POEMA

POEMAS DO CÃO DANADO - 1


Quando nasci
- de pouco valeu estarem os campos cheios de flores -
uma garra disforme
deixou-me a sua marca negra até ao sangue.

Sorriu o pai e a mãe
do destino do menino venturoso.
Eu próprio ri de segurança e de vitória.
Mas a cada minuto, a cada passo,
a segurança e a vitória foram sendo mentira.
(Basta eu chegar para que tudo se perturbe.
Aliás nem ninguém nem nada se perturba:
só eu sou sempre afinal o perturbado.)

Mas não desisto.
Insisto.
Procuro chegar, entrar.
Procuro, como um faminto de sacola na mão,
essa alegria de toda aquela gente,
que diz sem sobressaltos: aqui estou.
Mas isso sim. Basta eu chegar:
lá vem o grito fatal de: cão danado!
É escusado teimar.
Todas as portas me estarão fechadas,
deixando escorrer um fio de luz
ou um fio de palavras...

E não desisto.
Insisto.

Mas se a mão negra me marcou para sempre,
a que vem este desejo inferior
de lá chegar?


Mário Dionísio

(«O Homem Sozinho na Beira do Cais»)

A RESISTÊNCIA CONTINUA

Da resistência hondurenha chega o apelo para a divulgação, no mundo, da repressão a que o governo fascista submete o povo.

Repressão levada a cabo por forças policiais e por grupos armados e traduzida em detenções arbitrárias, torturas, raptos, violência policial, desaparecimentos, assassinatos.

Repressão sobre a qual o governo fascista mantém o habitual silêncio e que é igualmente silenciada pelos média dominantes locais - recorde-se que 98% dos órgãos de comunicação social hondurenhos são propriedade de 3 famílias... - e pelos seus congéneres dos países capitalistas.

As últimas notícias sobre a repressão nas Honduras dizem que três jornalistas foram assassinados neste mês de Março:
- no dia 2, com rajadas de metralhadora, Joseph Hernández, de 26 anos;
- no dia 11, numa localidade a 700 quilómetros da capital, David Meza, de 51 anos;
- no dia 14, com 41 tiros, Nahum Palácios, de 34 anos.
Os assassinatos foram antecedidos de telefonemas anónimos nos quais os jornalistas eram ameaçados de morte se continuassem «a defender os pobres»...

Entretanto, a resistência continua.
E continuará - apesar dos Micheletti, dos Uribe, dos Obama...

POEMA

OS HOMENS DA MINHA RUA
DE CASAS DE MADEIRA


Os homens da minha rua de casas de madeira,
telhadas de folha velha,
usam sempre o chapéu atirado para os olhos.
Deslizam em silêncio, embuçados e tristes,
como quem vem de longe, como quem vai para longe.
A minha rua é longa,
com mil e uma pequeninas poças de água.
E tão estreita
que nunca o sol das ruas largas sem casas de madeira
a pôde visitar.
E os homens contam as poças.
E de olhos nas poças, nas pedras, nas poças,
deslizam em silêncio, embuçados e tristes,
como quem vem de longe, como quem vai para longe...

Porque usarão - porquê? - sempre o chapéu sobre os olhos,
os homens da minha rua de casas de madeira?


Mário Dionísio

(«O Homem Sozinho na Beira do Cais»)

«OS LIVROS QUE ANDO A LER»

Os jornais têm falado - e hoje dão grande destaque, inclusive com chamada de primeira página - dos elevados salários e respectivos «prémios de desempenho» com que alguns gestores vêem compensado o seu intenso, suado e profícuo labor profissional.

Assim, a REM premiou o esforçado José Penedos com 243. 750 euros, mais coisa menos coisa - prémio que o incansável gestor juntou aos 27 mil euros, mais coisa menos coisa, de salário mensal.

E, a confirmar que a «face oculta» é o que está a dar, os gestores da PT, no seu conjunto, receberam, em 2009, 7 milhões de euros, mais coisa menos coisa, em salários e prémios - sendo que, curiosamente, os prémios são maiores do que os salários...
O bolo foi, naturalmente, distribuído de acordo com a cadeia hierárquica: 6 milhões, mais coisa menos coisa, para os três grandes e o resto para os restantes.
Assim, subiram ao pódio:
3 - o jovem gestor Rui Pedro Soares - conhecido adepto do FC Porto - que se classificou em terceiro lugar - medalha de bronze - com 1,5 milhões, mais coisa menos coisa;
2 - logo a seguir - medalha de prata - classificou-se Henrique Granadeiro, «o encornado», com um score de 1,6 milhões, mais coisa menos coisa;
1 - a medalha de ouro foi, como estava previsto, para Zeinal Bava - o big boss visível - com 2,5 milhões, mais coisa menos coisa.

Estavam as coisas neste pé, eis que um dos três premiados - para o caso Henrique Granadeiro - foi convidado pela presidente da Casa Fernando Pessoa - Inês Pedrosa, benza-a Deus - para ali ir falar, mais coisa menos coisa, sobre «os livros que ando a ler».
E ele foi. Ontem. Ao fim da tarde.

Perante reduzida assistência - compensada pela abundante presença de médias - o convidado de Inês não disse muito sobre os livros que anda a ler.
E, nesse aspecto, terá sido, até, uma desilusão, especialmente para quem ali se deslocou na esperança de ser informado sobre onde é que se pode arranjar a obra «Como influenciar pessoas e arrecadar um rendimento anual de 1, 6 milhões de euros, mais coisa menos coisa».

A dada altura, o convidado de Inês disse: «Sou um homem introspectivo para quem a palavra nem sempre é fácil, por isso os livros sempre foram para mim a melhor das companhias»- obviamente, estava a referir-se a livros de cheques.
(e imaginem quantos milhões mais teria por ano se a palavra lhe fosse fácil!...)

Depois, falou da crise: não, é claro, da crise que, a pretexto da crise, vai encher de crise as casas de milhões de portugueses em crise; sim, é claro, da crise, que a pretexto da crise, proporcionou a meia dúzia de portugueses rendimentos de, mais coisa menos coisa, 1,6 milhões de euros no ano de crise de 2009.

E falou do «papel fundamental que cabe à sociedade», para debelar a crise.
E falou nos «políticos que não têm ajudado nada».
E fechou as falas deste jeito:
«O Estado só quer tomar conta do que corre bem», revelação que considero espectacular. Eu que - ignorância minha - estava convencido de que o Estado só privatizava (isto é: oferecia aos granadeiros) o que dá lucro, e guardava para si (isto é: para nós todos) o que dá prejuizo...

