Cerca de 30 cidadãos e instituições norte-americanas foram, até agora, agraciadas com o Prémio Nobel da Paz - o que coloca os EUA em destacado primeiro lugar nesta matéria.
Quer isto dizer que, segundo os critérios do Comité Nobel ao longo dos tempos, os EUA são os campeões da paz no mundo...
Pronto: são critérios...
Assim sendo, é natural que o dito Comité nunca se tenha sentido vocacionado para premiar gente e instituições de outras áreas e de outros lugares, por exemplo, gente comunista, por exemplo gente do povo soviético, cujo papel foi decisivo para a conquista da paz no mundo, derrotando o objectivo nazi-fascista de domínio do planeta...
Corrijo-me: uma vez houve em que o Comité abriu uma excepção e - vejam bem! - atribuiu o Nobel da Paz a um comunista.
Que, aliás, com a dignidade de quem não participa em fantochadas, o recusou.
O Cravo de Abril recorda, hoje, Le Duc Tho - que foi um dos fundadores do Partido Comunista do Vietname e que chefiou a delegação do seu país nas conversões que conduziram ao Acordo de Paz no Vietname, assinado em Paris, em 1973.
Le Duc Tho foi, até hoje, o único comunista a quem foi atribuído o Prémio Nobel de Paz - mesmo assim, ex aequo com o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, conhecido pacifista ligado a muitas e terríveis guerras...
Esse Prémio de 1973 ficou, todo, para o carniceiro Kissinger, porque Le Duc Tho recusou recebê-lo - entre outras razões porque a guerra do Vietname estava longe de ter terminado.
E estava.
Para medir a justeza da atribuição do Nobel da Paz a Kissinger, recorde-se que os EUA fizeram tudo para evitar a assinatura do Acordo de Paz de Paris.
Pouco tempo antes da assinatura, o Governo norte-americano, numa última e desesperada tentativa de virar o sentido da guerra a seu favor, desencadeou sobre o Vietname do Norte o mais intenso e bárbaro bombardeamento da história das guerras, até então: durante onze dias, a aviação dos EUA lançou sobre as cidades de Hanoi e Haiphong mais de 100 mil bombas - com um poder de destruição cinco vezes superior ao da bomba atómica lançada sobre Hiroshima.
Mesmo assim, Nixon, Kissinger & Cia. foram obrigados a assinar o Acordo de Paz - e, após a assinatura, prosseguiram a guerra...
Guerra que só viria a terminar em 1975, com a entrada do exército revolucionário em Saigão - recorde-se a fuga em pânico dos soldados norte-americanos (os «soldados de Cristo» como lhes chamava o cardeal Spelmann...), empurrando-se, agredindo-se, pisando-se uns aos outros na busca desesperada de um lugar nos helicópteros....
Atrás de si deixavam a tradicional mensagem de paz made in USA: mais de um milhão e meio de mortos, mais de três milhões de feridos, um país devastado, com terras mortas por efeito das bombas químicas e biológicas - e seres humanos que ainda hoje, mais de trinta anos passados, continuam a sofrer as consequências dessas bombas.
De então para cá - até hoje, dia 11 de Outubro de 2009 - essa mensagem de paz dos EUA fez-se sentir, de forma directa ou indirecta, por todo o Mundo, espalhando centenas de milhares de mortos.
São, portanto, razões históricas as que explicam a atribuição do Nobel da Paz ao presidente dos EUA, Barack Obama.