NUNCA MAIS

Dizem os jornais que o Papa e os seus bispos, nas homilias pascais, não se referiram ao caso dos abusos de crianças por padres, ou seja aos graves casos de pedofilia praticados por elementos do clero e silenciados/abafados enquanto foi possível pela alta hierarquia da Igreja.

Antes assim fosse - isto é: antes não tivessem aludido à questão. Isto digo eu depois de ler estas transcrições da homilia do bispo do Porto:

«Outras palavras, mesmo da última semana, que nos tenham alegrado ou entristecido, já passaram» e «mesmo quando deixam lastro e pontos necessariamente a rever, foram de ontem, de anteontem, de outro tempo já».

Estarei a ler mal ou há nestas palavras uma nítida referência às notícias que, «na última semana» e nas anteriores, revelaram um lodaçal de casos incómodos para a Igreja?
Estarei a ler mal ou há nestas palavras uma nítida confiança em que, com a passagem do tempo, tudo isso será esquecido, tudo isso passará a ser «de ontem, de anteontem, de outro tempo já», e pronto?...


Eu sei que anda por aí muita gente incomodada, zangada, exasperada, com o destaque dado aos abjectos casos de pedofilia envolvendo padres e bispos católicos; e com as críticas ao comportamento da alta hierarquia da Igreja sobre a matéria; e com as exigências de que seja feita justiça, justiça terrena e a sério - e não a justiça do pedido de desculpas e da indemnização para calar...
Mas essa gente terá que ter paciência. E tê-la-á se perceber, de uma vez por todas, que o tempo em que a Igreja, aliada do fascismo, estava, tal como o seu aliado, defendida de qualquer crítica pública, esse tempo acabou já lá vão 36 anos.

É certo que anda por aí muita gente a desejar o regresso desse tempo...
Mas essa gente terá que ter paciência. E tê-la-á se perceber que esse tempo... nunca mais.

POEMA

NÃO


2


Nos intervalos do almoço,
sentados nos andaimes cheios de manchas de cal
ou na beira do rio,
vimos erguer-se das nossas mãos calosas a realização mais lírica de todos os tempos.
Os nossos fatos estavam manchados de óleo, companheira,
e as nossas botas carregadas de barro.
Mas que interessava o óleo, companheira, e o barro,
se os teus olhos estavam imensamente rasgados para horizontes desconhecidos
como duas estrelas projectadas na noite?
Depois veio a traição dos aeroplanos e das máquinas inimagináveis,
a traição dos corpos agarrados à carne machucada,
a traição da cabeça partindo para sonhos impossíveis;
e ficou só o óleo e o barro,
as manchas de cal e o rio abandonado...
e as nossas lágrimas impossíveis de estancar.


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

COLOSSAL EMBUSTE

Volto à reportagem da Revista NS de ontem.
Desta vez para aqui deixar registo de dados divulgados sobre algumas das consequências, para os EUA, da invasão e ocupação do Iraque:

- mais de 4200 militares mortos (média de mais de 30 por mês):
- mais de 65 000 feridos com gravidade;
- cerca de 30 mil mutilados;
- cerca de 300 mil veteranos que sofrem de stress pós-traumático;
- cerca de 18 veteranos de guerra suicidam-se todos os dias - sendo este «o sintoma mais trágico de um problema que acarreta também casos de depressão, dificuldades conjugais, violência doméstica, e ex-militares sem abrigo que vivem nas ruas».

Isto no país ocupante, onde os senhores da guerra - que «enviam trabalhadores pobres do seu país contra trabalhadores pobres de outros países» - dormem tranquilos, saciados de sangue e de dólares.


Quanto ao país ocupado, os números são outros: milhões de civis - homens, mulheres e crianças - mortos, feridos com gravidade, mutilados...enfim, a destruição, o crime, a barbárie, o horror.

Tudo isto feito em nome da liberdade, da democracia e dos direitos humanos...
Tudo isto a confirmar que estamos perante um colossal embuste - o mais criminoso, o mais sinistro, o mais hipócrita, o mais perverso, o mais sádico embuste da história.

POEMA

NÃO


1


Venham todos os meninos nascidos nas palhas
duma mãe camponesa de braços vergados aos molhos de espigas
e dum pai carpinteiro.
Venham todos os vultos das docas sombrias
e todas as mulheres das ruelas de lâmpada vermelha.
Venham todos os moços de braços inúteis
e todas as raparigas de olhos desiludidos
e todos os velhos que não tiveram mocidade.
Venham.
Vamos gritar que não!
Dos nosso braços levantados para regiões desconhecidas,
para multidões de estrelas,
nasceram aeroplanos.
Dos nosso braços abertos para abraçar a terra,
nasceram máquinas inimagináveis.
Mas as máquinas traíram.
E os aeroplanos traíram.
E ficou só um campo cheio de corpos inúteis.
E ficou só um campo coalhado de mortos.
Venham.
Vamos dizer que não!
O sopro de amor que chicoteou as veias
estendeu-nos os braços para novas ferramentas,
para a construção imensa da Cidade Nova.
Mas o corpo ficou-nos agarrado ao braço pegajoso da carne machucada.
E a cabeça desligou-se para sonhos impossíveis.


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

TOMADA DE CONSCIÊNCIA

A Revista NS de hoje - numa excelente peça enviada de Washington, assinada por Joana Simões Piedade e intitulada «Soldados contra a Guerra» - conta-nos a história de dois jovens norte-americanos, James Circello e Michael Prysner, com 31 e 26 anos, respectivamente, que, abandonaram o exército norte-americano depois de o terem servido durante anos e fundaram «uma organização de apoio aos militares no activo e aos veteranos da guerra, e contra a presença militar norte-americana no Iraque e no Afeganistão».
«March Forward» - «Marcha em Frente» - é o nome dessa organização, que está espalhada por todo o país, organiza debates e manifestações de rua, tem um jornal próprio - e é a expressão concreta de um notável processo de tomada de consciência política, social, humana por parte desses dois jovens.

A jornalista conta-nos que James Circello, profundamente abalado com a «onda de choque e consternação que assolou o país na altura» do ataque às Torres Gémeas, e «imbuído do fervor patriótico daqueles dias», decidiu alistar-se no exército: «não fui movido por qualquer espécie de ódio aos muçulmanos, mas decidi juntar-me ao exército como muitos fizeram naquela altura» - além disso, «precisava de emprego, dinheiro ao final do mês. Assinei os papéis».
E em 2003, integrando o 2º Batalhão Aerotransportado, Infantaria 503, Brigada 173, chegou ao Iraque - «quando os ataques aéreos de mísseis e bombas ainda caíam nas montanhas do Norte do Iraque» - onde permaneceu um ano.
Quando, em 2007, foi mobilizado para o Afeganistão, recusou-se a embarcar e desertou.

