ÁLVARO

Hoje apeteceu-me falar do Álvaro.
Porquê?: sei lá, razões para falarmos dele e sobre ele todos os dias, há muitas...
Tantas quantas as que existem para os seus (e nossos) inimigos dizerem dele e sobre ele o que é hábito dizerem...

Porquê, então, me apeteceu, hoje, falar do Álvaro?
Talvez porque estamos em Maio, mês que todos os anos começa por ser Dia do Trabalhador e este ano, antes de partir, vai encher a Avenida da Liberdade de trabalhadores: milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares de trabalhadores, vindos de todo o País, em luta por direitos que o governo do grande capital lhes quer roubar.

Talvez, também, porque nestes dias de Maio de 2010 passam 60 anos sobre aqueles dias de Maio de 1950, em que o Álvaro, frente aos juízes fascistas, passou de acusado a acusador...

Começou assim o julgamento:

«Juiz - Sabe de que é acusado? Tem alguma coisa a dizer em sua defesa?

AC - Sim. Quero começar por referir neste tribunal que, desde a minha prisão em 25 de Março de 1949, há, portanto, mais de um ano, me encontro ilegalmente submetido a um regime de rigoroso isolamento.

Juiz - Sabe certamente que há peças no processo relativas a isto.

AC - Perfeitamente. Não há qualquer exagero em dizer que esse regime é uma nova forma de tortura. Uns resistem a ela, outros, como esse grande patriota que foi Militão Ribeiro, perdem nela a vida, conforme tomei conhecimento já depois de me encontrar neste tribunal.
Da primeira vez que fui preso, como me negasse a prestar declarações, algemaram-me, meteram-me no meio de uma roda de agentes e espancaram-me a murro, pontapé, cavalo-marinho e com umas grossas tábuas com uns cabos apropriados. Depois de me terem assim espancado longo tempo, deixaram-me cair, imobilizaram-me no solo, descalçaram-me sapatos e meias e deram-me violentas pancadas nas plantas dos pés. Quando cansados, levantaram-me, obrigando-me a marchar sobre os pés feridos e inchados, ao mesmo tempo que voltavam a espancar-me pelo primitivo processo. Isto repetiu-se numerosas vezes, durante largo tempo, até que perdi os sentidos, estando 5 dias sem praticamente dar acordo de mim. Desta vez não fui sujeito aos mesmos processos. Mas estou em condições de comparar, avaliar e aqui dizer que um ano de isolamento não é menos duro que os referidos tratos. Não há, pois, qualquer exagero ao dizer que o referido regime de isolamento é uma nova forma de tortura»...

E terminou assim:

«Vamos ser julgados e certamente condenados. Para nossa alegria basta saber que o nosso povo pensa que se alguém deve ser julgado e condenado por agir contra os interesses do povo e do país, por querer arrastar Portugal a uma guerra criminosa, por utilizar meios incosntitucionais e ilegais, por empregar o terrorismo, esse alguém não somos nós, comunistas. O nosso povo pensa que, se alguém deve ser julgado por tais crimes, então que se sentem os fascistas no banco dos réus, então que se sentem no banco dos réus os actuais governantes da nação e o seu chefe Salazar».


Depois do julgamento de Maio de 1950, o Álvaro voltou para a Penitenciária de Lisboa, onde foi mantido na «nova forma de tortura» que era o «regime de isolamento» até ser transferido para a Cadeia do Forte de Peniche, em 27 de Julho de 1956 - donde viria a evadir-se, integrando a histórica fuga colectiva de 3 de Janeiro de 1960.


Hoje apeteceu-me falar do Álvaro.
Porquê?: sei lá...

15 comentários:

Cid Simões disse...

Nunca é demais falar do Álvaro!

samuel disse...

Porque é preciso. Muito!

Abraço.

Maria disse...

E depois de te ler faltam-me as palavras. Também não sei porquê...

Um beijo grande, grande!

Mário Pinto disse...

O Álvaro faz parte do futuro, esse, pelo qual lutou, o mesmo pelo que, hoje, só podemos continuar a lutar!

lp16 disse...

Álvaro: Um Exemplo que serve de percussão ao caudal ofensivo das nossas Lutas...

Até Sábado!

Graciete Rietsch disse...

