23/6/1958

No dia 23 de Junho de 1958, cerca de trezentos operários agrícolas concentraram-se junto à Câmara Municipal de Montemor-o-Novo.
Tinham iniciado nesse dia uma greve que, para além da exigência de melhores salários, era um protesto assumido contra a fraude eleitoral que havia roubado a vitória ao candidato antifascista general Humberto Delgado nas «eleições» de 8 de Junho desse ano.

José Adelino dos Santos, operário agrícola de 46 anos de idade, era um dos presentes.
Numa altura em que falava com outros trabalhadores, de costas para o edifício da Câmara, foi atingido por um tiro, disparado do interior do edifício, e assassinado.
Não foi um tiro de acaso: foi um tiro dirigido: dirigido a José Adelino dos Santos.
Porquê a ele?

Militante do PCP desde o início dos anos 40, José Adelino dos Santos teve um papel destacado no desenvolvimento da organização do PCP no Concelho de Montemor-o-Novo. Ele era, desde a sua juventude, um corajoso lutador antifascista, um organizador da luta de todos os dias pela democracia, pela liberdade, pela justiça social.
Por isso, e pela sua postura fraterna e solidária, era altamente prestigiado junto dos seus companheiros de trabalho - e por tudo isso, ele era também um alvo permanente da PIDE.
Foi preso pela primeira vez, em 1945; e, pela segunda, em 1949 - e de ambas as vezes barbaramente torturado. Cumpriu um total de três anos de prisão.
Estas as razões pelas quais, naquele dia 23 de Junho de 1958 aquele tiro mortal foi dirigido José Adelino dos Santos.

Uma multidão de cinco mil pessoas - que a PIDE e a GNR tentaram inutilmente impedir de entrar no cemitério - acompanhou o corpo do militante comunista à sua última morada.

Hoje, precisamente no local onde, há 50 anos, foi assassinado pelo fascismo, José Adelino dos Santos foi homenageado pelos seus camaradas e amigos - uma homenagem que foi, ao mesmo tempo, a afirmação do compromisso de continuar a luta por ele travada: pela democracia, pela liberdade, pela justiça social , pelo socialismo e pelo comunismo.

POEMA

A VIDA

Povo sem outro nome à flor do seu destino;
Povo substantivo masculino,
seara humana à mesma intensa luz;
Povo vasco, andaluz,
galego, asturiano,
catalão, português:
O caminho é saibroso e franciscano
do berço à sepultura;
Mas a grande aventura
não é rasgar os pés
e chegar morto ao fim;
É nunca, por nenhuma razão
descrer do chão
duro e ruim!

Miguel Torga

PROPAGANDEIROS...

«O maior partido da oposição»: é assim que o Público de hoje, na sua primeira página, designa o PSD.
A habilidade não é nova - tem, no mínimo 32 anos, ora aplicada ao PSD ora ao PS - e quem a ela recorre fá-lo com a consciência plena de que está a deturpar, a falsificar e a esconder a realidade.

Trata-se de alimentar no subconsciente dos leitores a ideia, falsa, de que entre o PS e o PSD existe uma oposição em matéria de política governamental e que, assim, em tempo de eleições, são alternativa um ao outro.
O facto de o Público e os seus gémeos mediáticos saberem que assim não é - que estes dois partidos se revezam há mais de três décadas na execução da mesma política de direita - e insistirem na mentira, é bem revelador da desvergonha informativa reinante.

O recurso a esse truque baixo, serve-lhes ainda para assobiar para o lado e fingir que não sabem que é o PCP que protagoniza, de facto, a oposição à política de direita - seja ela praticada pelo PS ou pelo PSD.

Não há dúvida: a política de direita tem na generalidade dos média nacionais os seus mais fiéis propagandistas - ou propagandeiros...

POEMA

DIREMOS A VERDADE, SEM DESCANSO

Diremos a verdade, sem descanso,
pela honra de servir, sob os pés de todos.
Detestamos os grandes ventres, as grandes palavras,
a indecente ostentação do ouro,
as cartas mal distribuídas pela sorte,
o denso fumo do incenso a quem é potente.
Agora é a vil raça dos senhores,
agacha-se no seu ódio como um cão,
ladra de longe, ao pé usa cacete,
segue, para além da lama, caminhos de morte.

