POEMA

O BICHO


Vi ontem um bicho
na imundície do pátio
catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
não examinava nem cheirava:
engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


Manuel Bandeira

13 comentários:

Ana Camarra disse...

Infelizmente, cada vez se vê mais.
E outro tipo de bichos-homens também, mais arrumados, com um aspecto mais humano, não andam aos restos, mas são feras tremendas disfarçadas de homens!

beijos

samuel disse...

Terrível, a imagem do homem-bicho de caixote do lixo... tão terrível como a imagem dos homens-bichos-feras, que o empurraram para lá.

Abraço

Fernando Samuel disse...

ana camarra e samuel: é isso, uns são a consequência dos outros...

Beijo e abraço.

poesianopopular disse...

Há quantos anos é que o Manuel Bandeira escreveu esta poesia?
Será que:- foi ontem?
Abraço

CRN disse...

Fernando,
Dificil é também evitar considerar lixo o que desconhecêmos, algo compreênsivel quando nesta sociedade convivêmos com quem é incapaz de distinguir o superflúo, e assim lixo, que acumula sem pensar.
Assim, também o "lixo" pode proporcionar elementos mais necessários que aquilo que "aparentemente" pareça, o que vem de certa forma justificar a corja e a sua defesa de que vale mais parecer que ser.
A coerência não deixa de ser o único motor idóneo para construir uma realidade de acordo com o que defêndemos, prescindir de meias verdades, por vezes, significa o sacrificio daqueles que as criticam, mas, como digo acima, da mesma forma que aquele que busca comida sem a cheirar e sem a analizar, sabe distinguir comida, comida, aqueles que lutam em coerência entendem o que significa retirar protagonismo àqueles a procuram como que o demais só de lixo se tratara.
Sentenças, verdades absolutas, não, para entender um problema concreto é necessário conhecer a realidade concreta, tecer considerações desde uma concepção pessoal é a tendência de ditadores como aqueles que conhecêmos, o Comunismo é uma força de vanguarda, o materialismo dialéctico é fundamental, também, para o conhecimento do ser humano.
Por exemplo, para que não seja a politica a única forma de me explicar, se assim se pode considerar a mesma, um antropólogo, Boas, deitou por terra todo a antropología que o precedeu porque, desde a humildade, decidiu que para conhecer os Aborigenes e o significado do seu folclore, era necessário falar com eles, posicionar-se ao seu nivel, ouvir as suas razões, em detrimento dos métodos anteriores que categorizavam outros seres humanos desde um escritória na universidade de Cambridge.
Bom, já me alonguei demasiado, espero que não se entenda esta opinião como uma critica negativa senão como uma defesa da pluralidade e da diversidade que, desde a coesão e da democracia, deve, de baixo para cima, realizar o centralismo democrático que necessita o nosso país, o mundo ou, na sua base, a célula básica da sociedade.

A revolução é hoje!

Maria disse...

Houve tempos em que tinha este poema colado na parede por trás da minha secretária... a entidade patronal não achava piada...
E tinha Brecht, e Bobby Sands, sei lá, o que tu me foste lembrar.

Vou levá-lo para um dia destes colocar na ilha.

Um beijo grande

Antuã disse...

Esta é a imagem que mais se vê nesta sociedade capitalista.

Hilário disse...

Fernando,
cada vez temos mais homens bichos de caixote do lixo, infelizmente.

Mas nós vamos continuar a nossa luta para que no futuro esta situação não seja mais possivel.

Um Abraço.

Utopia das Palavras disse...

É das imagens mais terríveis e que me afectam de sobremaneira cada vez que coloco o saco do lixo e quase junto com ele vai uma criatura dessas (um bicho meu irmão)... que País é este!!!


beijos
Ausenda

maria teresa disse...

ÁRVORES DO ALENTEJO

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasio...e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Grita a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! corações, almas que chora,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca

Ludo Rex disse...

Infelizmente uma realidade que se vê cada vez mais... Façamos algo, já.
Abraço

Maria do Rosário Campos disse...

Junto a minha voz e acção, à vossa, no combate desta situação cruel e desumana.
1 abraço

Fernando Samuel disse...

poesianopopular: se não foi, podia ter sido...
Um abraço.

crn: não te alongaste demais: escreveste o que entendeste que devias escrever (já agora: tenho tido grande dificuldade de acesso ao teu blog)
Um abraço.

maria: as entidades patronais só acham piada ao que lhes interessa...
Um beijo grande.

antuã: é como que um cartão de visita do sistema.
Um abraço.

hilário: só com a luta poremos fim a estas situações.
Um abraço.

Ausenda: é o reino do capitalismo dominante - onde todos os dias morrem de fome mais de 60 mil pessoas...
um beijo.

maria teresa: a belíssima poesia de Soror Saudade...
Obrigado.

ludo rex: lutemos, então...
Um abraço.

maria do rosário campos: obrigado pela visita e pelo comentário.
Um abraço.