HORA H
A Primavera cheira a laranjas.
(Há umas granadas de mão, redondas e pequenas, a que chamam laranjas.)
O cheiro das laranjas enche a noite luarenta de mistérios.
(Dizem que as noites de luar são as melhores para bombardeamentos aéreos.)
António Gedeão
O SAQUE VAI COMEÇAR
Como eu vinha dizendo, a ocupação de um país não dá apenas despesas ao ocupante: dá-lhe, também, receitas.
Chorudas receitas.
Aliás, se assim não fosse não haveria ocupações - que o digam os EUA e todos os países por si ocupados...
O ocupante ocupa: militarmente, politicamente, económicamente... isto é, passa a ser dono absoluto do país ocupado.
Assim fizeram os EUA no Afeganistão: mal ocuparam militarmente o país, invadiram-no com equipas de especialistas em todas as matérias para ver o que dali podiam sacar.
Entre essas equipas, ia uma composta por geólogos, cuja tarefa era a de descobrir riquezas inexploradas no subsolo do país ocupado.
Esses geólogos apresentaram, agora, os resultados do seu trabalho:
No subsolo afegão existem gigantescas quantidades de ferro, cobalto, cobre, ouro e, sobretudo, de lítio (um metal que é fundamental para a produção de baterias de telemóveis e de computadores portáteis).
A descoberta provocou uma onda de euforia no país ocupante.
Euforia e... pragmatismo, digamos assim: na verdade, o governo dos EUA está já a tomar medidas para assegurar que os recursos naturais descobertos sejam dos EUA e apenas dos EUA, impedindo que companhias oriundas de outras potências económicas entrem no negócio.
Em resumo: o saque vai começar.
Em nome da «democracia», é claro.
E da «liberdade», como não podia deixar de ser.
E dos «direitos humanos», como mandam as regras da ocupação.
Chorudas receitas.
Aliás, se assim não fosse não haveria ocupações - que o digam os EUA e todos os países por si ocupados...
O ocupante ocupa: militarmente, politicamente, económicamente... isto é, passa a ser dono absoluto do país ocupado.
Assim fizeram os EUA no Afeganistão: mal ocuparam militarmente o país, invadiram-no com equipas de especialistas em todas as matérias para ver o que dali podiam sacar.
Entre essas equipas, ia uma composta por geólogos, cuja tarefa era a de descobrir riquezas inexploradas no subsolo do país ocupado.
Esses geólogos apresentaram, agora, os resultados do seu trabalho:
No subsolo afegão existem gigantescas quantidades de ferro, cobalto, cobre, ouro e, sobretudo, de lítio (um metal que é fundamental para a produção de baterias de telemóveis e de computadores portáteis).
A descoberta provocou uma onda de euforia no país ocupante.
Euforia e... pragmatismo, digamos assim: na verdade, o governo dos EUA está já a tomar medidas para assegurar que os recursos naturais descobertos sejam dos EUA e apenas dos EUA, impedindo que companhias oriundas de outras potências económicas entrem no negócio.
Em resumo: o saque vai começar.
Em nome da «democracia», é claro.
E da «liberdade», como não podia deixar de ser.
E dos «direitos humanos», como mandam as regras da ocupação.
POEMA
POEMA DA MORTE NA ESTRADA
Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.
A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.
Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.
Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.
Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam,
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.
Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.
António Gedeão
Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.
A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.
Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.
Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.
Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam,
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.
Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.
António Gedeão
OS NÚMEROS E O PREÇO
Segundo dados oficiais, os EUA gastaram até agora um bilião de dólares na invasão e ocupação do Iraque e do Afeganistão: 747 mil milhões no Iraque e 300 mil milhões no Afeganistão.
De acordo com as mesmas fontes, os gastos previstos para o ano corrente são de 136 mil milhões de dólares em ambos os países.
Estes são números fornecidos por quem sabe tudo sobre o assunto.
Não surpreende, por isso, que não tenham sido divulgados outros números tão ou mais relevantes como os que foram tornados públicos.
Por exemplo:
qual o lucro obtido pelos EUA com a invasão e ocupação dos dois países?
(e, já agora: quantos milhões de dólares ganharam os governantes Rumsfeld, Cheney, etc, etc, com os negócios que fizeram?)
E especialmente: quantas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes foram assassinadas pelas tropas ocupantes?
Bom, ficam os números: dólares, dólares, dólares.
E fica o preço: sangue, sangue, sangue: o horror.
De acordo com as mesmas fontes, os gastos previstos para o ano corrente são de 136 mil milhões de dólares em ambos os países.
Estes são números fornecidos por quem sabe tudo sobre o assunto.
Não surpreende, por isso, que não tenham sido divulgados outros números tão ou mais relevantes como os que foram tornados públicos.
Por exemplo:
qual o lucro obtido pelos EUA com a invasão e ocupação dos dois países?
(e, já agora: quantos milhões de dólares ganharam os governantes Rumsfeld, Cheney, etc, etc, com os negócios que fizeram?)
E especialmente: quantas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes foram assassinadas pelas tropas ocupantes?
Bom, ficam os números: dólares, dólares, dólares.
E fica o preço: sangue, sangue, sangue: o horror.
POEMA
ESCOPRO DE VIDRO
Estou aqui construindo o novo dia
com uma expressão tão branda e descuidada
que dir-se-ia
não estar fazendo nada.
E, contudo, estou aqui construindo o novo dia.
Porque o dia constrói-se; não se espera.
Não é sol que deflagre num improviso de luz.
É um orfeão de vozes surdas, um arfar de troncos nus,
o erguer, a uma só voz, dos remos da galera.
Cantando entre os dentes
um refrão anidro
abro linhas quentes
com um escopro de vidro.
Abro linhas quentes
sem tremer a mão,
com um escopro de vidro
de alta precisão.
António Gedeão
Estou aqui construindo o novo dia
com uma expressão tão branda e descuidada
que dir-se-ia
não estar fazendo nada.
E, contudo, estou aqui construindo o novo dia.
Porque o dia constrói-se; não se espera.
Não é sol que deflagre num improviso de luz.
É um orfeão de vozes surdas, um arfar de troncos nus,
o erguer, a uma só voz, dos remos da galera.
Cantando entre os dentes
um refrão anidro
abro linhas quentes
com um escopro de vidro.
Abro linhas quentes
sem tremer a mão,
com um escopro de vidro
de alta precisão.
António Gedeão
«ARQUIVE-SE!»
Lembram-se do caso dos submarinos?
Bom, parece que desapareceu uma série de documentos do consórcio BES/Crédit Suisse, relacionados com o financiamento da compra dos ditos submarinos.
E parece que, entre os documentos desaparecidos, está uma carta que o referido consórcio «terá enviado ao então ministro da Defesa, Paulo Portas».
E parece que a dita carta pedia ao então ministro «para alterar a margem de lucro no financiamento».
E parece que a alteração pedida era de que «a margem de lucro passasse de 1,9 para 2,5 por cento».
E parece que o ministro, simpático e generoso, acedeu ao pedido do consórcio.
E parece que tudo isto aconteceu já depois de o consórcio ter ganho o concurso.
E parece que todos estes documentos levaram sumiço.
Assim sendo, parece que a questão está bem encaminhada no sentido de entrar para a tradicional categoria do «arquive-se».
Ah!, já agora: parece que «os megaprocessos dos submarinos e das contrapartidas têm ligações a protagonistas comuns a outro megaprocesso: o do caso Portucale».