Com a canção construamos no escuro
altas paredes de sonho, defesa deste turbilhão.
Pela noite chega o rumor de muitas fontes:
estamos fechando as portas do medo.

Salvador Espriu

SÓ PARA IR REGISTANDO...

Prossigo o registo de notícias sobre aquilo a que podemos chamar (provisoriamente) o Caso do Irão - ou seja e em resumo: a proibição decretada pelos EUA (e religiosamente seguida por Israel) de proibir o «plano nuclear» daquele país; o não acatamento da proibição pelos iranianos; as sanções económicas decretadas contra o Irão; e os desenvolvimentos vários da situação com cescentes ameaças de intervenção militar vindas dos EUA e de Israel, seu filho dilecto.

A meu ver, trata-se de um caso explosivo (na verdadeira acepção da palavra), e este registo dos seus principais passos vai-nos mantendo ao corrente da sua evolução até à eventual explosão final.
Que, a verificar-se, há-de ser, certamente, uma explosão humanitária e em defesa da democracia e dos direitos humanos...

Desta vez, trata-se de anotar que, como nos diz o Público de hoje, «Israel já ensaiou o ataque para impedir bomba nuclear iraniana», isto é: Israel prepara-se para cumprir a ameaça de bombardear o Irão.

O chefe da Agência Internacional para a Energia Atómica, ameaçou demitir-se no caso de haver um ataque militar contra o Irão e acrescentou que tal ataque «seria o pior possível», já que «transformaria toda a região numa bola de fogo».


Quanto às razões que conferem aos EUA o poder supremo e universal de decidir quem pode (ou não) ter armas nucleares, elas são óbvias: os EUA são o país com maior experiência nesta matéria já que foram, até agora, o único país do mundo que lançou bombas atómicas sobre populações... bombas humanitárias, evidentemente, e em defesa da democracia e dos direitos humanos...

POEMA

UM RAIO DE SOL É A ESPERANÇA

Um raio de sol é a esperança
do prisioneiro, que passeia em silêncio
nas celas do subterrâneo;
um barco à vela o seu sonho;
as pancadas e gritos
que ecoam pelos muros,
o seu horror.
Se ninguém escrevesse tudo o que se sabe,
enchiam-se montanhas e montanhas
de justiças violadas,
dedos apontados, acusadores,
de violências e repressões organizadas.
Então talvez o mar atacasse a cidade
e as estradas ficariam cheias de lama, de sal,
e as verdades das nossas mãos afogariam,
assim se espera,
todos os carrascos.

Isidre Molas

ESTES JORNAIS!...

Mugabe diz que a oposição jamais chegará ao poder - e marca novas eleições.
Os jornais dizem-nos, todos os dias, que assim, «não» - isto não é democracia!

Os governantes da União Europeia dizem que o «não» jamais vencerá - e pensam marcar novo referendo.
Os jornais dizem-nos, todos os dias, que assim, «sim» - isto, sim, é democracia!

Estes jornais!...

Construção da Festa!

POEMA

E AGORA DIREI

E agora direi,
como homem do povo,
o que quer
a gente do meu país:

queremos a liberdade.

Queremos que esta nossa terra
se acalme na paz,
sem angústia ou medo,
sem roubos nem dor.
Queremos chegar ao segredo,
subir por veredas e caminhos
à terra prometida,
onde a alegria dos pássaros,
o perfume das flores
e o olhar de um amigo
se fundem finalmente.

E todos,
por um mesmo caminho,
debaixo da sombra compacta
das bandeiras e canções
avançaremos unidos:
os da velha Catalunha,
os d'além-mar,
e os do país valenciano.
E nos subúrbios
deste país nascente
levantaremos um novo templo
onde o homem catalão
se sentirá, apenas,
trabalhador do seu país.
Sentir-se-á seguro,
guiado pelos deuses
da justiça e do amor,
e oferecerá, se for preciso,
a vida da sua canção,
descalço sobre a terra,
de alfaia bem segura
na mão,
enquanto a voz
dos mortos em sacrifício
dirá
uma palavra de perdão.

