TRAFULHICES

«O Futuro da Europa» foi o tema de um «colóquio internacional» ontem realizado por iniciativa das fundações Respública (do PS), Mário Soares (do próprio) e Friedrich Ebert (do SPD alemão).
Soares foi um dos oradores e, como era inevitável foi a estrela da noite: falou, falou, falou...
Entre outras coisas - aparentemente de esquerda mas, de facto, visando a superação da crise que assola o sistema capitalista - apontou o «Tratado de Lisboa» como caminho dos caminhos...

Soares foi, como é seu hábito, extremamente pragmático...
Disse ele que, perante o «não» dos irlandeses, os dirigentes europeus devem... fazer tudo o que for necessário para que o Tratado seja urgentemente aprovado.
Com isto, Soares queria dizer: as trafulhices já feitas foram positivas mas não chegam; por isso é preciso trafulhar mais...
Porque, declamou, os que «querem» o Tratado, não devem deixar-se travar pelos que o «não querem».
Querer ou não querer, eis a questão: há os que «querem» (os «bons») e há os que «não querem» (os «maus») - e Soares, como sempre, está do lado dos «bons».

E quem são uns e outros? Quem são os que «querem» e os que «não querem»?
Soares foi claro: os que «querem» são os governantes ao serviço do «querer» do grande capital - e estes, de tal forma e com tal força querem, que - temendo o «não» dos povos dos seus países - se decidiram pela trafulhice de proibir os referendos;
e os que «não querem» são os povos aos quais, pela trafulhice, foi roubado o direito de terem opinião - e e o povo irlandês que, vendo reconhecido esse direito, se pronunciou clara e inequivocamente pelo «não».

Há que reconhecer que estes democratas-tipo-soares são possuidores de inesgotável criatividade na expressão do seu amor à democracia...
Um dia, ouvimo-los gritar, com tremidos de voz, que «o sufrágio universal é um pilar básico da democracia».
No dia seguinte - porque o voto popular indicia ir contra os seus planos - vemo-los mandar o sufrágio universal às urtigas e substituirem-se, eles próprios, à vontade democrática dos eleitores.
Nos dois dias, vemo-los confirmando que, para eles, a democracia não passa de um utensílio que utilizam sem princípios para a perpetuação do sistema capitalista.

Aliás, como estamos recordados, foi na base desse conceito utilitário de democracia que Soares encabeçou a contra-revolução de Abril - entregando, de novo, o poder ao grande capital e depositando a independência e a soberania nacional nas garras do imperialismo norte-americano e da sua filial na Europa, que dá pelo nome de União Europeia.

Ora, mostra a História, que por muito, muito menos do que isso foi o Miguel de Vasconcelos atirado pela janela, no 1º de Dezembro de 1640...
E ao Miguel de Vasconcelos não foi permitido ter fundações, nem participar em colóquios internacionais. E muito menos ser apontado como democrata exemplar...

17 comentários:

samuel disse...

Infelizmente, há sempre quem se deixe encandear pela "simpatia" do senhor...
Já a ideia de o atirar por uma janela... não me parece bem. Primeiro, por ser um enorme esforço físico, mas inútil. Segundo (e muito mais importante), porque seria uma enorme porcaria!

Abraço

maria teresa disse...

Sou por natureza uma pessoa lutadora mas não "agressiva",choca-me a agressividade com que determinados assuntos são tratados. Quando não concordo com diversas atitudes ou factos, luto com as armas de que disponho, mas nunca "falo" em "matar", ninguém merece a morte.
Não concordo totalmente com o texto, infelizmente, o assunto focado não se pode pôr em apenas dois simples pólos: os bons e os maus, os capitalistas e os não capitalistas.
É pena que textos como os que têm aparecido neste blogue não possam ser discutidos a "sério" e dissecados. São demasiado ricos para ficarem apenas com os comentários com que ficam.
Tenho quase a certeza que o Fernando Samuel saberá ler as entrelinhas, é-me muito difícil "discutir" a minha opinião num espaço tão pequeno.

zambujal disse...

... por muito menos do que isso foi...
Pelo meu lado, nunca pensaria sequer atirar MS pela janela... embora outros, por muito menos do que ele fez ao povo português, tenham tido tratamentos idênticos, e outros, pelo muito que lutaram pelo povo português, tenham tido consequências bem mais funestas.
O que está em causa é o conceito de democracia e a demo cra CIA.
E, por isso..., obrigado pelo teu post!
Grande abraço

poesianopopular disse...

