A CAÇA ÀS BRUXAS (8)


ANTECEDENTES (2)

A AFL


Uma área onde são visíveis raízes da Caça às Bruxas organizada por Joseph MacCarthy é a área sindical: a poderosa central sindical AFL foi, então - e continua a sê-lo hoje, embora de forma diferente - um dos muitos instrumentos utilizados na perseguição aos «vermelhos»...

Fundada em 1881, a AFL começou por ser uma verdadeira representante dos trabalhadores com o que adquiriu uma influência e uma força notáveis.
Ela encabeçou a luta pelas oito horas de trabalho, no decorrer da qual se realizaram milhares de greves e de manifestações diversas, sempre brutalmente reprimidas - inclusive com o assassinato dos «mártires de Chicago», em 1 de Maio de 1886, que viria a dar origem ao Dia Internacional dos Trabalhadores.

Mas o grande capital não dormia - aliás, nunca dorme... - e através de um vasto plano - que incluiu infiltrações nos sindicatos, compra e suborno de sindicalistas e medidas repressivas do mais variado tipo - logrou liquidar o conteúdo de classe e democrático do movimento sindical.
Assim, quando em 1898, com a Guerra Hispano-Americana (que marcou o nascimento dos EUA como grande força militar e de ocupação) os EUA ocuparam e anexaram Cuba, Haiti, Porto Rico, Filipinas, a AFL aplaudiu e apoiou...

Não surpreende, assim, que a partir de 1917 a acção da AFL se tenha virado para o anticomunismo e, uma coisa leva à outra, para a traição aos direitos e interesses dos trabalhadores: ao mesmo tempo que defende o envio de tropas norte-americanas para esmagar a Revolução de Outubro, a AFL renega e rejeita a luta de classes e as greves; apoia e colabora com as forças policiais na repressão aos trabalhadores em greve; inclui a «acção anticomunista» nos seus estatutos.
E esmaga a oposição interna entretanto surgida, através de uma autêntica... caça às bruxas: milhares de sindicalistas honestos são acusados de «comunistas» ou de «suspeitos» de o serem, denunciados à polícia e presos.
Por outro lado, o racismo passa a integrar os «princípios» da AFL, que defende a exclusão dos negros do mercado de trabalho e de sócios dos sindicatos. Como justificava um alto dirigente da AFL, «não queremos admitir como membros o rebotalho, os que não prestam para nada».

Paralelamente a estas orientações, os dirigentes vendidos da AFL proclamam o fim da contratação colectiva e a sua substituição pela negociação individual e o fim das greves e a sua substituição pela negociação pacífica e civilizada entre dirigentes sindicais e patrões - que fundamentavam assim: «o patrão dirige a empresa e o líder sindical dirige as negociações com o patrão» - logo acrescentando que, «para isso, os líderes sindicais devem ser bem remunerados». E eram.

Entretanto, e não podendo travar o forte ascenso da luta da aguerrida classe operária norte-americana, esses dirigentes da AFL desempenhavam o seu papel de bufos colaboradores das forças repressivas.
Vive-se, então, um tempo de fortes lutas operárias, em que a repressão recrudesce, e em que se sucedem os casos de sindicalistas «desaparecidos»...
É o tempo da prisão de Sacco e Vanzetti, e do miserável processo a que foram submetidos e que viria a terminar com a execução de ambos, em 1927.
É um tempo decisivo na construção da «democracia» norte-americana...

Com a crise de 1929 e a explosão do desemprego que se lhe seguiu, a AFL, para impedir o forte movimento grevista, faz um negócio com a Máfia - negócio que viria a revelar-se altamente rentável para ambas as partes: por um lado, as sedes da AFL passam a funcionar como centros de organização dos negócios da máfia; por outro lado, e em troca, os mafiosos liquidam os sindicatos que apelam à greve.
Neste caso, qual o significado de liquidar?
Foi assim: sedes de sindicatos foram assaltadas por grupos mafiosos armados, os quais expulsaram e assassinaram dirigentes sindicais, substituindo-os, eles próprios, os mafiosos, nas direcções dos respectivos sindicatos - de tal forma que, a curto prazo, a Máfia tinha o controlo de elevado número de sindicatos e homens da Máfia passaram a integrar a direcção executiva da AFL...
É conhecida a declaração de Al Capone, justificando os crimes cometidos pelos seus homens contra os sindicalistas: «É preciso manter os trabalhadores afastados da literatura vermelha e do perigo comunista».

9 comentários:

Antonio Lains Galamba disse...

para não variar... EXCELENTE!

um grande abraço

Graciete Rietsch Monteiro Fernandes disse...

Tantas coisas que eu não sabia!!!! Conhecia mal o caso de Sacco e Vanzetti mas agora estou ciente dos pormenores. Quanto ao Al Capone agora compreendo porque ele só foi preso por fugir aos impostos.Obrigada camarada e um beijo.

samuel disse...

Até dava para eleger presidentes... pelo menos até J.F.Kennedy. Se bem que depois a coisa deu para o torto...

Abraço.

Anónimo disse...

Grandes amigos da UGT, não é?

José Mafra

alex campos disse...

A UGT é um sucedâneo da AFL. Como a CFDT francesa e outras noutros países. O capital sempre esteve bem organizado.

um abraço

Maria disse...

AFL-CIO, padrinhos da Carta Aberta/UGT...
Memórias bem avivadas aqui. Obrigada.

Um beijo grande

do Zambujal disse...

E ainda há o "pormenor" da tal AFL se ter vindo a casar com um chamado CIO, cuja era irmão gémeo de uma outra que dá pelo nome de CIA, pelo passou a chamar-se AFL-CIO.

Bom trabalho.
Abraços

poesianopopular disse...

Como fui sindicalista,entre 75/79 ainda me chegou às mãos o celebre pasquim de côr rosa da AFL-CIO.
A maioria do povo só tem conhecimento das lutas que ao grande capital interessa que sejam conhecidas (não é por acaso qe são os donos de tudo que é comunicação).O único Jornal que vale por si, e informa com verdade é o ÁVANTE!
O estado a que o País e o Mundo chegaram está à vista de todos, só que, nem a todos interessa ver, e alguns, ainda têm as desfaçatez de desmentir aquilo que é a triste realidade.
Obrigado camarada, por estes textos, que podem ajudar muitas cabecinhas adormecidas a acordarem para a luta que é a de todas, cuja única coisa que têm para vender, é a sua força de trabalho.
Abraço

Fernando Samuel disse...

Antonio Lains Galamba: abraço grande.

Graciete Rietsch Monteiro Fernandes: o «sindicalismo livre» é uma verdadeira máfia...
Um beijo.

samuel: os apoios a candidatos presidenciais foram um das facetas desta «central sindical independente» - e por vezes eram apoios bem substanciais,por exemplo, o apoio de 100 milhões de dólares a John Kerry. E, já agora, também apoiaram o Obama...
Um abraço.

José Mafra: exactamente!...
Um abraço.

alex campos: e estará bem organizado até... ao fim...
Um abraço.

Maria: padrinhos e financiadores...
Um beijo grande.

do zambujal: exacto: é disso que trato no próximo capítulo...
Um abraço.

Poesianopopular: quer isso dizer que... A LUTA CONTINUA!
Um abraço.