POETA MILITANTE - POETA CAMARADA (2)

«... A certa altura sou portanto considerado por toda a gente como comunista filiado. Não estava, mas todos achavam que estava, que devia estar. Alguns até talvez preferissem que eu continuasse nesta situação, que era a mais cómoda, que era talvez a melhor para o Partido. Para o Partido Comunista não sei se terá muita importância ter muitos "nomes"...
Eu sou um homem moral e, embora nunca fosse "seareiro", fui educado pela Seara Nova, não devem esquecer isso. Os homens morais são os mais importantes para mim. Daí a minha veneração pelo Vasco Gonçalves, um homem que leu com certeza a Seara Nova, um "seareiro" pela certa.

E então perguntavam-me: "Quando é que aderes ao Partido?".
E eu respondia: "Ainda não chegou o momento".
De qualquer maneira, comecei a aparecer mais depois do 25 de Novembro, numa época de baixa para o Partido, quando eu e outros escritores fomos expulsos do Monte Carlo, a nossa grande "honra", o nosso grande "feito", porque fomos mesmo expulsos do Monte Carlo por aquela malta, pá, uma malta sem biografia e que nem a queria ter.
Até que uma noite acordei com este pesadelo: mas eu estou a ter todas as pequeninas vantagens de ser comunista sem ter as respectivas desvantagens... não está certo. Quem me garante que o fascismo não volta a Portugal e os comunistas não começam de um momento para o outro a ser de novo presos como já foram tantas vezes? E eu, nessa altura, que farei?
Direi a "verdade", não? Uma "verdade" que me fará doer a boca porque sabe a mentira: "mas eu nunca pertenci ao Partido, nunca fui do Partido...".
Isso magoou-me e passei o resto da noite sem dormir.
Tenho de ter as desvantagens - pensava eu.

Então fui procurar um amigo que conhecia desde miúdo e agora é um homem que acho admirável, neste momento mais do que nunca: o Aboim Inglês.
Fui procurá-lo na Soeiro Pereira Gomes.
"Ele está?"
"Está, está" (tem piada, porque estão sempre visíveis).
O Aboim Inglês apareceu, deu-me um grande abraço, e eu disse-lhe:

"Aboim Inglês venho cá perguntar se o Partido quer dar-me a honra de me receber nas suas fileiras».
Ele respondeu:
"Mas ó Zé Gomes, você pode perguntar uma coisa dessas? Evidentemente que sim!".
Depois começámos a conversar e ele teve uma frase espantosa, em resposta a uma certa explicação que lhe dei: "Durante o fascismo, sempre me acompanhou um pouco o remorso de estar sempre de acordo com vocês e nunca ter seguido o que alguns dos outros fizeram: trabalhar na clandestinidade...".
Então o Aboim Inglês teve esta resposta extraordinária:
"Mas lá vem o Zé Gomes com isso... Vocês foram muito mais valentes do que nós!".
Confesso que nem respondi, espantado de ouvir um Aboim Inglês, que esteve dez anos preso, dez anos de juventude perdida numa cela, dizer-me: "Vocês combatiam a descoberto!, Vocês nunca se escondiam, toda a polícia sabia quem vocês eram, e, no entanto, assinavam papéis, havia o Avante! para certas classes mas vocês apareciam com papéis e assinavam-nos, trabalharam a descoberto, sem máscara, frente a frente!"
Esta resposta desarmou-me por completo. E comecei a pensar nos que foram para a cadeia e nos que morreram...

A história da minha adesão ao Partido é esta.
É uma posição moral, corresponde exactamente ao que eu penso e sinto.
Hoje sou um militante do PCP.

Devo dizer-lhe que antes me tinha informado das condições de admissão no Partido e do seu funcionamento, onde existe a maior liberdade possível.
O Partido é de facto democrático e trabalha para o povo, pelo povo e com o povo.»


«Pergunta: "Concretamente como se traduz a sua adesão ao PCP?".

José Gomes Ferreira: "Pertenço à célula dos escritores onde faço o que posso, quero, desejo e concordo.
Tenho oitenta anos e poupam-me certas coisas.
Não me vão dizer:"Rapaz, é preciso ir colar cartazes!".
Mas se mo dissessem eu até iria"».



POETA CAMARADA: COM A TUA POESIA, A NOSSA LUTA CONTINUA.
ATÉ À VITÓRIA FINAL!

16 comentários:

joão l.henrique disse...

José Gomes Ferreira,um grande poeta português que foi comunista antes de o ser.

Um abraço.

Chalana disse...

Post muito bonito!

samuel disse...

