, dass ich so traurig bin ..." assim começa o poema Die Lorelei, de Heinrich Heine, que, numa tradução livre, será qualquer coisa como "não sei o que pode significar esta tristeza...".

No meu caso terá sido a visão dos cravos, mal cheguei hoje à escola: vermelhos, omnipresentes, significado e significante afastando-se inexoravelmente.

Dói-me a memória daqueles slogans de há 34 anos, sobretudo um, tão veementemente sentido: "O Povo / unido / jamais será vencido!" - verdade inquestionável, de uma invencibilidade segura e para sempre ...
"como havíamos de morrer, tão próximos, e nus, e inocentes", dizia o Eugénio de Andrade...

A 3 dias do 25 de Abril, o que resta em mim é basicamente o desencanto - que desejaria um nada: absoluto, redondo, e final. Tudo a esse sentimento de perda, à certeza de que me enganei, de que nos enganámos todos (tão próximos, e nus, e inocentes) ...

A iconografia, absolutamente oca, o que resta. Transformada em objecto turístico, comerciável. "O 25 de Abril, para mim, é nome de ponte, um feriado mais no calendário", dizem os meus alunos.

Eu, agora professora, olho para os cravos - vermelhos, omnipresentes - e tenho vontade de chorar. E tenho raiva de quem, todos os dias, fecha "as portas que Abril abriu". Tenho raiva dos oportunismos, das corrupções, da lambe-botice recompensada, do carneirismo-carreirismo militantes, da mediocridade incentivada, da inércia sub-reptícia das nêsperas, do insustentável afã dos adesivos, das atitudes dúbias e duais, do endeusamento das aparências.


Tenho raiva de já não acreditar
que
O 25 de Abril, como o Natal, é "quando um homem quiser".
O 25 de Abril seria, para sempre
- a liberdade sem amarras, a justiça, a inteligência, a coragem recompensadas
- o pensamento correndo livre, as ideias confrontando-se sem medos, construindo
utopias
- a euforia de, juntos, trabalharmos para um futuro que queríamos - críamos - melhor.
- a convicção de que, juntos, podemos transformar o mundo.

" tão próximos, e nus, e inocentes" ....

ana lima