O Álvaro não é um mito.É um herói. Preso, torturado, incompreendido por alguns, nunca perdeu a força e a coragem.Na prisão, em condições degradantes, leu, escreveu, desenhou, traduziu o REI LEAR e ainda escreveu a sua tese de fim de curso sobre o ABORTO( naquele tempo,vejam lá). Era, é um homem notável.
Apesar de tudo isto conseguiu evadir-se de Peniche, não para descansar, mas para continuar a luta.
Deixa-nos um extraordinário exemplo de coragem, coerência, amor e grande saudade.

Obrigada camarada amigo por nos recordares ÁLVARO CUNHAL.

Um grande beijo.

GR disse...

Liguei a rádio,tanta coisa má ouvimos. Mesmo com desligado, os ouvidos rebentam, a cabeça estala.
Como necessitava de ler este texto, ouvir as palavras do nosso querido camarada Àlvaro, sempre tão presente.
Gostei tanto deste texto que me comovi.

Bjs,

GR

Manuel Rodrigues disse...

Apeteceu-te falar do Álvaro... Deixa cá ver se adivinho... Talvez porque o Álvaro foi um grande dirigente comunista... ou talvez porque foi um HOMEM de uma extraordinária envergadura moral... ou simplesmente pela sua exemplar coragem... ou talvez ainda porque foi um HOMEM BOM, de uma enorme sensibilidade humana... talvez pela grande falta que nos faz, apesar de ter ajudado a construir um Partido que o torna imortal...Por tudo isso, é sempre oportuno falar do Álvaro, como se o Álvaro aqui estivesse. E está de tal forma, que apetece falar com o Álvaro que continua a intervir e a transformar, serenamente, continuadamente, apesar dos seus rastejantes detractores...

maria povo disse...

Há que dar a conhecer Álvaro Cunhal! Esse HOMEM NOVO!!

Divulgar, divulgar sempre, como acontece neste post. Obrigada.

"... e até os mortos vão ao nosso lado..."

até amanhã, camaradas!!

smvasconcelos disse...

Que bom que falaste! É um Homem sempre presente!Nunca o conheci pessoalmente, ams tenho uma amiga que me contou esta história:
estava ela num centro de trabalho do Partido a desenhar. O Álvaro abeirou-se dela e quando viu que ela desenhara um gato acorrentado a uma casota, ralhou-lhe:" porque é que prendeste o gato? Todos os seres têm o direito de ser livres!". Conta a minha amiga, que foi a sua primeira grande lição de vida. E que linda lição!...
Um beijo!

do zambujal disse...

Apeteceu-te falar do Álvaro? Porque estamos sempre a pensar nele, como referência, como exemplo!
Apeteceu-te falar do Álvaro?
Ainda bem.
Obrigado. A ti! Porque o Álvaro merece que sejas tu a falar dele! E o respeito pelo Álvaro exigiria que outros se calassem.

Um forte abraço

joão l.henrique disse...

É na mensagem e no exemplo do Álvaro que ganhamos forças para a luta até à vitória final.

Um abraço.

duarte disse...

nada nem ninguem nos tolderá o espirito!!!
venham daí as mais brutais formas de repressão!
Mais fortes e mais convictos ficaremos.
essa é a lição.

poesianopopular disse...

O camarada Álvaro Cunhal vive em cada um de nós, que o respeitamos e admiramos.
A obra que nos deixou, é do presente e para o futuro, é uma honra e um previlégio, ler e seguir os seus pensamentos,dar continuidade á sua luta, é a melhor homenagemm que podemos prestar-LHE.
Amanhã 29, cada um de nós é uma particula de Álvaro Cunhal.
Abraço, obrigado pela tua lembrança.

Fernando Samuel disse...

Cid Simões: nunca!
Abraço grande.

samuel: e sempre...
Um abraço.

Maria: talvez porque há momentos em que as palavras são desnecessárias...
Um beijo grande - e até logo.

Mário Pinto: com ele, lutar, lutar sempre (vi o teu vídeo)
Um abraço.

ip16: logo à tarde lá estaremos - e ele connosco...
Um abraço.

Graciete Rietsch: o Álvaro é... o Álvaro...
Um beijo.

GR: um beijo grande para ti, e até logo.

Manuel Rodrigues: acertaste: foi por isso tudo que me apeteceu falar do Álvaro...
Um abraço.

maria povo: HOMEM NOVO, dizes bem.
Um beijo.

smvasconcelos: falar dele e ter sempre presente o seu exemplo é essencial.
Um beijo.

do zambujal: a maior referência e o melhor exemplo!
Um abraço grande.

joão l.henrique: e é essa mensagem que levaremos à manif de hoje.
Um abraço.

duarte: e que grande lição!
Um abraço.

poesianopopular: abraço grande e até logo.