Fernando Samuel
Não precias mas, eu estou totalmente de acordo com a tua defenição sobre MS o tal que dá vómitos por tanta trição, e por tanto cinismo, mas, as palavras da Maria Teresa, fazem-me lembrar a garrafa do uísque, para o dono está meia vazia para as vizitas está meia cheia.Eu sei que as coisas não são assim tão linares, mas quando não temos necessidades é muito fácil dizer aos outros que as têem, para terem calma porque tudo se há-de resolver,um dia .
Será que Mau-Tsé Tung, tinha razão ou não , quando disse que:_o poder estava na ponta de uma espingarda!
Pergunto eu!
Desculpa estar a responder´`a tua vizita, tu melhor que eu sabes, defender a tua posição.
abraço

julio disse...

este senhor só engana quem se deixa enganar.MS já enganou várias vezes os portugueses e vai continuar...Só aparece quando o governo do seu partido está na mó de baixo, para mandar bacoradas, e falar ao coração daqueles que pensam que é um politico honesto...

Ana Camarra disse...

Mas é isso mesmo, Colóquios, Seminários, Foruns e afins costumam ter oradores especialistas...
Trafulhices é a sua especialidade, está muito bem!

beijos

Fernando Samuel disse...

samuel: vou por ti - especialmente por causa do esforço físico, mas também por causa do cheiro: já basta o cheiro do vivo...
Um abraço grande.

ja disse...

Oh Maria Teresa, ninguém quer matar o velho alzhémico e parkinsónico!!!
Nem sequer atirá-lo pela janela ... da história. Para isso teríamos que o ter dentro dela e isso, nunca aconteceu, acontece ou acontecerá!!!
Irá com o lixo,como outros, sem reciclagem possível!!!
Amen!!!

Fernando Samuel disse...

maria teresa:também acho que «morte» só aquela que, pela lei da vida, nos toca a todos (felizmente...)
Todavia, a morte com outras origens é uma realidade diária nas nossas vidas e é-me impossível ignorá-la, procurar as suas causas e combatê-las.
Um exemplo: todos os dias morrem, à fome ou por falta de cuidados básicos de saúde, dezenas de milhares de pessoas - isto, num mundo onde se produz mais do que a necessário para alimentar os mais de seis mil milhões de pessoas existentes. E a questão é que há responsáveis por esse crime diário massivo...
Aui chegado, sou forçado a concluir que, como diz, é muito difícil discutir estas questões num espaço tão pequeno...
Mesmo assim, escreva sempre...

Um beijo amigo.

Fernando Samuel disse...

zambujal: é isso exactamente o que está em causa: a utilização da democracia para a violação sistemática e intensiva dos princípios democráticos...

Um abraço grande.

Fernando Samuel disse...

poesianopopular: estamos a discutir uma questão complexíssima e que - por isso e porque está viciada pela desinformação organizada que corre o mundo - nos exige a todos muita reflexão e muita atenção às opiniões contrárias ou diferentes.
Mas uma coisa me parece ser certa e inquestionáve, porque objectiva: o papel de traição de Mário Soares em relação à Revolução de Abril.

Um abraço grande, camarada.

Fernando Samuel disse...

júlio: essa é uma imagem do Soares que perfilho.

Um abraço.

Fernando Samuel disse...

ana camarra: e trafulhices que têm sempre como vítimas os que trabalham e vivem do seu trabalho.

Um beijo.

Hilário disse...

Fernando,

O grande capital americano e europeu há 30 anos que mantém como aliado o senhor mário soares, foi ele que liquidou grande parte das conquistas de ABRIL e é ele que continua com as suas demagogias, com as suas trafulhices a iludir ainda muita gente deste País, infelizmente.

Mas nós vamos continuando a resistir e a lutar.

Um Abraço

Fernando Samuel disse...

hilário: e só resistindo e lutando é possível fazer-lhes frente.

Um abraço, camarada.

maria teresa disse...

Não estou interessada em diálogos, para isso há a troca de correspondência ou outro meio de comunicação, e "discussões" com olhos nos olhos, e não aqui num blogue.
Não me souberam interpretar, lamento!Possivelmente não me sei exprimir correctamente.

Fernando Samuel disse...

maria teresa: creio que interpretei bem o que escreveu, mas tem razão (insisto) no que respeita à impossibilidade de aprofundadas discussões no limitado espaço de um blogue.

Um beijo amigo - e volte sempre.