O que uma pessoa aprende ouvindo um gestor de sucesso a falar sobre, mais coisa menos coisa, «os livros que ando a ler»!

POEMA

POEMA DE ABRIL


A farda dos homens
voltou a ser pele
(porque a vocação
de tudo o que é vivo
é voltar às fontes).
Foi este o prodígio
do povo ultrajado,
do povo banido
que trouxe das trevas
pedaços de sol.

Foi este o prodígio
de um dia de abril,
que fez das mordaças
bandeiras ao alto,
arrancou as grades,
libertou os pulsos,
e mostrou aos presos
que graças a eles
a farda dos homens
voltou a ser pele.

Ficou a herança
de erros e buracos
nas árduas ladeiras
a serem subidas
com os pés descalços,
mas no sofrimento
a farda dos homens
voltou a ser pele
e das baionetas
irromperam flores.

Minha pátria linda
de cabelos soltos
correndo no vento,
sinto um arrepio
de areia e de mar
ao ver-te feliz.
Com as mãos vazias
vamos trabalhar,
a farda dos homens
voltou a ser pele.


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)


Com este poema chega ao fim o ciclo dedicado a Sidónio Muralha.
O próximo convidado do Cravo de Abril é Mário Dionísio.

«ABENÇOADOS»

A próxima visita a Portugal do Papa Bento XVI continua a ter lugar de destaque nos noticiários.

A visita ocorre num momento em que o Papa está a braços com vários casos de pedofilia vindos a público recentemente - casos que envolvem padres e bispos na Alemanha, na Áustria, na Holanda e na Suíça e que vêm juntar-se aos ocorridos nos EUA (4 400 padres pedófilos e 11 mil crianças abusadas); Irlanda (14 500 crianças abusadas); Austrália; Canadá; França...

Mas não é disto que o Papa vem falar na visita a Portugal.
E hoje ficámos a saber que se prevê que «cerca de 1 milhão de pessoas» assista às três missas que Bento XVI vai dizer, nos dias 11, 13 e 14 de Maio, respectivamente, em Lisboa, Fátima e Porto - missas nas quais, certamente, irá abençoar Portugal e os portugueses, como fizeram os seus antecessores quando por cá passaram.

Bento XVI é o terceiro Papa a visitar Portugal.
E vale a pena relembrar as anteriores visitas papais, todas, insisto, carregadas de bênçãos para Portugal e para os portugueses.
Relembrar e agradecer, não obstante as referidas bênçãos não terem tido quaisquer efeitos positivos nas condições de trabalho e de vida da imensa maioria dos portugueses...

O primeiro a visitar-nos foi Paulo VI, em Maio de 1967.
Tratava-se, segundo foi anunciado, de uma «visita de carácter particular, para orar pela paz em geral e pela paz no Vietname, em particular».
Feito o balanço, constatou-se que, afinal, o Papa falou pouco da paz e falou nada da paz no Vietname - e acabou por «abençoar-nos» à sua maneira: recebeu o ditador Salazar; recebeu o palhaço Américo Tomás; e recebeu e condecorou o Director da PIDE - tudo para maior glória de Deus e do fascismo...

Quinze anos depois foi a vez de João Paulo II.
Veio em Maio de 1982, com o objectivo expresso de - para além de «abençoar Portugal e os portugueses» - oferecer a Nossa Senhora de Fátima a bala que, cerca de um ano antes, só não o matou, a ele Papa, porque Ela Senhora, não deixou, desviando a dita bala.

Recorde-se que essa visita de João Paulo II coincidiu com a Greve Geral convocada pela CGTP-IN, em protesto contra o assassinato de dois jovens trabalhadores, no Porto, na noite de 30 de Abril desse ano, na sequência de uma provocação montada pelos amarelos da UGT em serviço combinado com o Governo AD/ Balsemão/ Freitas.

Dois jovens trabalhadores assassinados que aqui se recordam: Mário Gonçalves, de 17 anos, vendedor; Pedro Vieira, de 24 anos, operário têxtil.

No entanto, tal acontecimento não despertou a atenção do Sumo Pontífice.
É certo que não condecorou os assassinos dos dois jovens - talvez porque os assassinos nunca foram identificados... - mas fartou-se de «abençoar Portugal e os portugueses»...
João Paulo II passou por cá mais quatro vezes - e sempre, sempre, sempre a «abençoar Portugal e os portugueses».

Em Maio chegará aí Bento XVI.
E uma coisa é certa: a primeira coisa que Sua Santidade fará, mal ponha o pé em território lusitano, é «abençoar Portugal e os portugueses».
Depois, ditas as missas, partirá: a resolução dos casos de pedofilia que envolvem a sua gente espera por ele.

E «Portugal e os portugueses» ficarão.
«Abençoados»...

POEMA

PONTE SOBRE O TEJO


Ó ponte que tens
o nome atrasado
do atraso que temos,
devemos salvar-te
e dar-te outro nome
que traga lá dentro
o sol e o trigo,
um filho no ventre
e o sangue na terra
que floriu nos cravos.

Devemos chamar-te
Catarina Eufémia,
ó ponte que tens
o nome atrasado
do atraso que temos,
e os barcos do Tejo
com as velas pandas
darão forma ao sopro
da semeadora
Catarina Eufémia.

Para que o passado
não mais se repita,
e os gestos dos monstros
sejam apagados
(mas nunca esquecidos)
devemos chamar-te
Catarina Eufémia,
ó ponte que tens
o nome atrasado
do atraso que temos.

Rumo lá no alto
olhando Lisboa,
no frémito novo
de sabê-la nossa
e poder dizê-lo,
ponte que nos liga
no fluir presente
que já é futuro,
nós vamos chamar-te
Catarina Eufémia.


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)

O AVÔ E OS NETOS

Como se não bastassem todas as malfeitorias praticadas ao longo de 34 anos de política de direita, o Governo PS/Sócrates veio agora desferir mais uma machadada brutal nas condições de trabalho e de vida da imensa maioria dos portugueses.
Para isso, criou o chamado Programa de Estabilidade e Crescimento - mal chamado, já que, de facto, se trata de um verdadeiro programa de instabilidade e de retrocesso, que visa levar a política de direita aos seus limites extremos no quadro actual.

Com efeito, este PEC do PS e do grande capital - a que o PSD e o CDS/PP chamam um figo, embora finjam o contrário - é uma tragédia para a imensa maioria dos portugueses (trabalhadores empregados e desempregados, reformados e pensionistas) e uma prenda valiosa para a imensa minoria (chefes dos grandes grupos económicos e financeiros).

