POEMA

INVASÃO


II


(Invasão da União Soviética pelos exércitos de Hitler)


Homens de outros séculos:
invejai-me.

Cá estou no século vinte
no Dia do Grande Ruído
quando se escancararam na Terra
as Portas de Bronze
para todos os recomeços.

... E os braços dos mortos abriram no chão
caminhos de garras
para obrigar as sombras dos homens a erguerem-se no êxtase
de morrer de pé.

Cá estou no século vinte
nesta paisagem de bocejos
e estrelas estagnadas
onde só há cegos
presos na própria noite
aos tombos de declive...
- sem ao menos suspeitarem
de que anda uma nova Morte pelo mundo.

Cá estou no século vinte
nesta primavera de cadáveres
tão contentes de terra
que até beijam as raízes
para que as flores dos outros
nasçam mais límpidas
nas manhãs do sol múrmuro a espreguiçar-se no vento das planícies...


José Gomes Ferreira

7 comentários:

samuel disse...

Segundo outro grande poeta, "o ventre, donde isto saiu, ainda é fecundo"...

Abraço.

Graciete Rietsch disse...

Lindo, triste, mas tansmitindo esperança.

Beijos.

Maria disse...

.....
"... E os braços dos mortos abriram no chão
caminhos de garras
para obrigar as sombras dos homens a erguerem-se no êxtase
de morrer de pé."...
É muito bonito!!!!!

Um beijo grande.

Membro do Povo disse...

Épico e comovente!

GR disse...

“... E os braços dos mortos abriram no chão”

Lindíssimo!

Bj,

GR

Nelson Ricardo disse...

A URSS foi a nação que mais sofreu com a 2ª guerra mundial. O silenciamento que se faz da frente de leste da guerra é vergonhoso.

Um Abraço.

Fernando Samuel disse...

samuel: esse é grande problema...
Um abraço.

Graciete Rietsch: e dando força...
Um beijo.

Maria: bonito e certeiro.
Um beijo grande.

Membro do Povo: sem dúvida.
Um abraço.

GR: o Zé Gomes é assim.
Um beijo.

Nelson Ricardo: é verdade. cabe-nos a nós ir repondo a verdade histórica.
Um abraço.