POEMA

PARA O MEU TIO


Para o meu tio, que era anarquista,
e que não me deixaram conhecer
porque morreu doente no exílio.

Para o meu pai, que não era de nenhum partido,
nem percebia muito disso,
mas que lutou como voluntário na guerra,
apesar de ver que a perdíamos.

Para o pai do meu cunhado, que figura
na grande lista dos desaparecidos
pelos caminhos que levavam a França.

Para todos os que morreram
com uma bala na frente
nas trincheiras.

Para todos os que morreram na areia
dos campos de concentração franceses.

Para todos os que morreram de fome
nos campos de extermínio alemães.

Para todos os que nunca figuraram
nas listas dos martirizados.

Para todos os que lutaram
para que nós não conhecêssemos
o mundo onde tivemos de nascer.

Para todos vós,
mortos e vivos,
homens e mulheres,
cobardes e valentes.

Para todos vós,
eu, filho da derrota,
envio
toda a minha gratidão,
admiração e respeito.


Enric Larreuela

5 comentários:

Justine disse...

Todo eles são os imprescindíveis, e merecem toda a nossa admiração e respeito.
(mais um poeta desconhecido, mais um degrau na minha "educaçao":)))

poesianopopular disse...

Esta análise poética é muito profunda, porque todos somos imprescindívies, como muito bem diz a Justine.
Tambem não conhecia este poeta, tão pouco, o Fernando Samuel mas, tenho a certeza que somos amigos!
Cá vai aquele abraço do tamanho do mundo.

samuel disse...

Cá p'ra mim... os "filhos da derrota" não escrevem assim!

Maria disse...

Não sei bem porquê, mas este poema lembrou-me um outro, do eterno Brecht, que te deixo aqui:

Aos que virão depois de nós

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!

A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!

Infelizmente,
nós,
que queríamos preparar o caminho para a amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.

Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.


Com um beijo grande

Fernando Samuel disse...

justine: os imprescindíveis são muito mais do que às vezes julgamos...
Um beijo.

poesianopopular: a amizade pressente-se... e sente-se...
Um abraço grande.

samuel: só se forem «filhos da derrota» que não desistem de lutar... pela vitória...
Um abraço.

maria: também acho que é da mesma família...
Um beijo grande.