Como o Correio da Manhã de hoje sintetisa, «são as famílias que se encontram no terceiro escalão do IRS as que serão mais penalizadas».
Isto é: «Os rendimentos entre 517 e 1284 euros/mês pagam a factura da crise».
Ou seja: «Salários baixos castigados no PEC».

Dito de outra forma: esta cambada - que há 34 anos massacra os trabalhadores, o povo e o País, ao mesmo tempo que enche os bolsos do grande capital e arrecada o que pode para si e para os seus amigos - é insaciável e não tem ponta de vergonha.

E dizem eles, repetidos pelos seus propagandistas estrategicamente espalhados nos média dominantes, que este PEC serve «o interesse nacional» e é «indispensável para que Portugal saia da crise» e «para que o barco chegue a bom porto».

Ou seja: «Para que Portugal navegue sempre na bonança» - como dizia o avô deles, Salazar.

POEMA

A GRANDE NOTÍCIA


A grande notícia
chegou até mim
como um rastro azul
vestido de estrelas,
um clarim de luz
no silêncio inerte,
repentinamente,
num céu cheio de nuvens,
um jacto que surge
e roça a montanha.

O meu pensamento
abriu-se num abraço
para além dos mares,
e a grande notícia
bailava nas ruas
enquanto nos esgotos
os torturadores
pareciam ratos
e o nojo de vê-los
doía na gente.

Um clarim de luz
num céu de nuvens,
foi como irrompeu
a grande notícia
vestida de estrelas.
Só um fogo oculto
consegue acordar
um grilo no inverno
mas quando ele acorda
o frio adormece.

Foi na madrugada
de um dia sem planos
que se revelou
a grande notícia,
e as águas do pântano
não podem mais sê-lo
ao ver, de repente,
no silêncio inerte,
um jacto que surge
e roça a montanha.


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)

AMÉRICA, AMÉRICA...

O «sonho americano» assume crescentes contornos de pesadelo para um número cada vez maior de pessoas.
Não falo daqueles milhões de pessoas que, vivendo a milhares de quilómetros de distância dos EUA, o que sabem desse «sonho» é o que lhes é dito pelas forças norte-americanas de ocupação ou pelas bombas que lhes caem em cima: falo dos cidadãos norte-americanos, dos que nasceram, vivem e trabalham nos EUA e vêem as suas condições de trabalho e de vida a agravar-se todos os dias.

Eis alguns números:
- o número de desempregados, que aumenta a um ritmo de dezenas de milhares por mês, ultrapassou já os 15 milhões (9,7% segundo o Departamento do Trabalho) - e, desses, 6 milhões estão sem emprego há mais de seis meses;
- a exploração aumenta: no último trimestre de 2009, enquanto a produtividade cresceu 6,9%, o custo do trabalho decresceu 5,9%, ou seja: os trabalhadores produziram muito mais e receberam muito menos;
- o número dos que vivem na rua, em Nova Iorque, ultrapassou os 40 mil - e destes apenas 8 mil têm abrigo em centros de acolhimento (os quais se debatem com dificuldades acrescidas devido aos cortes das subvenções estatais);
- a população prisional continua a crescer: cerca de 25% do total dos presos no mundo encontram-se nas prisões dos EUA; dois terços desses presos são negros e latinos: 1 em cada 15 adultos negros, e 1 em cada 46 hispânicos está na prisão.

Entretanto, cresce a contestação popular a este estado de coisas: no passado dia 4, centenas de milhares de pessoas saíram à rua manifestando-se, em 33 estados, pelo direito à educação e ao emprego.
No decorrer dessas manifestações, jovens estudantes e jovens desempregados juntaram-se nos protestos e exigências, ultrapassando as barreiras da polícia que procurava impedir a junção das manifestações.
Em Baltimore, Maryland, jovens afro-americanos exigiam «empregos, não prisões».
Em Oakland, na Califórnia, onde a manifestação atingiu dimensão assinalável, a polícia carregou violentamente sobre os manifestantes e prendeu mais de 150.

E tudo indica que a luta vai continuar e que um outro dia nacional de luta está desde já em preparação.
Segundo o jovem afro-americano Larry Hales, que foi um dos dirigentes nacionais desta jornada de luta, «a 4 de Março ficou demonstrado o desejo dos jovens em revitalizar um movimento de jovens estudantes e trabalhadores. Nos próximos passos na luta pela educação e pelo emprego, planeamos ir mais longe no espírito de militância que presidiu às acções de 4 de Março».

Registe-se que estas foram as maiores manifestações de massas realizadas nos EUA nas últimas décadas.
E é significativo que elas tenham ocorrido em plena «era Obama»...


(Porquê este post?
Porque, tanto quanto me apercebi, a generalidade dos média dominantes nada (ou pouco) disse sobre o assunto - e é bom que isto se saiba...)

POEMA

OS AMIGOS


Os amigos partilham
a sua desgraça
em pedaços iguais.
Cada qual recebe
o mesmo quinhão
de tristeza e bruma
e tudo repartem
os dias perdidos
as noites crispadas
as mortes comuns.

De repente falam
e apertam as mãos
levantam lareiras
desenham viagens
confiam no amor.

E no chão vazio
nascem malmequeres
frágeis como a esperança
(e tão persistentes)
frágeis como a vida
(e tão arraigados).

Obscuras flores
que irrompem do escuro
mas que trazem nelas
o espectro do sol.


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)

FASCISMO NUNCA MAIS

«Quem vem para o Tarrafal vem para morrer»: era assim que dois dos directores do Campo de Concentração do Tarrafal - Manuel Reis e João da Silva - sintetizavam os objectivos da criação do Campo, corroborados pelo médico Esmeraldo Pais Prata: «Eu não estou aqui para curar doentes, mas para passar certidões de óbito».

«A chuva, o vento, o calor, a falta de água, a água inquinada, a má alimentação, os mosquitos, o paludismo, a falta de assistência médica e de medicamentos, por um lado; os trabalhos forçados, a violência dos castigos, a brutalidade dos carcereiros, por outro lado - constituíam os meios necessários para que a tarefa dos carrascos fosse levada a cabo».

O Tarrafal foi, de facto, «o espelho do fascismo».
Criado por Salazar no decorrer do processo de fascização do Estado levado a cabo na primeira metade de década de 30, para ali foram enviados 340 resistentes antifascistas, somando um total de 2 mil anos, 11 meses e cinco dias de prisão.
Desses, 32 foram assassinados.

