POEMA

O PREGUIÇOSO

Continuarão a viajar coisas
de metal entre as estrelas,
subirão homens extenuados,
violentarão a Lua suave
e ali abrirão farmácias,

Neste tempo de uva cheia
o vinho começa a viver
entre o mar e as cordilheiras.

No Chile bailam as cerejas,
cantam as moças morenas
e nas violas brilha a água.

O sol bate a todas as portas
e faz milagres com o trigo.

O primeiro vinho é rosado,
doce como um menino pequeno,
o segundo vinho é robusto
como a voz de um marinheiro
e o terceiro é um topázio,
uma papoila e um incêndio.

A minha casa tem mar e terra,
a minha mulher tem grandes olhos
da cor da avelã silvestre,
quando chega a noite o mar
veste-se de branco e de verde
e depois a Lua na espuma
sonha como noiva marinha.

Não quero mudar de planeta.

Pablo Neruda

4 comentários:

Sal disse...

Sabe tão bem ler Neruda com este tempo quente..

Só as suas palavras refrescam esta tarde de Verão..

Eu também não quero mudar de planeta.
(Já de país...)

Obrigada, beijinhos

samuel disse...

Descrito assim... quem quereria?

poesianopopular disse...

Só os grandes vates, podem saborear tudo isto, e estarem no seu direito de, não quererem mudar de planeta.
Amanhã...Quem sabe?

Justine disse...

Tão irónico, tão terno, tão humano, tão sensual, tão Neruda.
Obrigada, FS, por esta beleza que nos trazes :))