Quanto a Michael Prysner, também ele se alistou na mesma altura, tinha então 17 anos, e por razões semelhantes às de Circello: «a carreira militar era um forma de ter um salário ao final do mês, um sítio onde viver, a possibilidade de estudar e acesso a um seguro de saúde. Alistei-me a pensar que iria fazer carreira. Acreditava no trabalho nobre de um soldado».
Esteve no Iraque ao mesmo tempo, durante o mesmo tempo e na mesma região que Circello - mas só vieram a conhecer-se pessoalmente após o regresso aos EUA.

Nas primeiras cartas que escreve à família, Prysner mostra-se «orgulhoso por ajudar a libertar o povo iraquiano de um regime opressor que lhe causava pobreza e fome».
Contudo, cedo começa a ver as coisas noutra perspectiva: «Comecei a perceber que ninguém ali estava realmente à procura de armas de destruição maciça e que o objectivo era controlar as zonas onde há petróleo. Ainda assim, continuei a acreditar no bem que ali podíamos fazer, no sentido de levar a paz e a democracia àquelas pessoas. Mas quando comecei a interagir mais com os iraquianos compreendi que não estava em marcha uma guerra de libertação mas uma verdadeira ocupação, em que eu era o opressor».

E fala à jornalista sobre algumas das tarefas que ali desempenhava:
«expulsar famílias das suas casas sem lhes dar alternativa. Famílias inteiras, compostas por crianças e idosos, que choravam convulsivamente quando estavam a ser expulsas da casas que seriam a seguir destruídas ou ocupadas por nós. Os rostos destas pessoas ainda hoje não saem da minha cabeça».
E conta o episódio que mais o marcou e que viria a constituir o «ponto de viragem» na sua vida e na sua consciência, quando, uma noite, foi interrogar um homem que não tinha parado num dos checkpoints. Chegado à casa onde deveria proceder ao interrogatório, encontrou um homem, num quarto escuro, «apenas em roupa interior, deitado no cimento e baleado no pescoço, esvaindo-se em sangue»: «ele estava a morrer e só tinha força para dizer que não sabia de nada, que estava a conduzir a caminho de casa para ir ter com a família».


Dizem os dois jovens que a sua «desilusão» não foi só com George W Bush e os republicanos - na altura no poder - mas também com Barack Obama e os democratas: «infelizmente não vemos grandes diferenças. As tropas continuam no Iraque e é certo que continuarão até 2011, o contingente no Afeganistão até foi reforçado».

E concluem, incisivos: «Os Estados Unidos enviam trabalhadores pobres do seu país para lutarem contra trabalhadores pobres de outros países, beneficiando grandes empresas norte-americanas que lucram com a guerra».


E à pergunta sobre se, caso pudesse recuar no tempo, voltaria a alistar-se no exército, James Circello, responde: «Ir para o Iraque foi um despertar na minha vida e sinto-me um aliado do povo iraquiano, tal como me sinto do povo afegão e palestiniano neste momento. Teria entrado na mesma, mas penso que tentaria organizar um movimento dentro das forças militares, teria falado mais com os meus companheiros».

Excelent reportagem, esta que a Revista NS nos oferece hoje.

POEMA

COMPLICAÇÃO


As ondas indo, as ondas vindo - as ondas indo e vindo sem parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
E as complicações, os atritos, para as coisas mais simples,
até para a pronúncia de uma simples vogal.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente mais longe.
Ah mas antes isso.

Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão sendo cada vez mais altas.
Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade eterna, seca, estéril, fútil da planície.


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

AI DE NÓS...

Como todos os dias nos dizem, explícita ou implicitamente, os média dominantes, a invasão e ocupação de países pelos EUA tem sempre objectivos libertadores e nobres desígnios, como sejam a defesa da democracia, da liberdade e dos direitos humanos e, complementarmente, o combate ao terrorismo e ao narcotráfico.

Como todos os dias nos diz a verdade, o que acontece em todos os países «libertados» é exactamente o contrário do que nos dizem os média dominantes.

Eis (mais) um exemplo: de acordo com dados apurados pelas autoridades russas em colaboração com a ONU, o cultivo e tráfico de drogas no Afeganistão aumentou 40 vezes depois da «libertação»...
Em 2008, o total da produção de droga ascendeu a 7 500 toneladas, retiradas dos quase 200 mil hectares de cultivo - sendo que 92 por cento das plantações e laboratórios encontram-se em regiões controladas pelas tropas «libertadoras»...

Mais: a maior parte da droga produzida é adquirida por uma organização dirigida pelo meio-irmão do «presidente» Kazai - organização essa que é controlada pelo Pentágono.
Ao que parece, a droga chega à Europa transportada por aviões do exército dos EUA - aviões que fazem escala na base militar de Camp Bondsteel, no Kosovo, «país» também «libertado» pelos EUA e cujo primeiro-ministro, Hashim Thaçi, conhecido terrorista, é um dos chefes da máfia local.

Mas isto, sou eu a falar - porque, como todos os dias nos dizem os média dominantes, ai de nós, sem a abnegada, generosa e altruísta acção planetária dos EUA na defesa da democracia, da liberdade e dos direitos humanos e no combate ao terrorismo e ao narcotráfico...

POEMA

UNO



Não creias senão em ti e naquilo que te cerca.
Porque aquilo que te cerca és tu.
E, por mais que te pareça estranho e primitivo,
tu és apenas aquilo que te cerca.
Não creias senão em ti.
Bem sei que há: o eco das montanhas e o mistério das sombras.
Mas o que é o eco das montanhas senão a tua voz?
E o mistério das sombras mais que uma ausência de luz?
Bem sei que para além da ilusão do horizonte
há ainda mais coisas.
Mas não as creias diferentes e superiores a ti:
crê antes que são longe e, sobretudo, coisas como tu.
Não creias no não sei quê:
o não sei quê é sempre qualquer coisa.
O papão do oó das histórias de menino
era afinal um pobre inofensivo
ou uma velha vassoura atrás de uma vidraça.
E a palavra do morto estendido no caixão
era apenas a ruptura duma artéria qualquer.
Os teus braços, tam curtos, estão na terra toda,
e a terra, tam pequena, está em todo o universo.
Não creias em existências para além ou para aquém.
Nem que tu estás aquém ou que tu estás além.

Tu que estás em toda a parte e tudo está em ti.


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

A PROMOÇÃO

Não há dúvida: em todo o mundo capitalista - dos EUA à Inglaterra, à França, à Itália, à Espanha, a Portugal... - a profissão de ex-governante é, no vasto universo dos trabalhadores por conta de outrem, uma das mais bem pagas.
Pode dizer-se que, para cada governante, a saída do cargo e a consequente passagem à condição de ex, constitui uma verdadeira promoção profissional.
E sair do governo e esperar o contacto é tudo o que têm a fazer...

Que assim é, mostra-o o caso de três ex-ministros do governo de Blair - Geoff Hoon, Stephen Byers e Patricia Hewitt, respectivamente ex-ministros da Defesa, dos Transportes e da Saúde - apanhados na ratoeira que jornalistas ingleses lhes armaram.