Foi com o objectivo de prestar homenagem a esses resistentes que cerca de duzentas pessoas, respondendo ao apelo da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), participaram esta manhã numa romagem ao Mausoléu dos Tarrafalistas, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa - onde se encontram os restos mortais dos 32 assassinados.

O Mausoléu é um monumento belo, simples, em forma de muro semi-circular, espiralado, no centro do qual se ergue um cubo com dezasseis gavetas em cada uma das duas faces laterais e, na face frontal, a legenda:
«AOS QUE NA LONGA NOITE FASCISTA FORAM PORTADORES DA CHAMA DA LIBERDADE E PELA LIBERDADE MORRERAM NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL»


O Cravo de Abril recorda os nomes dos 32 resistentes antifascistas assassinados no Tarrafal:

FRANCISCO JOSÉ PEREIRA
PEDRO DE MATOS FILIPE
FRANCISCO DOMINGOS QUINTAS
RAFAEL TOBIAS
AUGUSTO DA COSTA
CÂNDIDO ALVES BARJA
ABÍLIO AUGUSTO BELCHIOR
FRANCISCO ESTEVES
ARNALDO SIMÕES JANUÁRIO
ALFREDO CALDEIRA
FERNANDO ALCOBIA
JAIME DE SOUSA
ALBINO COELHO
MÁRIO DOS SANTOS CASTELHANO
JACINTO DE MELO FARIA VILAÇA
CASIMIRO FERREIRA
ALBINO ANTÓNIO DE CARVALHO
ANTÓNIO GUEDES DE OLIVEIRA E SILVA
ERNESTO JOSÉ RIBEIRO
JOÃO LOPES DINIS
HENRIQUE VALE DOMINGUES
BENTO ANTÓNIO GONÇALVES
DAMÁSIO MARTINS PEREIRA
ANTÓNIO DE JESUS BRANCO
PAULO JOSÉ DIAS
JOAQUIM MONTES
MANUEL ALVES DOS REIS
FRANCISCO NASCIMENTO GOMES
EDMUNDO GONÇALVES
MANUEL DA COSTA
JOAQUIM MARREIROS
ANTÓNIO GUERRA

POEMA

DOCE COMPANHEIRA


Música, música,
doce companheira,
teus olhos tão claros
parecem de espuma.

Teus cabelos caem
nos ombros da vida,
tuas mãos afagam
os rostos marcados.

Música, música,
ensina ao futuro
a dialogar
com homens e estrelas.

Sacode a inércia,
acorda os que dormem,
a hora chegou
de estar acordado.

Música, música,
talvez amanhã
os gestos dos homens
encontrem teus gestos.

O mundo é pequeno,
o amor é grande,
este desencontro
não pode durar.


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)

COSTA MARTINS

Pedro d'Anunciação, no Sol, reportando-se à acção de Costa Martins como ministro do Trabalho dos governos de Vasco Gonçalves, diz que o agora falecido militar de Abril «ficou identificado com o que o gonçalvismo teve de melhor (no seu tempo adoptou o 13º mês de salário) e de pior (a forma pouco democrática com que se fizeram saneamentos e se prucuraram impor as posições comunistas)».
Para começar não está mal: uma no cravo, outra na ferradura - sendo que a da ferradura é, por parte do escriba, a retoma das velhas atoardas inventadas pela reacção e que, hoje, passados 35 anos continuam a ser usadas como se se tratasse de verdades absolutas, incontestáveis e incontestadas.

Logo a seguir, o escriba descobre que «o que o marcou mais negativamente (a Costa Martins) foi a sua campanha de "um dia de salário para a nação", segundo a qual os trabalhadores foram instados, com a pressão dos saneamento sobre eles, a trabalharem no domingo, dia 6 de Outubro, e a entregarem o vencimento desse dia ao Estado».
Ou seja: o escriba volta a pegar na palavra da reacção e dispara-a impiedosamente contra a verdade.

Embalado, acrescenta: «Sintomaticamente, o PCP lamentou agora a morte de Costa Martins, tendo Jerónimo de Sousa salientado que ele ficará ligado "às conquistas sociais do pós-revolução".
Ou seja: sintomaticamente, com este pedaço de prosa manhosa, o escriba mostrou o que valia e ao que vinha...

É claro que quem escreve assim, não poderia esquecer-se de repetir a maior e a mais ignóbil de todas as calúnias lançadas pelas forças da contra-revolução contra Costa Martins - e que serve de mote ao escriba para titular a sua prosa: «Costa Martins - O ministro gonçalvista que tropeçou na justiça».
E, como quem não quer a coisa, mas querendo, tropeçando na calúnia, o escriba escreve: «O deputado socialista António Arnaut garantiu mais tarde no Parlamento haver provas de que o ex-ministro desviara verbas do dia de salário e pediu uma investigação so assunto».

Ora bem: se o escriba quisesse - mas o escriba não quis... - poderia ter esclarecido desde logo que nem «o deputado socialista» nem ninguém tinha provas desse «desvio de verbas» - pela simples e incontornável razão de que não houve desvio nem de um centavo - como Costa Martins demonstrou inequivocamente.

Se o escriba quisesse - mas o escriba não quis... - poderia ter esclarecido desde logo que foi o próprio Costa Martins - e não «o deputado socialista», o qual lançou a calúnia e com isso se deu por satisfeito - quem obrigou a que tudo fosse esclarecido, numa atitude inédita e raras vezes vista antes ou depois.

E se o escriba quisesse - mas o escriba não quis... - poderia, ainda, incitar os leitores a proceder ao didáctico exercício de comparar a atitude de Costa Martins - tomando ele próprio a iniciativa de obrigar a que tudo fosse esclarecido e mostrando provas concretas da falsidade das acusações de que era alvo - com as atitudes dos que, hoje, se dizem vítimas de calúnias, de cabalas e etc.

A terminar - e cheio de motivos para se sentir satisfeito com a forma como cumpriu a tarefa - o escriba suja-se assim: «Mas a verdade é que a vida deste militar cheio de expedientes deixou realmente algumas sombras».

É MENTIRA: a verdade é que a vida deste militar é um exemplo de dignidade, de verticalidade, de coerência - tudo qualidades cuja existência, ao que parece, o escriba desconhece.
,

POEMA

DESAFIO


Desafio,
travo de amora silvestre,
agulhas da chuva no rosto,
soco do vento contrário,
distância além do horizonte,
vem
desafio
salutar vem,
revigorante vem
dizer-me que não sou capaz
para que te prove que sou.

