POEMA

ADEUS, IRMÃO BRANCO!


ADEUS, meu irmão branco, boa viagem!

Chegou a hora de você voltar
para a Europa, a sua terra.
Quando você chegar, há-de falar
dos encantos que encerra
esta África Negra, tão distante,
tão distante, irmão branco...
Pois eu quero, neste instante
da partida, pedir-lhe uma promessa:
- Não se esqueça da alma do negro,
não se esqueça!

Você há-de falar das terras africanas,
da mata e da cubata,
dos montes e das chanas;
mas não se esqueça da alma.
Você há-de falar do sol fogoso,
das caçadas e queimadas,
das noites que viveu em batucadas
no mais feiticeiro gozo;
mas não se esqueça da alma.

Vai falar do café, do algodão, do sisal,
da fruta tropical, enfim, de toda a flora;
mas não se esqueça da alma.
Você há-de falar dos negros no seu mato,
da negra tentadora
de corpo sensual,
mostrando até retrato;
mas não se esqueça da alma.

Adeus, meu irmão branco! Lá na Europa,
quando falar da tropical paisagem,
não se esqueça da alma do negro.

Adeus, meu irmão branco, boa viagem!


Geraldo Bessa Victor

6 comentários:

samuel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
samuel disse...

O problema é que uma boa parte dos "irmãos" brancos, foram para África, pensando em tudo, principalmente no café, no sisal, no algodão, nos diamantes, nos escravos (e escravas, sobretudo as tais mais vistosas), mas nem por um momento pensaram na alma do negro.
Como se não bastasse, normalmente foram dirigidos por homens de cruz na mão, que diziam ir em busca exclusivamente da salvação da tal alma, quando na realidade tinham ainda mais cobiça por tudo o resto do que os "outros".
Deu no que deu!
Não há "saudade" e fotografia de mulata e memória de sabores e pôr-do-sol e cheiros e nada... que apague a História triste e o não menos triste presente.
A não ser um grande e sobretudo diferente futuro!

Abraço

(O comentário apagado era este, só que tinha uma das frases "toda torta")

Fernando Samuel disse...

O grande problema é que «eles continuam lá... E quando digo «eles«,falo dos de cá e dos de lá...

Antuã disse...

Fernando Samuel chamaste a atenção para a realidade actual.

Maria disse...

Eu confio nos povos.
Um dia ele, o povo de lá, resolverá a questão..... porque mais cedo do que tarde o povo acorda!!!

GR disse...

LINDO!
Com uma ternura este poema aborda vários problemas. África, os Europeus, o trabalho/trabalhadores e os Africanos.
Alguns, muito poucos (brancos) falaram-me da "alma" do negro, é doce, grande e solidária.

GR