DUAS DIFERENÇAS

«Tarrafal - Memórias do "paraíso"» é o título do magnífico post há dias publicado pelo Cantigueiro - que hoje faz três anos de idade e merece festa rija - e no qual é feita referência a um recém-publicado livro sobre o Campo de Concentração do Tarrafal - livro que parece ser mais uma peça da poderosa operação de branqueamento do fascismo que um bem equipado exército de estoriadores está a levar a cabo.

A leitura desse texto do Samuel, trouxe-me à memória - vejam bem! - a minha professora da instrução primária - uma excelente Senhora, fervorosa católica (em casa de quem travei conhecimento com a Sagrada Família), cheia de bondade, com um coração do tamanho do mundo.
Para além das muitas coisas úteis que me ensinou - e aos meus colegas - ela, talvez por dever de ofício naquele tempo longínquo em que as fotografias de Salazar e de Carmona nos olhavam, severas, da parede da sala de aulas, ensinava-nos também que os comunistas comiam criancinhas e matavam os velhinhos com uma injecção atrás da orelha...
E ensináva-nos, sobretudo, que devíamos estar gratos a Salazar - «Um Santo!» - por nos livrar dos males do comunismo e dos males da guerra.

Passava-se isto uns anos após o fim da II Guerra Mundial, guerra da qual, garantia-nos a excelente Senhora, Salazar tinha livrado Portugal e os portugueses, mantendo-se neutral, em fidelidade à velha aliança com a Inglaterra.
(registe-se que essa era a versão geral que corria, difundida pelos propagandistas de então do regime fascista - que, como se sabe, foram os primeiros branqueadores de serviço...)

Entretanto, o tempo foi passando e a «tese» da «neutralidade» de Portugal na II Guerra Mundial foi caindo no esquecimento.
Eis senão quando, um estoriador actual a retoma.

Sobre o assunto, ouçamos o que nos diz Álvaro Cunhal, no seu notável trabalho «A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se», no sub-capitulo 5, intitulado «Uma "tese" fantasista»:

«Utilizada na operação de "branqueamento" da ditadura, aparece uma nova tese a fazer furor. É seu autor Fernando Rosas, um dos historiadores que sustenta que Salazar, na sua política externa e nas suas alianças internacionais no tempo da Segunda Guerra Mundial, não teria estado ao lado da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, mas sim ligado à velha aliança com a Inglaterra (...) A política de "neutralidade" de Salazar, desde o início da guerra, teria tido como objectivo "a sua sobrevivência no fim do conflito e no pós-guerra" e "garantir os grandes objectivos estratégicos" da "inalterada fidelidade à aliança britânica" (...) a determinante da política externa de Salazar, durante a Segunda Guerra Mundia, não foi a simpatia, o apoio, o desejo de uma vitória alemã, mas a "fidelidade à aliança inglesa"».

Vejam, então, o que são as coisas: dezenas de anos passados, Fernando Rosas vem repetir a lição da minha velha professora da instrução primária.

Com duas diferenças:
1 - ela não era historiadora nem estoriadora, como o Fernando Rosas é; e
2 - ela era uma excelente pessoa.

7 comentários:

Graciete Rietsch disse...

Então não é verdade que o BE cumpre exemplarmente a sua missão?

Um beijo.

João disse...

Exactamente, o BE cumpre convenientemente o seu papel histórico, que é em tudo semelhante, embora os tempos sejam outros, ao que a chamada "social-democracia", que eufemisticamente Mário Soares um dia apelidou de "socialismo democrático", desempenhou relativamente ao combate do sistema capitalista aos movimentos operários e populares revolucionários protagonizados pelos comunistas e seus aliados: lacaios dos interesses do sistema dominante a troco de prebendas e posições no seio do próprio sistema, utilizando uma linguagem enganadora de defesa dos trabalhadores e das classes mais desfavorecidas, desempenharam efectivamente um papel de tampão ao desenvolvimento dos processos revolucionários, através de uma estratégia bem urdida e eficaz de introdução de factores de divisão no processo de luta das massas populares.

Acontece que hoje, como os tempos mudarm e esses "sociais-democratas" ou "socialistas democratas", depois de cumprido o seu papel histórico, já incorporam "por direito próprio" o sistema capitalista - atente-se, apenas, naquilo que são as suas políticas quando estão nos governos dos diferentes países, como é o caso actual de Portugal, que são as políticas do sistema capitalista puro e duro - é necessário encontrar alguém que prossiga a tarefa de tampão do movimento revolucionário e popular, visando sempre o mesmo objectivo: a preservação do sistema de exploração capitalista.

Ora em Portugal o Bloco de Esquerda (que de esquerda não tem rigorosamente nada) é o actor adequado a esse papel. E cada vez demonstra maior capacidade para o desempenhar!

Cumprimentos.

Maria disse...

É tarefa do FR dizer o que diz, escrever o que escreve. Afinal está a cumprir o seu papel histórico.
A tua professora primária devia ser, de facto, uma excelente pessoa.

Um beijo grande.

samuel disse...

Fico contente por ter ajudado a lembrar uma tão bela estória... :-)))

Abraço.

Antuã disse...

São rosas, senhor, são rosas!

Anjos disse...

Descobri, por acaso "este" CRAVO DE ABRIL. Gostei!Agora, mais do que nunca, é preciso não deixar que os Cravos (os do 25 Ab) murchem/morram!
Quanto às rosas deste senhor também elas têm uma diferença relativamente às da Senhora (Sta Isabel de Portugal):as desta eram pão para os pobres, enquanto as dele estão cobertas de espinhos e, se possível, roubam o pão aos pobres!

Fernando Samuel disse...

Graciete Rietsch: sempre!
Um beijo.

João: totalmente de acordo!
Um abraço.

Maria: era, era uma pessoa maravilhosa.
Um beijo grande.

samuel: um abraço.

Antuã: rosas um bocado fanadas...
Um abraço.

Anjos: obrigado pela visita e pelo comentário.
Um abraço.