Joan Colomines

PASOLINI

Por três vezes - com dois poemas do Autor e um fotograma do filme Teorema - o Cravo de Abril recordou essa figura maior da cultura italiana (e europeia) que foi Pier Paolo Pasolini.

Hoje, partilhamos com os nossos visitantes parte da intervenção proferida por Pasolini no comício realizado no Verão de 1974, em Milão, no decorrer da Festa do Unitá (então órgão central do então Partido Comunista Italiano).

«Eis a angústia de um homem da minha geração, que viveu a guerra, os nazis, as SS, de que sofreu um traumatismo nunca totalmente vencido.
Quando vejo à minha volta os jovens que estão perdendo os antigos valores populares e absorvem os novos modelos impostos pelo capitalismo, arriscando assim uma forma de desumanidade, uma forma de afasia atroz, uma brutal ausência de capacidade crítica, uma facciosa passividade, recordo que estas eram precisamente as formas típicas das SS: e vejo assim estender-se sobre as nossas cidades a sombra horrenda da cruz gamada.
Uma visão apocalíptica, certamente, a minha.
Mas se ao lado dela e da angústia que a produz, não existisse em mim, também, um elemento de optimismo, isto é, o pensamento de que existe a possibilidade de lutar contra tudo isto, simplesmente eu não estaria aqui, convosco, a falar».

POEMA

NÃO DIREI

Não direi maçãs rosadas,
nem limões, nem laranjas.

Direi que me gela
o sangue nas mãos
e me enoja viver neste tempo
e neste país.

Não direi maçãs rosadas,
nem limões, nem laranjas;
Gritarei ainda mais alto
e lutarei pela nossa liberdade.

Carles-Jordi Guardiola
(In Poetas Catalães de Hoje)

E SE SE FUNDISSEM?

Dizem as notícias do dia que o PS e o PSD pensam fazer uma coligação após as eleições de 2009.
Ao que parece, dirigentes dos dois partidos têm trocado opiniões sobre o assunto estando o processo bem encaminhado.
A hipótese desta coligação é bem vista pelo inevitável Marcelo.
Mais importante do que isso: ela é muito bem vista pelos chefes dos grandes grupos económicos e financeiros - e a opinião destes é de peso, como se sabe...

Por mim, acho bem a coligação.
Por razões várias, a mais importante das quais é a da poupança de esforços dos dois na dificílima tarefa de fingir que são oposição um ao outro, procurando esconder a total consonância de opiniões em relação à política que, ora um ora outro, leva por diante - a política de direita comum aos dois, e com a qual ambos têm vindo, ao longo dos últimos 32 anos, a flagelar os trabalhadores, o povo, o País e a democracia de Abril.

Aliás, e pensando melhor, talvez fosse, até, preferível os dois partidos fundirem-se. Um ao outro, um e outro, como melhor lhes aprouvesse.
O aborto que resultasse dessa fusão seria sempre menos horroroso à vista do que esta aberração bicéfala com que hoje nos horrorizam.

POEMA

QUEM...

Quem tem a consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
e no centro da própria engrenagem
inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
e envolto em tempestade decepado
entre os dentes segura a primavera.

João Apolinário

UM PÉ LÁ, OUTRO CÁ...

Como a realidade exuberantemente nos mostra, Manuel Alegre é um exímio praticante da arte conhecida por «um pé lá, outro cá» - sendo que o «pé cá» é em jeito de faz-de-conta, enquanto que o «pé lá» é pé-da-casa, pé instalado.

