POEMA

ADEUS


Fiquem em paz, meus amigos
fiquem em paz
Eu vou partir
convosco no coração
e a minha luta na cabeça.
Fiquem em paz,
amigos meus,
fiquem em paz.
Não quero ver-vos na praia
alinhados como aves num postal
Não quero os vossos lenços a acenar, não, isso não.
Vejo-me inteiro nos olhos dos meus amigos.
Ó meus amigos
meus irmãos de luta
meus companheiros de trabalho
Adeus sem uma palavra.

As noites vão fechar o ferrolho da porta
Os anos vão criar teias de aranha na janela
E eu cantarei na prisão a minha canção de combate.
Tornaremos a ver-nos, amigos, tornaremos a ver-nos
Juntos, sorrindo, olharemos o sol
bater-nos-emos lado a lado
Ó meus amigos
meus irmãos de luta
meus companheiros de trabalho.
Adeus.


Nâzim Hikmet



Nâzim Hikmet é o Poeta que segue nesta teimosa insistência do Cravo de Abril em partilhar diariamente um poema com os seus visitantes.
Para os amigos que, eventualmente, desconheçam o Poeta e a sua Poesia, aqui ficam algumas notas informativas.
Brevíssima biografia: nasceu em 20.1.1902, em Salónica (então parte do Reino Osmânico), filho de pais cultos, pertencentes à classe dominante da época, mas que se opunham à ditadura vigente. Em 1917 entrou para a Escola de Cadetes de Heybekiada, em Istambul. Começou a escrever poesia aos 14 anos e um seu professor ajudou-o a publicar os primeiros poemas numa revista. Em 1920, após a ocupação de Istambul pela »Entente», abandonou secretamente a cidade e, com um amigo, foi juntar-se ao Movimento de Libertação, sob o comando de Ataturk. Aí chegam-lhes notícias da Revolução Russa - notícias que os fizeram meter-se a caminho de Moscovo. Hikmet inscreveu-se na Universidade Comunista dos Trabalhadores de Leste.
Conheceu e privou com vários artistas soviéticos, entre eles Meyerhold e Maiakovski que o influenciaram duradouramente. Por essa altura adere ao Partido Comunista Turco.
Acabado o curso, Nâzim regressou à Turquia.
Em 1932, na sequência de uma onda de perseguições e prisão de comunistas, foi preso - tendo sido amnistiado dois anos depois. Em 1938, com base numa provocação, Hikmet foi acusado de preparar uma revolta na Marinha e preso. Viria a ser libertado doze anos depois, em 1950, graças a uma ampla campanha internacional de solidariedade. No ano seguinte, doente, partiu para o exílio.
Morreu de enfarte de miocárdio a 3 de Junho de 1963, de manhã cedo, quando ia comprar os jornais.

Sobre a sua Poesia escreveu Philippe Soupault:
«Dele se pode escrever que foi um poeta universal. E este elogio deve ser meditado porque poucos poetas atingiram uma audiência mundial e porque significa que, apesar da alta qualidade da sua poesia, Nâzim Hikmet nunca quis isolar-se numa torre de marfim. Quis (e conseguiu) fazer-se entender por todos aqueles a quem chamava irmãos. Em todos os seus poemas, até nos mais íntimos, exaltou a amizade. Era sempre a amigos que se dirigia, e eram inúmeros os seus amigos. Fez voto de ser fraterno desde que começou a escrever, porque para ele a Fraternidade não era palavra vã, essa mesma que se grava, ou antes, gravava, no frontão dos monumentos públicos em França. O seu primeiro e o seu último poema são poemas fraternos. Fala aos homens, aos seus irmãos, da sua existência íntima, do seu amor, das suas viagens, das suas experiências, porque pretende não só "contar-lhes a vida" mas também associá-los à sua vida.
A obra de Nâzim Hikmet é a legenda do nosso século. Nenhum outro poeta da nossa época terá, como ele, sabido exprimir esta angústia que nos paralisa em plena era atómica, onde a nossa única defesa é a confiança que depositamos, que não podemos deixar de depositar, no homem. O poeta propõe-nos essa necessária confiança, mais, impõe-no-la. A poesia de alguém que sofreu tanto, mas que nunca perdeu a coragem, está colocada sob o signo da esperança. Não se receie aceitar toda a obra de Nâzim Hikment como uma mensagem.»