Foi assim: os jornalistas, afirmando-se representantes de uma empresa que procurava ex-governantes disponíveis para defender os seus interesses junto do governo - contactaram os três ex-ministros que, desde logo, não apenas se mostraram disponíveis para a tarefa, como fixaram os seus preços.

As conversas entre os supostos representantes da suposta empresa e os ex-ministros foram gravadas: Patrícia Hewitt exigiu «3 mil libras por dia» - tanto quanto foi exigido por Geoff Hoon, o qual adiantou aos compradores dos seus serviços estar disposto a pôr o seu «livro de endereços e os seus conhecimentos no governo» ao serviço de «qualquer coisa que dê muito dinheiro»...

Quanto a Stephen Byers, procedeu a um verdadeiro número de stripe tease.
Começou por apresentar o seu currículo: intervenção com sucesso junto de membros do governo a favor do transportador National Express e dos supermercados Tesco...
Depois, exigiu o salário justo para tal currículo: 5 mil libras por dia.
Finalmente, desnudou-se: «Sou de aluguer, como um taxi».


Entretanto, os actuais governantes - dos EUA à Inglaterra, à França, à Itália, à Espanha, a Portugal... - aguardam a almejada promoção à categoria de ex-governantes..

POEMA

UTILIDADE


Só as mãos que se estendem para a frente interessam.
Só os olhos que vêem para além do que se vê,
só o que vai para o que vem depois,
só o sacrifício por uma realidade que ainda não existe,
só o amor por qualquer coisa que ainda não se vê e ainda, nem nunca, será nossa,

interessa.


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

COISAS DA POLÍTICA DE DIREITA

Da Alemanha chegam notícias sobre uma investigação judicial ao contrato da venda dos dois submarinos a Portugal em 2002.
Trata-se de um caso ao qual tem aparecido ligado o nome do então ministro da Defesa, Paulo Portas, e em que a referida investigação envolve, agora, «o nome de Durão Barroso em actos presumivelmente ilícitos».

As notícias dizem que «o processo judicial aponta para subornos e contratos de consultoria falsos em Portugal, Colômbia e Argentina».
Sempre segundo essas notícias, a investigação judicial em curso revela que um cônsul honorário português teria alegadamente conseguido uma reunião entre Durão Barroso - ao tempo primeiro-ministro - e representantes da empresa vendedora dos submarinos - a Ferrostaal.
Ao que parece, a empresa alemã, «impressionada» com a influência revelada pelo cônsul, contratou-o como consultor, pagando-lhe «mais de um milhão e meio de euros».

Os subornos incluiriam, também, «um contra-almirante português, que teria recebido um milhão de euros».

A investigação judicial chegou, ainda, a «uma firma de advogados portugueses» que teria sido paga para «apagar o rasto do dinheiro usado para subornar decisores no Governo português e na Marinha».

Ao que tudo indica, estamos perante um caso que, pelos contornos que apresenta, não traz nada de novo, tamanhas são as semelhanças com outros casos conhecidos...
Certamente, mais notícias surgirão nos próximos dias.
Aguardemos, portanto.

Entretanto - e enquanto aguardamos - lembremos que a política de direita (sejam os seus executantes do PS, do PSD ou do CDS-PP), para além das criminosas machadadas que todos os dias desfere nos interesses dos trabalhadores, do povo e do País, está cada vez mais atolada num chafurdeiro de casos de «submarinos» - e que uma coisa tem tudo a ver com a outra.

POEMA

DEPOIS DE MIM


Um dia (sei-o bem)
os campos ficarão eternamente floridos
e a chaga que me inquieta
deixará de sangrar em todos os peitos.
Os homens já não estarão curvados sobre as terras.
E a leiteira não virá mais trazer-me as bilhas com o seu ar de humildade.

A mulher dos ovos e o homem da fruta,
o rapaz pobre envergonhado de dizer: eu sei,
o camponês prestando contas da estação,
os vultos negros do subsolo,
a linda mãe solteira,
deixarão de sorrir com humildade.

Humildade ficará nos dicionários como esqueleto em museu arqueológico.

Eu próprio nunca mais farei baixar as pálpebras
e deixarei que o sol me inunde bem, nos olhos.

Um dia
(ah! sinto-o bem para além das milhentas folhas de todos os tratados)
uma onda de amor invadirá tudo e todos.
E será uma primavera diferente de todas as primaveras,
porque ainda não foram inventadas as palavras para exprimi-la.

Simplesmente, nesse dia primeiro da nova criação, eu já terei partido.
A minha carne estará funda de mais para sentir o beliscão da alegria.
E os olhos cheios de terra
não verão os homens levantados
nem os campos eternamente floridos
nem a leiteira sem o seu ar de humildade.

Porém que importa?
Um dia, sei-o bem, todos estarão até que enfim de acordo.
Portanto, que importa a minha ausência?
Que importa que eu não venha a saborear os frutos da própria árvore?
Que é isso
ao pé da inabalável certeza desse dia admirável


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

«ROUPA SUJA» E «PRATOS LIMPOS»

Dizem os jornais que, após longa conversa entre o bispo do Porto e o cónego António Ferreira Santos, ficou decidido que este «vai pôr tudo em pratos limpos» e, assim, demonstrar a falsidade das acusações de suposto abuso sexual de que é alvo.

Dizem os jornais que o cónego contactou «o conhecido advogado Gil Moreira dos Santos - que tem representado, entre outras pessoas, o presidente do F.C. Porto, Pinto da Costa - a fim de reagir contra quem está a lançar suspeitas de crimes sexuais» - e que o Correio da Manhã já foi intimado a «rectificar as notícias veiculadas ontem e anteontem, onde se dava conta de (o cónego) ser suspeito de pedofilia».

Dizem os jornais que o rapaz em 2008 «denunciado pelo cónego, por extorsão, exigiu, durante meses, centenas de euros para poder fazer uma viagem até Londres e obras em casa» - e que, «através de 49 mensagens escritas, ameaçou denunciar uma suposta relação amorosa».

Dizem os jornais, sobre a «extorsão», que o rapaz «chegou a pedir-lhe, em Abril de 2008, 500 euros para viajar até Londres (...) para onde dizia querer ir trabalhar em prol dos filhos»; que «o padre deu-lhe a verba mas desconfiou que, à semelhança de outros casos, não seria aplicada na viagem»; que, «apesar disso, acompanhou-o até ao autocarro», vindo a «certificar-se no dia seguinte que o jovem, afinal, saíra logo na primeira paragem».

Dizem os jornais que «as ameaças (do rapaz ao cónego) chegaram à entrega na igreja da Lapa, em Outubro de 2008, de uma fotografia, tirada por telemóvel, de António Ferreira dos Santos em trajes menores na casa de banho da sua casa, acompanhada de uma carta».