O DN , na sua primeira página de hoje, incita-nos à leitura de um artigo de Alegre, intitulado «Viva a Irlanda! Não há Europa contra os cidadãos».
Confesso a minha estupefacção ao ler tal coisa!
Pensei para mim: será que a actual onda de esquerda de Alegre o levou a deixar de ser entusiástico apoiante do Tratado de Lisboa e a instalar definitivamente os dois pés cá? Será que ele passou a ver no referido Tratado aquilo que é, ou seja: um gigantesco passo em frente na construção da União Europeia do Grande Capital (UE do GC) e na perda de soberania de Portugal?
Se assim é, continuei a pensar, tenho que dar a mão à palmatória e reconhecer o erro da minha tese de «um pé lá, outro cá» - e saudar o ingresso de Alegre nas fileiras dos que lutam contra o Tratado Porreiro, pá, a política de direita, etc, etc.
E apressei-me a ler o artigo.

Bom: li, li, li... e a verdade é que, no longo texto, não encontrei fosse o que fosse - uma ideia, uma frase, um parágrafo, uma palavra, uma vírgula... - diferente do que Alegre, por hábito e vocação, diz nestas ocasiões: o habitual blá-blá-blá democratóide usado como música de fundo para melhor instalar o «pé lá».
Isto é: Alegre continua a pensar o que sempre pensou sobre o Tratado e o referendo; continua a apoiar a UE do GC; continua a achar bem a venda ao desbarato da soberania e da independência nacional - o que indicia a continuação do apoio, de facto, à política de direita.

Perguntar-se-á: então porquê esta espampanância de artigo?, porquê o tonitroante brado de «Viva a Irlanda»?, porquê esta declamação a fingir que «não»?
E a resposta é: este tempo de vitória histórica do «não» na Irlanda; este tempo de alegria justificadíssima da Esquerda; este tempo de recarregar de baterias entre a malta para a luta contra o Tratado, e contra a política de direita - é, naturalmente, tempo de Alegre estar com um «pé cá»: junto aos que comemoram a vitória do «não».
Mas que o «pé lá» continua instalado, não há dúvida. Como pode depreender-se lendo o penúltimo parágrafo do artigo, o qual, nas suas 33 breves palavras, diz TUDO.
Leiam, por favor:
«É preciso respeitar a vontade popular, gritava-se em 1975 nas ruas de Portugal. Pois é. E é por isso que, ainda que sendo a favor do "sim", hoje me apetece dizer: Viva a Irlanda».


Pois é: Alegre o diz: gritar, hoje, «Viva a Irlanda», tem o mesmo significado que tinha, em 1975, intervir activamente na organização da contra-revolução.

Chega para lá o pé, pá.

Sá Fernandes, o capacho

Sobre a presença de Sá Fernandes numa reunião do PS - comentário do (Rei Mago) Belchior ao blog Troll Urbano

Escuta companheiro Baltazar,
O Fernandes trai sempre sua classe.
Sabia-se, mesmo antes de se falar,
Bastava que o PS lhe acenasse.

O PS já lhe deu tacho
E o Sá Fernandes já se conhece:
Vende-se por 2 € e uma prece,
Ele não passa dum capacho.

É imensamente triste
A sua (in)consciência política.
Mas como tu já viste
A sua sensibilidade é lítica.

POEMA

APONTAMENTO PARA UM POEMA EM LAPÃO


Se a civilização do consumo pôs o problema
da falta de espaços verdes
ou da solidão da velhice,
por que é que um presidente de município comunista se sente
na obrigação de resolvê-lo?
De que se trata?
Da aceitação de uma realidade fatal?
E, uma vez que as coisas se apresentam deste modo,
o dever histórico é o de procurar melhorá-las
atavés do entusiasmo comunista?
O «modelo de desenvolvimento» é
o preconizado pela sociedade capitalista
que está para alcançar a máxima maturidade.
Propor outros modelos de desenvolvimento
significa aceitar o primeiro modelo de desenvolvimento.
Significa querer melhorá-lo,
modificá-lo, corrigi-lo.
Não: é preciso não aceitar tal «modelo de desenvolvimento».
E nem sequer basta rejeitar tal «modelo de desenvolvimento».
É preciso rejeitar o «desenvolvimento».
Este «desenvolvimento»: porque é um desenvolvimento capitalista.
Este parte de princípios não só errados
mas também malditos.
Triunfantes, pressupõem uma sociedade melhor e portanto burguesa.
Os comunistas que aceitem este «desenvolvimento»,
considerando o facto que a industrialização total
e a forma de vida que daí resulta é irreversível,
seriam sem dúvida realistas colaborando,
se a diagnose fosse absolutamente justa e segura.
E, pelo contrário, não é verdade -
e existem já as provas -
que tal «desenvolvimento» deva continuar
como começou.
Há, em vez disso, a possibilidade de uma «regressão».
Cinco anos de «desenvolvimento» tornaram os italianos
um povo de nevróticos idiotas,
cinco anos de miséria podem reconduzi-los
à sua mísera humanidade.
E então -
pelo menos os comunistas -
poderão ter em conta a experiência vivida:
e visto que se deverá voltar ao princípio
com um «desenvolvimento»,
este «desenvolvimento» deverá ser totalmente diferente
do que tem sido.
Coisa diversa do que propor
novos «modelos»
ao «desenvolvimento» tal como ele é agora.

