POEMA

TEATRO


Na sala vazia sentaram-se os quatro.
E os quatro ficaram olhando, no fundo,
a mancha de luz do pequeno teatro.

- O dono do teatro - um vagabundo
que trouxera o teatro do outro lado do mundo -
por trás das cortinas puxava os cordéis...
Puxava os cordéis aos fantoches, fiéis
aos seus dedos infiéis de vagabundo.

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Dos quatro meninos, um deles voltou,
e, tanto viu, que decorou
as falinhas mansas e a maneira
invertebrada dos fantoches de feira.

De dois dos meninos ninguém mais falou,
(e o outro é poeta e ninguém lhe perdoa...)
mas do menino-fantoche como é bom falar!...

- porque o menino-fantoche é hoje a pessoa
mais importante do lugar.


Sidónio Muralha

(«Passagem de Nível» - 1942)

6 comentários:

samuel disse...

É basicamente para isso que servem... ocupam lugares "importantes".

Abraço.

Fernando Samuel disse...

samuel: os fantoches são assim...
Um abraço.

Graciete Rietsch disse...

Não consigo dizer mais nada a não ser verdade, verdadinha pura, maravilhosamente bem apresentada.
Que coisas lindas nos trazes camarada.
Um grande abraço.

smvasconcelos disse...

Este poema é magnífico! E resume o antro social que nos cerca: relevo para os fantoches, perseguição aos poetas e ingnorância dos demais...
um beijo.

Maria disse...

Só podia ser a pessoa mais importante do lugar...

Um beijo grande.

Fernando Samuel disse...

Graciete Rietsch: neste caso, o obrigado é todo para o Poeta.
Um beijo.

smvasconcelos: os fantoches são os «heróis» do «antro social»...
Um beijo.

Maria: por isso é... o fantoche...
Um beijo grande.