CONSEQUÊNCIAS DA FUGA DE PENICHE

Álvaro Cunhal foi um dos dez dirigentes comunistas que, no dia 3 de Janeiro, se evadiram do Forte de Peniche - e que, como todos os outros, retomou de imediato a actividade clandestina antifascista.

É sabido que, pela vasta e importante obra teórica produzida e pelo papel singular que desempenhou na construção do PCP como partido marxista-leninista, Álvaro Cunhal se afirmou como figura maior do movimento comunista internacional e como «o mais relevante operário da notável construção colectiva que é o PCP».
Os seus 75 anos de militância revolucionária - desde o início dos anos 30, altura em que aderiu ao Partido, até ao fim dos seus dias - foram marcados pela preocupação dominante de, integrando o colectivo partidário, fazer do PCP o partido revolucionário que é.
E a sua singular intervenção foi de tal modo impressiva que falar da sua vida e da sua acção significa falar da vida e da história do Partido.

Na sequência da fuga de Peniche, Álvaro Cunhal desempenhou um papel crucial no combate, e na posterior correcção, do desvio de direita em que o PCP mergulhara - desvio caracterizado por uma errada avaliação da situação nacional que via como «traço dominante da situação política nacional, a desagregação irreversível do regime fascista» e apontava a «via pacífica» como caminho para pôr fim à ditadura salazarista.
A partir de dois notáveis trabalhos de Álvaro Cunhal - A Tendência Anarco-Liberal na Organização do Trabalho de Direcção e O Desvio de Direita nos Anos 1956-1959 (1) - desenvolveu-se um intenso debate interno que, apesar das limitações impostas pela clandestinidade, envolveu parte grande do colectivo partidário.

O desvio de direita foi corrigido, foi retomada a linha do «levantamento nacional» como caminho para o derrubamento da fascismo, o Partido voltou a assumir o seu papel de vanguarda.
Os efeitos da correcção do desvio de direita foram visíveis desde logo na acção, na dinâmica e no conteúdo da intervenção do PCP: na vaga de lutas dos anos de 1961 e de 1962 - neste caso com o maior 1º de Maio de sempre na história do movimento operário português e com a formidável conquista das oito horas de trabalho pelo proletariado rural do Sul.

Os efeitos da correcção do desvio projectaram-se igualmente em todo o processo que conduziu à construção do histórico VI Congresso do Partido, cuja influência na revolução portuguesa iria ser determinante.
O VI Congresso - que viria a consagrar a correcção ao desvio de direita - contou, no seu processo preparatório, com um precioso contributo de Álvaro Cunhal: o Rumo à Vitória.
Trata-se de um trabalho no qual Álvaro Cunhal procede à abordagem da «linha política e táctica do Partido na actual etapa da revolução» e em que, a partir da caracterização rigorosa da situação política portuguesa - natureza de classe da ditadura fascista; definição da sua base económica e da arrumação de forças sociais, do papel forças antifascistas, da classe operária e do Partido - define os objectivos da revolução democrática e nacional, aponta a via para o derrubamento do fascismo, define uma política de unidade antifascista e define as tarefas do Partido... rumo à vitória.

«E o Rumo à Vitória foi isso mesmo: rumo à vitória que chegaria em Abril de 1974 e se desenvolveria no processo transformador da revolução portuguesa.
O Rumo à Vitória esteve nas ruas, nas fábricas, nos escritórios, nos campos, nas escolas; esteve nas políticas dos governos provisórios; esteve na acção dos militares revolucionários e progressistas e no Programa do MFA; esteve nas importantes conquistas revolucionárias alcançadas pelo movimento operário e popular, ou seja: o processo revolucionário seguiu a par e passo os passos rigorosamente definidos dez anos antes.
E é ainda rumo à vitória esta luta que há (mais de) trinta anos travamos contra a política de direita, que é a política da contra-revolução de Abril».


(1) Estes dois trabalhos integram o II Volume das Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal, recentemente publicado pelas Edições Avante - livro que, tal como o 1º Volume, é de leitura imprescindível.

6 comentários:

samuel disse...

Obras que hei-de comprar assim que tenha um "tempo" extra para o fazer.

Abraço

Ana Camarra disse...

Eu estava á espera do Pai Natal ou do Menino Jesus para o Volume II, mas como o Volume I me foi ofertado no meu aniversário, já falta pouco para a Primavera.

Beijos

Maria disse...

Como imprescindível é a leitura atenta deste post e uma (re)vista a 10 olhos aos livros ali na estante... alguns já tão manuseados e sublinhados... como o Rumo à Vitória!
Excelente post, Fernando Samuel.

Um beijo grande

GR disse...

Foi uma fuga incrível.
Depois de muito ter lido, visto o percurso em Peniche, reconheço que poucos homens conseguiriam tal proeza (fuga), só mesmo os Resistentes militantes comunistas.
Uma data que deveríamos enaltecer com maior destaque.

Todos os livros do nosso querido camarada Álvaro são uma referência. O II Tomo das Obras Escolhidas é, imprescindível.
Ficamos com uma maior compreensão sobre a política nacional e internacional interessou-me bastante o período da 2ª G.G., a reorganização do Partido (muito trabalho, com tanto perigo), as justas exigências que o nosso camarada Álvaro faz, sempre com toda a coragem e coerência, em seu nome e na defesa do nosso Partido.
O documento histórico “Se fores preso camarada”, é arrepiante! Ensina a postura a todos os nossos heróicos camaradas Resistentes, a ultrapassarem o sofrimento de todo o tipo de tortura, na prisão, ensina a Superioridade Moral dos Comunistas.

Um livro que nos dá grande conhecimento e muito orgulho, por militarmos e lutarmos num Partido integro - o PCP.

GR

do Zambujal disse...

Ia dizer... que excelente e oportuno post!... mas quando é que que um post destes não seria oportuno?
Poderá dizer-se... cada vez mais? Mas este "cada vez mais" é... sempre... cada vez mais.
Fiquei, na madrugada, lendo, relendo, quieto e grato.
Um grande abraço

Fernando Samuel disse...

samuel: o «tempo» está mau...
Um abraço.

Ana Camarra: boa prenda, essa...
Um beijo.

Maria: a (re)vista é fundamental...
Um beijo grande.

GR: são dois livros para ler, estudar, debater...
Um beijo.

do zambujal: viva! viva!, regressaste!
Abraço grande, grande.