António Comunista Cardador


Ao António Cardador sobram hoje três dentes na boca hiante. Aos oitenta e sete anos os ossos doem na teimosia dos passos, mas o riso é fácil arrebatando ao mais fundo de nós o vencimento de qualquer preconceito. Sempre que inaugura a possibilidade de alguma recordação situa-a nos seus vinte anos, mesmo sabendo quem ouve que mais, ou menos, lhe corriam nas veias quando o que conta se passou realmente. António gosta de recordar a mocidade, quando nenhuma distância era grande demais para a ânsia do seu sonho ou namorico. Engraçado nele são mesmo as histórias que nos conta quando ambos – sonho e namoro - se cruzaram para proporcionar alguns dos momentos mais bonitos da sua história simples e grande, como a de qualquer revolucionário. António Cardador – visto está para quem for razoável de contas - viveu mais de metade da sua vida no rosário do fascismo. Comunista, como todos os camaradas teve quotidianamente a preocupação de resistir e, resistindo, salvaguardar a sua liberdade. António Cardador não sabia ler mas distribuía os Avantes! que clandestinamente em Ervidel se liam. Não sabia de palavras mas sabia ser aquela a voz dos homens livres – ou lutando para o ser realmente! Aprendeu a ler já adulto, obrigado que foi a tirar a terceira classe para que pudesse obter a carta de tractorista. Estavam os campos em transformação tecnológica mas a fome apertava, como sempre, os mesmos corações operários. E um novo mundo se alargou nos seus horizontes das primeiras letras. Ouvia a rádio Moscovo em surdina, fitando a mais atenta vigilância. Foi preso pela PIDE depois do cinema. Saído de um filme aproveitou a multidão para gritar – e entusiasmar uns quantos que, fintando o medo logo o seguiram -: Abaixo Salazar! Espancado e torturado nunca falou. Que não senhor, que a sua politica era o trabalho e que não sabia que história era essa de comunistas e democratas. Que a frase fora fruto de copos entre amigos, atiçada pela vida difícil e pela fome. Cumpriu com o sonho na honra com que amou os camaradas. E um novo mundo se alargou nos seus horizontes das primeiras letras e da primeira prisão. Uma vez, fugido do monte em que ceifava, ludibriando a vigilância de patrão e manageiro, veio a Ervidel para namorar uma moça – com a qual acabaria por casar, sua companheira hoje, com os mesmos oitenta e sete feitos em Maio último. Depois de umas quadras ditas à janela, fugido à Guarda, teve de saltar uns quintais. No da ti’ Chica encontrou uma telha com ocre. Levou-a consigo, escondida debaixo do capote onde se escondia do frio. Em cada parede branca escreveu com a fúria de um homem livre: VIVA A RÚSSIA. Foice e martelo por baixo e estava a liberdade em cada parede, enquanto não chegava a cada homem. Só depois do 25 de Abril se soube que tinha sido o Cardador o poeta de parede. Só vinte anos passados a homenagem merecida no sorriso dos amigos acabados de saber a novidade…. –Então foste tu!!! .

Conheci-o ontem… entre os espaços solitários dos três dentes que lhe restam sorriu honestamente, como todos os alentejanos que conheço. Abriu-me as portas de casa e do seu coração. Sentei-me à sua mesa. Provei os aromas da sua luta. Pintei com ele a foice e o martelo em cada parede da aldeia, hoje tão mudada. Ouvi coisas que tinha para me dizer, como se me esperasse desde o principio dos anos. No final despediu-se com um ate amanha camarada. Quando abri a porta do carro e nele me sentei, depois de por o sinto e de sentir o Cardador fechar o seu postigo, chorei como nunca o tinha feito. Como pode haver, no meio da fome, um coração tão farto?

Aljustrel, dez de Julho de 2008

01.10am

8 comentários:

Anónimo disse...

Nao tenho palavras... nem sabedoria para comentar esse texto e o que ele representa! So digo o seguinte: Foi o texto mais bonito que li até hoje!!!
Afonso Adão

poesianopopular disse...

É uma bela (história) Verdadeira, comovente, e arrebatadora, que tú descreves com mestria!
Obrigado aos dois!
Abraço

Fernando Samuel disse...

Ora cá estás tu! - e ainda bem!

Abraço grande.

sousa disse...

Jantando um gaspacho na Terra Branca de Serpa, fiquei comovido por, e como esta História me foi contada pelo António, pois quer o contador quer o ouvinte deixam a mensagem que o futuro é hoje.
Um abraço Operário António e também ao nosso Cardador pela sua lição de vida e luta.
Por Abril

Antonio Lains Galamba disse...

Adão: deixa-me sensibilizado ter agradado tanto. um abraço forte.

poesianopopular: mestria tem quem pintou aquela foice e aquele martelo. so gostava que estivessem estado todo connosco aquela mesa a ouvir o camarada cardador. sou um sortudo. Abraço

Fernado samuel: ppois estou. sempre estive. apenas de outras formas. leio todos os dias o que aqui vais escrevendo. com o blogue em tao boas maos nem me preocupo tanto com as minhas ausencias repentinas. Aquele NOSSO abraço.

Sousa: sousa o caraças, Herlander: continuas a publicitar as nossas jantaradas e qualquer dia somos quinhentos à mesa. Ainda Bem!!!b belo gaspacho. bela companhia. gsto sempre dos nossos jantares. sabe bem assim o alentejo. Abraço tamanho da amizade.

XICA disse...

Belissimo post!

Antonio Lains Galamba disse...

"depois de por o sinto"! na altura não reparei e deixei passar. CINTO. e não Sinto.

Anónimo disse...

... E eu chorei consigo. Muito bonito. C.M.