Pronto: «arquive-se» tudo.
E não se fala mais nisso.
Bom, parece que desapareceu uma série de documentos do consórcio BES/Crédit Suisse, relacionados com o financiamento da compra dos ditos submarinos.
E parece que, entre os documentos desaparecidos, está uma carta que o referido consórcio «terá enviado ao então ministro da Defesa, Paulo Portas».
E parece que a dita carta pedia ao então ministro «para alterar a margem de lucro no financiamento».
E parece que a alteração pedida era de que «a margem de lucro passasse de 1,9 para 2,5 por cento».
E parece que o ministro, simpático e generoso, acedeu ao pedido do consórcio.
E parece que tudo isto aconteceu já depois de o consórcio ter ganho o concurso.
E parece que todos estes documentos levaram sumiço.
Assim sendo, parece que a questão está bem encaminhada no sentido de entrar para a tradicional categoria do «arquive-se».
Ah!, já agora: parece que «os megaprocessos dos submarinos e das contrapartidas têm ligações a protagonistas comuns a outro megaprocesso: o do caso Portucale».
Pronto: «arquive-se» tudo.
E não se fala mais nisso.
POEMA
PORTA DA TRAIÇÃO
Quero encontrar-me com vocês
no desregrado convívio,
na balbúrdia dos cafés.
Nos altos bancos dos bares,
nos transportes colectivos,
nos recintos populares.
Nos corredores dos cinemas,
nos inóspitos lugares
onde se mascam problemas.
Juventude, juventude!
Fogo de santelmo vivo
num mastaréu de virtude.
Braços meus, cálices brancos,
aguardam corolas rubras
no declive dos barrancos.
Vinde, vinde, ó flor mimosa,
ó cavaleiro Galaaz,
que em dentes cerrados traz
a promessa de uma rosa.
Vinde, ó fugaz claridade,
antes que a Vida vos tome
e transforme a vossa fome
em «coisas da mocidade».
António Gedeão
Quero encontrar-me com vocês
no desregrado convívio,
na balbúrdia dos cafés.
Nos altos bancos dos bares,
nos transportes colectivos,
nos recintos populares.
Nos corredores dos cinemas,
nos inóspitos lugares
onde se mascam problemas.
Juventude, juventude!
Fogo de santelmo vivo
num mastaréu de virtude.
Braços meus, cálices brancos,
aguardam corolas rubras
no declive dos barrancos.
Vinde, vinde, ó flor mimosa,
ó cavaleiro Galaaz,
que em dentes cerrados traz
a promessa de uma rosa.
Vinde, ó fugaz claridade,
antes que a Vida vos tome
e transforme a vossa fome
em «coisas da mocidade».
António Gedeão
carta inventada aos filhos reais

"eu um dia hei-de voltar para repartir com todos o pão que vai faltando porque mo negaram. e as lágrimas e o sangue e o suor que sobrou na procura dele para muitos filhos. hoje tenho a casa cheia... adultos, mais os chinfrim dos netos e bisnetos no desvario que sempre é a infância... ainda que com maquinetas e jogos de luzes. os homens mexeram na lua. está visto. mas a vida esvai-se e ficou a dever-me tudo o que não vivi por ingrata distribuição dos homens que mandam nas coisas de deus e deles próprios. que mão tirana me roubou a alegria ? sou uma mulher velha... feliz, cá como sei, quando olho outras desgraças... mas ainda assim. o salitre do tempo predou-me a carne e estes ossos franzinos mal aguentam a lembrança das estafas do campo. trabalhei para alimentar um mundo de criaturas. e o mundo apenas me soube rebentar. Tenho os filhos e os netos criados. esta a boa verdade. o pior é que outras verdades são bem mais amargas. findam-se-me os dias, e só a louca paixão de quem nos ama não deixa ver. oitenta e quatro anos roubados ao assombro que é a vida. à noite profunda que é a nossa condição. lambi o pó dos caminhos por uma côdea de pão. mordi a sola dos sapatos (do patrão, que eu andei descalça) por uma migalha para os meus pequenitos. galguei serras, vinhedos, sobrados e montes em busca de uma gota de água. gastei sozinha todo o alento distribuido aos pobres de muitos anos. fui à luta. criei no amago da fome filhos de coração farto. filhos que sabem amar as coisas simples. a seu tempo, com os simples de mesma condição, vi nascer netos. dia dez fiz oitenta e quantro anos. vieram todos - furando as gargantas de solidão que nos separam- dar-me um beijo de parabéns. um deles é o António da minha Cátia. Mesmo sem nada lhe dizer ele ficou de vir cá contar isto. espero que saiba desenvencilhar-se das palavras e dizer apenas do coração. esta rapaziada de hoje... nunca se sabe. vou embora. tenho a panela ao lume e uma chusma de bonecas de trapos para fazer. passem bem.
Isabel"
foto: Nos oitenta e quatro anos da «avó» Isabel. ladoeiro, Beira-Baixa, Junho 2010.
POEMA
REFLEXÃO TOTAL
Recolhi as tuas lágrimas
na palma da minha mão,
e mal que se evaporaram
todas as aves cantaram
e em bandos esvoaçaram
em torno da minha mão.
Em jogos de luz e cor
tuas lágrimas deixaram
os cristais do teu amor,
faces talhadas em dor
na palma da minha mão.
António Gedeão
Recolhi as tuas lágrimas
na palma da minha mão,
e mal que se evaporaram
todas as aves cantaram
e em bandos esvoaçaram
em torno da minha mão.
Em jogos de luz e cor
tuas lágrimas deixaram
os cristais do teu amor,
faces talhadas em dor
na palma da minha mão.
António Gedeão
«AS PALAVRAS POSSÍVEIS»
«É difícil agarrar as palavras, aprisionadas nos meus dedos. Mas tenho que as soltar, forçá-las a descer para o papel.
Porque quero falar desta dor tão grande que não é só minha.
Porque a vi em muitos rostos: camaradas, amigos, desconhecidos.
Porque vi em muitos olhos as lágrimas que não consigo chorar.
Porque a senti em muitas mãos que se me deram. Em muitos abraços que me envolveram.
Partilhando-a.
Há que ter força, amigo - repetia, enquanto o dizia para mim própria. É isso que eles esperavam de nós: Vasco, Álvaro.
Tagore escreveu: "O oceano das lágrimas tem outra margem, senão nunca ninguém tinha chorado».
E nós sabemos que a única forma de atravessar esse largo, profundo, salgado e perigoso mar é lutando contra a força adversa da corrente.
Muitos têm ficado e ficarão ainda pelo caminho, porque os seus braços foram cruelmente decepados, tornando o nadar impossível. Porém, os corpos ficaram inteiros e limpos no fundo das águas e nos nossos corações.
Na outra margem habita o nosso sonho, o nosso mundo futuro, onde os homens respirarão cada letra da palavra liberdade, com tudo o que isso significa.
Agora, só nos resta transformar esta imensa dor em luta.
Cada vez mais forte.
Cada vez com mais confiança: palavra tão querida e repetida em teus lábios, irmão»
(de «Escrita de Esferográfica - Crónicas», Maria Eugénia Cunhal)
Porque quero falar desta dor tão grande que não é só minha.
Porque a vi em muitos rostos: camaradas, amigos, desconhecidos.
Porque vi em muitos olhos as lágrimas que não consigo chorar.
Porque a senti em muitas mãos que se me deram. Em muitos abraços que me envolveram.