Dizem os jornais que «perante este quadro, o padre apresentou queixa» e que, no decorrer de um encontro marcado pelo padre com o rapaz, este foi preso e, interrogado, «confessou ser o autor da carta ameaçadora e chegou mesmo a autorizar uma busca a sua casa (...) onde foram apreendidas mais cinco fotografias do padre sem roupa - tiradas "à socapa", disse. Também havia uma foto de uma cama»

Dizem os jornais que, de tudo isto, «não resultaram indícios suficientes para determinar a abertura de um inquérito-crime por supostos abusos sexuais», e que o rapaz, «arrependido» e a troco de que «o caso não avançasse para julgamento», concordou em «efectuar 90 horas de trabalho comunitário», sendo o processo «suspenso provisoriamente pelo prazo de um ano».


Dizem os jornais que «junto à igreja da Lapa são poucos os (fiéis) que acedem a comentar este caso». Ainda assim, são divulgados dois depoiamentos: o de uma senhora que diz que «tudo isto não passa de invenções absurdas a que a comunicação social dá crédito»; e o de um senhor que garante ser o cónego «uma pessoa extraordinária, um homem íntegro e um padre exemplar», e que acha que «o povo devia juntar-se e manifestar toda a solidariedade que o senhor cónego merece».


Digo eu que aplaudo a decisão do bispo e do cónego de «pôr tudo em pratos limpos», e que essa é a melhor forma de «lavar a roupa suja» - quando a há, obviamente.

POEMA

SANGUE IMPETUOSO


Sangue impetuoso,
não te submetas nunca!
Ri-te das estreitezas capilares
ou de qualquer compressa para te reter.
Não cedas nunca!

Caminha, corre, salta!

Salta as barreiras por maiores que sejam.
Caminha por mais ásperos que sejam os caminhos.

Corre, salta!

És a vida.
A vida está na tua marcha invulnerável,
na tua rota sem tréguas, nem limites, nem curvas, nem paragens,
na tua cavalgada de horizontes rasgados,
em teu grito selvagem.

Corre, salta!

E se não te cumprires em mim,
não pares ainda, não cedas: corre!
Rasga à punhada as paredes de treva.
Salta e estilhaça os diques, as montanhas!
Salta nas veias dos meus filhos ou meus netos,
mas segue:
por maiores que sejam as barreiras,
por mais ásperos que sejam os caminhos.

Caminha, corre, salta,
- rebeldemente, impetuosamente!


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

QUE GRANDE PANTOMINEIRO!

Obama e a política de direita do Governo PS/Sócrates são dois dos temas recorrentes na prosa compacta com que Mário Soares enche, todas as terças-feiras, uma página do Diário de Notícias.
Sempre para nos dizer que Obama (de quem Soares é o padrinho em Portugal) é o maior; e que não há como a política de direita (da qual Soares é pai e mãe) para bem servir os «interesses do povo» - expressão que, devidamente traduzida do linguajar soarista, significa interesses do grande capital.

Hoje é terça e, portanto, lá está Soares a cumprir o seu papel.
Diz ele, num ditirambo épico-ridículo, que Obama, depois da «lei da saúde» - que (isto digo eu) é uma lei que deixa de fora parte grande dos que dela deveriam beneficiar e é, acima de tudo, mais um grande negócio para os que vivem à custa da saúde dos outros - «pode continuar triunfante o seu extraordinário caminho tanto na América como no mundo. Continuará a ter muitos inimigos na América e no estrangeiro. Mas está provado que vai conseguir. As multidões dos seus amigos têm confiança nele. Na América e no mundo».

Registe-se que Soares - papagueando o discurso dos sucessivos presidentes do Império (Obama incluído) - considera que os Estados Unidos da América são a América, ou seja, o Continente Americano, do qual o imperialismo norte-americano se considera dono e senhor e onde quer fazer tudo o que lhe apetece, desde a exploração brutal dos recursos dos respectivos países até à sua invasão e ocupação militar ou à implantação de ditaduras fascistas.

Registe-se, igualmente, que o «extraordinário caminho» de que Soares fala é o caminho de domínio absoluto do planeta pelo imperialismo norte-americano - e recorde-se o contributo dado por Soares nesse sentido, em relação a Portugal, quando, ao serviço da CIA, encabeçou a contra-revolução que viria a liquidar a Democracia de Abril e a colocar a independência e a soberania nacional nas garras do imperialismo.

Quanto à política de direita, desta vez Soares repete-se numa das suas habituais representações caracterizadas pela total ausência de vergonha.
Há dias, ouvimo-lo «criticar» o PEC - e houve quem acreditasse na sinceridade de tal «crítica»...
Hoje, no DN, Soares elogia Manuela Ferreira Leite por ter levado o PSD a abster-se e, assim, a permitir que o PEC passasse na Assembleia da República...

Que grande pantomineiro!

POEMA

POEMA DA MULHER NOVA



Vejo-te no mundo que não pára,
como um grande lenço rubro desfraldado.
Vejo-te em mim quando me sinto massa
com milhões de braços e de pernas e uma cabeça de anjo.
Vejo-te na vida em marcha,
nas mãos estendidas.
Vejo-te em toda a vibração,
nas plantações cobertas de girassóis e de papoulas,
no topo dos tractores pulverizando a terra.

Vejo-te nua das sedas
com a boca rasgada numa canção de futuro
como um punho ameaçador à pestilência dos homens.

Vejo-te bela
com os cabelos ao vento,
em frente,
sem um talvez: perfeita.

Vejo-te mãe de milhões de homens novos,
de rosto calmo e olhos firmes,
através das labaredas e do fumo,
sem país e sem lar, a caminho da vida
- na descoberta constante.


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

LAVAR A ROUPA SUJA EM FAMÍLIA?

Ontem, Domingo de Ramos, na «homilia proferida perante dezenas de milhares de pessoas, o Papa Bento XVI disse, a dada altura:
«Deus dá a força que permite ao homem não se deixar intimidar pelos murmúrios das opiniões dominantes. O homem pode escolher entre seguir Jesus ou juntar-se ao lamaçal da mentira e da indecência».
Ou muito me engano ou, com isto, o Papa vem juntar-se ao coro dos que vêem nos múltiplos casos de pedofilia em que estão envolvidos vários padres e bispos uma «campanha negra» contra a Igreja Católica...
Se assim é, melhor fora que Bento XVI, em nome da verdade e da decência, estivesse calado.

A seguir, o Papa - que é acusado de ter encoberto casos de pedofilia - rezou em português «pelas crianças e por aqueles que têm o dever de as proteger»...
Cai sempre bem rezar pelas crianças, e ainda mais quando, como agora, a cada dia que passa, surgem mais pessoas a denunciar casos de abusos de que foram vítimas: na Alemanha, na Áustria, na Suíça, na Holanda, na Itália, na Espanha... em Portugal.