Vem, desafio,
esfarrapa a flanela do dia-a-dia
com as tuas patas de corcel selvagem
que faiscam estrelas do chão,
galopa nas trevas e vem,
atravessa os povoados e vem,
carregado da palavras duras,
de palavras autênticas,
de palavras-palavras,
bate na minha vidraça
e na dos meus companheiros
para que acordemos todas as manhãs
plenamente
quando os galos acordam.


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)

UM EM CADA TRÊS DIAS

Diz o Avante! que um relatório intitulado «A morte não é muda» - elaborado pela Confederação Única dos Trabalhadores da Colômbia (CUT) e tornado público há uma semana - informa que, desde 1986, mais de 10 mil dirigentes e activistas sindicais foram alvo de atentados à vida, à liberdade e à integridade física.

Desses, mais de 2700 foram assassinados, ou seja: um sindicalista colombiano foi assassinado em cada três dias, nos últimos 23 anos.

O relatório sublinha que o crescendo de violência registado nos sete anos de mandato do narco-fascista Uribe contribuiu fortemente para o aumento do número de assassinados e de perseguidos pelas forças repressivas.

Quanto à justiça... 98,3 por cento dos casos levados a tribunal ficaram por resolver.
E nos casos de tortura, invasão de domicílio, rapto e desaparecimento, a impunidade é total.


Isto num país onde:
- oito milhões de pessoas vivem na indigência e mais de 20 milhões são considerados pobres;
- a taxa de desemprego atinge 23 por cento da população activa;
- o salário mínimo nacional cobre apenas metade do valor do cabaz de bens essenciais;
- só 30 por cento das crianças em idade escolar ingressam nos estabelecimentos de ensino e apenas 60 por cento destes concluem o ensino obrigatório;
- mais de 4 milhões de pessoas (das quais cerca de um terço são mulheres) são refugiadas dentro do seu próprio país;
- estão identificados cerca de 2 mil «falsos positivos», isto é, jovens, recrutados para trabalhar, que acabaram executados pelos militares e apresentados na televisão colombiana e nas suas congéneres do mundo inteiro como «guerrilheiros das FARC».

Tudo isto a demonstrar a justeza da atribuição a Uribe, pelo Governo de Bush, da medalha da liberdade dos EUA...
Tudo isto a explicar as excelentes relações existentes entre Uribe e Obama.
Tudo isto a confirmar a razão de Obama quando diz que as sete bases militares dos EUA na Colômbia constituem um importante trunfo no combate ao terrorismo e ao narco-tráfico...


Tudo isto enquanto, a cada três dias que passam, um activista sindical é assassinado às ordens do narco-fascista Uribe, ante o sorriso simpático de Obama.

POEMA

A CORJA


A vida é bonita,
mas alguém sujou
seus rios que riem,
roubou os seus pães
alvos e morenos,
queimou os seus livros
que eram livros livres,
cortou suas flores
que tinham sol dentro,
fechou os seus homens
com sede de fora,
degradou as grades
imundas o mundo.

A vida é bonita
fizeram-na feia,
quem for o culpado
que levante o dedo.

- E a corja impassível
de braços cruzados,
falando da lua,
fingindo que não.


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)

PARA REGISTO

O Tribunal de Contas (TC) anunciou o fecho das contas dos partidos políticos respeitantes à campanha eleitoral das autárquicas de 2005.
Os média deram a notícia, naturalmente destacando as multas atribuídas pelo TC a cada partido.

Este era um caso em que não havia pretexto para grandes especulações na medida em que se tratava de divulgar números fornecidos pelo TC e, portanto, em princípio incontestáveis.
Assim não o entendeu, no entanto, a TSF que, garantiu-me um amigo, passou toda a manhã de ontem a gritar aos seus ouvintes que o BE foi o único partido a não ser multado.

A notícia é falsa - tão evidentemente falsa que custa a crer que a sua difusão se tenha devido a um lapso...
Na verdade, os números divulgados pelo TC não deixam margem para quaisquer dúvidas e nada, rigorosamente nada, pode levar seja quem for a fazer deles a «leitura» que a TSF fez.
Lá está, preto no branco, a descrição das multas que cada partido terá que pagar.
Assim: «PS - 30 mil euros; PPD/PSD - 30 mil euros; PCP e PEV - 20 mil euros» - e, com o mesmo destaque que é dado a cada um destes partidos, «BE - 12 mil euros».

Trata-se, portanto, de uma mentira intencional, fabricada e difundida pela TSF, presumo que com a intenção de, mentindo aos seus ouvintes, fazer a promoção do BE - talvez pensando que uma mentira muitas vezes repetida se transforma em verdade...

O caso merece registo apenas para ficar... registado - e, assim, suscitar a reflexão sobre a pertinentíssima questão de saber quais as razões que levam os média do grande capital a tratar o BE como se fosse um partido deles...

(já agora, vale a pena chamar a atenção para o facto de a multa dos bloquistas - 12 mil euros - ser, proporcionalmente, a mais elevada de todas, dado que, em 2005, enquanto os outros três partidos concorreram a milhares de órgãos autárquicos, o BE concorreu a umas dúzias deles)

POEMA

O HERÓI


O herói da guerra
possui 365 medalhas,
uma para cada dia do ano
(só nos anos bissextos
tem um dia de folga)

O herói da guerra
tem um desencontro
marcado com ele mesmo
(sua vocação era ser homem
e fizeram dele um herói)

O herói da guerra
precisa esquecer
(num gesto heróico
fuma heroína)


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)

25 DE ABRIL SEMPRE!

O Cravo de Abril presta homenagem ao coronel Costa Martins, falecido na sequência da queda da avioneta em que se deslocava com um amigo, próximo de Montemor-o-Novo.


Aqui homenageamos
o Capitão de Abril que, no dia 25 de Abril de 1974, tomou o aeroporto de Lisboa, num acto bem elucidativo da sua coragem e da sua determinação: a coluna militar que deveria juntar-se-lhe não apareceu e ele, sozinho, dirigiu-se ao oficial de serviço e disse-lhe: «Está tudo cercado por forças militares, é inútil resistir» - e o oficial rendeu-se.

