A CADEIRA E O DN...

3 de Agosto de 1968, sábado: pelas 9 horas da manhã, Salazar - há cerca de uma semana na sua habitual residência de Verão, no Forte de Santo António do Estoril - desce o terraço do Forte.
Já o espera Augusto Hilário (seu pedicuro desde há muito tempo) que traz consigo o Diário de Notícias. Salazar pede-lhe o jornal emprestado.
Depois, entre as quatro ou cinco cadeiras dispostas na plataforma, Salazar escolhe uma cadeira de lona e deixa-se cair nela, segurando o DN com as duas mãos. Com o peso do corpo, e eventualmente mal fixa, a cadeira e Salazar caem para trás, tendo este ainda as duas mãos ocupadas com o jornal.
«A sua cabeça dá uma pancada seca na pedra crespa».
Precipitam-se Augusto Hilário e a governanta Maria de Jesus.

Foi assim que um calista, o DN, uma cadeira de lona e um solo de pedra crespa, ajudaram a pôr fim a um poder pessoal de quase quatro décadas e a virar a história portuguesa - a confirmar que a história mais densa se faz muitas vezes de coisa terrivelmente simples...

7 de Setembro: Salazar foi operado.
14 de Setembro: um comunicado médico informa que «o sr. Presidente do conselho entrou em franca convalescença e regressará brevemente à sua residência em Lisboa».
16 de Setembro: cerca das 13h30, ao terminar a refeição, Salazar leva a mão à testa e diz: «Estou muito aflito. Ai, meu Jesus!» - e cai sem sentidos na poltrona.
26 de Setembro: Américo Tomás exonera Salazar e nomeia Marcelo Caetano Presidente do Conselho.

Depois, Salazar vive mais de um ano julgando-se Presidente do Conselho e continuando a despachar com ministros...

27 de Julho de 1970: o Diário de Notícias, de que é Director o fascista Augusto de Castro, faz sair uma edição especial.
Na primeira página, em mais de metade ocupada com uma fotografia de Salazar, pode ler-se:
«Portugal está de luto. Morreu o Presidente Salazar» - e, em letras mais pequenas: «Esta manhã, às 9 e 15, deixou de viver um dos mais ínclitos portugueses da história de Portugal».
E já no texto: «Nesta manhã de Julho, nós todos, os portugueses, que fomos testemunhas vivas da grandeza do Homem que acabamos de perder, curvamo-nos, reverentemente, sentidamente, diante da memória do Chefe excepcional, cujo génio traçou as coordenadas do presente e do futuro da Nação portuguesa»...

E foi assim o fim do ditador fascista António de Oliveira Salazar.

(os dados utilizados neste post foram recolhidos do livro «Salazar - Biografia da Ditadura», de Pedro Ramos de Almeida)

5 comentários:

Maria disse...

Lembro-me como se tivesse sido hoje...
O poder económico (que, como hoje, domina o poder político) parou, alterou férias (caçadas no Kruger Park e cruzeiros nas Bahamas, e com convidados estrangeiros) e ficou expectante, a ver "o que saía".
E o poder económico (os doze donos de Portugal, à época) foram chamados a pronunciarem-se sobre o Marcelo.
E no dia 27 de Setembro lá puderam ir de férias, muito descansados...

Ora o que tu me foste lembrar...

Um beijo, e um sorriso

samuel disse...

Olha... fiquei a sorrir!...
Das duas uma, ou qualquer texto sobre a queda e passamento de Salazar continua a deixar-me assaz feliz, ou então o estilo de escrita dos fascistas era mesmo ridículo. :)))

Abraço

zambujal disse...

Muito bem contado. Tens "queda" para contar. Já cá se sabia!
E como dizia o Brecht, num poema sobre o "pintor de tabuletas", o ditador, se voltasse cá hoje, dificilmente arranjaria lugar de contínuo numa repartição pública.
Um abraço

poesianopopular disse...

Uns dias depois deste fantastico acontebcimento,(a morte do ditador)tinha eu escrito esta quadra

Melos, Quinas, Vinhas, Britos
Marcelos e Perdigões
O senhor dos aflitos
Livrai-nos destes ladões.

Pelo facto de ser profissional de cabeleireiro toda a minha vida ter trabalhado em Lisboa, tive a possibilidade de me aperceber mais de perto, o que foi esse tenebroso regime, pois o salão onde trabalhava era frequentado pelas celebres agentes Odete e Madalena, que por vezes se faziam acompanhar de reclusas.

Fernando Samuel disse...

maria: recordar é (re)viver...
Um beijo.

samuel: ou, talvez, das duas... duas...
Um abraço.

zambujal: andei à procura desse poema do Brecht, mas esta desarrumação...
Um abraço.

josé manangão: era a tua veia poética já a funcionar...
Um abraço.