Também ontem, sensivelmente à mesma hora em que o Papa rezava pelas crianças em Roma, em Portugal, o cónego António Ferreira dos Santos dava um concerto no Santuário de Fátima.
E quem é este cónego?: é uma das «grandes figuras da música sacra portuguesa», tendo já composto «mais de mil cânticos religiosos»; é professor de música sacra na Universidade Católica; em 1996 deu um concerto para o então Presidente da República, Jorge Sampaio, que o condecorou com a Ordem do Infante D. Henrique; foi provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, etc, etc, etc.

Há cerca de dois anos, o cónego António Ferreira dos Santos foi acusado de abusos sexuais de menores - coisa que ele, naturalmente, nega.
Por seu lado, o queixoso diz que, além dele, outros rapazes foram vítimas de abusos por parte do cónego - o qual, naturalmente, nega.
Entretanto, o queixoso juntou ao processo uma série de fotografias do acusado, em algumas das quais o cónego aparece nu - o cónego nega-se?: desconheço...


Este cónego está incumbido de compor as músicas que serão tocadas no decorrer das três missas que Bento XVI virá celebrar a Portugal.
Missas nas quais o Papa, certamente, vai rezar «pelas crianças e por aqueles que têm o dever de as proteger».
Missas que serão abrilhantadas por três peças musicais do cónego António Ferreira dos Santos.

Será a isto que eles chamam «lavar a roupa suja em família»?

POEMA

DOIS POEMAS DO SONHO


II

Desde sempre que o sol surge todas as manhãs anunciando um novo dia.
Desde sempre que as sombras se diluem.
Os homens saltam das camas amassadas
e voltam ao trabalho duro.

Desde sempre que a vida finge um recomeço.
(mas a verdade é que apenas continua
e os homens acordam já cansados.)

Desde sempre que o sol surge todas as manhãs anunciando um novo dia.

Mas nunca tanta alegria.
Nunca os bons-dias dos homens foram bons como os de hoje.
Nunca os cantos das aves foram assim expansivos
e penetraram tanto até ao fundo...

É que nunca a noite foi tão longa
e a miséria das almas tão intensa.

É que nunca em tudo se espelhou
esta suave ternura inexplicável
duma possibilidade que desponta.


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

HONDURAS: RESISTIR É A PALAVRA DE ORDEM

O governo fascista das Honduras - com o apoio total e assumido do governo dos EUA - está a levar por diante um conjunto de medidas bem evidenciadoras do conteúdo de classe que preside à sua governação: privatizações, ataques a direitos dos trabalhadores, incluindo os salários, e várias outras medidas todas elas muito semelhantes às contidas no «nosso» PEC...

Paralelamente, a repressão aumenta em todo o país, de forma ostensiva ou camuflada: sucedem-se as prisões e os assassinatos - 15 dirigentes sindicais estudantis foram presos e, no passado dia 23, José Manuel Flores, professor, foi assassinado a tiro, por desconhecidos, em Tegucigalpa;
a brutal ofensiva contra os camponeses, intensifica-se: na região de Valle de Aguia, no Norte do país, jagunços contratados pelos latifundiários reprimem brutalmente os camponeses que lutam pela terra.

Entretanto - e esse é o dado fundamental - o povo resiste.
No dia 25, respondendo ao apelo da Frente Nacional de Resistência Popular, muitos milhares de pessoas manifestaram-se em Tegucigalpa - contra as privatizações e exigindo o fim da repressão.
Partindo da Universidade Pedagógica Nacional, a multidão percorreu várias avenidas da capital num desfile que terminou com um gigantesco comício junto à Universidade Nacional Autónoma - registe-se que esta Universidade faz parte do plano de privatizações do governo fascista...

Quer isto dizer que, nas Honduras, resistir é a palavra de ordem.

Saibamos nós ser solidários com essa resistência, contribuindo com essa solidariedade para a vitória dessa resistência.
Vitória que há-de chegar - mais tarde ou mais cedo.

POEMA

DOIS POEMAS DO SONHO


1

Quando as pálpebras caíram nos diversos recantos da cidade,
cada vagabundo só se conhecia a si mesmo,
à sua miséria e ao seu desgosto da vida.

Mas o vento fustigou-os indiferentemente
e a chuva ensopou-os a todos da mesma maneira inóspita e miserável.

E o sonho subiu e juntou-se ao ar.
Cada velha sinfonia se desflorou numa nova sinfonia.
A chuva secou nos fatos e as lágrimas nos olhos.

E quando as pálpebras se ergueram nos diversos recantos da cidade,
todos os vagabundos se conheciam
e sorriam uns para os outros.


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

SEM MÁCULA

A Santa Igreja Católica chafurda na pedofilia.
Todos os dias vêm a público novos casos envolvendo bispos e padres pedófilos nos mais diversos países - de tal forma que quase pode dizer-se: onde há Igreja Católica há pedofilia...
A agravar a já grave situação, o Vaticano, por norma, silencia esses crimes abjectos, só os reconhecendo quando eles entram no domínio público, altura em que, por vezes, ensaia um tímido pedido de desculpa às vítimas - tão tímido que quase não se dá por ele...

Os jornais de hoje relatam o caso de um padre norte-americano - Lawrence Murphy, professor, nos anos 90, numa escola para deficientes auditivos, no Wisconsin - que abusou de 200 crianças surdas.

Os abusos - que eram cometidos «no escritório do padre, no seu carro, na casa de campo da mãe, nas excursões e nos dormitórios» - foram denunciados a quem de direito: o responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé que, era, na altura o Cardeal Ratzinger.
Este, acabaria por decidir não sancionar o padre.

Diz o New York Times que a correspondência então trocada entre bispos norte-americanos e o Cardeal Ratzinger mostra que «a preocupação central foi não a de punir o padre mas a de proteger a Igreja do escândalo».
Assim, o padre Murphy - pedófilo, abusador de 200 criaças - «morreu em 1998 sem mácula no seu registo sacerdotal».

E tudo indica que o destino reservado pelo Vaticano a todos os padres pedófilos é o de morrerem sem mácula.
Tanto mais que, segundo o cardeal português José Saraiva Martins - ex-presidente da Congregação para a Causa dos Santos - todas as notícias vindas a lume sobre padres e bispos pedófilos, não passam de «uma conspiração contra a Igreja Católica» - uma espécie de cabala ou de campanha negra, digo eu...

E é invocando a família que o cardeal Martins justifica... tudo.
Diz ele, aprovando o silenciamento dos crimes: «não devemos ficar demasiado escandalizados se alguns bispos sabiam e mantiveram segredo. É isso que acontece em todas as famílias».
E acrescentou, pragmático: «não se lava a roupa suja em público».

Suja?: sem mácula, senhor cardeal, sem mácula.

POEMA

SOLIDARIEDADE


Vamos, dêem as mãos.

Porquê esse ar de eterna desconfiança?
esse medo, essa raiva?
Porquê essa imensa barreira
entre o Eu e o Nós na natural conjugação do verbo ser?

