POEMA

CAMPO DE BATALHA


O poeta caminha, sem destino, desesperado,
vagando o olhar sobre as pilhas de cadáveres
- homens que partiram das suas terras para virem
apodrecer aqui, adubo amontoado.

O poeta escreve sobre os mortos! Recorda
as infâncias tão próximas, as lágrimas na estação,
os beijos da família, o abraço dos amigos,
o comboio enfeitado de flores e bandeiras.

Estendidos na planície revolvida
nem moscas nem traições os incomodam.
Uma bomba transformou-os em quietude,
as mãos vazias, os amores parados...

Livres da angústia pela morte,
não sofrerão doenças ou velhice.
Haverá missas pela sua alma
e trigo semeado, em breve, neste solo.

Cada um deles está rígido e perfeito
com direito a um crepe no retrato.
Imperfeita, no conjunto, só a bomba,
mas trabalha-se nela com afinco.


Egito Gonçalves

5 comentários:

samuel disse...

A barbárie nunca satisfaz os bárbaros...

Abraço

Justine disse...

Continua a aperfeiçoar-se afincadamente, sim, até que nem sequer os corpos restem...

Ana Camarra disse...

Fernando Samuel

De facto continua-se afincadamente a investir no impensavél...

beijos

Maria disse...

Quando estiver pronta já nada restará...

Um beijo, sim!

poesianopopular disse...

É preciso lutar todos os dias, contra esta grande verdade!
Não basta pedir Paz, temos de exigir Paz!
Abraço