POEMA

O JARDINEIRO MÍOPE


O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista
às flores.
E a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
«que bem que cantam as minhas papoulas!».

Um dia, a Liga das Senhoras mais Bondosas do Mundo,
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir um emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga mais bondosa do mundo
subia para o Céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.


Sidónio Muralha

('Que Saudades do Mar» - 1971)

5 comentários:

poesianopopular disse...

Olha que bem feito - ainda dizem que deus não castiga!
abraço

Maria disse...

Não vou mais trocar de óculos...

Um beijo grande.

samuel disse...

Merecidíssima!
Olha como eu gostava de ter conhecido pessoalmente o Sidónio Muralha!
Vou tentar remediar em parte essa falta... cantando-o.

Abraço.

Fernando Samuel disse...

poesianopopular: haja deus!...
Um abraço.

Maria: à cautela...
Um beijo grande.

samuel: grande notícia! Cantado por ti, SM engrandecerá.
Um abraço.

smvasconcelos disse...

E assim, em modo de fábula, se escreve um poema... sempre surpreendente e encantador o Sidónio Muralha!...
beijo,