Vamos, dêem as mãos.

Para quê esses bons-dias, boas-noites,
se é um grunhido apenas e não uma saudação?
Para quê esse sorriso
se é um simples contrair de pele e nada mais?

Vamos dêem as mãos.

Já que a nossa amargura é a mesma amargura,
já que a miséria para nós tem as mesmas sete letras,
já que o sangrar dos nossos corpos é o vergão da mesma chicotada,
fiquemos juntos.
sejamos juntos.

Porquê esse ar de eterna desconfiança?
esse medo, essa raiva?

Vamos, dêem as mãos.


Mário Dionísio

(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)

UMA MUITO BOA NOTÍCIA

Há cerca de uma semana falei aqui das grandes manifestações pela educação e o emprego realizadas numa trintena de cidades dos EUA, noticiadas pelo Avante!.

Hoje, na base da mesma fonte, falo das ainda maiores manifestações de massas ocorridas no passado fim-de-semana em mais de meia centena de cidades norte-americanas e envolvendo centenas de milhares de manifestantes.

No sábado, assinalando o sétimo aniversário da invasão e ocupação do Iraque, os manifestantes protestaram também contra a ocupação do Afeganistão, exigindo, num caso e no outro, o regresso imediato das tropas de ocupação norte-americanas - e gritando, entre outras palavras de ordem: «guerra é terrorismo» e «precisamos de escolas e empregos, não de guerras».

No domingo, mais de 150 mil trabalhadores imigrantes desfilaram em Washington, até à Casa Branca, numa manifestação onde exigiram a reforma da legislação migratória, de acordo com a promessa feita por Obama durante a campanha eleitoral e até agora não cumprida.

Quer isto dizer que, nos EUA, o tom dos protestos sobe, as movimentações de massas ganham notável dimensão, a luta está na rua e promete continuar.
E esta é, a meu ver, uma muito boa notícia em qualquer parte do mundo - e melhor ainda se se trata da pátria do imperialismo.

POEMA

PREGÃO


Dum gesto alcançámos a terra.

Os montes, os mares, as estrelas, as nuvens, as almas, os deuses e as
sombras.
- o cortejo multissecular das sombras.

Antes
os braços eram curtos e terminavam por duas mãos pequenas.
Hoje
não há padrão que os meça,
prolongados nos montes e na viva complicação das máquinas,
nas chaminés voltadas para o céu.
Antes
as bocas eram breves para o beijo da casa.
Hoje
dilataram-se infinitamente no sorriso sublime e sem limites da
universalidade.

Todos os músculos estalaram.
Todos os olhos gritaram.
Todas as bocas gritaram.
Todos os pulmões se abriram ao olfacto sadio da terra húmida.
Terra.
Terra da partida e do regresso.
Terra!

Serão baixos todos os andaimes de biliões de andares,
fracas todas as asas,
para a nossa paixão da estratosfera:
para o caminho da terra que nos fará eternos.
Fraca nomenclatura de todos os tratados
para o nosso mundo de amor.

Os chicotes quebraram-se, vencidos,
vergados sobre a terra como nós até hoje.

Uma vida nova começa neste instante.
E agora, que dum gesto alcançámos a terra, nós seremos enfim o nosso próprio poema.


Mário Dionísio

(«Anunciação»)

O PIRÓMANO ORGULHOSO

Vitor Constâncio está de partida para o Banco Central Europeu (BCE), onde vai ter uma remuneração de 310 mil euros anuais, o que corresponde a um aumento de 20% em relação ao que ganha no Banco de Portugal.
A título de curiosidade, recorde-se que Constâncio decidiu há dias, ainda enquanto governador do Banco de Portugal, que no ano de 2010 não haverá aumentos salariais para os quadros dirigentes do BP, ele próprio incluído... pelo que terá que se contentar com os 20% de aumento que a transferência para o BCE lhe proporciona...
Mas adiante.

Apesar de a sua entrada para o BCE estar praticamente decidida por quem tem poderes para isso - os que mandam, de facto, na União Europeia - a democracia-de-faz-de-conta obriga a alguns formalismos, quanto mais não seja para iludir papalvos: assim, Constâncio foi ontem «prestar provas» perante alguns eurodeputados...

Na audição surgiram, naturalmente, questões relacionadas com a forma como ele (não) exerceu a supervisão em casos como o BPN, o BCP e o BPP - questões às quais Constâncio respondeu com umas quantas desculpas esfarrapadas que não só não convenceram ninguém como o puseram a ridículo.

De tal forma que, a dada altura, uma eurodeputada perguntou: «Como se pode explicar que um homem que fracassou no seu país seja responsável pela supervisão na Europa?» - e comentou: «É o mesmo que dar barras de dinamite a um pirómano».

Em desespero, Constâncio recorreu, então, à resposta clássica nestas circunstâncias:
«Tenho muito orgulho no meu desempenho à frente do Banco de Portugal» - assim dando razão, talvez sem se aperceber disso, à eurodeputada acima citada: na verdade, todos os pirómanos se orgulham dos fogos que provocam.

POEMA

SEGUNDO NASCIMENTO


Depois que se romperam os sapatos,
e deixei a gravata pior que uma rodilha no caixote do lixo,
é que vi bem o céu.

Um homem levantou a vista dos torrões e olhou para cima.
Mil cadeias inúteis se quebraram.
Mil caras, mil sorrisos, mil atitudes passaram.
Mil crenças se apagaram.
E dentro de mim mesmo surgi eu.

Enquanto se perdeu a última falripa da sola do sapato
e se esgarçou o fio de seda da gravata,
saltei a outro mundo.
Já não entendo as velhas relações nem amo as minhas velhas amizades.
Tudo o que é dantes me aparece inodoro, insípido, incolor, sem significação.
Já não tenho a noção de caminhar no meio de maltrapilhos.
Não há mais eu e eles porque passou a haver unicamente nós.
Os doutores, as madames e as meninas em série nunca mais me viram
porque passam por mim sem me reconhecerem
e eu não consigo distingui-los bem na galeria imensa do friso dos fantoches.

Tenho a alma repleta de alegria
e os braços cheios de força
e o coração a transbordar amor.

Bendita a miséria que rompeu os sapatos
e esgarçou a gravata que abandonei no lixo
e me fez ver o céu.

Livre.

Agora que deitei fora as lentes emprestadas,
e mandei ao diabo as crenças emprestadas,
e cuspi no altar das coisas consagradas,
agora, sim: sou eu.


Mário Dionísio

(«Anunciação»)

«A ESQUERDA RESPONSÁVEL»

De algumas pessoas diz-se que têm pouca vergonha - com isso se querendo dizer que, apesar de tudo, ainda têm alguma vergonha.
De outras se diz que não têm vergonha nenhuma - com isso se querendo dizer... o óbvio.
Está neste caso Vital Moreira que, hoje, no Público, veio a terreiro em defesa do PEC - considerando que ele, o PEC, «é necessário, credível e em geral socialmente justo».