A segunda parte não "desiludiu". É uma entrevista extraordinária!
Agora... mesmo que não falte quem as dê... quem as fará? Em que jornais serão publicadas?

Abraço.

Anónimo disse...

Também de José Gomes Ferreira:

"Éh, parvos!
Então não há ninguém
que queira salvar
o mundo?"

Do melhor que já li dele.
Muito obirgado
(caso o colectivo do Cravo de Abril queira uma cópia de um texto escrito por Mário Dionísio, com o título "Poeta Militante", estarei disposto a enviá-la pelo correio)
Um abraço

(Jorge)

do Zambujal (que é onde estou agora) disse...

Grande, enorme José Gomes Ferreira!

16 de Setembro (de 1968):
Passei o dia de ontem a remoer esta conclusão a que o Fafe e eu chegáramos na véspera: nada há de mais revoltante do que a falsa coragem dos falsos revolucionários que aproveitam as bandeiras vistosas (mas fáceis) para fazerem figura em barricadas de palavras.
(Dias Comuns-V Continuação do Sol)

cid simoes disse...

Assim tão bem acompanhados, com este enorme conforto, não necessitamos de mais nada.

GR disse...

Uma entrevista belíssima.
O (re)encontro de dois grandes Homens.
Zé Gomes Ferreira o nosso Poeta Militante.

BJS,
GR

svasconcelos disse...

Que lindo, Fernando Samuel, que lindo! Vim de propósito ler o teu pos que ansiava desde ontem... Comoveu-me, como esperava e deixou-me a pensar...:))
Um beijo,

Antuã disse...

Uma prova de militância soberba!

Graciete Rietsch disse...

Grande coragem e verticalidade de José Gomes Ferreira. Extraordinário poeta, sempre militante,sempre comunista.
E, de repente, lembrei-me de outro homem que foi também sempre comunista mesmo antes de o ser, como se lê no primeiro comentário, o dr. Álvaro Ferreira Alves,outro dos grandes que enchem a História do nosso Partido.
Quero exprimir aqui a minha enorme admiração por estes dois homens e comunistas extraordinários, ambos amigos do nosso inesquecível Vasco Gonçalves.

Um beijo

Eduardo Miguel Pereira disse...

Chego a pensar que isto de ser um verdadeiro Comunista não é de facto uma questão ideológica, ou de opção, ou de inteligência.

É mais que isso.

Não é comunista quem quer, simplesmente é-se, quando se tem essas características e qualidades.

Justine disse...

Homem admirável, homem superior! Estou agora a mergulhar a fundo nos "Dias Comuns"...

Anónimo disse...

É pena que José G. Ferreira já não esteja vivo para ver a fossa em que está o PCP,fiéis guardiães dos canibais do capital, até se prestam a criticar manifestantes que protestam contra os roubos que o governo de Sócrates descaradamente lhes faz.

Fernando Samuel disse...

João l.henrique: é bem verdade.
Um abraço.

Chalana: é o Zé Gomes...
Um abraço.

samuel: perguntas pertinentíssimas...
Um abraço.

jorge: obrigado, tenho esse texto do Mário Dionísio que, aliás, é o prefácio ao I Volume de «Poeta Militante».
Um abraço.

do zambujal:foi esse mesmo V Volume que acabei de ler há dias - coincidências..
Um abraço.

cid simões: sabe bem encontrar-mo-nos com gente assim, não sabe?...
Um abraço.

GR: poeta/militante e militante/poeta...
Um beijo.

svasconcelos: um beijo amigo.

Antuã: sem dúvida
Um abraço.

Graciete Rietsch: Ferreira Alves: tive a honra de conhecer esse homem extraordinário, também ele «comunista mesmo antes de o ser» e que também concretizou a adesão ao PCP já com avançada idade.
Um beijo.

Eduardo Miguel Pereira: e às vezes, simplesmente, há quem seja comunista sem o saber...
Um abraço.

Justine: acabei de ler há dias o volume V dos Dias Comuns: magnífico!
Um beijo.

Anónimo disse...

Anónimo das 14:53, esqueceu-se de assinar «Chispa!» no final do comentário.

Anónimo disse...

Fernando Samuel
Ao almoço ouvi no noticiário SIC um FDP "jornalista" que normalmente dorme com os padres da igreja a dizer sobre o comicio do PCP em faro mais ou menos o seguinte:«No comicio não houve manifestações criticas» insinuando que teriam sido os comunistas que se manifestaram contra Socras. A minha reacção foi chamar-lhe "Hijo de puta". Depois leio este teu post e vejo a diferença entre GENTE e bichos como o anónimo das 14:53 a quem não te dignaste responder, o que eu compreendo.
Vitor sarilhos