AS DUAS METADES...

Pela primeira vez na história da Bolívia, uma Constituição foi a votos e o referendo parece ter dado a vitória ao "sim", com cerca de 60% dos votos.
É uma muito boa notícia.
Comentando os resultados e o seu significado, Evo Morales - eleito Presidente em 2005, com 53% dos votos - afirmou: «O Estado colonial termina aqui. O neoliberalismo acaba aqui. Governaremos como nos pede o povo que refundou a Bolívia».

Nos jornais portugueses - Público, DN e JN - a notícia não é suficientemente importante para ter honras de primeira página (e para o Correio da Manhã e o Diário Económico nem sequer é notícia...).
No entanto, o Público dedica-lhe uma página interior, na qual, em título a toda a largura da dita página, «informa»:
«Eleitores foram às urnas por um país melhor e receberam-no dividido em dois».

«Dividido em dois»?: como? porquê?

O Público «esclarece»:
«60 por cento de votos no "sim" e o resto no "não", mostraram, como se supunha, uma Bolívia partida ao meio».

«Partida ao meio»?
Sim. Assim: uma «metade» com uns míseros 60% e a outra «metade» com uns substanciais 40%...
Curioso, este conceito de «metade» adoptado pelo Público, não é?...
É claro que, se o resultado fosse o inverso - 60% para o "não" e 40% para o "sim" - o Público não só não falaria de «Bolívia partida ao meio», como deitaria foguetes à «esmagadora vitória da oposição»...

Mas, afinal, onde é que o Público foi buscar a estória das «duas metades»?
É simples: lendo as notícias até ao fim, ficamos a saber que os «líderes da oposição boliviana» consideram que o resultado do referendo «deu um empate» - está-se mesmo a ver: o «empate» entre os 60% obtidos pelo "sim" e os 40% obtidos pelo "não"...
E pronto: bastou isso para que o Público - jornal que se afirma independente, isento, imparcial, e etc - tenha de imediato assumido o papel de porta-voz da dita oposição.
Oposição «democrática», sem dúvida, tão «democrática» que até já apelou à «desobediência» à nova Constituição...

Relembre-se que, entre os que votaram "sim" à nova Constituição, faltaram, pelo menos, 20 cidadãos bolivianos: os 20 camponeses, apoiantes de Morales, assassinados, em 11 de Setembro, pela «oposição» - «oposição democrática», obviamente...
E que, por isso, tem nos média portugueses - propriedade do grande capital - fiéis e fervorosos defensores e apoiantes.

8 comentários:

Maria disse...

Curioso que o Público consiga analisar os resultados assim. Curioso, ou não.
Afinal deve ter dito que o Cavaco foi eleito PR pelos portugueses, e não disse na altura que Portugal estava partido ao meio, esse resultado sim, foi ao meio...
Adoro estes analistas.

Um beijo grande

samuel disse...

Tanto que o "órgão" do Belmiro gostaria, se os Bolivianos tivessem ido às urnas e ficado com um país "dividido" em um... e nas mãos dos EUA. Isso sim, seria democrático...

Abraço

alex campos disse...

Infelizmente a América do Sul é o único sítio onde eles não põem a pata com facilidade. Assim resta-lhes a mentira e a deturpação das realidades para mitigarem a azia.

Um abraço

Aristides disse...

Fantásticos os nossos jornais de "referência"! Como são possíveis análises tão vesgas da realidade quando esta não corresponde à sua realidade?
Lá temos que os gramar.
Abraço

Juvenal disse...

Respigado do Público sobre a nova Constituição da Bolívia:


Estabelece-se a igualdade de género
A água e os serviços básicos, bem como a segurança social, a educação são assimilados a direitos humanos
A igreja católica perde o carácter oficial e todas as religiões são colocadas no mesmo plano
O latifúndio fica proibido
Os povos originários têm direito à real participação a todos os níveis do poder do Estado
A nova Constituição representa um avanço emtermos de inclusão, justiça social e combate à pobreza.


Isto há-de incomodar muita gente por lá! ... e ... dividi-los, claro!

Onde é que já vi isto?
Juvenal

Anónimo disse...

"Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é parvo, ou não sabe da arte."
E "o público" ficou com a melhor parte: a da sua arte de desinformar!

Rui Silva

Antuã disse...

E assim se vê como é a propaganda dos senhores do mundo. Cada vez menos Senhores?!... esperemos que sim, cada vez menos senhores.

Fernando Samuel disse...

Maria: chama-se a isto utilizar dois pesos e duas medidas...
Um beijo grande.

samuel: assim estaria implantada a verdadeira democracia: a deles...
Um abraço.

alex campos: é o ódio de classe a manifestar-se como pode...
Um abraço.

Aristides: a realidade é a deles...
Um abraço.

Juvenal: como é que os média do grande capital hão-de encarar uma constituição dessas?...
Um abraço.

Rui Silva: o Público sabe da sua arte...
Um abraço.

Antuã: De facto, cada vez menos senhores...
Um abraço.