POEMA

CARIDADE


As senhoras da sociedade
deram um baile a rigor
para vestir a pobreza
e a pobreza horas a fio
cortou, coseu, enfeitou
os vestidos deslumbrantes
que a caridade exibiu.

Depois das contas bem feitas
bem tiradas as despesas,
arranjou um namorado
a mais nova das Fonsecas;
esteve bem a viscondessa,
veio o nome e o retrato
da comissão nos jornais,
e o Doutor, o Menezes,
e o senhor desembargador,
estiveram muito engraçados,
dançaram o tiro-liro
já meio tombados...

Parece que ainda sobrou
algum dinheiro para a chita
para vestir a pobreza
numa festa comovente
com discursos de homenagem
e uma missa...
a que assistiu toda a gente.

Joaquim Namorado

10 comentários:

poesianopopular disse...

Onde é que eu já ouvi isto!
Com novas Narquesas, novos condes e condêssas, está quase tudo como antes.
...Se nós deixar-mos fica igual, ao antigamente!

maria teresa disse...

Em jeito de adenda:
Conta-se que Joaquim Namorado publicou, na Revista da Cultura e Arte Vértice, de que era director, pensamentos de Karl MarK, sob o pseudónimo de Carlos Marques. Agentes da Pide "visitaram-no" e tentando intimidá-lo disseram-lhe qualquer coisa com: "Avise o Carlos Marques que tenha muito cuidadinho, nós já o temos debaixo de olho".
Muito deve ter rido o poeta! Eu ainda hoje me divirto com esta situação caricata.

samuel disse...

A inefável caridade! As sacristias estão coalhadas destas novas ONGs de defesa dos novíssimos "direitos humanos".

Antuã disse...

E lá nos vão dando, a arrotar, algumas migalhas daquilo que nos roubam. Com jantaradas o movimento arrotário vai fazendo a sua filantropia.

Maria disse...

Porque será que me veio à ideia aquela cantiga do Barata Moura

"Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha"

???

Um beijo

Maria disse...

Já agora fica aqui toda...


Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha
.
A senhora de não sei quem
Que é de todos e de mais alguém
Passa a tarde descansada
Mastigando a torrada
Com muita pena do pobre,
Coitada
.
Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha
.
Neste mundo de instituição
Cataloga-se até o coração
Paga botas e merenda
Rouba muito mas dá prenda
E ao peito terá
Uma comenda
.
Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha
.
O pobre no seu penar
Habitua-se a rastejar
E no campo ou na cidade
Faz da sua infelicidade
Algo para os desportistas
Da caridade
.
Não vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e a falsa intençãozinha
Não vamos brincar à caridadezinha.

Que saudades...

Outro beijo

Chalana disse...

Grandes versos

Chalana disse...

E já agora deixo o testemunho do meu regozijo por, até na altaneira aldeia de Monsanto - distrito de Castelo Branco -, encontrar propaganda do nosso glorioso Partido

Anónimo disse...

http://lobos-imortais.blogspot.com/

Fernando Samuel disse...

josé manangão: mas não deixaremos.
Um abraço.

maria teresa: pertinente adenda.
Obrigado.
Um beijo amigo.

samuel: nos anos 30, a expressão «vamos fazer caridade» ouvia-se em todas as casas das «grandes famílias» - «todo o que milhões furtou, sempre ao bem-fazer foi dado»...
Um abraço.

antuã: movimento arrotário: boa!
Um abraço.

maria: que saudades!, dizes bem...
Obrigado por nos recordares o Barata Moura.
Um beijo.

chalana: regozijo a que me associo, com um abraço.

anónimo: lá irei. Obrigado.