POEMA

NÃO SEI SE É UMA MEDALHA


Alguma vez
um cigarro aceso sentirá o delicioso
sabor de te fumar de repente
o ombro direito?

Pois
sobre isso eu juro
que tudo é pura mentira.

Juro
que nunca um cigarro LM
apagou sua idiossincrásica boca de lume
no calor escuro da minha omoplata.

E também juro
que nunca plagiei um cinzeiro moçambicano
sentado a cheirar o bafo da própria cinza
com o subchefe de brigada Acácio
um deus fantasmagórico envolto
na especial nuvem de tabaco
mistura de Virgínia com pele.

E também confesso
que se esta invenção tivesse acontecido
muito provavelmente seria em mil novecentos
e sessenta e seis à tarde numa certa Vila Algarve
enquanto pela duodécima vez
eu abanava a cabeça
e dizia: - Não sei!

Por acaso
a mancha desta mentira está.
Não sei se é uma medalha.
Mas não sai mais.


José Craveirinha

8 comentários:

Ludo Rex disse...

Quem não quereria deixar de fumar...
Abraço

maria teresa disse...

É certamente uma medalha ganha com honra e com muita dignidade!

poesianopopular disse...

Tens que oferecer este livro de poesia do José Craveirinha à (IFP)para ela poder defenir-se, e ter consciência daquilo que anda a escrevinhar.
Abraço

Ana Camarra disse...

Maravilha!
Confesso que fumo LM...
Confesso que cada vez adoro mais José Craveirinha.

Beijos

(em 1966 nem sequer tinha nascido, fui concebida)

Ana Camarra disse...

Maravilha!
Confesso que fumo LM...
Confesso que cada vez adoro mais José Craveirinha.

Beijos

(em 1966 nem sequer tinha nascido, fui concebida)

Maria disse...

Este José Craveirinha é comparável, na força dos seus poemas, a Bertold Brecht...
Sentimo-los cá dentro e arrepiamo-nos...

Um beijo grande
(um dia destes levo daqui uns para pôr lá, pode ser?)

samuel disse...

A mancha "nos outros" também não sai mais... por muito que tentem aplainar a História à força de Flunsers ou de Pimentéis ou quaisquer outras ferramentas de polimento.

Fernando Samuel disse...

ludo rex: é verdade!...
um abraço.

maria teresa: sem dúvida.
Um beijo amigo.

poesianopopular: se tivesse esse efeito, oferecia-lhe já o livro...
Um abraço.

ana camarra: és uma jovem...
Um beijo.

maria: nem é preciso perguntar!
Um beijo grande.

samuel: e essa é a grande questão.
Um abraço.