Aqui homenageamos o cidadão que foi ministro do Trabalho dos governos provisórios presididos pelo Companheiro Vasco - um ministro do Trabalho profundamente identificado com os interesses e os direitos dos trabalhadores e que, nessa qualidade, deixou o seu nome ligado às mais relevantes e positivas medidas de carácter social alguma vez tomadas no nosso País, designadamente o salário mínimo nacional e o 13º mês.

Aqui homenageamos o homem vertical e digno ao qual as forças da contra-revolução - identificadas como tal, ou disfarçadas de democráticas - nunca perdoaram a sua entrega aos ideais de Abril e sobre ele lançaram as mais baixas provocações, falsidades e calúnias (como a acusação miserável que lhe fez António Arnaut, e que depois correu de boca da reacção em boca da reacção, de ter desviado 80 mil contos da campanha «um dia de trabalho» - acusações cuja falsidade ele demonstrou inequivocamente e das quais os tribunais inequivocamente o ilibaram.

Aqui deixamos o nosso imenso adeus a Costa Martins, Homem de Abril e ministro do Trabalho ao serviço dos trabalhadores.


(diz o Correio da Manhã que «Vasco Lourenço não vai ao funeral» e que «a Associação 25 de Abril não participará oficialmente no funeral do coronel Costa Martins»
Que Vasco Lourenço não vá ao funeral é coisa que não me espanta - pessoalmente acho, até, que ele não faz lá falta nenhuma.
Quanto à não participação da Associação 25 de Abril (a confirmar-se a notícia do Correio da Manhã), é coisa que me espanta - e que considero ser uma decisão lamentável e lastimável, que envergonha quem a tomou, pelo absurdo que é a Associação 25 de Abril não participar oficialmente no funeral de um dos mais valorosos e dignos capitães de Abril)

POEMA

ACUSO


Vocês todos,
malditos
que nos roubaram a vida,
são, liricamente,
pesseguinhos

- filhos da fruta.


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)

NÃO ESQUEÇAMOS AS HONDURAS


Não deixemos cair no esquecimento o golpe fascista levado a cabo nas Honduras, com o apoio do Governo de Obama.
Não deixemos que o poder instalado antidemocraticamente se esconda por detrás da falsa máscara democrática fabricada pelos golpistas, pelo imperialismo norte-americano e pelos média do grande capital.

Denunciemos o plano em curso de repressão e de eliminação física de membros da Frente Nacional de Resistência.

Informemos que, por todo o país, e particularmente nas duas principais cidades: Tegucigalpa e San Pedro de Sula, têm sido realizadas manifestações de protesto contra a repressão, afrontando corajosamente as forças repressivas.

Denunciemos que nos últimos dias, dezenas de militantes da Frente Nacional de Resistência, homens e mulheres, foram raptados ou presos, interrogados e torturados - e divulguemos os nomes de algumas das vítimas dessa vaga repressiva: Reina Centeno, Guillermo Amador, Hermes Reyes, Porfírio Ponce, Edgar Martinez, Carol Rivera, Meliza Rivera, Johan Martinez, Manuel de Jesús Murillo, Ricardo Antonio Rodriguez.

Denunciemos o assassinato a tiro, no passado dia 24 de Fevereiro, da jovem Claudia Larissa Brizuela, membro da Frente Nacional de Resistência, militante do Partido da Unificação Democrática e colaboradora do jornal La Prensa (afecto ao movimento sindical).


Não faltemos com a nossa solidariedade ao povo hondurenho, à sua corajosa luta, às vítimas da brutal repressão fascista.

POEMA

SONETO AO SENHOR CORREIO


Senhor Correio, Senhor Dom Correio,
por favor, por favor, Vossa Excelência
não abra as minhas cartas porque é feio
e tudo o que for feio falta à decência.

Eu leio as suas cartas? Não, não leio.
Se suas cartas lesse era demência.
Senhor Correio, veja se há um meio
de ter um pouco menos de inclemência.

Porque enfim o que escrevo a mim o devo,
Senhor Correio, é meu tudo o que escrevo,
é a tinta expressando as minhas falas.

É qualquer coisa mais que intimidade.
Senhor Correio, sabe que é verdade,
violar minhas cartas é matá-las.


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)

PARABÉNS!

A PROVA

«Nos 48 anos de ditadura fascista, o PCP foi praticamente o único partido existente, o único a conduzir de forma organizada, permanente e contínua a luta em defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País, o único a travar uma luta sem tréguas pela liberdade e a democracia.
Os comunistas pagaram a sua dedicação com pesados sacrifícios. Vidas inteiras consagradas à luta clandestina. Milhares de homens e mulheres perseguidos, presos, torturados, encerrados nas prisões durante logos anos. Alguns mais de 20 anos. Alguns, conhecidos e procurados pela PIDE, mantendo-se clandestinamente no País até 20 anos, até 30 anos. Numerosos militantes assassinados nas prisões, ou com torturas, ou a tiro.
Qualquer balanço objectivo da resistência antifascista obriga a concluir que, nos duros tempos da ditadura, os comunistas foram o destacamento de combate, o braço, a vanguarda, a honra, a consciência do povo português na luta pela liberdade.


O TESTEMUNHO


Nos anos decorridos desde o 25 de Abril, tanto no exaltante fluxo revolucionário de 1974-1975, como ante as ofensivas contra-revolucionárias desde então desencadeadas por sucessivos governos, os comunistas estiveram à altura das suas heróicas tradições e das suas responsabilidades. Nestes 11 anos de luta entre as forças da restauração monopolista e as forças voltadas para o progresso social e o bem-estar do povo, o PCP foi o único partido que sempre esteve com os trabalhadores e as massas populares, na defesa dos seus interesses vitais, dos seus direitos e das suas aspirações.
O PCP tornou-se o único grande partido defensor da Revolução de Abril e das suas conquistas. O único verdadeiro e real defensor do regime democrático e da independência nacional.


A CONFIANÇA

O PCP confirma no presente todo o seu glorioso passado. Passado e presente creditam a sua futura acção.
O balanço do passado, a actividade presente e a previsão do futuro definem a importância, o papel e o valor do PCP na vida nacional.
O passado é a prova, o presente o testemunho, o futuro a confiança.

A perspectiva histórica de um partido afere-se pelo que fez, pelo que faz e pelo que mostra estar em condições de fazer.
Afere-se pela ligação do seu ideal, dos seus objectivos, da sua acção à classe ou classes às quais historicamente o futuro pertence.
Neste duplo aspecto se afere e revela a perspectiva do PCP e se fundamenta a sua profunda e inabalável confiança no futuro»


Álvaro Cunhal - «O Partido com Paredes de Vidro»

POEMA

OS AMIGOS COERENTES


Minha geração
tem os gestos rudes
do semeador
e as mãos calejadas
de quem dá aos sonhos
contornos precisos
dos dois pés na terra,
da quilha que singra,
do arado que rasga,
do rasgo que cria.

