POEMA

O MORTO NA PRAÇA DE BEYAZIT

Um morto está deitado,
um jovem de dezoito anos,
ao sol dos dias,
à noite com as estrelas,
na Praça de Beyazit em Istambul.

Um morto está deitado:
segura numa mão o seu livro de estudo,
na outra o sonho interrompido antes de ter começado
em Abril no ano de mil novecentos e sessenta,
na Praça de Beyazit em Istambul.

Um morto está deitado.
Foi abatido,
e a ferida da bala
abre-se-lhe na fronte como um cravo vermelho,
na Praça de Beyazit em Istambul.

Um morto está deitado,
o sangue a cair na terra, gota a gota,
até ao dia em que o meu povo em armas
com cantos de liberdade
vier tomar de assalto a praça grande.

Nazim Hikmet

8 comentários:

maria teresa disse...

"O COMUM DA TERRA
(ode a Vasco Gonçalves)

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem,
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

Eugénio de Andrade

samuel disse...

Infelizmente, em todo o lado existe uma destas praças grandes... até dentro dos seres humanos.

Fernando Samuel disse...

aaria teresa: creio que este belíssimo poema de eugénio de andrade já por aqui passou, por ocasião do aniversário da morte do Companheiro Vasco. Mas não desista...

samuel: e talvez essas sejam as mais difíceis de libertar...

Maria disse...

Bonito poema de exaltação e incentivo e força para continuarmos a luta!

Obrigada

Um beijo grande

Fernando Samuel disse...

maria: até tomarmos de assalto... o futuro...

Um beijo grande.

Justine disse...

Pungente e cheio de força e esperança, este grito. Belo também

Antuã disse...

o sangue derramado pelos companheiros é a força da Liberdade dos Povos.

Fernando Samuel disse...

justine: assim como quem diz que o futuro é nosso.

antuã: até porque «os mortos não os deixamos para trás abandonados»...