Vindo de quem vem, este louvor à catástrofe social que é o PEC não surpreende.
Com efeito, Vital Moreira, desde que se passou com armas e bagagens para o lado da contra-revolução, tem sido um dos mais assanhados propagandistas da política de direita - e tamanha é a ânsia de mostrar arrependimento pelo seu passado e testemunhar fidelidade canina ao seu presente que, muitas vezes, se exibe mais socratista do que o Sócrates- e quando necessário, é capaz até de protagonizar as mais baixas provocações, como aconteceu no 1º de Maio do ano passado.
Aliás, essa é uma prática comum a todos os trânsfugas, a todos os vira-casacas, a todos os rachados.

Vital veio, então, aplaudir o PEC e o Governo do PEC: «governo de esquerda responsável», diz ele - talvez porque faz uma política de direita...
Governo que - alerta Vital - «não pode embarcar no aventureirismo das esquerdas radicais» - talvez porque defendem uma política de esquerda...

O retrato está feito: é o Vital-da-esquerda-responsável de cócoras aos pés dos donos, lambendo-lhes as mãos e abocando as migalhas que eles lhe atiram.

POEMA

DESCOBRIMENTO


Tanto tempo me disseram que eu estava nos meus caprichos,
no meu desejo (que viria) de conseguir lugar
- e tanto se enganaram
e me enganaram.

Cegos e cego.
Doidos e doido.

Nunca me disseram nada as suas teorias sobre mim.
Quem me falou afinal
foram as casas abandonadas no campo de luzes apagadas,
foram os vultos da noite com um fardo milenário às costas,
foi o suor dos rostos e das mãos sangrando.

Quem me falou de mim
foi o esforço que já vinha de trás e que quer prolongar-se para a frente.

Cegos e cego.
Doidos e doido.

Eu estava muito longe do desejo (que não veio) de conseguir lugar.

Estava no gume da enxada forte,
na argamassa,
nas mãos calosas da obreira levando ao colo o futuro escravo.


Mário Dionísio

(«Anunciação»)

DAR O NOME E RECEBER O BAGO

Várias vezes aqui tenho escrito que melhor do que ser governante é ser ex-governante - isto porque, como a realidade nos mostra todos os dias, um governante que, enquanto tal, cumpra fielmente as ordens do grande capital tem o futuro assegurado por esse mesmo grande capital.

Um exemplo disso - também recorrente no Cravo de Abril - é o de Blair, o qual, desde que deixou o cargo de primeiro-ministro da Grã-Bretanha, tem vindo a acumular múltiplos e chorudos tachos - podendo dizer-se, até, que o rendimento mais modesto de Blair (o seu salário mínimo, digamos assim) é o salário de ex-primeiro-ministro: uns miseráveis 71 mil euros...

Quanto ao resto... é só facturar e em grande - aos milhões. Muitos milhões.

Assim, para além dos milhões (já recebidos) pelas Memórias (que há-de escrever),
e para além dos milhões pelas palestras que profere por todo o mundo,

Blair factura todos os anos
milhões à Banca norte-americana;
milhões a uma seguradora suiça;
milhões a uma petrolífera da Coreia do Sul;
milhões a uma petrolífera do Iraque;
milhões ao governo do Kweit;
milhões aos Emiratos Árabes Unidos...
(isto é o que se sabe...)

Quanto ao trabalho justificativo destes milhões... já o fez quando era primeiro-ministro.
Ou seja: Blair é um assassinode massas bem pago - pelo que, agora, é só dar o nome e receber o bago...

O que se passa com Blair, passa-se - com as devidas diferenças remuneratórias - com ex-governantes de todo o mundo capitalista, a começar nos EUA e a terminar aqui, neste jardim da Europa à beira-mar plantado: quem os queira encontrar, aos ex-governantes, encontrá-los-á entregues ao precioso trabalho de... dar o nome e receber o bago.

A propósito: uma notícia de hoje diz-nos que o ex-governante «Mário Lino foi proposto pelo Governo, através da Caixa Geral de Depósitos, para chairman da Cimpor».
O jornal explica que chairman quer dizer «presidente não executivo» - designação que, traduzida à letra, quer dizer, mais coisa menos coisa, dar o nome e receber o bago...

POEMA

POEMAS DO CÃO DANADO (4)


Deixa lá, companheira!
Que havemos de fazer?
Fecharam-nos a porta e quase nos cuspiram.
Pisaram-te e, a mim, vergastaram-me as mãos.
Deixa lá! Deixa lá! Eu beijarei teus pés
e tu farás sarar as minhas mãos.
Para lá da última casa ainda há terra
e céu e água e luz...
Ainda há vida para lá.

Deixemos para eles o som vazio das gargalhadas
e a luxúria do oiro.
Ainda há vida para lá.
O nosso horizonte é mais vasto em cada instante.
A nossa voz mais rica em cada instante.
O nosso querer mais certo em cada instante.
Ainda há vida para lá.
Sigamos nossa rota, companheira.
Enxugarei teu rosto com cuidado.
Tu farás o meu canto.
E para além das barreiras do tempo
milhões de homens nos esperam com os braços abertos,
que desde a primeira hora serão braços de irmãos.


Mário Dionísio

(«O Homem Sozinho na Beira do Cais»

LÁ COMO CÁ

A France Telecom - empresa com cerca de 120 mil trabalhadores - iniciou em 2006 uma reorganização que teve como consequências, até agora, a eliminação de 22 mil postos de trabalho e a mudança de funções na empresa, ou a mudança de local de trabalho (ou ambas as coisas) de metade dos seus trabalhadores.

Tudo isto, feito num processo em que abundam as pressões do mais diverso tipo sobre os trabalhadores, gerou entre estes um clima de insegurança e de medo generalizados, traduzido em múltiplos casos de problemas psíquicos e no suicídio, até agora, de cerca de 40 trabalhadores - para além de dezenas de casos de suicídios falhados.

Um relatório da Inspecção de Trabalho, divulgado há uma semana, considera que «estes suicídios são consequência da política de reorganização e da gestão aplicada a partir de 2006» e acusa os dirigentes da empresa e o processo de reorganização em curso de responsáveis por esta onda de suicídios - e de não terem considerado os alertas, feitos em diversas ocasiões por médicos, sindicalistas e inspectores de trabalho.

«Estas coisas são inevitáveis» - dizem e escrevem os analistas de serviço, que se dizem surpreendidos com a situação, pois para eles, os trabalhadores não têm razões de queixa, na medida em que têm a sorte de ter emprego e de trabalhar 35 horas semanais...
Ou seja: para estes analistas, o direito ao emprego deixou de ser um direito humano fundamental e passou a ser uma bênção concedida pelo grande patronato aos trabalhadores... desde que se portem bem e não façam ondas...
(e quanto às 35 horas semanais, é verdade que estão consagradas na lei - mas é verdade, também, que segundo dados da União Europeia, os trabalhadores franceses trabalham, em média, 41 horas semanais)

Face a tudo isto, o responsável pelos Recursos (ditos) Humanos da France Telecom foi peremptório e sintético: «Não podemos parar a reorganização».
Talvez pensando lá para com ele que quantos mais se suicidarem, menos terá que despedir...

