POEMA

NOITE DE NATAL


(A um pequenito, vendedor de jornais)

Bairro elegante, - e que miséria!
Roto e faminto, à luz sidéria,
o pequenito adormeceu...

Morto de frio e de cansaço,
as mãos no seio, erguido o braço
sobre os jornais, que não vendeu...

A noite é fria. a geada cresta;
em cada lar, sinais de festa!
E o pobrezinho não tem lar...

Todas as portas já cerradas!
Ó almas puras, bem formadas,
vede as estrelas a chorar!

Morto de frio e de cansaço,
as mãos no seio, erguido o braço
sobre os jornais, que não vendeu,

em plena rua, que miséria!
Roto e faminto, à luz sidéria,
o pequenito adormeceu...

Em torno dele -ó dor sagrada!
Ao ver um círculo sem geada
na sua morna exalação,

pensei se o frio descaroável
do pequenino miserável
teria mágoa e compaixão...

Sonha talvez, pobre inocente!
Ao frio, à neve, ao luar mordente,
com o presépio de Belém...

Do céu azul, às horas mortas,
Nossa Senhora abriu-lhe as portas
e aos orfãozinhos sem ninguém...

E todo o céu se lhe apresenta
numa grande Árvore que ostenta
coisas dum vívido esplendor,

onde Jesus, o Deus Menino,
ao som dum cântico divino,
colhe as estrelas do Senhor...

E o pequenito extasiado,
naquele sonho iluminado
de tantas coisas imortais,

- no céu azul, pobre criança!
Pensa talvez, cheio de esp'rança,
vender melhor os seus jornais...


António Feijó

4 comentários:

poesianopopular disse...

Cuba, é o único País onde não há crianças a dormir na rua!
Abraço

Maria disse...

Nem consigo comentar...
Acho que é desta época, de maior sensibilidade, sei lá...

Um beijo grande

Ana Camarra disse...

Pronto, o Natal deixa-me mais maricas que o costume, crianças então deixa-me de rastos.
Sabes aquela história da menina dos fosforos que em vez dos vender acendia-os até morrer de frio? Ainda hojje não consigo ver.

Beijos

Fernando Samuel disse...

poesianopopular: viva o 50º aniversário da Revolução Cubana!
Um abraço.

Maria: esta época traz-nos à memória muitas, muitas recordações...
Um beijo grande.

Ana Camarra: terrível história...
Um beijo.