Pier Paolo Pasolini

BUSH & BEN LADEN

Bush, em vésperas de ser substituído como presidente dos EUA, veio à Europa despedir-se dos seus amigos fiéis: os governantes da UE que o ajudaram na criminosa tarefa de invadir e destruir a ex-Jugoslávia, o Afeganistão e o Irão assassinando centenas de milhares de crianças, mulheres e homens.

Num desabafo ao criado do Reino Unido, confessou a sua mágoa por não ter conseguido alcançar o objectivo de caçar o Ben Laden - seu ex-amigo e ex-sócio (um dia se confirmará, ou não, se é ex...)
A confissão desta mágoa traz, mais uma vez, à luz do dia a contradição insanável com que Bush se vem debatendo de há sete anos a esta parte.

Como estamos lembrados, logo após o ainda não esclarecido ataque às Torres Gémeas, Bush colocou como tarefa prioritária a captura de Ben Laden.
Disse ele, na altura:
«O mais importante é encontrar Ben Laden. É essa a nossa prioridade».

E, três meses passados, reiterava o objectivo:
«Vamos apanhar Ben Laden. Vivo ou morto»

Depois, talvez porque ocupado com a democraticíssima tarefa de bombardear, ocupar e destruir o Afeganistão - e talvez, também, porque o Ben Laden não se deixava apanhar... - arvorou um ar displicente e mudou o rumo do discurso:
«Não sei onde está Ben Laden e não me interessa. Não é a nossa prioridade».

Logo a seguir, pressionado por incómodas perguntas, esclareceria, falho de memória e a pensar nas armas de destruição massiça do Iraque:
«Não me lembro de ter dito que não estava preocupado com Ben Laden».

Mais tarde, impotente face à resistência heróica do povo iraquiano, desdenharia assim:
«Ben Laden é um homem impotente refugiado numa gruta».

Agora, na Europa, pediu ao sempre rastejante lacaio britânico para o ajudar a lançar uma operação numas montanhas não sei onde, onde lhe disseram que se encontra, escondido, o Ben Laden...

Não sei se o Ben Laden está ou não nas tais montanhas, nem se a operação vai ou não por diante.
Mas permito-me deixar aqui um velho palpite meu sobre o local onde pode ser encontrado o terrorista das Torres Gémeas: o rancho de Bush, no Texas.

«CAMINHEMOS SERENOS»

Em 1958 - há cinquenta anos! - Papiniano Carlos publicava o seu sétimo livro de poemas: «Caminhemos Serenos» - poemas que, passados à máquina e distribuídos, lidos em convívios, desde logo passaram a ser armas da luta contra o fascismo.

O fascismo apressou-se a proibir e apreender o livro. As razões apresentadas constam da nota de apreensão da Comissão de Censura:
«Livro de poesias, quase todas de sabor comunisante, e algumas mesmo de índole comunista».

Entretanto, os poemas de Papiniano Carlos passaram a integrar o cancioneiro da resistência e eram declamados nas mais diversas iniciativas antifascistas:

«A teu lado, amor,
não há muros, silêncio, morte»...