Partilhando-a.
Há que ter força, amigo - repetia, enquanto o dizia para mim própria. É isso que eles esperavam de nós: Vasco, Álvaro.
Tagore escreveu: "O oceano das lágrimas tem outra margem, senão nunca ninguém tinha chorado».
E nós sabemos que a única forma de atravessar esse largo, profundo, salgado e perigoso mar é lutando contra a força adversa da corrente.
Muitos têm ficado e ficarão ainda pelo caminho, porque os seus braços foram cruelmente decepados, tornando o nadar impossível. Porém, os corpos ficaram inteiros e limpos no fundo das águas e nos nossos corações.
Na outra margem habita o nosso sonho, o nosso mundo futuro, onde os homens respirarão cada letra da palavra liberdade, com tudo o que isso significa.
Agora, só nos resta transformar esta imensa dor em luta.
Cada vez mais forte.
Cada vez com mais confiança: palavra tão querida e repetida em teus lábios, irmão»
(de «Escrita de Esferográfica - Crónicas», Maria Eugénia Cunhal)
POEMA
FALA DO HOMEM NASCIDO
(Chega à boca de cena, e diz:)
Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.
Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!!
Com rumo à estrela polar.
António Gedeão
(Chega à boca de cena, e diz:)
Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.
Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!!
Com rumo à estrela polar.
António Gedeão
TRÊS GRANDES
«Breve Consideração à Margem do Ano Assassino de 1973», é o título de um poema de Vinicius de Morais, no qual o Poeta nos fala da morte, nesse mesmo ano, dos três pablos - Neruda, Casals, Picasso:
«Que ano mais sem critério
esse de 73,
levou para o cemitério
três pablos de uma só vez»
Lembrei-me deste poema ontem, quando, no cemitério do Alto de São João, com mais umas centenas de pessoas, prestava homenagem ao Companheiro Vasco, por ocasião do 5º aniversário da sua morte, ocorrida em 11 de Junho de 2005 - dois dias antes das mortes de Eugénio de Andrade e de Álvaro Cunhal.
E pensei que se eu fosse poeta, também faria um poema sobre esse «ano assassino» de 2005, mais precisamente sobre o mês de Junho desse «ano mais sem critério» que «levou para o cemitério», o VASCO, o EUGÉNIO e o ÁLVARO:
três GRANDES de uma só vez, três GRANDES no mesmo mês...
Três GRANDES que permanecerão para sempre na memória e no coração de muitas centenas de milhares de portuguesas e portugueses.
«Que ano mais sem critério
esse de 73,
levou para o cemitério
três pablos de uma só vez»
Lembrei-me deste poema ontem, quando, no cemitério do Alto de São João, com mais umas centenas de pessoas, prestava homenagem ao Companheiro Vasco, por ocasião do 5º aniversário da sua morte, ocorrida em 11 de Junho de 2005 - dois dias antes das mortes de Eugénio de Andrade e de Álvaro Cunhal.
E pensei que se eu fosse poeta, também faria um poema sobre esse «ano assassino» de 2005, mais precisamente sobre o mês de Junho desse «ano mais sem critério» que «levou para o cemitério», o VASCO, o EUGÉNIO e o ÁLVARO:
três GRANDES de uma só vez, três GRANDES no mesmo mês...
Três GRANDES que permanecerão para sempre na memória e no coração de muitas centenas de milhares de portuguesas e portugueses.
POEMA
ARMA SECRETA
Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.
Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.
A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis da furalina.
Erecta, na torre erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.
António Gedeão
Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.
Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.
A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis da furalina.
Erecta, na torre erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.
António Gedeão
MAUS HÁBITOS
«Parceiros sociais unidos após apelo de Cavaco»: eis o título da notícia do DN relativa ao discurso do Presidente da República no 10 de Junho..
O título é falso, como pode ver-se lendo as declarações, por um lado, dos responsáveis das confederações patronais - que o que querem é acentuar ainda mais a exploração dos trabalhadores - e, por outro lado, do secretário-geral da CGTP, que esclareceu que «não pode haver compromissos sobre bases falsas, como se todos tivéssemos as mesmas responsabilidades».
Além disso, se é verdade que a CGTP e a CIP vão encontrar-se na próxima segunda-feira, também é verdade que esse encontro já estava marcado antes do discurso feito por Cavaco Silva.
Acresce que, como muito acertadamente dizia o nosso Armindo Rodrigues,
«Entre patrão e operário,
entre operário e patrão,
o que é extraordinário
é pretender-se união»...
Então, porquê e para quê aquele título falso?
Não sendo crível que quem o escreveu pensasse que os leitores iam acreditar nele, ele só pode resultar de uma questão de hábito, isto é: o hábito de desinformar está de tal forma enraizado no DN que a desinformação nasce simples e natural: por hábito.
Foi a força do hábito que levou, também, o Presidente da República a exibir pela enésima vez a sua condição de profeta sem seguidores...
Disse ele: «Como afirmei na altura devida, chegámos a uma situação insustentável».
Cavaco é um especialista em lançar alertas, isto é: o hábito de alertar está de tal modo enraizado em Cavaco que nele o alerta nasce simples e natural: por hábito.
Pena foi que não se alertasse a si próprio quando, nos dez anos em que foi primeiro-ministro, deu um poderoso contributo para que o País chegasse à dramática situação em que se encontra.
Por tudo isto, acabar com estes maus hábitos parece ser um dos primeiros passos a dar para pôr termo à crise...
O título é falso, como pode ver-se lendo as declarações, por um lado, dos responsáveis das confederações patronais - que o que querem é acentuar ainda mais a exploração dos trabalhadores - e, por outro lado, do secretário-geral da CGTP, que esclareceu que «não pode haver compromissos sobre bases falsas, como se todos tivéssemos as mesmas responsabilidades».
Além disso, se é verdade que a CGTP e a CIP vão encontrar-se na próxima segunda-feira, também é verdade que esse encontro já estava marcado antes do discurso feito por Cavaco Silva.
Acresce que, como muito acertadamente dizia o nosso Armindo Rodrigues,
«Entre patrão e operário,
entre operário e patrão,
o que é extraordinário
é pretender-se união»...
Então, porquê e para quê aquele título falso?
Não sendo crível que quem o escreveu pensasse que os leitores iam acreditar nele, ele só pode resultar de uma questão de hábito, isto é: o hábito de desinformar está de tal forma enraizado no DN que a desinformação nasce simples e natural: por hábito.
Foi a força do hábito que levou, também, o Presidente da República a exibir pela enésima vez a sua condição de profeta sem seguidores...
Disse ele: «Como afirmei na altura devida, chegámos a uma situação insustentável».
Cavaco é um especialista em lançar alertas, isto é: o hábito de alertar está de tal modo enraizado em Cavaco que nele o alerta nasce simples e natural: por hábito.
Pena foi que não se alertasse a si próprio quando, nos dez anos em que foi primeiro-ministro, deu um poderoso contributo para que o País chegasse à dramática situação em que se encontra.
Por tudo isto, acabar com estes maus hábitos parece ser um dos primeiros passos a dar para pôr termo à crise...
POEMA
VENTO NO ROSTO
À hora em que as tardes descem,
noite aspergindo nos ares,
as coisas familiares
noutras formas acontecem.
As arestas emudecem.
Abrem-se flores nos olhares.
Em perspectivas lunares
lixo e pedras resplandecem.
