POEMA

DISCURSO TARDIO
À MEMÓRIA DE JOSÉ DIAS COELHO



Éramos jovens, falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
onde começa o verão; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
do ventre, espaço denso, redondo, maduro,

dizias: espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave -
repara como voa, e poisa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela não a tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina, ou José - o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida pela brisa?


Eugénio de Andrade
(«Epitáfios» - 1949-1979)

9 comentários:

smvasconcelos disse...

Que lindo!!!! Desconhecia este poema, mas um dia destes vou surripiá-lo para um sítio igualmente honroso (acho eu...):))
Belo tributo ao José Dias Coelho, aliás a todos os Josés e Catarinas deste mundo a quem "A morte saíu à rua" pelas mãos assassinas de fascistas.
beijos,

Maria disse...

Não vou dizer que é belo, pois todos os poemas dele o são.
Digo antes que me soube muito bem ler este poema neste fim de tarde acinzentado. E que às vezes os nomes (a razão porque os damos) podem fazer tanta diferença...

Um beijo grande

Justine disse...

A poesia cintilante e cristalina de Eugénio, mesmo quando fala da morte.

Ana Camarra disse...

Nunca é tardio, nunca.

beijo

CRN disse...

A quem faz o que pode não se lhe deve pedir mais. Um discurso enorme, capaz, sempre necessário.

Um abraço!

samuel disse...

E que nome nome nos impedirá de viver, enquanto trouxermos nas veias gotas de sangue assim antigo e palavras como estas a correr nos olhos?

Abraço.

GR disse...

Sem vocação para a morte! e não morreram.
Nomes que estão sempre ao nosso lado.
Adoro este poema.

Bjs,

GR

Mar Arável disse...

Eugénio de Andrade

ajuda com a sua poesia

a não deixarmos morrer

os nossos mortos

Fernando Samuel disse...

smvasconcelos: honrosíssimo - tenho a certeza.
Um beijo.

Maria: ó se podem!...
Um beijo grande.

Justine: Eugénio é O POETA.
Um beijo.

Ana Camarra: é sempre cedo quando se escreve assim.
Um beijo.

CRN: tardio, mas... oportuno...
Um abraço.

samuel: nenhum!
Um abraço.

GR: «até os mortos vão ao nosso lado»...
Um beijo.

Mar Arável: sem dúvida.
Um abraço.