POEMA

CORAGEM

Paris tem frio Paris tem fome
Paris já não come castanhas na rua
Paris anda vestido de velha
Paris dorme de pé sem ar no metropolitano
Maior ainda a miséria imposta aos pobres
E a sabedoria e a loucura
de Paris infeliz
é o ar puro é o fogo
é a beleza é a bondade
dos seus trabalhadores famintos
Não peças socorro Paris
estás vivo de uma vida sem igual
e atrás da nudez
da tua palidez da tua magreza
tudo o que é humano se revela nos teus olhos
Paris minha bela cidade
fina como uma agulha forte como uma espada
ingénua e sábia
tu não suportas a injustiça
para ti a única desordem
Vais libertar-te Paris
Paris bruxoleante como uma estrela
nossa esperança sobrevivente
vais libertar-te da fadiga e da lama
Irmãos tenhamos coragem
nós que não usamos capacetes
nem botas nem luvas nem somos bem educados
Um raio se acende em nossas veias
os melhores de nós morreram por nós
e eis que o sangue dos que morreram nos volta
ao coração
e de novo é a manhã uma manhã de Paris
o extremo da libertação
o espaço da primavera que nasce
A força idiota está na mó de baixo
estes escravos nossos inimigos
se compreenderem
se forem capazes de compreender
vão levantar-se.

Paul Éluard
(Tradução de António Ramos Rosa)

4 comentários:

Justine disse...

Que grande hino à coragem!
É também na força dos outros que vamos beber a nossa própria força...
Abraço

samuel disse...

A resistência para além de fundamental e corajosa também pode e deve ser bela.

poesianopopular disse...

A coragem é a (raiva) renascida das cinzas, que nos galvaniza para novas lutas, outros horizontes!

Fernando Samuel disse...

justine: Éluard é um alumbramento, não é?
Um beijo amigo.

sanuel: e nisso é o Éluard mestre...
Um abraço amigo.

josé manangão: e é inesgotável...
Um abraço amigo.