POEMA

ENSAIO DE CÂNTICO NO TEMPLO

Ah, que farto que eu estou da minha
cobarde e velha terra, tão selvagem,
e como gostaria de abalar
para o norte
onde dizem que a gente é
limpa e nobre, culta e rica,
viva, livre, feliz!
Então, na confraria, os irmãos diriam
reprovando: «Como pássaro que deixa o ninho,
assim o homem que deixa o lugar»,
enquanto eu, bem longe, riria
da lei, da sabedoria
antiga desta terra tão ávida.

Porém de que me serve prosseguir um sonho -
aqui hei-de ficar até morrer,
pois cobarde e selvagem também eu o sou,
e além disso amando
com dor desesperada
esta pobre,
suja, triste, desgraçada pátria minha.

Salvador Espriu

5 comentários:

poesianopopular disse...

-E o pior é queo Salvador Espriu, não está sózinho!
Ele devia saber, disso, daí o desabafo!

samuel disse...

Como o entendo!
"Fala como as pessoas e não como os cães!", diziam alguns "professores" dos jovens e crianças catalãs, quase sempre batendo-lhes, quando tinham o "desplante" de falar catalão.

GR disse...

Lentamente vemos muitos que sempre disseram "nunca" a abalarem, outros a tentar ganhar coragem, para o fazer.

GR

Fernando Samuel disse...

josé manangão: desabafos que todos temos...

samuel: didácticos, pois claro...

gr:... outros, com a coragem necessária, ficam e lutam...

GR disse...

Fernando Samuel,

O barrete cobriu-me até às orelhas.
Tens toda a razão! Coragem têm os que ficam e lutam.

bjs,

GR