Fomos perseguidos
porque a nossa falta
era a lucidez
e a coragem de
apontar os crimes
sem lhes dar perdão,
porque perdoar
é ser conivente
e essa conivência
é igual ao crime.


Sidónio Muralha

(«Poemas de Abril» - 1974)

EM ABRIL SE VERÁ

Artur Albarran começa a ser julgado em Abril, «por burla ao Estado».
Segundo os jornais, a empresa Euroamer, de que Albarran é a figura maior em Portugal, está envolvida numa série de obscuras manobras de engenharia financeira e «deve 16 milhões de euros ao fisco».

Albarran é uma figura cujo nome se tornou célebre em Setembro de 1975, por ocasião do assalto à embaixada de Espanha em Lisboa - acção «revolucionária» que o «revolucionário» Albarran comandou e incitou aos microfones da Rádio renascença.
«A embaixada está a arder e bem», gritava ele, entusiasmado, na noite do assalto - assalto que, desde então e até hoje, foi assacado ao PCP...

A apetência «revolucionária» de Albarran levá-lo-ia, depois, a aderir ao chamado Partido Revolucionário do Proletariado - Brigadas Revolucionárias (PRP - BR), no qual desenvolveu actividades que o levaram a integrar o processo judicial das BR - processo do qual se saiu bem, sem problemas de maior...

Foi então que saiu de Portugal. Porquê e para quê, só ele o sabe,,,
Primeiro, foi para a Inglaterra - onde, estranhamente (ou não...), arranjou logo lugar, nada mais nada menos do que na BBC...
Dali seguiu para os EUA - onde, estranhamente (ou não...), não se sabe bem o que fez...
Depois, em 1980, regressou a Portugal - onde, estranhamente (ou não...), ingressou de imediato na RTP como director de programação da 1 e da 2...

Passados uns anos - após uma «carreira televisiva fulgurante», o «apoio a Freitas do Amaral», etc - passou a dedicar-se a negócios de maior envergadura.
Carlucci, com quem Albarran travara conhecimento em 1975 - estranhamente (ou não...) «conheceram-se na altura do assalto à embaixada de Espanha»... - chamou-o e propôs-lhe ser o «rosto português da Euroamer», empresa do Grupo Carlyle (um dos maiores fundos internacionais de investimentos, pertença de Carlucci).
E Albarran - com o mesmo entusiasmo com que, anos antes, anunciava que a embaixada de Espanha estava a arder - aceitou.
Já tinha aceite, antes, fazer propaganda a uma pasta dentífrica, com excelentes resultados financeiros... mas agora tratava-se de um negócio de outra dimensão...

A Euroamer nasceu em 1996, carinhosamente apadrinhada pela embaixada dos EUA e pelo Governo de António Guterres.
E apadrinhado por tais padrinhos, o homem de Carlucci lançou-se ao trabalho.
E fez o que pôde...

Em Abril vai ser julgado por «burla ao Estado».

Ah, já me esquecia: Albarran, «cujo paradeiro é alegadamente desconhecido», será defendido pelo «advogado João Nabais».

E pronto: para já, é tudo sobre este «herói do nosso tempo».
Em Abril se verá...

POEMA

ROTEIRO


Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.


Sidónio Muralha

(«Que Saudades do Mar» - 1971)

ESTRATÉGIAS

A «Estratégia de Lisboa» ( lembram-se?) foi uma coisa parida em 2000, no decorrer da chamada «presidência portuguesa (que Guterres abrilhantou, no meio de aplausos gerais) e que tinha como objectivo «tornar a União Europeia na economia mais competitiva do mundo».
Foi, mais coisa menos coisa, o correspondente ao «Tratado Porreiro, Pá», que uns tempos depois (abrilhantado, no meio de aplausos gerais, pela parelha Sócrates/Barroso), depositou nas garras do grande capital a soberania e a independência de Portugal.

Pois bem: a «Estratégia de Lisboa» falhou, fracassou, foi um fiasco...
Facto que, estou em crer, no que respeita às condições de trabalho e de vida dos trabalhadores dos países da UE, não é mais grave do que se a dita «Estratégia» tivesse tido êxito - pois, como é sabido, no que respeita aos trabalhadores, todas as «estratégias» dos mandantes da UE têm como objectivo primeiro aumentar e aumentar a exploração, que o mesmo é dizer: aumentar e aumentar os lucros desses mandantes.

Assim, fracassada a «Estratégia de Lisboa» - e porque «estratégias» é o que mais há... - outra «estratégia» nasceu - desta vez em cerimónia abrilhantada por Barroso (no meio de aplausos gerais), «para evitar o declínio da Europa»...
(Barroso
que, recorde-se, vai no seu segundo mandato como Presidente da Comissão Europeia, cargo a que ascendeu pela primeira vez após a nota máxima obtida nas provas que prestou como cúmplice no assassinato de centenas de milhares de iraquianos)

Aí está, então, a nova «estratégia», tendo como objectivo, nas sábias palavras do sábio Barroso, «reforçar a competitividade da Europa na cena mundial».

Desta vez, a coisa chama-se «Estratégia Europa 2020» - e o que a distingue da fracassada «Estratégia de Lisboa» é, apenas, o nome...

Entretanto, porque a exploração dos trabalhadores se acentua, os lucros dos exploradores aumentam.
E a única resposta às estratégias dos exploradores, é a estratégia da luta de classes.


POEMA

O VOO DE SUA ALTEZA


O rei vai partir.
Seu avião a jacto de platina
ronca em estereofónico
e de suas turbinas
jorra uma disenteria de rubis.

Mas um bode pára na pista
e sua barbicha que não é a jacto
desafia o avião do rei.

É um bode subversivo
- gritam milhares de pessoas
simetricamente quadradas.
E o bode é enquadrado
na lei que protege os soberanos
e é fuzilado por ter tido a ousadia
de roubar ao rei um minuto de voo.

Mais um bode fuzilado
por crime de lesa-majestade
- pensam os reis.

Mais um rei que voa
por crime de lesa-bode
- respondem os bodes.

(Questão de pontos de vista)

A verdade é que ser bode
não oferece garantia nenhuma.


Sidónio Muralha

(«Que Saudades do Mar» - 1971)

OLÉ!