Silêncios, perfis de lagos,
escorrem cortinas de afagos,
malhas tecidas de engodos.
Apetece acreditar,
ter esperanças, confiar,
amar a tudo e a todos.
António Gedeão
À hora em que as tardes descem,
noite aspergindo nos ares,
as coisas familiares
noutras formas acontecem.
As arestas emudecem.
Abrem-se flores nos olhares.
Em perspectivas lunares
lixo e pedras resplandecem.
Silêncios, perfis de lagos,
escorrem cortinas de afagos,
malhas tecidas de engodos.
Apetece acreditar,
ter esperanças, confiar,
amar a tudo e a todos.
António Gedeão
A FESTA E OS QUE A PAGAM
O Diário de Notícias informa que «Portugal e Espanha comemoram no sábado as bodas de prata do "casamento" com a União Europeia».
Vai ser uma festa de arromba, dividida em duas partes: a primeira, de manhã, em Lisboa, presidida por Cavaco Silva e José Sócrates; a segunda, à tarde, em Madrid, presidida pelos Reis Juan Carlos e Sofia.
Todos os que, de manhã, fazem a festa em Lisboa, à tarde deitam os foguetes em Madrid, sendo de presumir, tratando-se de quem se trata, que, noite fora, apanhem as canas em privado - quiçá aproveitando a ocasião para tratar de negócios, ao fim e ao cabo a razão de ser das suas vidas e das suas festas.
São eles, entre muitos outros e para além dos já citados: Rodriguéz Zapatero, Mário Soares, Filipe Gonzalez, Jacques Delors, Durão Barroso e muitos mais dos que, ao longo dos últimos 25 anos, têm vivido à grande e à espanhola graças ao proveitoso casamento: «ex-comissários e comissários, eurodeputados e e ex-eurodeputados, ex-primeiros-ministros, ex-presidentes da República, ex-presidentes de instituições europeias, embaixadores e responsáveis pelas negociações» - enfim, a cambada toda.
Juntando-se todos, e festejando, os responsáveis pela situação dramática em que se encontram Portugal e Espanha, confirmam aquela máxima dos romances policiais que nos diz que «o criminoso volta sempre ao local do crime»...
Quem não vai festejar são os trabalhadores dos dois países, aos quais a cambada reservou a função de pagar a festa.
Que bem cara lhes tem saído - e muito mais cara lhes vai sair.
Vai ser uma festa de arromba, dividida em duas partes: a primeira, de manhã, em Lisboa, presidida por Cavaco Silva e José Sócrates; a segunda, à tarde, em Madrid, presidida pelos Reis Juan Carlos e Sofia.
Todos os que, de manhã, fazem a festa em Lisboa, à tarde deitam os foguetes em Madrid, sendo de presumir, tratando-se de quem se trata, que, noite fora, apanhem as canas em privado - quiçá aproveitando a ocasião para tratar de negócios, ao fim e ao cabo a razão de ser das suas vidas e das suas festas.
São eles, entre muitos outros e para além dos já citados: Rodriguéz Zapatero, Mário Soares, Filipe Gonzalez, Jacques Delors, Durão Barroso e muitos mais dos que, ao longo dos últimos 25 anos, têm vivido à grande e à espanhola graças ao proveitoso casamento: «ex-comissários e comissários, eurodeputados e e ex-eurodeputados, ex-primeiros-ministros, ex-presidentes da República, ex-presidentes de instituições europeias, embaixadores e responsáveis pelas negociações» - enfim, a cambada toda.
Juntando-se todos, e festejando, os responsáveis pela situação dramática em que se encontram Portugal e Espanha, confirmam aquela máxima dos romances policiais que nos diz que «o criminoso volta sempre ao local do crime»...
Quem não vai festejar são os trabalhadores dos dois países, aos quais a cambada reservou a função de pagar a festa.
Que bem cara lhes tem saído - e muito mais cara lhes vai sair.
POEMA
ENQUANTO
Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das casas;
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA.
António Gedeão
Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das casas;
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA.
António Gedeão
JOSÉ GOMES FERREIRA
José Gomes Ferreira nasceu há cento e dez anos, precisamente no dia 9 de Junho de 1900 - data que o Cravo de Abril assinala lembrando a obra de um dos maiores poetas da língua portuguesa.
Lembrando, também, o cidadão interveniente, íntegro, solidário, fraterno - resistente antifascista, construtor de Abril e da sua Revolução.
Lembrando, ainda, o Camarada, cuja adesão ao Partido o Avante! de 6 de Março de 1980 - data do 59º aniversário do PCP - saudava assim:
«José Gomes Ferreira
Camarada!
Dia 29 de Fevereiro de 1980, pelas cinco e meia da tarde, chuvosa, caminhaste pelas ruas com o passo firme da tua alma grande e vieste bater à porta da nossa Casa, na Soeiro Pereira Gomes.
Na fala directa de quem pensou e se decidiu em consciência, disseste enxutamente ao que vinhas: que te aceitássemos como membro do Partido Comunista Português.
Aos 80 anos.
Em coerência com toda uma vida, repensada e assumida.
Dando resposta combativa a um presente que não é fácil.
De olhos postos, juvenis, no futuro que faremos, que fazemos.
As tuas palavras, o teu acto, tinha aquele peso de asas que pões em tudo.
Simples como as coisas verdadeiras do coração. Como um acto lúcido que se cumpre na hora, por determinação de homem independente que sempre foste e serás.
De homem solidário que és, de raiz - poeta militante, companheiro dos homens que sofrem, sonham e lutam. E que, juntos como os dedos da mão, de mãos dadas, hão-de chegar ao fim da estrada e depois hão-de rasgar as estradas novas de Portugal livre, independente, socialista, para os homens novos que estão nascendo já.
Ficámos de te dar resposta. E, ressalvando embora a pública notícia, que não está nos nossos usos, mas que a luta aconselha nestes tempos de promoção, de crescimento necessário, aqui estamos para te responder dizendo apenas, com respeito e alegria compartilhada decerto por todo o grande colectivo fraternal do nosso Partido - que te saudamos, camarada!
Abril vencerá!»
Lembrando, também, o cidadão interveniente, íntegro, solidário, fraterno - resistente antifascista, construtor de Abril e da sua Revolução.
Lembrando, ainda, o Camarada, cuja adesão ao Partido o Avante! de 6 de Março de 1980 - data do 59º aniversário do PCP - saudava assim:
«José Gomes Ferreira
Camarada!
Dia 29 de Fevereiro de 1980, pelas cinco e meia da tarde, chuvosa, caminhaste pelas ruas com o passo firme da tua alma grande e vieste bater à porta da nossa Casa, na Soeiro Pereira Gomes.
Na fala directa de quem pensou e se decidiu em consciência, disseste enxutamente ao que vinhas: que te aceitássemos como membro do Partido Comunista Português.
Aos 80 anos.
Em coerência com toda uma vida, repensada e assumida.
Dando resposta combativa a um presente que não é fácil.
De olhos postos, juvenis, no futuro que faremos, que fazemos.
As tuas palavras, o teu acto, tinha aquele peso de asas que pões em tudo.
Simples como as coisas verdadeiras do coração. Como um acto lúcido que se cumpre na hora, por determinação de homem independente que sempre foste e serás.
De homem solidário que és, de raiz - poeta militante, companheiro dos homens que sofrem, sonham e lutam. E que, juntos como os dedos da mão, de mãos dadas, hão-de chegar ao fim da estrada e depois hão-de rasgar as estradas novas de Portugal livre, independente, socialista, para os homens novos que estão nascendo já.
