POEMA

VIAGEM


Aparelhei o barco da ilusão
e reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
o mar...

(Só nos é concedida
esta vida
que temos;
E é nela que é preciso
procurar
o velho paraíso
que perdemos)

Prestes, larguei a vela
e disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
a revolta imensidão
transforma dia a dia a embarcação
numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
o que importa é partir, não é chegar.


Miguel Torga

4 comentários:

samuel disse...

Tinha aquele ar de fraga... mas depois escrevia coisas destas.

poesianopopular disse...

É o que está novamente a suceder, não de barco, mas pelo ar, o que é preciso é fugir á escravidão, este PS traidor consegue faser com que a história se repita.
Manangão

Justine disse...

Comovente, de tão belo, de tão fundo, de tão cristalino.
Apetece reler, e reler, e dizer, e ouvir cá por dentro.

Fernando Samuel disse...

samuel: pois...

josé manangão: como tantas vezes tens dito: o que é preciso é lutar!

justine: ... «e ouvir cá por dentro»: bonito!