POEMA

PASTORAL


Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.
Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.
Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.


António Gedeão

5 comentários:

Maria disse...

Ainda hoje volita nas dobras do vento...
Tão belo!

Um beijo grande.

samuel disse...

Todos gostaríamos de ser...

Abraço.

Graciete Rietsch disse...

Espírito científico mas também com extraordinário senntido de análise social traduzidos num poema.

Um beijo.

smvasconcelos disse...

Que lindo!
Tenho a certeza que ele foi a folha que não cai... E nós faremos por também não cair.
beijo.

Fernando Samuel disse...

Maria: a sua poesia o confirma...
Um beijo grande.

samuel: sim, quem não gostaria!...
Um abraço.

Graciete Rietsch: e em toda a sua poesia.
Um beijo.

smvasconcelos: foi, sem dúvida, essa folha.
Um beijo.