LUTAR, LUTAR SEMPRE

Na madrugada de 18 de Outubro de 1936 - faz hoje 74 anos - o navio Luanda saíu do porto de Lisboa rumo ao Tarrafal.
Levava no porão 150 resistentes antifascistas, em grande parte operários e marinheiros: os primeiros, tinham participado na greve insurreccional da Marinha Grande, em 18 de Janeiro de 1934, contra a fascização dos sindicatos; os segundos, eram protagonistas da Revolta dos Marinheiros, ocorrida em 8 de Setembro de 1936.
No dia 29 de Outubro, o Luanda terminaria a sua tarefa: os 150 presos inauguravam o Campo de Concentração do Tarrafal.

Pelo Campo da Morte Lenta passaram 340 resistentes antifascistas portugueses, somando um total de dois mil anos, onze meses e cinco dias de prisão.
32 foram ali assassinados, entre eles o secretário-geral do PCP, Bento Gonçalves.

A Revolta da Marinha Grande e a Revolta dos Marinheiros, porventura as duas mais importantes lutas travadas em Portugal na década de 30 - quando Salazar, metódica, sistemática e friamente, levava a cabo, com êxito, o processo de fascização do Estado - saldaram-se, ambas, por derrotas com pesadas consequências para os seus protagonistas.
Contudo, ambas foram sementes lançadas à terra da luta libertadora - sementes que viriam a dar flor e fruto no 25 de Abril de 1974 e na Revolução que se lhe seguiu.
A confirmar que a luta dos trabalhadores, mesmo quando, de imediato, se traduz numa derrota, nunca é inútil e vale sempre a pena.
Sempre.

Hoje, mais de setenta anos passados - e num momento em que os trabalhadores portugueses preparam intensa e activamente uma Greve Geral de resposta à política de direita ao serviço do grande capital, é particularmente importante reter esse ensinamento - tanto mais quanto, como sabemos, os ideólogos do capitalismo levam por diante uma poderosa ofensiva ideológica que tem entre as suas linhas fundamentais a pregação da inutilidade da luta.
Sempre como velho objectivo de enfraquecer, e se possível liquidar, a luta das massas trabalhadoras.

E não é por acaso que os seguidores dessa ideia proliferam nos média dominantes - e em blogues e caixas de comentários... - nuns casos mostrando o que são, noutros casos ostentando garridas vestes de «esquerda» e, nessa qualidade, colocando a fasquia dos objectivos da luta em níveis claramente inatingíveis no momento e, simultaneamente, decretando que a luta só conta e só vale a pena se for vitoriosa..., fingindo que não sabem que se os trabalhadores só avançassem para uma luta quando tivessem a certeza prévia de que iriam vencer de imediato, nunca lutariam... para tranquilidade do capitalismo explorador.

Essa ideia da inutilidade da luta constitui, assim, uma das linhas mais perigosas da ofensiva ideológica em curso e visa empurrar os trabalhadores para o conformismo, para o «não vale a pena», para a aceitação da exploração capitalista como uma «inevitabilidade»...

De facto, o que o grande capital aplaude, nos trabalhadores, é ou a passividade e o amorfismo, por vezes através do medo: ou a impaciência geradora de desesperos, de capitulações e aventuras que fragilizem a unidade dos trabalhadores ou conduzem a luta para becos sem saída - enfim, todas aquelas situações que vicejam onde houver uma frágil consciência política, ideológica e de classe.

E o que o grande capital teme, nos trabalhadores, é a determinação, a confiança, a convicção, a perseverança, a perspectiva revolucionária - enfim, todas aquelas armas que são consequência de uma firme consciência política, ideológica e de classe.

E a verdade é que - como a vida nos mostra desde, pelo menos, a Revolta de Spártacus... - quem luta, nem sempre ganha, mas quem não luta, perde sempre.

10 comentários:

smvasconcelos disse...

Regressar e ler o teu post é uma lufada revigorante para mim, que, mesmo arredada das notícias, em férias, lá ia discutindo estes temas com pessoas amigas... e curiosamente, muitas delas argumentavam a sua negação à greve, com a descrença, a "inutilidade" da mesma... hei-de enviar-lhes este post, pois traduz tudo o que lhes tentei dizer, mas não tão excelsamente como tu o fizeste.
Um beijo! já tinha saudades.

samuel disse...

Belo texto!!!

Abraço.

GR disse...

Depois de lermos este magnifico texto, o sangue ferve-nos nas veias e o trabalho simplifica-se no esclarecimento para a grande Jornada de Luta do dia 24 de Novembro – Greve Geral.
A Luta é o Caminho!

Bjs,

GR

Manuel Rodrigues disse...

Pela beleza do texto e, sobretudo, pelos ricos ensinamentos que contém, aqui deixo mais um poema de Brecht, a condizer:

"Ouvimos dizer: Não queres continuar a trabalhar connosco.
Estás arrasado. Já não podes andar de cá para lá.
Estás muito cansado. Já não és capaz de aprender.
Estás liquidado.
Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo:
Nós exigimo-lo.

Se estiveres cansado e adormeceres
Ninguém te acordará nem dirá:
Levanta-te, está aqui a comida.
Por que é que a comida havia de estar ali?
Se não podes andar de cá para lá
Ficarás estendido. Ninguém
Te irá buscar e dizer:
Houve uma revolução. As fábricas
Esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto virão enterrar-te
Quer tu sejas ou não culpado da tua morte.

Tu dizes:
Que já lutaste muito tempo. Que já não podes lutar mais.
Pois ouve:
Quer tu tenhas culpa ou não:
Se já não podes lutar mais, serás destruído.

Dizes tu: Que esperaste muito tempo. Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu?
Que a luta fosse fácil?

Não é esse o caso:
A nossa situação é pior do que tu julgavas.

Se não levarmos a cabo o sobre-humano
Estamos perdidos.
Se não pudermos fazer o que ninguém de nós pode exigir
Afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam
Que nós nos cansemos.

Quando a luta é mais encarniçada
É que os lutadores estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados de mais perdem a batalha."

Antonio Lains Galamba disse...

FABULOSO! muito obrigado camarada.
um abraço

Graciete Rietsch disse...

A inutilidade da luta, o cansaço, a inevitabilidade do OE, são palavras que ouço frequentemente.
Sempre procuro rebater. Não sei se me aceitam, mas das minhas palavras algo ficará, creio.
Quanto ao texto do Cravo de Abril acho-o lindo e esclarecedor.
Quanto ao poema transcrito num comentário anterior, considero-o
fabuloso, também.

Um grande abraço para todos os que lutam por Abril.

Anjos disse...

"Lutar, Lutar Sempre"

Muito, mas mesmo muito bom!
Como bons os comentários - verdadeiros ensinamentos.

Também de Brecht: "Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons, mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis."

Com eles, e por eles, voltaremos a ver o sorriso feliz de Abril.

Se a força de um abraço ajudar... contem com o meu!

Anónimo disse...

Todas as lutas travadas contra o capitalismo são importamtes para que se realize a emancipação dos trablhadores da exploração e, por isso, é preciso não esquecer que se deve, sobretudo, à luta de libertação dos povos da ex-colónias a queda do fascismo em 25 de Abril de 1974.

Pintassilgo disse...

E até mortos vão ao nosso lado!

Maria disse...

Texto fantástico!
Quis dizer-to ontem, mas a net portátil não deixou. São dias...

Um beijo grande.