Assim vai a democracia.
Assim vai a liberdade.
Assim vão os direitos humanos.

Lá como cá.

POEMA

POEMAS DO CÃO DANADO (3)


Eis-nos boiando, aflitos,
só as narinas e os braços fora de água,
prestes a sucumbir.
E a terra tam perto cheia de gente alegre...
Um gente endinheirada e bruta,
pisando todas as flores.
Já nem sabemos se as lágrimas
serão gotas do mar que nos envolve,
se é o mar a água das nossas próprias lágrimas.

E a terra tam perto,
cheia daquela gente endinheirada e bruta,
pisando todas as flores...
E nós para aqui boiando,
escorraçados afinal da própria casa,
como quem não paga a renda.
Ah que é como um país nosso invadido por estrangeiros!

E, narinas abertas numa ânsia de vida,
miseráveis, covardes,
sem a coragem de nos deixarmos sucumbir,
cair prò fundo, acabar!


Mário Dionísio

(«O Homem Sozinho Sentado na Beira do Rio»)

UMA, DUAS, TRÊS

O talento de Eça criou uma galeria de personagens que, mais de um século depois, tornados reais, andam por aí ocupando importantes cargos no governos europeu, central, regional e local; na comunicação social; nos meios literários...

Quem frequente regularmente os média dominantes, aí encontra, todos os dias, o conselheiro Acácio, o Alípio Abranhos (e onde há um Abranhos há sempre um Z. Zagalo, biógrafo...), o Raposão, o Dâmaso Salcede, o Palma Cavalão, etc, etc, etc. - e até, quando as circunstâncias o impõem, o Libaninho: lembram-se dele?: beatinho até dizer chega, que sabia de cor «o hinozinho de Pio IX», que papava missinhas de manhã, à tarde e à noite: «Ai, filhos! Desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei pela igreja de Nossa Senhora da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma missa de intenção. Ai, filhos! Papei-a logo, venho mesmo consoladinho»...

Tudo isto me tem assomado à memória à medida que tenho vindo a ler as notícias que todos os dias são publicadas sobre a visita de Bento XVI a Portugal e as reacções que tal visita, ainda a mais de um mês de distância, tem vindo a provocar - reacções que, ou muito me engano (e bem desejaria enganar-me) ou tendem a desembocar, mais dia menos dia, numa verdadeira histeria colectiva.

Veja-se a competição já em curso sobre a presença nas missas que o Papa celebrará: há quem, triunfantemente, garanta presença nas três missas; há quem, por «razões incontornáveis», só possa assistir a uma - ou a duas; e há quem ainda não saiba, ou não quer que se saiba, como vai ser...

Aguarda-se, com expectativa, o resultado da competição entre o Presidente da República e o primeiro-ministro.
Tanto para o PR (com eleições à porta), como para o p-m (que, mais tarde ou mais cedo, irá a votos), a bênção de Sua Santidade é uma questão crucial - e nada melhor para a obter do que, se possível de joelhos, ouvir a celebração papal.

Para já, o PR vai à frente: diz Z. Zagalo que Cavaco Silva já garantiu a presidencial presença em duas das missas (a de Lisboa e a de Fátima) e está a envidar todos os esforços para que, na sua cerrada agenda, se abra, luminoso, o necessário espaço para a celebração do Porto - tudo indicando que vai papar as três, para seu proveito e consolo.

Quanto a José Sócrates, mantém silêncio sobre o assunto - talvez porque se está a guardar para um fulminante ataque final (semelhante ao PEC com o qual se prepara para fulminar a imensa maioria dos portugueses).
Mas, garante Z Zagalo, é mais do que certo que o menino de ouro papará uma, talvez duas, quiçá as três missas papais - igualmente para seu consolo e proveito.

A ver vamos. Mas lá que a compita promete, promete...

POEMA

POEMAS DO CÃO DANADO (2)


Olha: tu que me és única,
mais valia nunca teres poisado o teu olhar
nas minhas mãos,
nos meus cabelos
e nos meus olhos agora e para sempre cheios de ti.
Ter-te-ia sido preferível afinal.
Assim só eu corria pelas ruas
apedrejado às esquinas
como sucede sempre a um bom cão danado.
Não sofrias,
não choravas,
não te martirizavas tanto em cada hora.
Assim, enrodilhada sem querer no meu fracasso,
perdeste talvez aquilo que não volta a repetir-se.
Mais te valia nunca me encontrares,
a mim, o sempre trôpego em todas as passadas,
coberto de miséria, de grotesco,
ridículo!


Mário Dionísio

(«O Homem Sozinho na Beira do Cais»)

SURPRESAS

A vida é feita... «de pequenos nadas» é certo, como muito bem canta o Sérgio Godinho, mas não só: também de surpresas.
Surpresas grandes, por vezes, daquelas que deixam uma pessoa literalmente de boca aberta.

Asim fiquei eu ao ler e ouvir uma notícia que nos últimos dias tem corrido todo o País: o apoio à candidatura presidencial de Manuel Alegre por parte de (segundo uns média) «um conjunto de destacados sindicalistas»; ou (segundo outros), «um conjunto de prestigiados sindicalistas».

«Destacados sindicalistas»?!!!; «prestigiados sindicalistas»?!!!: chiça!
Será que os média dominantes - que até agora têm tratado como a gente sabe os sindicalistas, os sindicatos e as lutas - vão, a partir de agora, mudar de agulha?...

A minha segunda (e ainda maior) surpresa veio logo a seguir, ao ler o texto no qual os «destacados»/«prestigiados» sindicalistas explicam e justificam as razões do seu apoio à referida candidatura.

Dizem eles que Alegre «nunca foi neutro, nunca baixou os braços, nunca fugiu de nenhum combate»;
e que «é um homem de palavra. De honra»;
e que «a vida política de Manuel Alegre é um espelho em que todos os democratas, independentemente do seu pendor ideológico, se podem rever»;
e que Alegre «nunca confundiu política com negócios, nunca colocou interesses pessoais ou ambições políticas acima dos interesses da democracia e de Portugal»;
e que Alegre, «com a sua palavra clara e corajosa tem defendido uma democracia isenta de jogos obscuros do poder pelo poder»;
e que Alegre «tem-se batido pelos direitos dos trabalhadores e contra o Código do Trabalho, pela contratação colectiva livre e dinâmica»;«e contra a precariedade do emprego, os contratos a termo arbitrário e os recibos verdes ilegais»;
e etc, etc, etc.


Vocês tinham conhecimento disto?
Eu não tinha, confesso - daí a minha surpresa...