A CAÇA ÀS BRUXAS (7)

ANTECEDENTES


Assumindo o risco de abusar da paciência dos visitantes do Cravo de Abril, dedicarei ainda três posts ao tema Caça às Bruxas: dois registando acontecimentos e situações que antecederam a operação e o último para fazer um breve balanço de todo o processo.

Como é evidente, a Caça às Bruxas não surgiu do nada nem é apenas uma iniciativa desgarrada levada a cabo pelo anticomunista paranóico Joseph MacCarthy.
Repetindo: a operação insere-se na brutal ofensiva anticomunista desencadeada nos EUA logo após o triunfo da Revolução de Outubro.
O facto de, pela primeira vez na história, a classe operária ter conquistado o poder num país, ter construído o primeiro Estado proletário do mundo e ter iniciado a construção de uma sociedade nova, liberta da opressão e da exploração, socialista - este facto aterrorizou o grande capital internacional.
E todos os recursos, meios e métodos foram requisitados para a ofensiva visando liquidar à nascença a jovem revolução e impedir a propagação do seu exemplo noutros países.

O Partido Comunista dos EUA - criado em 1920 - foi, naturalmente, o alvo primeiro e principal dessa ofensiva.
Sob pretextos vários, os militantes comunistas eram perseguidos e presos: «o perigo vermelho» passou a ser tema diário nos média, acompanhado das inevitáveis «informações» sobre as «injecções atrás da orelha», as «criancinhas devoradas ao pequeno almoço» e outros argumentos semelhantes...

Por essa altura, as técnicas de propaganda sofrem um poderoso impulso nos EUA: «controlar as massas e fabricar consentimento» é o objectivo traçado.
Dito de outra forma: de acordo com os mecanismos da democracia norte-americana, «o país deve ser dirigido por uma elite de cidadãos»; os outros «têm apenas de ficar sossegados e concordar», e «para que isso aconteça, é necessário controlar o que eles pensam e arregimentá-los como soldados» - pelo que «controlar a opinião pública e assegurar que os cidadãos fiquem afastados da vida pública», é a grande questão...
Dito ainda de uma outra forma: não se trata de saber se a nossa democracia é perfeita: o que é necessário é que a maioria acredite que ela é perfeita e aja em conformidade com essa crença...
Há que reconhecer que tais técnicas de propaganda registaram assinaláveis (e dramáticos) êxitos, não apenas nos EUA mas praticamente em todo o mundo.

Em 29 de Junho de 1940, o Congresso dos EUA aprovou uma lei (Alien Registration Act) que proibia a manifestação de ideias pondo em causa o governo ou defendendo outro sistema que não fosse o capitalismo dominante...
A mesma lei, obrigava a que todos os estrangeiros com mais de 14 anos residentes nos EUA fizessem uma declaração com o registo das suas convicções políticas...
Obviamente, o não cumprimento da lei era considerado um «acto antipatriótico»...

Estava lançada a ofensiva «legal» contra o PCEUA e contra todas as organizações de esquerda.
De imediato foi lançada uma vasta operação de busca de «pessoas suspeitas de antipatriotismo» - que o mesmo era dizer: de «vermelhos»...

Pouco depois, onze dirigentes do PC foram presos e, após um julgamento que se arrastou por vários meses, foram condenados a pesadas penas de prisão.
Logo a seguir, são presos cerca de cinquenta militantes comunistas... - e por aí fora, numa escalada que seria atenuada durante a II Guerra Mundial mas que irromperia, brutal, logo que o nazi-fascismo foi derrotado e o prestígio da União Soviética corria mundo.

Este caldo de cultura intolerante e anticomunista é, então, um antecedente da Caça às Bruxas dirigida por MacCarthy.
E é de toda uma ininterrupta sucessão de factos semelhantes, ocorridos ao longo dos tempos e até aos dias de hoje, que é feita a democracia dos EUA...

12 comentários:

Antonio Lains Galamba disse...

eh camarada: atrevo-me a dizer que, para mim, tem sido a melhor sequência de posts - pela informação, categoria, síntese e clareza de ideias - que tens colocado, nos últimos tempos, por este blog! um abraço tamanho do mundo. e saudades.

Pedro Bala disse...

Saudações revolucionárias da Rádio Moscovo. Grande série de artigos! Por exemplo, desconhecia que o Nick Nolte havia protestado contra a entrega do Oscar ao Elia Kazan. Mas faz sentido tendo em conta que protagonizou um grande filme sobre a FSLN - Under Fire. O Sean Penn, que também não sabia que o pai tinha sido perseguido pela comissão do porco McCarthy, tem sido um apoiante activo do processo bolivariano na Venezuela.

samuel disse...

Belas "aulas" de História! Pena, que seja uma História tão triste...

Abraço.

Antuã disse...

As tuas aulas estão a agradar muito. Continua.

Maria disse...

Continuo a achar que o Cravo de Abril merecia um prémio pela informação e formação que dá. Pelo que nos aviva a memória. Pelo que nos lembra dos factos históricos. E tenho pena que faltem apenas mais 3 post sobre 'a caça às bruxas'...

Um beijo grande

smvasconcelos disse...

A propósito destes magníficos posts, comentou-me um amigo muito mais velho: Em Portugal, nomeadamente na Madeira onde vive, houve logo após o 25 de Abril, uma perseguição acérrima aos comunistas. Uma caça que levou o poder religioso a encaminhar o actual presidente, também ele uma espécie de MacCarthy.
beijos,

Fernando Samuel disse...

Antonio Lains Galamba: abraço grande, também cheio de saudades

Pedro Bala: um abraço grande, camarada.

samuel: mas com a alegria do confiança no futuro...
Um abraço.

Antuã: um abraço, camarada.

Maria: um beijo grande.

smvasconcelos: uma perseguição feroz, na Madeira e no Continente.
Um beijo.

Hilário disse...

Fernando,
Quem não gostar não volte.
Obrigado pelas aulas.
Um Abraço

Melo disse...

Caros amigos:

A vida pode ser longa, mas, muito temos que aprender.
Ao encontrar, por mero acaso este espaço, logo adicionei-o com principal das minhas visitas.
tenho no entanto aprendido muito nestes últimos dias, claro com quem tem mais conhecimentos que a minha humilde pessoa.
para quem quiser seguir o meu blog deixo o link:
angelomeloalcochete.blogspot.com

estes temas são únicos na blogsfera,
continuem sempre assim.
Um grande abraço deste que, funta a sua, Há voz de todos os outros.

CRN disse...

Fernando,

Paciência será necessária para se recusar a aprender, aprender sempre!

Um abraço.

Melo disse...

quis dizer(Junta)

Peço desculpa pelo erro

Fernando Samuel disse...

Hilário: um abraço grande, camarada.

Melo: já visitei o teu blogue - e vou voltar lá.
Um abraço.

CRN: mas há quem recuse...
Um abraço.