«No chumbo, no terror, na morte, com sangue escrevo,
Alfredo e Catarina,
vossos nomes»...

«Na fome verde das searas roxas
passeava sorrindo Catarina»...


Em homenagem a Papiniano Carlos, relembramos hoje o poema


CAMINHEMOS SERENOS

(Para Julius e Ethel Rosemberg)

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas,
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade,
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
dos que nem com a morte podem vencer-nos,
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas,
caminhemos serenos.

Pensamento que voa assim...

Uma vez, uma camarada e amiga de seu nome Cidália, deu asas ao pensamento numa acção de formação de Escrita Criativa promovida pelo nosso Partido. Foi o tema Escrita Estilo Saramago que lhe fez brotar tais ideias, que transcrevo abaixo.


25 DE ABRIL

Ao pesadelo da noite escura opressiva um dia de luz vermelho belo como são os dias dos sonhos realizados sua data 25 de Abril do ano de 1974 a liberdade o sonho a esperança voam no ar e poisam no coração das pessoas que felizes incrédulas saíram à rua.


ACORDAR DO SONHO

Não tardou que os sonhadores com lentidão se começassem a aperceber que no mesmo ar no mesmo céu não no mesmo dia pairavam os abutres que em voo picado lhes tentavam roubar esse sonho essa esperança Sonho e Esperança que continuam vivos e têm a força que nenhum abutre vencerá.


Um grande beijinho para ti que me deixaste partilhar o vôo do teu pensamento.

POEMA

ESTA GENTE

Esta gente cujo rosto
às vezes luminoso
e outras vezes tosco

ora me lembra escravos
ora me lembra reis

faz renascer meu gosto
de luta e de combate
contra o abutre e a cobra
o porco e o milhafre

Pois a gente que tem
o rosto desenhado
por paciência e fome
é a gente em quem
um país ocupado
escreve o seu nome

E em frente desta gente
ignorada e pisada
como a pedra do chão
e mais do que a pedra
humilhada e calcada

meu canto se renova
e recomeço a busca
de um país liberto
de uma vida limpa
e de um tempo justo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

EU BUZINO!

BUZINÃO
Dia 17 de Junho, às 17H30.

CONTRA O AUMENTO DO PREÇO DOS COMBUSTÍVEIS
(e contra a cambada...)

EU BUZINO!

POEMA

AINDA ME ACOLHO


Ainda me acolho, Pai,
à tua madressilva.
Ali tens a passiflora,
não envelheceu.
O cedro grande, maior ainda.
O forno, dedadas
expungidas pelas portas.
A buganvília, não esqueço,
é preciso cortá-la.
A Mãe não está nem volta.

António Osório

"Humano, demasiado humano"


Pier Paolo Pasolini

POEMA

ESMAGADOS...


Esmagados sob as patas
das bestas taciturnas
os nossos peitos ansiosos,

que havemos nós de fazer senão, irados,
mesmo imprudentemente,
erguer-nos contra quanto
é ordem truculenta,
crença mutiladora,
ou crime sistemático?

Armindo Rodrigues

COM RESPEITO AO RESPEITO...

Pronto: está encontrada a «solução»!
Por sinal, nos moldes ontem referidos pelo Cravo de Abril e, hoje, confirmados pelo Público: «a Irlanda vai ter de decidir rapidamente se quer sair da União Europeia (...) ou se prefere voltar a submeter o texto aos eleitores mediante certos ajustamentos».

Temos, assim, que o caminho inevitável é o da repetição do referendo depois de submeter o texto às tais (desavergonhadamente) confessadas «pequenas modificações cosméticas»...
Temos, assim, a confirmação de que os construtores da União Europeia fogem dos métodos democráticos como o diabo da cruz: referendos para o eleitorado escolher livremente, NUNCA!; referendo repetido até o eleitorado escolher o «sim», SIM! (mas não abusem, senão... não há «modificações cosméticas» para ninguém!)

«Respeito o resultado do referendo, mas...»: eis a frase-tipo utilizada por todos os governantes europeus logo após a contagem dos votos irlandeses.
E naquele MAS está a essência do pensamento europeísta e do conceito de democracia que preside à construção desta União Europeia do grande capital.
É que, com respeito ao respeito, não há respeito nenhum...

