VINTE ANOS DEPOIS, COMO É?

Há mais de uma semana que a «queda do muro» tem sido notícia em tudo quanto se apelida de órgão de comunicação social.
Com uma criatividade notável, os média dominantes nacionais repetem-se e repetem-se na difusão da leitura-chapa-um sobre os acontecimentos ocorridos há vinte anos - com a preocupação, comum a todos, de diabolizar o socialismo e santificar o capitalismo.
Hoje, dia 9, como era previsível, os jornais repetem tudo o que disseram na última semana - e fazem-no, como era previsível, em sensacionais primeiras páginas e dezenas de sensacionais páginas interiores.

A noite de 9 de Novembro de 1989 é-nos contada nos seus mais ínfimos pormenores: no quadro da tal leitura-chapa-um, ficamos a saber que a «queda do muro» foi a «libertação do povo da RDA»; foi a «democracia, enfim!»; foi a «liberdade, enfim!»; foi, enfim, a felicidade e a bem-aventurança...
(curiosamente, nenhuma notícia nos fala de uma outra faceta dessa «noite libertadora»: enquanto a enorme multidão festejava a suposta libertação, uma pequeníssima multidão - composta pelos homens de mão dos grandes senhores do capital da então República Federal Alemã, apropriava-se das mais importantes fábricas e empresas da então RDA, numa daquelas operações de rapina em que o capitalismo é mestre)

Também como era previsível, as notícias fogem a estabelecer comparações entre o antes e o depois da queda do muro.
Percebe-se: se o fizessem dificilmente poderiam deixar de reconhecer que o que marca as mudanças registadas nestes vinte anos é um profundo retrocesso económico e social que instituiu o desemprego como inevitabilidade, que decretou como velharias totalmente destituídas de modernidade, o direito à saúde, à educação, á infância, à velhice - e que, assim, atirou para a miséria amplas camadas da população.

Recorde-se que, um estudo a que o Cravo de Abril fez referência há uns meses atrás, dava conta que, vinte anos passados sobre a queda do muro, «57 por cento da população da ex-RDA continua a defender o socialismo» e considera que o seu antigo país tinha «mais aspectos positivos do que negativos».
A opinião destes 57 por cento, vem confirmar as declarações proferidas pelo antigo chefe de Estado da RDA, Erich Honecker, no decorrer do julgamento a que foi submetido pelas autoridades alemãs, no tribunal de Berlim, em 1992 - declarações que (retiradas do Avante!; aqui se recordam:

«Cada vez mais alemães de Leste constatarão que tinham as condições de vida menos deformadas na RDA do que os alemães ocidentais com a economia "social" de mercado;
que as crianças da RDA, nas creches, jardins-de-infância e escolas, cesciam mais felizes, menos preocupadas, mais bem formadas e mais livres do que as crianças da RFA (...);
«Os doentes constatarão que, apesar dos seus atrasos técnicos, o sistema de saúde da RDA os considerava como pacientes e não como objectos comerciais (...);
«Os artistas compreenderão que a censura da RDA, real ou imaginária, não era tão hostil aos artistas como a censura do mercado (...);
«Reconhecerão que na vida quotidiana, em particular no local de trabalho, tinham na RDA uma liberdade inigualável».

«E a liberdade»?: gritam, em coro síncrono, os média do grande capital, repetidos e repetidos pelo extenso cortejo de especialistas em matéria de «liberdade» forma(ta)dos por esses mesmos média.
Um dia destes abordarei aqui esse tema.

Até lá, deixo-vos esta breve observação de Lénine sobre o assunto:
«Os capitalistas sempre chamaram "liberdade" à liberdade de obter lucros para os ricos, à liberdade dos operários de morrerem de fome.»

14 comentários:

Graciete Rietsch Monteiro Fernandes disse...

Também eu repito aquilo que constantemente digo tentando transferir um pouco de realidade para as "verdades absolutas" que os nossos meios de comunicação trasmitem. O capitalismo destruiu muitas das conquistas do socialismo e atribuiu as responsabilidades ao próprio socialismo. VIVA O SOCIALISMO: ABAIXO TODOS OS MUROS REAIS OU NÂO MAS DE VERGONHA E MENTIRA ESPALHADOS POR ESTE "MUNDO LIVRE".Um beijo .

samuel disse...

Grande post! Pelos intervalos da propaganda dominante é preciso ir fazendo passar a verdade...

Abraço.

Maria disse...

Hoje fartei-me do muro e dos 20 anos. Até estranhei a Merkel dizer que foi muito feliz lá, na RDA, nos anos em que lá viveu, e que não era assim tão mau. Mas fiquei farta.
O último parágrafo deste post é tão bom de reler...

Um beijo grande

Antuã disse...

havemos de derrubar os milhões de muros que o capitalismo nos coloca a barrar o caminho.

