POEMA

O MENDIGO QUE ENTREGAVA UM PAPEL


Atenda por favor: não posso trabalhar.
Sou, entre outras coisas, surdo-mudo,
e mortos são meus pais e três irmãos.
Sou surdo-mudo, sim. Estou quase cego.
Por piedade dê-me alguma roupa,
comida, calças, pois não tenho nada.
Se os nossos pés são iguais dê-me uns sapatos.
Sou surdo-mudo, solitário, quase velho.
Dê ao menos um escudo, ou uns tostões.
Socorra-me. Olhe para mim.
Não posso falar:
sou realmente surdo-mudo.

Devolva-me o papel. Não tenho cópia.


Glória Fuertes

5 comentários:

samuel disse...

É fundamental... olhar!

maria teresa disse...

Este poema de Glória Fuertes, que não conhecia, não me tocou!Senti-o como um apelo ao "pobre coitadinho", emoção que não gosto de sentir.

Fernando Samuel disse...

samuel: olhar: ver...
Um abraço.

maria teresa: talvez...
Um beijo.

GR disse...

O pior é que se vulgarizou de tal modo a miséria humana que é mais um, não podemos olhar para todos e, deixamos de os ver, de os ouvir.
Mais um poema que tenta (talvez) alertar.

GR

Justine disse...

Violento, duro, verdadeiro. E poético, também. Gosto muito da Glória Fuertes