O IDEAL AMERICANO

Não é um pássaro. Não é um avião.
É o Super-Homem, portador da Justiça e da Liberdade: é o Ideal Americano...

Desde que, em miúdo, comecei a ler ou a ver no cinema, as aventuras do Super-Homem, sempre me fez espécie o facto de aquele herói tão poderoso dar um uso tão limitado aos incomensuráveis poderes de que dispunha, gastando-os a salvar um ou outro habitante de Métrópolis das arremetidas de um qualquer vilão, quando podia (e devia, pensava eu) utilizá-los em favor de milhões de explorados, humilhados e ofendidos...
Mais tarde, percebi que não foi para isso que o Super-Homem nasceu, antes pelo contrário..., e passei a vê-lo como um propagandista das bondades do imperialismo , do tal ideal americano.
Desde então deixei de me interessar pelas suas aventuras, quer nos livros de banda desenhada quer no cinema.
Pronto: acabou-se o Super-Homem e, com ele, o ideal americano...

O tempo foi passando e eis que o Diário de Notícias de hoje me mostra que, afinal, o Super-Homem fez alguma coisa de útil...
Foi assim: uma das muitas famílias norte-americanas a contas com «a crise», estava na iminência de, como tem acontecido a milhares de outras famílias, ser despejada da sua casa (já hipotecada), por falta de dinheiro para pagar a respectiva hipoteca. O despejo era inevitável... a bem do ideal americano...
Eis senão quando... surge o Super-Homem!
Não o próprio, entenda-se, não o homem-voador com aquelas roupas flamejantes - e com aquela cueca estranhamente vestida sobre as ditas roupas... Esse, como é seu hábito nestas ocasiões, ou tinha ido dar um passeio ao Cosmos, ou estava acamado com uma crise de kriptonite, ou estava, pura e simplesmente, indisponível e pronto.
O que aconteceu é que, alguém na família que ia ser despejada, se lembrou da existência, na arca familiar das grandes recordações, de «um exemplar do nº 1 da Action Comics, que conta as primeiras aventuras do Super-Homem» - raridade que, posta à venda, rendeu nada mais nada menos do que 190 mil dólares (quase quatro vezes mais do que rendeu a venda da Lusa A2, por Paulo Portas, aos negociantes de armas norte-americanos...) - e que, para já, permitiu o pagamento da hipoteca, evitando o despejo.

Foi assim que o Super-Homem - sem querer e ao arrepio do seu ideal americano - fez qualquer coisa de útil.
Pena é que as restantes famílias norte-americanas que vivem o drama do despejo ou da iminência do despejo, não tenham guardado aquele «exemplar nº 1 da Action Comics» que as livraria, pelo menos por uns tempos, do pesadelo do ideal americano...

6 comentários:

samuel disse...

Muito bom!!! :-)))

Abraço.

Graciete Rietsch disse...

O ideal americano centrado no super-homem é um embuste. Mas muito perto dos ideais de caridade consegue salvar uma família.
Uma família !!!!!! e as outras!!!!! Os super-homens americanos ou não estão do lado da justiça e não da caridade.

Um beijo.

smvasconcelos disse...

Não há super-homens, muito menos americanos.
Uma família safou-se, mas as outras não tiveram o mesmo destino...
Beijo,

Maria disse...

As estórias que tu nos contas aqui...

Um beijo grande.

Fernando Samuel disse...

samuel: abraço.

Graciete Rietsch: é um perigoso embuste.
m beijo.

smvasconcelos: o super-homem é o individualismo...
Um beijo.

Maria: histórias da vida...
Um beijo grande.

Sopro leve disse...

tal como a banda desenhada, também a vida dos Americanos é um faz de conta... enquanto existir o faz de conta, os donos e produtores do faz deconta vão enrriquecendo ainda mais...
Faz de conta que és proprietário de algo, desde que pagues o condominio, as obras, e as rendas mensais ao banco, independentemente do juros que decidirem que deves pagar mês a mês...

Deixas de pagar, vêm os reais donos do tua propriedade do faz de conta... e vais de seguida dormir para baixo da ponte...