Ficámos de te dar resposta. E, ressalvando embora a pública notícia, que não está nos nossos usos, mas que a luta aconselha nestes tempos de promoção, de crescimento necessário, aqui estamos para te responder dizendo apenas, com respeito e alegria compartilhada decerto por todo o grande colectivo fraternal do nosso Partido - que te saudamos, camarada!
Abril vencerá!»
POEMA
PASTORAL
Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.
Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.
Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.
Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.
Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.
Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.
Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.
É dessas que eu sou.
António Gedeão
Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.
Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.
Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.
Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.
Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.
Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.
Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.
É dessas que eu sou.
António Gedeão
A FOME
Eis alguns dados sobre a fome:
- Mais de mil milhões de pessoas passam fome - ou seja: um em cada seis habitantes do planeta passa fome.
- Dessas, morrem todos os dias dezenas de milhares, na sua maioria mulheres e crianças.
- Em cada seis segundos morre uma criança. À fome.
- A imensa maioria dos que morrem à fome é oriunda dos «países mais pobres» - que são mais pobres porque os mais ricos lhes roubam as suas riquezas.
- A fome também marca presença nos «países mais ricos»: dos 10, 9 milhões de crianças com menos de cinco anos que morrem todos os anos nos «países desenvolvidos», 60% morrem em consequência da fome.
«A fome mata mais pessoas do que a sida, a malária e a tuberculose juntas».
Quer isto dizer que o número de vítimas da fome continua a aumentar.
Entretanto, prosseguem as «conferências», os «seminários», os «fóruns», os «anos europeus» e os «anos mundiais» que, desde há muito anos, garantem que vão acabar com a fome - mas que, até agora, apenas conseguiram aumentar as riquezas dos mais ricos.
Quanto a nós por cá... tudo bem:
«A falta de comida já afecta 95 mil crianças»
«O Banco Alimentar está a dar comida a 285 mil pessoas» - são «dez vezes mais do que a média do ano passado» e o brutal aumento deve-se, entre outras coisas, à entrada no reino da fome dos chamados «novos pobres» - que são aqueles que têm emprego e salário fixo, mas cujo rendimento não chega para comer.
É assim a vida no capitalismo que é, há centenas de anos, o sistema dominante.
E assim será enquanto o capitalismo dominar.
Até que as vítimas da fome se levantem e construam «uma terra sem amos»...
- Mais de mil milhões de pessoas passam fome - ou seja: um em cada seis habitantes do planeta passa fome.
- Dessas, morrem todos os dias dezenas de milhares, na sua maioria mulheres e crianças.
- Em cada seis segundos morre uma criança. À fome.
- A imensa maioria dos que morrem à fome é oriunda dos «países mais pobres» - que são mais pobres porque os mais ricos lhes roubam as suas riquezas.
- A fome também marca presença nos «países mais ricos»: dos 10, 9 milhões de crianças com menos de cinco anos que morrem todos os anos nos «países desenvolvidos», 60% morrem em consequência da fome.
«A fome mata mais pessoas do que a sida, a malária e a tuberculose juntas».
Quer isto dizer que o número de vítimas da fome continua a aumentar.
Entretanto, prosseguem as «conferências», os «seminários», os «fóruns», os «anos europeus» e os «anos mundiais» que, desde há muito anos, garantem que vão acabar com a fome - mas que, até agora, apenas conseguiram aumentar as riquezas dos mais ricos.
Quanto a nós por cá... tudo bem:
«A falta de comida já afecta 95 mil crianças»
«O Banco Alimentar está a dar comida a 285 mil pessoas» - são «dez vezes mais do que a média do ano passado» e o brutal aumento deve-se, entre outras coisas, à entrada no reino da fome dos chamados «novos pobres» - que são aqueles que têm emprego e salário fixo, mas cujo rendimento não chega para comer.
É assim a vida no capitalismo que é, há centenas de anos, o sistema dominante.
E assim será enquanto o capitalismo dominar.
Até que as vítimas da fome se levantem e construam «uma terra sem amos»...
POEMA
POEMA NUMA ESQUINA DE PARIS
Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.
Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:
DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE LA RÉSISTANCE:
VIVE LA FRANCE.
António Gedeão
Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.
Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:
DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE LA RÉSISTANCE:
VIVE LA FRANCE.
António Gedeão
PASSEM PALAVRA
VASCO GONÇALVES foi, entre todos os militares de Abril, a figura maior da nossa Revoluçãol - e sua intervenção singular em todo o processo revolucionário fez dele uma figura maior da história de Portugal.
Ele foi o primeiro - e até agora único - primeiro-ministro português que, no desempenho desse cargo, teve sempre como primeira prioridade, paralelamente à defesa da independência nacional, a defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo, ou seja, da imensa maioria dos portugueses.
Por isso, o Companheiro Vasco ficará para sempre na memória e no coração dos trabalhadores, do povo e do País.
Por iniciativa de um grupo de amigos de Vasco Gonçalves, e de familiares deste, efectua-se, no próximo dia 11 - dia em que passa o 5º aniversário do seu falecimento - uma Romagem ao Cemitério do Alto de São João.
É às 11 horas.
E aqui fica a convocatória.
Passem palavra.
E apareçam.
Ele foi o primeiro - e até agora único - primeiro-ministro português que, no desempenho desse cargo, teve sempre como primeira prioridade, paralelamente à defesa da independência nacional, a defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo, ou seja, da imensa maioria dos portugueses.
Por isso, o Companheiro Vasco ficará para sempre na memória e no coração dos trabalhadores, do povo e do País.
Por iniciativa de um grupo de amigos de Vasco Gonçalves, e de familiares deste, efectua-se, no próximo dia 11 - dia em que passa o 5º aniversário do seu falecimento - uma Romagem ao Cemitério do Alto de São João.
É às 11 horas.
E aqui fica a convocatória.
Passem palavra.
E apareçam.
POEMA
CARNE VIVA
Aconchego-me nos andrajos. Procuro
(inútil) não tiritar de frio.
A vida é longa e fria. Um longo e frio muro
a marginar, ao longo, um longo e frio rio.
Aconchego-me nos andrajos. Puxo. Repuxo.
Estendo os olhos, implorativos, à caridade.
Perto, em confortáveis silogismos de luxo,
capitalistas da Verdade.
António Gedeão
Aconchego-me nos andrajos. Procuro
(inútil) não tiritar de frio.
A vida é longa e fria. Um longo e frio muro
a marginar, ao longo, um longo e frio rio.
Aconchego-me nos andrajos. Puxo. Repuxo.
Estendo os olhos, implorativos, à caridade.
Perto, em confortáveis silogismos de luxo,
capitalistas da Verdade.
António Gedeão
DROGA FATAL
A revista Notícias Magazine (DN/JN), fala-nos, hoje, de casos de pessoas que não têm (ou tinham mas deixaram de ter) televisão.
São poucas, ainda, mas a verdade é que, como podemos constatar no excelente trabalho produzido por Catarina Pires e Rui Coutinho, essas pessoas, «de espécie em vias de extinção podem estar a transformar-se numa espécie em vias de expansão».
Assim seja, já que estamos a falar da televisão que temos, ou seja: deste poderoso veículo de desinformação organizada e de formatação de mentalidades ao serviço dos interesses do sistema capitalista dominante.
