POEMA

O BICHO

Vi ontem um bicho
na imundície do pátio
catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

9 comentários:

GR disse...

As desigualdades sociais existem cada vez mais em Portugal.
Entristece-me saber que o “Bicho” está tão perto de mim e amanhã poderei ser também um.
É necessário a nossa presença, no dia 5 de Junho!
Adoro M. Bandeira.

GR

Maria disse...

Não falta muito para vermos o "bicho" já aqui ao lado, ou eventualmente sermos nós o "bicho"...
Os barcos de pesca vão parar, o Ministro diz que o gasóleo não baixa. O dia 5 está quase aí.
Vamos ver.
A luta continua, porque é contínua...

Justine disse...

O homem que transforma o outro homem em bicho - a maior iniquidade.

Fernando Samuel disse...

gr: 5 de junho lá estaremos: muitos!

maria: lutar, lutar sempre e, para já... no dia 5...

justine: é essa a imagem de marca do capitalismo.

samuel disse...

Esta "mania" que alguns artistas têm de fazer textos tão belos a partir de realidades tão abjectas... acho que os torna ainda mais desassossegantes.

poesianopopular disse...

Os portugueses começam a ficar feridos no seu orgulho, e digo isto porque este poema reflete uma realidade actual.

Antuã disse...

Estes bichos estão amultiplicar-se em Portugal. Dia 5 de Junho é dia de luta embora os outros dias não possam ser descurados.

Ana Luar disse...

Se isto não muda brevemente, tb me verás num pátio qualquer dessa imensa Lisboa.

Fernando Samuel disse...

samuel: desassossegantes; é isso.
Um abraço.

josé manangão: apesar de escrito em 1947, no Brasil, é bem actual...
Um abraço.

antuã: dia 5: para que todos os homens deixem de ser «bichos».
Um abraço.

ana luar: no ponto a que as coisas chegaram, qualquer de nós está sujeito a isso...
Obrigado pela visita e pelo comentário.