POEMA

Para um amigo que gosta muito de poesia...


O desempregado com filhos

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.

In O Senhor Brecht de Gonçalo M. Tavares - Edições Caminho

ESTÁ MORTO MAS NÃO MORREU...

«Tratado de Lisboa avança apesar do "não" no referendo da Irlanda»: diz o Público de hoje, em primeira página - e avisa que «a Irlanda ficou com a responsabilidade de encontrar uma saída para o impasse que ela própria criou».
Reparem como em tão poucas palavras se pode resumir tudo o que paira nas cabeças dos derrotados de ontem...

Imagino a azáfama que vai por essa Europa: batalhões de juristas armados de potentes lupas à procura da «solução»; batalhões de lideres políticos a afinar os «argumentos» que hão-de «demonstrar» o carácter «profundamente democrático» da «solução» que os juristas hão-de encontrar...

Para já, e como convém, dizem todos que a bola está do lado da Irlanda que consideram obrigada, não apenas a «explicar as razões deste desaire» (irra, como é que vocês dixaram que o «não» ganhasse?), mas também - e essencialmente - a «assumir as responsabilidades de avançar com pistas para resolver o impasse», «impasse» que a própria Irlanda criou - dizem, irritados.
É claro que tudo isto é paleio: toda a gente sabe que os governantes da Irlanda farão o que lhes disserem para que o resultado do referendo não conte, para que o Tratado avance... morto, mas vivo, ainda que ligado à máquina do vale-tudo.

Há quem diga que a Irlanda deve «convocar novo referendo (...) sob pena de ver as suas relações com a Europa seriamente postas em causa». Há quem acrescente que o novo referendo seja sobre um novo texto, depois de submetido o actual a «pequenas modificações cosméticas»... Enfim, todas as possibilidades estão «em cima da mesa», à volta da qual estes paladinos da democracia se encontram reunidos.
Registe-se a impiedosa culpabilização da Irlanda, isto é: do eleitorado irlandês que, chamado a pronunciar-se, votou inequívocamente «não». Registe-se, igualmente, a insistência obsessiva na exigência feita à Irlanda de encontrar «a solução».

A dada altura, dei comigo a pensar que essa exigência continha, implícita, a hipótese de a Irlanda se auto-excluir da UE para «resolver o problema»...
Depois, pensei que era exagero meu, que tal coisa não passaria pela cabeça de ninguém...
Afinal, tal coisa passou, ou está a passar, por várias cabeças. Como se depreende destas palavras proferidas por um governante francês: «Não podemos pôr fora da Europa um país que é membro há 35 anos»...

Preparemo-nos, então, para tudo: o que é imaginável e o que pode parecer inimaginável.


POEMA

CANÇÃO INFANTIL


Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto
um ribeiro.

Tudo tão parado.
Que devia fazer?
Meti tudo no bolso
para os não perder.

Eugénio de Andrade

NÃO PASSOU

O Tratado Porreiro, Pá foi derrotado pelos irlandeses - os únicos que foram chamados a dar opinião sobre o assunto.
Trata-se de um acontecimento de enorme importância e significado.

As golpaças dos promotores da «coisa» não foram suficientes.
Não bastou a manobra de remeter a decisão para o aconchego dos parlamentos, com a aprovação previamente assegurada.
Não bastou o desavergonhado envolvimento no referendo irlandês de todos os países que fugiram de o fazer em suas casas.
Nada bastou: o Tratado NÃO PASSOU!
O NÃO irlandês deu-lhe o destino que merecia: o CAIXOTE DO LIXO.

Para já...
Fica a pergunta necessária: que outras manigâncias vão eles engendrar, agora?

POEMA

VIAGEM ATRAVÉS DE UNS CABELOS TODOS BRANCOS


E
stamos a vê-lo todos e sabemos.

