BRANQUEAMENTO DO FASCISMO (2)

Uma última anotação sobre o livro de Irene Flunser Pimentel (IFP), «A História da PIDE».
Na Segunda Parte da obra - «A PIDE/DGS e os seus principais adversários» - nos capítulos V e VI, a autora aborda «as relações entre a polícia política e o Partido Comunista Português, o principal adversário político do regime até ao final da década de 60».

IFP recorre a curiosos métodos e caminhos de investigação e de análise.
Em matéria de fontes, ela vai beber essencialmente, aos historiadores de serviço (Pacheco Pereira, Fernando Rosas, etc); ao omnipresente Mário Soares; e, naturalmente, à própria PIDE e ao inevitável inspector Fernando Gouveia - e, embora citando dois ou três livros de militantes comunistas, é visível que IFP não achou necessário (ela bem saberá porquê...) consultar o muito que sobre essa matéria foi escrito pelo PCP e, especialmente, por Álvaro Cunhal...
Depois, IFP apresenta-nos a resistência antifascista do PCP como um combate entre pides e comunistas em que os primeiros tentam prender os segundos e os segundos tentam não ser presos pelos primeiros - tudo isto muito à margem das lutas organizadas e dirigidas pelo PCP, lutas que, para IFP, parece não terem nada a ver com a resistência...
Assim sendo, nesse combate PIDE/PCP a polícia fascista sai sempre «vitoriosa»: porque prende comunistas e os comunistas não prendem pides...

E é com particular deleite que IFP vai descrevendo essas «derrotas» e «vitórias» - entendendo-se que cada comunista preso é uma «derrota» do PCP e uma «vitória» da PIDE...
Vejamos, a título de exemplo, alguns dos títulos dos vários sub-capítulos: «A hecatombe de 1945: os "desastres" do Norte e do Sul»; «"Desastres" em Ovar, no Alentejo, Ribatejo e em Coimbra»; «Annus horribilis para o PCP. A direcção é atingida (1949)»; «Prossegue a "colheita" da PIDE»; «1959, o ano de todas as prisões» - e, mesmo quando as coisas estão mal para os fascistas, IFP tem o cuidado de dividir os males, assim: «1961, annus horribilis para o regime mas também para o PCP»...

O prazer de IFP em realçar as «derrotas» do PCP perpassa por todo o livro em todos os aspectos: até quando refere o número de militantes comunistas, a autora fá-lo sempre pela negativa, género: o PCP que em tal data tinha x militantes, tem agora apenas y...

Um último exemplo: a dada altura, IFP fala dos «anos 50»: «Os anos 50 foram duros para o PCP, que se fechou sectariamente e endureceu a sua disciplina» - e, em abono da sua tese, cita... Pacheco Pereira e Fernando Rosas, pois claro.
Depois, pega na palavra desavergonhada de Mário Soares: «O PCP transformou-se numa organização fechada, numa quase seita esotérica, donde os melhores militantes fugiam até por razões de simples bom senso»...
Finalmente, conclui o que... antes mesmo de escrever o livro, já tinha concluído: «Os primeiros anos da década de 50 foram os de todas as purgas e, mesmo, como se verá, de algumas execuções no seio do PCP».
Ora, como se verá, IFP repete as estórias bolsadas por Pacheco Pereira sobre a matéria - estórias que não passam de repetições das versões difundidas pela PIDE.

Assim vai a operação de branqueamento do fascismo.

8 comentários:

Ana Camarra disse...

Pois o que se viu foi bem diferente.
Os militantes comunistas cá ficaram, cá se empenharam e empanham em construir uma nova sociedade.
De facto esta tenmtativa de branqueamento nem com lexivia se safa...

beijos

samuel disse...

A mulherzinha quis o seu pequeno momento de glória e teve-o...

poesianopopular disse...

O funeral do nosso Camarada Álvaro Cunhal deve ter-lhes doído muito, aquela homenagem prestada por, aquela multidão,ficará para sempre na memória e para a história, de Portugal do Partido Comunista Português e do nosso Camarada Álvaro Cunhal.Eles bem gostavam de poder orgulhar-se como nós, da luta que travámos contra a ditadura fascista, mas infismente não têem nada de que possam orgulhar-se a não ser, da traição ao povo português, como é o caso daquele pimpão que me dá vómitos.
abraço

poesianopopular disse...

Desculpa mas, não é infismente! O que eu queria dizer era "infelizmente"!
Abraço

Ludo Rex disse...

O branqueamento do fascismo há muito que se faz sentir em muitos meios, infelizmente. Desde das Academias às televisões, desde a Imprensa às teses de Doutoramento... Um dia destes dizem-nos que é coisa boa. Urge pois, que denunciemos os seus malefícios para as sociedades, para a Humanidade.
Um Abraço

Crixus disse...

Vejo que vai muito bem a operação de branqueamento do fascismo e de ataque desavergonhado ao PCP. Já conhecia as outra invencionices, mas a de execuções é nova para mim. Enfim, a imaginação desta gente não tem limites.
Um abraço (revoltado).

Maria disse...

Por este caminho, um dia destes ainda nos arriscamos a ouvir dizer que nunca houve presos políticos e que o nosso Partido nunca esteve na clandestinidade...
E é este tipo de gente que também "faz opinião" para os que se deixam emprenhar pelos ouvidos, ou pelos olhos...

Um beijo grande

Fernando Samuel disse...

ana camarra: especialmente se a combatermos... com as armas que temos na mão...
Um beijo.

samuel: e ao que parece não lhe foi difícil obter esse momento...
Abraço grande.

poesianopopular: a nossa força é o nosso património (único) de luta em todas as circunstâncias.
Abraço grande.



ludo rex: alguns dos protagonistas dessa operação já dizem isso mesmo: que o fascismo é coisa boa...
Um abraço.

crixus: é uma operação de todos os dias, à qual teremos que procurar responder todos os dias.
Um abraço.

maria: esta gente impõe as suas ideias pela sua repetição exaustiva...
um beijo grande.