POEMA

COMPATRIOTA


Que todos os meus anseios de poeta
possam cair no teu regaço,
velha lutadora, velha analfabeta
que não sabes dos versos que te faço.

Vejo-te de joelhos,
de joelhos e de mãos postas,
de joelhos e de mãos postas num velho esfregão
lavando, lavando casas...
A tua cabeça branca é uma acusação
- passa um poeta - e a acusação tem asas.

Velha que conheceste algumas gerações
e devias ser tratada como os doentes e as crianças
- atira o teu esfregão contra os nossos corações
e grita nos meus versos agudos como lanças.


Sidónio Muralha

(«Companheira dos Homens» - 1950)

7 comentários:

lp16 disse...

Saudações proletárias!

Justine disse...

Que belo e que violento!

samuel disse...

Cortante!
Dar asas às acusações. Continua a ser fundamental!

Abraço.

smvasconcelos disse...

Dizer-te que adoro este poema é banal... que seja, é que adoro mesmo. Pela crítica "bela e violenta" como definiu a Justine e sempre actual.
beijo,

poesianopopular disse...

Por vezes fico a pensar, como escrevería hoje o Sidónio Muralha?
Decerto que os gritos seriam mais agudos e as setas mais afiadas, se possível fosse.
Abraço ao guerreiro!

Maria disse...

Fortíssimo! E tão belo...

Um beijo grande.

Fernando Samuel disse...

ip16: iguais saudações para ti.
Um abraço.

Justine: assim como um murro...
Um beijo.

samuel: e os poetas são aves...
Um abraço.

smvasconcelos: e eu também o adoro.
Um beijo.

poesianopopular: os problemas de hoje são tão... iguais aos de então...
Um abraço.

Maria: belíssimo...
Um beijo grande.