LGF Lizard disse...

Nada a dizer. Também existem em Portugal aqueles que juram pela mãe que se vivia melhor em Portugal durante o regime salazarista. Bem diziam que havia mais emprego, mais segurança, mais solidariedade.... as mesmas balelas que os comunistas dizem dos seus antigos "paraísos".
Enfim, uns iguais aos outros. Só estão bem é a oprimir os outros. Felizmente, isso já acabou e apenas é passado. A luta é que fique mesmo no passado. Que nunca mais existam ditaduras. Quanto a vocês, saudosistas do Muro, da STASI e da opressão: nós ganhámos. Vocês perderam. A vossa ideologia opressora e assassina jaz no caixote do lixo da Humanidade. Aguentem. Que vos doa mil vezes mais.

Anónimo disse...

Muito bem LGF. agora é que voce disse tudo. eles PERDERAM. e a dor da queda dos paraisos ainda nao passou. so falta Cuba, Coreia e pouco mais. mas mesmo assim quando esses cairem o blabla vai ser igual.
e depois os comunistas admiram-se que o salazar seja o maior portugues de sempre e que haja os saudosistas salazarentos.

J.Z.Mattos

Manuel disse...

Enquanto o capitalismo (e os capitalistas) vão invocando a sua sagrada "liberdade" para, livremente, continuarem a explorar, nós comunistas e todos aqueles que em Portugal e no mundo vão lutando contra a exploração e a opressão, continuaremos essa luta contra o único verdadeiro muro: o muro que (ainda) separa os homens em classes sociais antagónicas. E esse cairá, mais tarde ou mais cedo, perante a força organizada dos trabalhadores. Por mais que doa aos capitalistas (e aos que zurram em nome deles). É que, para seu azar, o ideal comunista não ficou soterrado debaixo das pedras do muro de Berlim. E é um ideal portador de uma força invencível.

Anónimo disse...

Falando de Liberdade.
Afinal os comunistas não são contra a Liberdade. Senão como poderiam o lizardo mais o zzz escrever, aqui, todas as alarvidades venenosas que lhes passam pelo bestunto?

Campaniça

Antonio Lains Galamba disse...

que grande post!
abraço

filipe disse...

Muito oportuno e certeiro post!
A festança da contra-revolução, ontem, em Berlim, resultou num acto patético e marcado por um saudosismo serôdio daquela gentalha "ilustre".
De facto, nestes vinte anos decorridos, a realidade já se encarregou de mostrar aos berlinenses e a todos os alemães - bem como aos restantes povos dos países à época socialistas - que nada de bom têm para comemorar, muito pelo contrário.
Sobrou esta gigantesca acção propagandística global, orquestrada pelos imperialistas, a confirmar que são eles que continuam a ter muitas e redobradas razões para temer o socialismo e a sua capacidade de atracção para os explorados, crescente por todo o mundo.
Um abraço!

poesianopopular disse...

A próxima experiência do SOCIALISMO,vai ser mais convicta, mais experiente,e mais duradoira -o tempo será o grande mestre, e as gerações aprendem umas com as outras, que o caminho faz-se caminhando, e o SOCIALISMO não foge.
Abraço

Fernando Samuel disse...

Graciete Rietsch Monteiro Fernandes: o que os apavora é saberem que o socialismo é o futuro da humanidade.
um beijo.

samuel: os intervalos são muito estreitos, mas vale a pena passar por eles...
Um abraço.

Maria: mas a lavagem de cérebros continua...
Um beijo grande.

Antuã: e eles sabem que o capitalismo está condenado.
Um abraço.

Dupont& Dupond: Pois.

Manuel: o ideal comunista: o mais belo, o mais progressista, o mais humano de todos os ideais: é disso que eles têm medo, é isso que os apavora - porque o sabem invencível.
Um abraço.

Campaniça: quando lutar pela liberdade tinha como consequência inevitável a prisão, a tortura, muitas vezes a morte, os comunistas ocuparam sempre a primeira fila dessa luta - e muitas vezes não tinham mais ninguém a seu lado...
Um beijo.

António Lains Galamba: um abraço grande, meu amigo.

filipe: a actual crise do sistema capitalista há-de ter muito a ver com o facto de as comemorações deles neste 2º aniversário terem sido as maiores de sempre...
Um abraço.

poesianopopular: a revolta de Paris durou sete dias; a Comuna durou 70 dias; a Revolução de Outubro durou 70 anos...
Um abraço.

Ana Camarra disse...

È essa a Liberdade que nos oferecem, nada mais.

Beijo Grraaaaaande

Fernando Samuel disse...

Ana Camarra: a liberdade das desigualdades, da exploração, da fome...
Um beijo.
(gostei de te ler aqui)