Para já, sublinha Catarina Pires, «uma coisa garantem os poucos que decidiram livrar-se do aparelho mágico: a caixa que mudou o mundo, também mudou a vida deles. No momento em que a puseram fora de casa».
São seis, os casos revelados na reportagem: três portugueses e três estrangeiros a viver em Portugal.
Eis quem são e o que dizem:
«Fátima Gysin, 56 anos, psiquiatra - livrou-se do aparelho de televisão há 15 anos».
«O que me levou a tomar a decisão de não ter tv foi o ganho de espaço e de liberdade»
«Giulia Pinna, 23 anos, italiana, estudante a fazer Erasmus em Portugal; não tem televisão desde que saiu de casa dos pais, assim como o companheiro, Philipp Stockle, 22 anos, alemão, estudante, que decidiu trasnformar a televisão (aparelho) em instalação artística».
«Foi a falta de tempo que me afastou da televisão. Como tenho pouco, não o desperdiço. Gosto de me sentar e conversar, em vez de estar parada a olhar para um ecrã».
«Stefano Savio, 30 anos, italiano, em Portugal há dois anos e meio, para onde veio estagiar na Cinemateca Nacional».
«Não digo que seja tempo que vou ganhar, simplesmente ocupo-o de maneira diferente: trabalho muito, saio à noite, converso com amigos, faço desporto. Coisas simples».
«Catarina Mateus, 30 anos, Formadora, não levou televisão para a casa nova, para onde se mudou há um ano e meio».
«Vivo cada vez melhor sem televisão (...) Acho que a maior parte dos programas televisivos são lixo e entre o lixo e as coisa boas que perdemos, é mais o lixo (...) Assim, somos nós que procuramos o que queremos: filmes, informação, há tanta coisa disponível»
«André Correia, 32 anos biólogo, não tem televisão há oito anos».
«Vi muita, muita televisão, aprendi imensas coisas, mas sobretudo perdi muito tempo. A certa altura, comecei a sentir que estava a roubar-me espaço e tempo e à medida que me fui interessando mais pelas coisas e lendo cada vez mais, apercebi-me de que a televisão, além de ser muito hipnotizante, é bastante perigosa (...) ao fim de pouco tempo(de ter deixado de ver televisão) senti-me completamente diferente e acho que só quem passa por isso é que percebe».
Diz Catarina Pires, citando estudos do John Watson Institute, do Colorado, EUA, que «a televisão pode ser considerada como uma droga, já que o seu consumo muitas vezes implica sintomas usados para o diagnóstico clínico da adição».
Sintomas como: «utilização como sedativo; visionamento indiscriminado; sensação de perda de contolo relativamente ao consumo; sensação de mal-estar consigo mesmo por consumo excessivo; incapacidade de deixar de ver; e sensação de incómodo quando se está privado de televisão» - e bastam quatro destes sintomas para definir uma droga...
Por seu lado, Manuel Pinto, investigador da Universidade do Minho, aponta «cinco prós e cinco contras» de consumir televisão:
Prós:
Seguir e acompanhar o que se passa no mundo;
Entreter-se com ficção e espectáculos de qualidade;
Descobrir mundos (naturais, sociais) diferentes do nosso;
Encontrar temas e tópicos úteis para as conversas e a interacção social;
Método fácil para adormecer.
Contras:
Enorme gastadora de tempo;
Poderoso instrumento de alienação;
Biombo para evitar a conversa;
«Cega-rega» que não deixa fazer silêncio;
Banalizadora da violência física e simbólica.
Ora, feito o balanço deste «prós» e destes «contras», teremos de concluir que, de facto, estamos a falar, não apenas de uma droga, mas de uma droga fatal - com a agravante de ser consumida, todos os dias, por milhares de milhões de pessoas, ou seja, por mais, muito, muito, muito mais gente do que qualquer outra droga.
São poucas, ainda, mas a verdade é que, como podemos constatar no excelente trabalho produzido por Catarina Pires e Rui Coutinho, essas pessoas, «de espécie em vias de extinção podem estar a transformar-se numa espécie em vias de expansão».
Assim seja, já que estamos a falar da televisão que temos, ou seja: deste poderoso veículo de desinformação organizada e de formatação de mentalidades ao serviço dos interesses do sistema capitalista dominante.
Para já, sublinha Catarina Pires, «uma coisa garantem os poucos que decidiram livrar-se do aparelho mágico: a caixa que mudou o mundo, também mudou a vida deles. No momento em que a puseram fora de casa».
São seis, os casos revelados na reportagem: três portugueses e três estrangeiros a viver em Portugal.
Eis quem são e o que dizem:
«Fátima Gysin, 56 anos, psiquiatra - livrou-se do aparelho de televisão há 15 anos».
«O que me levou a tomar a decisão de não ter tv foi o ganho de espaço e de liberdade»
«Giulia Pinna, 23 anos, italiana, estudante a fazer Erasmus em Portugal; não tem televisão desde que saiu de casa dos pais, assim como o companheiro, Philipp Stockle, 22 anos, alemão, estudante, que decidiu trasnformar a televisão (aparelho) em instalação artística».
«Foi a falta de tempo que me afastou da televisão. Como tenho pouco, não o desperdiço. Gosto de me sentar e conversar, em vez de estar parada a olhar para um ecrã».
«Stefano Savio, 30 anos, italiano, em Portugal há dois anos e meio, para onde veio estagiar na Cinemateca Nacional».
«Não digo que seja tempo que vou ganhar, simplesmente ocupo-o de maneira diferente: trabalho muito, saio à noite, converso com amigos, faço desporto. Coisas simples».
«Catarina Mateus, 30 anos, Formadora, não levou televisão para a casa nova, para onde se mudou há um ano e meio».
«Vivo cada vez melhor sem televisão (...) Acho que a maior parte dos programas televisivos são lixo e entre o lixo e as coisa boas que perdemos, é mais o lixo (...) Assim, somos nós que procuramos o que queremos: filmes, informação, há tanta coisa disponível»
«André Correia, 32 anos biólogo, não tem televisão há oito anos».
«Vi muita, muita televisão, aprendi imensas coisas, mas sobretudo perdi muito tempo. A certa altura, comecei a sentir que estava a roubar-me espaço e tempo e à medida que me fui interessando mais pelas coisas e lendo cada vez mais, apercebi-me de que a televisão, além de ser muito hipnotizante, é bastante perigosa (...) ao fim de pouco tempo(de ter deixado de ver televisão) senti-me completamente diferente e acho que só quem passa por isso é que percebe».
Diz Catarina Pires, citando estudos do John Watson Institute, do Colorado, EUA, que «a televisão pode ser considerada como uma droga, já que o seu consumo muitas vezes implica sintomas usados para o diagnóstico clínico da adição».
Sintomas como: «utilização como sedativo; visionamento indiscriminado; sensação de perda de contolo relativamente ao consumo; sensação de mal-estar consigo mesmo por consumo excessivo; incapacidade de deixar de ver; e sensação de incómodo quando se está privado de televisão» - e bastam quatro destes sintomas para definir uma droga...
Por seu lado, Manuel Pinto, investigador da Universidade do Minho, aponta «cinco prós e cinco contras» de consumir televisão:
Prós:
Seguir e acompanhar o que se passa no mundo;
Entreter-se com ficção e espectáculos de qualidade;
Descobrir mundos (naturais, sociais) diferentes do nosso;
Encontrar temas e tópicos úteis para as conversas e a interacção social;
Método fácil para adormecer.
