Coisas da ternura...em jeito de diário


Hoje, primeiro dia das minhas primeiras férias como trabalhador a contrato, sairam-me ao caminho (de melhor observador, como gosto de ser na possibilidade do TEMPO de férias) várias circunstâncias que me fizeram debruçar sobre as coisas da ternura. da ternura em si, e das coisas que podem fazer lembrá-la, transparecê-la, materializá-la. e é sobre a minha descoberta de ser pensante, resultado possibilitado pela circunstancia Gassetiana do tal tempo de ferias e da existência das coisas, que quero aqui escrever. falar-vos, na possibilidade de algum leitor.

Como animal de hábitos, mesmo que alterados no tempo em que são concretizados, saí de casa de manhã, comprei o jornal, li-o vagamente (na atenção que merecem as coisas na nossa distracção) e fui ao museu, ver se algum dos meus amigos queria almoçar comigo, no meu primeiro dia das primeiras férias. Na parede do espaço do Serviço Educativo do Museu estava uma folha, de texto batido a new roman ou verdana, ou outra coisa qualquer, que destoava dos desenhos coloridos que os artistas cá da terra colaram naquela parede - no seu tempo de férias. olhei a folha na sua fealdade de preto no branco entre as cores escolhidas pela infância. Talvez procurando, inconsciente, algum sentido para ela estar ali, na ordenação nem sempre bela que damos às coisas. Essa folha tinha escrito uma parábola, um conto, algumas frases em que encontrei alguma beleza,para lá da fealdade das letras que ma proporcionaram. Falava de um agricultor. e de um prémio que acabara de receber por ter o mais belo milheiral, o mais belo cereal, anos consecutivos. e de uma pergunta de um jornalista durante o evento, que questionava o tal bonacheirão agricultor acerca do seu possível segredo para o êxito. e de uma resposta tão bela quanto de simples, e que rezava mais ou menos assim : "dou a melhor semente aos meus vizinhos, para que também eles tenham bom cereal. A planta é polinizada a quilómetros de distância. Só posso ter boas plantas se todos aqueles que plantam o permitirem, plantando das melhores sementes. só assim, através do melhor pólen, eu posso obter a melhor semente. e eles igual. »
E então eu lembrei-me de uma aula de antropologia do simbólico, em que percebi, assim o entendi, assim o senti, que a ternura contribuiu sempre mais para o avanço do humanismo e da humanidade, da civilização (no verdadeiro sentido das coisas, ela a própria ternura) do que a nossa capacidade inventiva e de jogo, categorizante da nossa definição de homo sapiens ludens. E lembrei-me de um exemplo, também agrícola (para além daquilo que salta à vista - a extrema dificuldade de ensinar uma criança em clima de guerra, por exemplo): se um pai ensinar um filho a usar uma enxada através de alguma forma violenta, provavelmente essa criança aprenderá a trabalhar com a enxada - e fiquemos sem os pormenores da melhor ou pior qualidade com que o faz - mas muito dificilmente, se tiver opção, essa criança quando adulto, transmitirá esse conhecimento a outra geração que venha para lhe suceder. Será uma experiência traumática e não a quer repercutir repetindo-a ao seu filho. Por outro lado, se for de forma ternurenta que um pai ensine um filho a manusear o objecto - permitindo este que o filho lhe (re)ensine também a sua infância - então o gesto de manuseamento da enxada será transmitido à outra geração, como gesto que se lembra com saudade, carinho, ternura. Contribuiu então muito mais a ternura para o avanço civilizacional - no sentido que ajuda na boa memória- do que a capacidade inventiva que se pode anular através da violência da imposição.

Democracia no Iraque?

Resistir também é vencer. Ternurentamente, porque nem sempre as coisas da ternura são meigas. mas isso é para outro dia de férias. para outras atenções.

4 comentários:

Johnny disse...

Quando a ternura deixar de conseguir vencer, a enxada deixará de fazer aquilo que se quer que se faça com ternura. Deixemos as enxadas e abraçemos a futilidade do modo mais fácil. Com ternura.
Bom texto. Sr. Galamba xD

CS disse...

Lindo!

poesianopopular disse...

Belo texto pedagógico,e ternurento
A ternura,até podia ser uma "praga" mas, infelismente não é! Pelo contrário, é coisa que vai rareando!
Abraço
José Manangão

GR disse...

Um texto lindo, cheio de ternura e de solidariedade.
Tanto carinho tem esta foto.
Boas férias.

GR