POEMA

PRELÚDIO


Reteso as cordas desta velha lira,
tonta viola que de mão em mão
se afina e desafina, e donde ninguém tira
senão acordes de inquietação.

Chegou a minha vez, e não hesito:
quero ao menos falhar em tom agudo.
Cada som como um grito
que no seu desespero diga tudo.

E arrepelo a cítara divina.
Agora ou nunca - meu refrão antigo.
O destino destina,
mas o resto é comigo.


Miguel Torga

5 comentários:

samuel disse...

E o futuro é dessa canção...

Abraço.

smvasconcelos disse...

Que bom o Torga ter "arrepelado a lira divina" tantas vezes... e nunca desafinou.
beijo,

poesianopopular disse...

A inquietação do JMB deve ter nascido aquí!
Torga é uma fonte inesgotável de inspiração.
Abraço

Maria disse...

O resto é... connosco!
Ou seja, temos o futuro nas nossas mãos!

Um beijo grande

Fernando Samuel disse...

samuel: porque «o resto é comigo»...
Um abraço.

smvasconcelos: mesmo que tenha «desafinado» uma vez o outra... perdoamos-lhe...
Um beijo.

poesianopopular: sem dúvida.
Um abraço.

Maria: é isso!
Um beijo grande.