Ao Miguel, no seu 4º Aniversário, e contra o nuclear, naturalmente



Vais crescendo, meu filho, com a difícil

luz do mundo. Não foi um paraíso,

que não é medida humana, o que para ti

sonhei. Só quis que a terra fosse limpa,

nela pudesses respirar desperto

e aprender que todo homem, todo,

tem direito a sê-lo inteiramente

até ao fim. Terra de sol maduro,

redonda terra de cavalos e maçãs,

terra generosa, agora atormentada

no próprio coração; terra onde teu pai

e tua mãe amaram para que fosses

o pulsar da vida, tornada inferno

vivo onde nos vão encurralando

o medo, a ambição, a estupidez,

se não for demência apenas a razão;

terra inocente, terra atraiçoada,

em que nem sequer é já possível

pousar num rio os olhos de alegria,

e partilhar o pão, ou a palavra;

terra onde o ódio a tanta e tão vil

besta fardada é tudo o que nos resta;

abutres e chacais que do saber fizeram

comércio tão contrário à natureza

que só crimes e crimes e crimes pariam.

Que faremos nós, filho, para que a vida

seja mais que a cegueira e cobardia?


Eugénio de Andrade pelo Mário Viegas

2 comentários:

samuel disse...

É sempre especial recordar este companheiro de tantas viagens e recitais em eu ia preenchendo os intervalos dos "seus" poemas com as canções que podia...
É sempre bom!

poesianopopular disse...

O Mário Viegas dizia muito bem, era um valor acrescentado para qualquer poesia, neste caso acrescentavam-se um ao outro.
Obrigado José Neves