Contras:
Enorme gastadora de tempo;
Poderoso instrumento de alienação;
Biombo para evitar a conversa;
«Cega-rega» que não deixa fazer silêncio;
Banalizadora da violência física e simbólica.
Ora, feito o balanço deste «prós» e destes «contras», teremos de concluir que, de facto, estamos a falar, não apenas de uma droga, mas de uma droga fatal - com a agravante de ser consumida, todos os dias, por milhares de milhões de pessoas, ou seja, por mais, muito, muito, muito mais gente do que qualquer outra droga.
POEMA
INTERMEZZO
Hoje não posso ver ninguém:
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.
António Gedeão
Hoje não posso ver ninguém:
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.
António Gedeão
AS BALELAS DO COSTUME
O presidente da Alemanha, Horst Kohler, demitiu-se na sequência de uma entrevista concedida durante a visita que fez ao contingente militar do seu país no Afeganistão - entrevista no decorrer da qual produziu declarações que puseram em polvorosa as forças dominantes na Alemanha.
Por serem declarações falsas?
Não: por serem verdadeiras.
Disse ele, na referida entrevista, que a razão da presença de forças militares alemãs no Afeganistão não é propriamente «o combate ao terrorismo»: na verdade, estão lá a defender os interesses da Alemanha.
Ou seja: «a Alemanha é um país orientado para o comércio externo e por isso também dependente do comércio externo», pelo que defender o dito «comércio externo» - defendendo as «rotas comerciais» ou impedindo «focos de instabilidade regional» - é uma questão crucial.
É óbvio que dizendo o que disse, o presidente da Alemanha não estava a criticar a presença militar germânica no Afeganistão.
Bem pelo contrário: ele acha, e disse-o sem papas na língua e sem vergonha, que «a protecção do comércio externo constitui um motivo legítimo para uma acção militar».
Só que, para os seus colegas governantes, essa é uma verdade que não deve ser dita em público: é uma verdade para ser dita apenas entre eles e nas reuniões em que vão a despacho com os representantes do grande capital germânico...
Por isso, e para castigo, obrigaram-no: primeiro, a dizer que não tinha dito o que disse; depois, a demitir-se...
Com isto tudo confirmamos o que já sabíamos: que foi ao serviço dos interesses das multinacionais que os militares alemães - e os dos EUA, Grâ-Bretanha, Portugal... - invadiram o Afeganistão e ali permanecem semeando o terror e a morte.
E que é ao serviço dessas mesmas multinacionais que os soldados alemães - e norte-americanos, e britânicos e portugueses... - dão as suas vidas no Afeganistão.
Quanto ao substituto de Kohler vai ser, seguramente, um presidente igual ao Kohler antes da entrevista fatal: um dia destes ouvi-lo-emos dizer que a presença no Afeganistão dos militares alemães - e norte-americanos e britânicos e portugueses... - é uma necessidade imposta pelo terrorismo e pela defesa da democracia, da liberdade e dos direitos humanos...
Enfim, as balelas do costume.
Por serem declarações falsas?
Não: por serem verdadeiras.
Disse ele, na referida entrevista, que a razão da presença de forças militares alemãs no Afeganistão não é propriamente «o combate ao terrorismo»: na verdade, estão lá a defender os interesses da Alemanha.
Ou seja: «a Alemanha é um país orientado para o comércio externo e por isso também dependente do comércio externo», pelo que defender o dito «comércio externo» - defendendo as «rotas comerciais» ou impedindo «focos de instabilidade regional» - é uma questão crucial.
É óbvio que dizendo o que disse, o presidente da Alemanha não estava a criticar a presença militar germânica no Afeganistão.
Bem pelo contrário: ele acha, e disse-o sem papas na língua e sem vergonha, que «a protecção do comércio externo constitui um motivo legítimo para uma acção militar».
Só que, para os seus colegas governantes, essa é uma verdade que não deve ser dita em público: é uma verdade para ser dita apenas entre eles e nas reuniões em que vão a despacho com os representantes do grande capital germânico...
Por isso, e para castigo, obrigaram-no: primeiro, a dizer que não tinha dito o que disse; depois, a demitir-se...
Com isto tudo confirmamos o que já sabíamos: que foi ao serviço dos interesses das multinacionais que os militares alemães - e os dos EUA, Grâ-Bretanha, Portugal... - invadiram o Afeganistão e ali permanecem semeando o terror e a morte.
E que é ao serviço dessas mesmas multinacionais que os soldados alemães - e norte-americanos, e britânicos e portugueses... - dão as suas vidas no Afeganistão.
Quanto ao substituto de Kohler vai ser, seguramente, um presidente igual ao Kohler antes da entrevista fatal: um dia destes ouvi-lo-emos dizer que a presença no Afeganistão dos militares alemães - e norte-americanos e britânicos e portugueses... - é uma necessidade imposta pelo terrorismo e pela defesa da democracia, da liberdade e dos direitos humanos...
Enfim, as balelas do costume.
POEMA
PEDRA FILOSOFAL
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
25 DE ABRIL SEMPRE!
ATÉ SEMPRE, ALMIRANTE!
«Com a morte do Almirante Rosa Coutinho desaparece uma das figuras mais relevantes da Revolução de Abril e os trabalhadores e o povo português perdem um aliado de todos os momentos e um amigo de sempre» - diz a Nota do Secretariado do Comité Central do PCP, ontem divulgada.
E sublinhando o papel desempenhado pelo Almirante em todo o processo revolucionário - designadamente no «importante e complexo processo da descolonização» - a referida Nota acentua incisivamente que «Até final da sua vida, o Almirante Rosa Coutinho manteve uma postura de total fidelidade aos valores e aos ideais da Revolução de Abril».
Postura bem exemplificada nesta afirmação do Almirante, produzida por ocasião de um aniversário do 25 de Abril:
«Hoje já não há medo da PIDE, da censura, das perseguições políticas (à velha maneira...), mas em contrapartida criaram-se outros medos também inimigos da liberdade: medo do desemprego, medo de não ter condições para uma velhice feliz, medo de não conseguir educar os filhos, medo de não ter acesso à saúde, todos estes medos continuam a existir, e todos eles têm de ser combatidos em nome de uma liberdade que o País conquistou com o 25 de Abril».
Aqui fica a homenagem do Cravo de Abril ao Revolucionário, ao Companheiro de Luta, ao Amigo.
ATÉ SEMPRE, ALMIRANTE!
25 DE ABRIL SEMPRE!
«Com a morte do Almirante Rosa Coutinho desaparece uma das figuras mais relevantes da Revolução de Abril e os trabalhadores e o povo português perdem um aliado de todos os momentos e um amigo de sempre» - diz a Nota do Secretariado do Comité Central do PCP, ontem divulgada.
E sublinhando o papel desempenhado pelo Almirante em todo o processo revolucionário - designadamente no «importante e complexo processo da descolonização» - a referida Nota acentua incisivamente que «Até final da sua vida, o Almirante Rosa Coutinho manteve uma postura de total fidelidade aos valores e aos ideais da Revolução de Abril».
Postura bem exemplificada nesta afirmação do Almirante, produzida por ocasião de um aniversário do 25 de Abril:
«Hoje já não há medo da PIDE, da censura, das perseguições políticas (à velha maneira...), mas em contrapartida criaram-se outros medos também inimigos da liberdade: medo do desemprego, medo de não ter condições para uma velhice feliz, medo de não conseguir educar os filhos, medo de não ter acesso à saúde, todos estes medos continuam a existir, e todos eles têm de ser combatidos em nome de uma liberdade que o País conquistou com o 25 de Abril».