Foram anos de fome, quantas vezes
à beira dos mercados e das feiras.
Foram anos com o perigo a escorrer das paredes.
Foram anos de todas as esquinas vigiadas.
Anos de encontros mais cronometrados
do que o fio-de-prumo sobre a lâmina.
Foram anos eternos de prisão
numa ilha de mar, de guardas, de muralhas
e de silêncio com o olhar feroz
de grades sobre o dia.

Foi toda a vida com o coração
sem nunca se esquecer por que batia.

Mário Castrim

13 de Junho


Uma multidão oriunda de todo o país - militantes do Partido e simpatizantes, gente sem filiação partidária, membros de outras forças políticas, operários, empregados, estudantes, intelectuais - participou naquela que foi a maior cerimónia fúnebre alguma vez realizada em Portugal.
Tratou-se da homenagem profundamente sentida a uma vida de luta que teve como referência constante e principal a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País - uma vida de revolucionário, feita de coragem, de dignidade, de verticalidade.
Tratou-se da homenagem a quem, ao longo de uma vida, desenvolveu uma actividade militante que teve como preocupação dominante e permanente a de, integrando o colectivo partidário, dar o seu contributo para fazer do Partido Comunista Português o Partido revolucionário que é.
Tratou-se da homenagem à coerência de quem fez da sua opção pelo ideal comunista uma opção de vida e a concretizou, exemplarmente, numa intervenção singular quer no longo e complexo processo de construção colectiva do PCP - do qual foi o mais relevante operário - quer na acção revolucionária do Partido, decorrente do conteúdo desse processo, desenvolvida ao longo de 75 anos.

Texto retirado do livro 85 Momentos de Vida e Luta do PCP, Edições Avante!

POEMA

(Clamor contra os que me forçam a ser
mais pequeno do que sou)


E
ainda por cima
me obrigam a odiar bandeiras exactas
e a embalar a superfície das coisas.

José Gomes Ferreira

A UNIÃO NACIONAL NÃO DIRIA MELHOR...

O auto-designado Partido da Nova Democracia (PND), chefiado por Manuel Monteiro, não gostou das reacções do PCP e do BE ao dia da raça de Cavaco Silva.
E tamanho foi o desagrado que não se conteve e desvendou-se um pedacinho: diz o PND, em comunicado, que «só um regime totalmente contemporizador é que admite partidos totalmente antidemocráticos no jogo eleitoral».
Saudades do fascismo, já se vê - e a mostrar que este PND, se pudesse, acabava totalmente com as contemporizações e fechava todos os antidemocráticos em Caxias, Peniche, etc.

Mas não pode. O que muito o incomoda e enraivece.
Por isso deixou um alerta a quem de direito: depois de acusar os comunistas de «falta de patriotismo», o patriota PND, em tom de simultâneos ódio, frustração, desabafo e cagaço, avisou que «mais do que nunca é necessário recordar que os comunistas não têm emenda».
Ditas as coisas assim, há que reconhecer que a União Nacional não diria melhor...

E há que reconhecer também que os receios, hoje do PND, ontem da União Nacional, são justificadíssimos.
De facto, «os comunistas não têm emenda»: nunca viram as costas à luta pela democracia, pela liberdade, pela justiça social, pelos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
Nunca: sejam quais forem as condições que se lhes deparem.

POEMA

CHE


Che, tu conheces tudo,
as voltas da Sierra,
a asma na erva fria,
a tribuna,
as ondas da noite,
até como se fazem
os frutos e os bois se jungem.

Não é que eu queira dar-te
caneta por pistola
mas o poeta és tu.

Miguel Barnet
(In Poesia Cubana da Revolução)

O CAMINHO DAS BOMBAS

Bush encontrou-se, ontem, com Ângela Merkel.
Do encontro saíu a ameaça de «novas sanções» contra o Irão, se este «insistir nos seus planos nucleares» - sanções que pressupõem, segundo a chanceler alemã, «que a comunidade internacional actue em conjunto».
Quanto a Bush, disse que «todas as opções continuam em cima da mesa» - entre elas a de «um ataque militar contra o Irão».

Desculpem a minha insistência no tema, mas é só para ir assinalando... o caminho das bombas.