A decisão da ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, de incluir «a secção de Tauromaquia no Conselho Nacional da Cultura» foi muito aplaudida pelo crítico tauromáquico Maurício do Vale.
Aliás, para o reputado crítico a decisão não constituiu surpresa, pois numa breve conversa que teve com a ministra, «um dia, em Angra do Heroísmo», logo verificou tratar-se de «uma pessoa com enorme sensibilidade».
Ora, tamanha sensibilidade teria que, inevitavelmente, vir a traduzir-se no ocorrido: fazer a justiça de conferir à arte do toureio o estatuto cultural a que, como todas as outras artes, tem direito.

Pelo que, de agora em diante, cravar um ferro curto mesmo em cima do cachaço; desenhar uma verónica ou uma chicuelina; espetar um par de bandarilhas em su sítio - e, depois de tudo isso e muito mais, dar a morte ao nobre animal no centro da arena; cortar-lhe as orelhas e oferecê-las ao matador - tudo isso passa a constituir uma obra de arte, um acto de cultura. Como um romance do Eça, um poema do Pessoa, um quadro da Vieira da Silva, uma composição do Lopes-Graça...

E o crítico remata assim a sua lide: «A cultura taurina, tal como a ministra Canavilhas, estão de parabéns».
E eu acrescento: OLÉ!

POEMA

O JARDINEIRO MÍOPE


O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista
às flores.
E a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
«que bem que cantam as minhas papoulas!».

Um dia, a Liga das Senhoras mais Bondosas do Mundo,
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir um emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga mais bondosa do mundo
subia para o Céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.


Sidónio Muralha

('Que Saudades do Mar» - 1971)

A DIFERENÇA

O Público dá-nos conta de um estudo «organizado pelos politólogos André Freire e José Manuel Viegas»: «Representação política - o caso português em perspectiva comparada».

De entre as várias conclusões a que chegaram os autores do estudo - designadamente a de que «a satisfação dos portugueses com a democracia bateu no fundo» (pudera!, com uma democracia de faz-de-conta como é a nossa...) - há uma que despertou a minha atenção.
Tem a ver com os partidos políticos que, segundo nos é dito por um dos «politólogos», se tornaram «meros instrumentos dos seus líderes».
O que é verdade.
Mas, já agora, acrescente-se que essa realidade decorre do conceito de democracia dominante (a tal que bateu no fundo...) e que, até agora, não mereceu qualquer nota crítica por parte dos politólogos de serviço... - e a mais elementar honestidade política obrigaria a que se dissesse que há um partido que não é um mero instrumento do seu líder: o PCP.
Como a realidade nos mostra todos os dias.

Acrescenta o «politólogo» que «as eleições directas dos líderes (que substituíram as eleições em congresso) vieram dar um contributo negativo, enfraqueceram os partidos».
O que é verdade.
Mas, já agora, acrescente-se que as «eleições directas» nos partidos foram importadas, primeiro pelo PS, depois pelos restantes partidos da política de direita, e apresentadas como se fossem o supra-sumo da democracia, o último grito em matéria de democraticidade partidária... - e a mais elementar honestidade política obrigaria a que se dissesse que não é assim em todos os partidos: que o PCP elege o seu secretário-geral em congresso, após uma ampla auscultação às organizações partidárias.
Como pode confirmar quem nisso estiver interessado.

Aduz o referido «politólogo» que tudo isto cria uma situação em que os líderes estão acima dos partidos, em relação aos quais «actuam autonomamente», o que faz com que «os órgãos dos partidos quase desapareçam».
O que é verdade.
Mas, já agora, acrescente-se que essa prática absolutista - o partido sou eu!... - tem sido vendida como coisa altamente positiva e altamente democrática, por isso proliferando no campo fértil de todos os partidos da burguesia ... - e a mais elementar honestidade política obrigaria a que se dissesse que há uma excepção a essa regra: o PCP, partido no qual - porque o colectivo é quem mais ordena - são os órgãos dirigentes democraticamente eleitos que, colectivamente, tomam as decisões que os militantes (aí incluído o secretário-geral do Partido) colectivamente levam à prática.
Como facilmente constatará quem quiser constatar.


Num tempo em que - por razões óbvias... - tanto se insiste na ideia de que «os partidos são todos iguais», a mais elementar honestidade política obriga a que se sublinhe que «o PCP é diferente dos que são todos iguais».
E que é nessa diferença que está o futuro.

POEMA

DIÁLOGO QUASE POESIA


Tu sabes, mãe - disse o pássaro - os aviões também voam.
- Voam mas não têm coração. Engolem homens aos milhares.
- Para quê?
- Para que o voo seja pago.
- Voo pago? Como pode ser pago e ser voo?
- É por isso que os aviões não cantam. Só nós cantamos
porque ninguém pode comprar o nosso voo.


Sidónio Muralha

(«Que Saudades do Mar» - 1971)

PROFECIA

«José Ramalho, militante do PS há 35 anos» (citado pelo Público), dirigiu-se a José Sócrates nestes termos:
«Faço votos de que não sejas varrido da mesma forma que os socialistas italianos, fugidos à Justiça».

Trata-se, obviamente, de um desabafo - o desabafo sincero de um militante visivelmente preocupado; porventura farto de ouvir e ler notícias sobre o alegado envolvimento do líder do seu partido numa sucessão ininterrupta de «casos» semelhantes aos que levaram «os socialistas italianos»(e não só italianos, e não só italianos...) a fugir à Justiça.

Mas trata-se, igualmente, de uma advertência, de um alerta, de um aviso - assim como quem diz: vê lá no que te metes, olha que essas coisas acabam sempre por ser descobertas, isto não me está a cheirar nada bem, põe-te a pau...

Afigura-se-me, no entanto, que as palavras do militante do PS são, não apenas um desabafo, uma advertência, um alerta, um aviso, mas mais do que isso.
Com efeito, as dezassete palavras que compõem a frase acima citada exalam um iniludível odor a profecia...

Profecia cujo acerto, como sempre acontece em matéria de profecias, o futuro se encarregará de confirmar, ou não...
Aguardemos.

POEMA

PROFECIA


Cada gesto de ódio
cada gesto de prepotência
cada gesto para amordaçar a verdade
cada gesto para amparar a mentira
cada gesto que suprime outro gesto
cada gesto - indigesto

- voltará implacável como um «boomerang»
e ninguém escapará a essa lei.


Sidónio Muralha

(«Que Saudades do Mar» - 1971)