POEMA

O CORREIO


O correio, com um carrinho, transporta dezenas de cartas
para cada casa. Recebidas as cartas,
as pessoas sentam-se a abri-las uma a uma.
Ofertas de livros obscuros, bónus para compra das coisas mais heteróclitas
(comprando uma fica-se comprando outras pela vida inteira),
de empréstimos bancários, de seguros de vida, etc. etc.
pedidos dos índios pobrezinhos, dos rapazes abandonados,
das crianças da Coreia, da propaganda da Bíblia, etc. etc.
Com isso, ao fim de uma hora, encheu-se o cesto de papéis.

Mas qualquer americano sentiria que o mundo o abandonara,
se o correio lhe não trouxesse essa hora
de saber-se destacado em listas de moradas
(que as entidades aliás, permutam entre si).


Jorge de Sena

6 comentários:

samuel disse...

Infelizmente, a moda já pegou por cá...
Felizmente, não levo uma hora. Vai tudo direito para o lixo em minutos... mas fico com pena das árvores sacrificadas...

Abraço.

Membro do Povo disse...

Samuel devias reciclar, não revive árvores mas poupa umas quantas!

As informações pessoais traficadas dão certamente milhares de euros de lucro (senão não haveriam tantas agências de venda de base de dados) mas no entanto isto nunca foi devidamente tratado nenhum documentário ou noticia ou reportagem... Tantos são os valores que o capital defende - o da propriedade, o da venda, o da compra, o da personalidade (este ultimo bastante subvertido e confundido com o da compra) e tantos outros mas parece mais uma vês ter-se esquecido de um dos direitos fundamentais da democracia: o da privacidade!

Maria disse...

O que me irrita nisto é que nunca sei como é que obtêm o meu nome e morada... dizem que a PT vendeu a base de dados. Ora bolas! e eu que pensava que era a globalização...

:)

Um beijo grande

Justine disse...

A ironia cáustica de JS!

duarte disse...

minha porta tem um numero... uma caixa onde cai mil e um papel.
no meu cc , estou metido num chip...
mas a minha voz, a minha opinião, o eu suor , sou eu...sem números e ruidoso, para que as entidades, não se esqueçam. quanto a meu dever cívico, tb não me esqueço onde mora quem m'esqueçe...
abraço do vale

Fernando Samuel disse...

samuel: os múltiplos (e por vezes atraentes) caminhos seguidos pela ofensiva ideológica do capitalismo...
Um abraço.

Membro do Povo: os direitos da democracia são incompatíveis com os «direitos» do grande capital...
Um abraço.

Maria: eles sabem tudo, eles sabem tudo...
Um beijo grande.

Justine: e triste também...
Um beijo.

duarte: excelente!
Um abraço.