Aqui fica a homenagem do Cravo de Abril ao Revolucionário, ao Companheiro de Luta, ao Amigo.
ATÉ SEMPRE, ALMIRANTE!
25 DE ABRIL SEMPRE!
POEMA
TEMPO DE POESIA
Todo o tempo é de poesia.
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.
Todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.
António Gedeão
Todo o tempo é de poesia.
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.
Todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.
António Gedeão
SÓCRATES E LOUÇÃ: A MESMA LUTA!
Seguindo o exemplo do BE/Louçã, o PS/Sócrates decidiu apoiar a candidatura de Manuel Alegre.
O facto, sendo curioso, não surpreende, podendo mesmo dizer-se que era fatal e que os três sabiam dessa fatalidade.
Aliás, as razões que estão na origem do apoio de Louçã e Sócrates ao mesmo candidato são, aparentemente, as mesmas e são, mais coisa menos coisa, estas: ambos vêem em Alegre o «candidato da esquerda». E pronto.
O que surpreende é a argumentação ontem acrescentada por Louçã e que, sendo reveladora de natural baralhação face ao imbróglio em que se meteu, põe a nu a contradição insanável com que se debate o líder do BE.
(Louçã fala muito, como é sabido, e os média - todos - captam-lhe todas as palavras com devota sofreguidão...)
Vejamos: disse Louçã que a candidatura de Alegre é a única forma de responder à candidatura de Cavaco Silva; e que esta tem que ser derrotada, porque é a candidatura protagonizada por um candidato que tem «apadrinhado» todas as políticas negativas do Governo.
Ora, sendo verdade que Cavaco tem «apadrinhado» a política de direita, também é verdade que a política «apadrinhada» por Cavaco é a política praticada pelo Governo de Sócrates...
O que configura um cenário deveras bizarro: Louçã vai combater o «apadrinhador» dessa política marchando lado a lado com o executante dessa política...
Se eu fosse membro do BE diria ao líder: por que não te calas?
O facto, sendo curioso, não surpreende, podendo mesmo dizer-se que era fatal e que os três sabiam dessa fatalidade.
Aliás, as razões que estão na origem do apoio de Louçã e Sócrates ao mesmo candidato são, aparentemente, as mesmas e são, mais coisa menos coisa, estas: ambos vêem em Alegre o «candidato da esquerda». E pronto.
O que surpreende é a argumentação ontem acrescentada por Louçã e que, sendo reveladora de natural baralhação face ao imbróglio em que se meteu, põe a nu a contradição insanável com que se debate o líder do BE.
(Louçã fala muito, como é sabido, e os média - todos - captam-lhe todas as palavras com devota sofreguidão...)
Vejamos: disse Louçã que a candidatura de Alegre é a única forma de responder à candidatura de Cavaco Silva; e que esta tem que ser derrotada, porque é a candidatura protagonizada por um candidato que tem «apadrinhado» todas as políticas negativas do Governo.
Ora, sendo verdade que Cavaco tem «apadrinhado» a política de direita, também é verdade que a política «apadrinhada» por Cavaco é a política praticada pelo Governo de Sócrates...
O que configura um cenário deveras bizarro: Louçã vai combater o «apadrinhador» dessa política marchando lado a lado com o executante dessa política...
Se eu fosse membro do BE diria ao líder: por que não te calas?
POEMA
VIDRO CÔNCAVO
Tenho sofrido poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia.
Vidro côncavo a boiar.
Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais.
António Gedeão
Tenho sofrido poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia.
Vidro côncavo a boiar.
Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais.
António Gedeão
A COISA PROMETE
Os jornais anunciam para os dias 25, 26 e 27 de Junho - 3-dias-3 - uma homenagem a Mário Soares.
Homenagem nacional e internacional, como não poderia deixar de ser, tratando-se de quem se trata.
O evento - organizado pela Câmara Municipal de Arcos de Valdevez e pela «Editorial Novembro» - constará de uma exposição e de uma conferência.
A exposição, intitulada «Mário Soares, o Princípio sem Fim» (chiça, digo eu...) contará «a vida pessoal e política do homenageado».
Claro que não contará tudo: como toda a gente sabe, há coisas dessa vida que não poderão vir a público...
E se é verdade que parte dessas coisas que não podem vir a público são do conhecimento geral, mais verdade é que se a exposição contasse tudo o que, da «vida pessoal e política» de Soares é do conhecimento geral, não haveria homenagem... - se é que me faço entender...
Na conferência participarão (pessoalmente ou através de vídeo-conferência) conferencistas à altura da homenagem - se é que me faço entender...
Os conferencistas podem dividir-se em três grupos distintos embora gémeos.
Assim, da área do pensamento político do antigo regime, teremos duas figuras grandes: Adriano Moreira e Freitas do Amaral - o ex-ministro do fascismo e o ex-delfim do Caetano.
Da área da literatura e do pensamento filosófico do actual regime, duas figuras grandíssimas: António Lobo Antunes e Eduardo Lourenço - o Nobel adiado que procria e o pisa-gatinhos da realidade concreta.
Finalmente, da área do pensamento universal tout court, duas grandecíssimas figuras: Frank Carlucci e Mikhail Gorbatchov - o da CIA e o outro.
Não há dúvida: com uma exposição tal e com tal naipe de conferencistas, a coisa promete.
Que a homenagem seja produtiva é o que desejo a todos - para que, uma vez mais, fique demonstrado que cada homenageado tem os homenageadores que merece.
E vice-versa.
Homenagem nacional e internacional, como não poderia deixar de ser, tratando-se de quem se trata.
O evento - organizado pela Câmara Municipal de Arcos de Valdevez e pela «Editorial Novembro» - constará de uma exposição e de uma conferência.
A exposição, intitulada «Mário Soares, o Princípio sem Fim» (chiça, digo eu...) contará «a vida pessoal e política do homenageado».
Claro que não contará tudo: como toda a gente sabe, há coisas dessa vida que não poderão vir a público...
E se é verdade que parte dessas coisas que não podem vir a público são do conhecimento geral, mais verdade é que se a exposição contasse tudo o que, da «vida pessoal e política» de Soares é do conhecimento geral, não haveria homenagem... - se é que me faço entender...
Na conferência participarão (pessoalmente ou através de vídeo-conferência) conferencistas à altura da homenagem - se é que me faço entender...
Os conferencistas podem dividir-se em três grupos distintos embora gémeos.
Assim, da área do pensamento político do antigo regime, teremos duas figuras grandes: Adriano Moreira e Freitas do Amaral - o ex-ministro do fascismo e o ex-delfim do Caetano.
Da área da literatura e do pensamento filosófico do actual regime, duas figuras grandíssimas: António Lobo Antunes e Eduardo Lourenço - o Nobel adiado que procria e o pisa-gatinhos da realidade concreta.
Finalmente, da área do pensamento universal tout court, duas grandecíssimas figuras: Frank Carlucci e Mikhail Gorbatchov - o da CIA e o outro.
Não há dúvida: com uma exposição tal e com tal naipe de conferencistas, a coisa promete.
Que a homenagem seja produtiva é o que desejo a todos - para que, uma vez mais, fique demonstrado que cada homenageado tem os homenageadores que merece.
E vice-versa.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