(POEMAS DA PRISÃO E DO EXÍLIO - edição «& etc», 2000)

11 comentários:

joão l.henrique disse...

Obrigado pela revelação, este poeta era para mim desconhecido.
Nâzim Hikmet, a partir de hoje, vai ser para mim, um poeta de encontros vários.

Um abraço.

samuel disse...

Bela escolha e belo começo!
Quem bom, poder ficar a conhecer um pouco melhor...

Abraço.

Maria disse...

Conheci o poeta Nâzim Hikmet aqui mesmo. E agradeço-te por isso. É um poeta de 'mão cheia de poesia'!

Um beijo grande.

CRN disse...

Venham mais, dos poetas que por aqui temos vindo a encontrar, conhecer, recordar. Uma parcela de conhecimento partilhada que reflecte a essência do blogger. Um blogue que, por tal, passou a formar parte do cotidiano de muitos amigos (e por vezes não tão)

Abraço!

o castendo disse...

O governo da Turquia só a 5 de Janeiro de 2009 devolveu a cidadania ao maior poeta turco - Nazim Hikmet - mais de 45 anos depois do seu falecimento! http://ocastendo.blogs.sapo.pt/tag/nazim+hikmet.

Um abraço

Graciete Rietsch disse...

Obrigada por nos trazeres este extraordinário poeta e este poema que nos mostra como se pode ser herói, revolucionário,solidário e de uma ternura e sensibilidade comoventes.
A sua biografia mostra bem o homem que ele foi!!!!!
Como foi possível só lhe ter sido devolvida a cidadania em 2009?!!!!!

Um beijo.

Anjos disse...

Há cerca de um mês que sou visitante assídua deste blogue. Ele corresponde, realmente à definição de Manangão no poema “Ao Cravo de Abril”. Embora não goste muito do termo, atrevo-me a classificá-lo de Excelente! Parabéns.
Claro que nem sempre exprimo os comentários que me ocorrem relativamente a alguns posts. Umas vezes porque já outros manifestaram as opiniões que comungo, outras por uma questão de manter a “boa educação” (dada a revolta visceral provocada pelo teor dos relatos) e outras, o caso dos poemas, por entender não dever fazê-lo porque,à semelhança do que se passa com outras formas de arte, o poema lê-se, gosta-se/ou não, sente-se/ou não, compreende-se a mensagem/ou não, é significativo para nós/ou não.

Mas a este… não resisti. Por duas razões: não o conhecia (nem ao seu autor) e porque ele é um Adeus tão dorido... e ao mesmo tempo tão belo!... Nele está tudo: realidade, sonho, coragem, força, persistência, solidariedade,companheirismo, esperança… e certeza.

Obrigada pelas notas informativas acerca do Poeta e da sua Poesia.

Sincero abraço

smvasconcelos disse...

Eu não conheço o poeta, mas por esta introdução, anseio e muito vir a conhecer através dos posts diários do Cravo de abril, e quem sabe, extravasar o conhecimento para outras procuras...:)
Obrigada pela partilha,
Beijo,

Fernando Samuel disse...

joão l.henrique: e verás que vale a pena.
Um abraço.

samuel: um abraço.

Maria: um Poeta, enfim...
Um beijo grande.

CRN: um abraço grande, camarada.

o castendo; obrigado pela adenda.
Um abraço.

Graciete Rietsch: a Revolução é ternura, amor, solidariedade, fraternidade, amizade... poesia...
Um beijo.

Anjos: obrigado pelo teu incisivo, pertinente e solidário comentário.
Um beijo amigo.

smvasconcelos: por que será que eu sei que vais gostar, de certeza?...
Um beijo.

Nelson Ricardo disse...

Alguém que deve a sua obra a uma vida de resistência aos exploradores do povo.

Um Abraço.

Fernando Samuel disse...

Nelson Ricardo: alguém no qual vida e obra se fundem...
Um abraço.