POEMA

ROMANCE DE SINHÁ CARLOTA


Na beira do caminho
sinhá Carlota
está pitando no seu cachimbo.

Um círculo da cuspo
a seu lado...

Veio do sul
numa leva de contratados.
Teve filhos negros
que trocam hoje o peixe
por cachaça.

Teve filhos mestiços.
Uns
forros de a. b. c.
perdidos em rixas de navalhas.
Outros foram no norte
com seus pais brancos
e o seu coração
já não lembra o rostinho deles!

Sinhá Carlota
veio há muito do sul
numa leva de contratados.

Assim
embora pra seu branco
o seu corpo não baila mais no sòcòpé
ele ao passar
fica sempre dizendo:
sàbuá?

Sinhá Carlota
nos seus olhos cansados e vermelhos
solta um achô distante
enquanto vai pitando
no seu cachimbo carcomido...


Francisco José Tenreiro

(«Ilha de Nome Santo»)

6 comentários:

Maria disse...

Um retrato de vida. Sofrida.
Belo poema!

Um beijo grande.

Nelson Ricardo disse...

Estas dores, que se materializam numa vida escravizada, devem para sempre ser relembradas. Para que os povos não se esqueçam do que a Humanidade já foi capaz.

Um abraço.

smvasconcelos disse...

Conheço muito mal este poeta, contigo vou ter oportunidade de o ir descobrindo...Obrigada.
(já sentia falta deste cantinho..)
:))
beijo,

Fernando Samuel disse...

Maria: esta três personagens - Seu Silva Costa, Sam Màrinha e Sinhá carlota - voltarão a estar connosco num próximo poema.
Um beijo grande e até Maio.

Nelson Ricardo: e de que é necessário transformar o mundo...
Um abraço.

smvasconcelos: e este cantinho sentia falta de ti...
Um beijo.

Graciete Rietsch disse...

Tão triste este poema e tão lindo! Uma imagem do que foi o nosso colonialismo!
Que bom dares-nos a conhecer um tão grande poeta! Eu não conhecia.

Um beijo camarada e amigo e obrigada pelo que sempre escreves no meu modesto blog.

Fernando Samuel disse...

Gracieta Rietsch: e quanta força ele encerra!...
Um beijo.