ISENÇÃO E ÁGUA BENTA...

Confesso: não estava nos meus planos voltar tão cedo ao Cardeal Patriarca.
Mas, o que é querem?, o DN entrevistou-o...

A entrevista é grande, longa, enorme, pelo que, limitar-me-ei a referir a parte que diz respeito às eleições presidenciais, à posição do Cardeal sobre elas e à posição dele e da Igreja sobre eleições em geral...

À pergunta sobre se «a reeleição de Cavaco Silva seria favorável para a pacificação da situação nacional», o Cardeal respondeu que sente que sim: «Cavaco Silva é favorável àquilo que for melhor para Portugal».
Mas logo advertiu que, «com orientação nossa (isto é: dele, Cardeal), não haverá apelo ao voto», porque, lembrou: «costumamos ser o mais isentos possível a esse respeito».
E ele próprio, Cardeal, fez questão de assegurar: «Eu sou realmente o mais isento possível»...
Pronto, Cardeal, não é preciso insistir - convenceu-me: «isenção» é consigo e com a sua Igreja...

Aliás, é essa «isenção» que, como se está mesmo a ver, o torna «incapaz de sugerir um candidato».
Isto, na situação actual, porque «em situações extremas de risco para a Nação», aí, a «isenção» é outra...
Ou seja: há situações - «situações extremas», obviamente - em que é necessário a Igreja apelar publicamente ao voto. Apelar, especialmente, ao não-voto...
Porque, «isenção», sim, mas com a conta, o peso e a medida adequados a cada momento...


E o que são «situações extremas», de tal modo «extremas» que levam o Cardeal e a sua Igreja, em actos eleitorais, a optar pela outra «isenção»?

O Cardeal podia, se quisesse, ter dado exemplos vários de eleições em Portugal - desde o tempo do fascismo até agora - em que centenas de padres em milhares de missas prègaram o voto neste ou naquele e, sempre, o não-voto nos comunistas...

Mas optou por dar um «exemplo» mais abrangente, digamos assim: «o exemplo do pós-guerra, em Itália, em que havia o perigo de o Partido Comunista conquistar o poder»
Ora aí está!: face ao «perigo comunista», a «isenção» dizia que votar nos comunistas é votar no Diabo, pelo que é nos anti-comunistas que deveis votar, irmãos, e não deveis abster-vos porque a abstenção é pecado...
E, mostrando que, naquelas circunstâncias, a abstenção não passava de uma «isenção» pecaminosa, o Cardeal lembrou que «o Papa Pio XII até deu ordem às carmelitas, freiras de clausura, para irem votar»...


Tudo isto, num tempo - digo eu - em que o Papa, vergado ao peso das preocupações, vivia, porventura, uma angustiante crise de fé, repetindo e repetindo a dilacerante pergunta: como é que Deus - omnipotente, omnipresente e omnisciente - tinha permitido a derrota dos seus amigos nazis, ainda por cima derrotados graças, essencialmente, ao Exército Vermelho e ao povo soviético?...
Tudo isto, num tempo - insisto eu - em que o pio Papa se via a braços com a pia tarefa de assegurar passaportes falsos para os criminosos nazis em fuga e o envio destes para os países onde lhes era garantida segurança...

Preocupações, crise de fé e tarefa a confirmar que isenção e água benta cada qual toma a que quer...

10 comentários:

Graciete Rietsch disse...

Que bem escreces e esclareces!!!!!!
Estas tuas palavras deviam ser difundidas em todos os órgãos de informação.Mas, como estamos num país "livre"........!!!

Um beijo.

Anónimo disse...

Por favor enviem como saudação de reconhecimento solidário e fraterno os votos de Boas Festas ao vosso prestimoso "camarada" J. Proença.
Lembrem-se das palavras de Lenine: "A burguesia sabe que os revisionistas no seio do movimento operário são os seus melhores defensores". Lenine, 19 de Julho de 1920, II Congresso da Internacional Comunista.

Maria disse...

A 'isenção' da igreja sempre foi conhecida. Este post é imprescindível de ser lido. Vou levá-lo, devidamente linkado, para o face.

Um beijo grande.

do Zambujal disse...

Ora aqui está um "post" muito bem (a)postado. Estou de acordo com a Maria: de leitura obrigatória!

Abraço forte

Mar Arável disse...

Na sua bondade infinitésima
o cardial foi fiel ao que a teoria
da transparência lhe soprou

como é dos costumes a alto nível

deu uma no cravo e outra na ferradura
isto é
mais no cravo com ferradura

samuel disse...

Salvo o exemplo de elementos isolados, que seriam pessoas de bem em qualquer outra colectividade, a Igreja Católica (e não está sozinha) é um esgoto a céu aberto!

Abraço.

svasconcelos disse...

Ai, esta igreja... dali nem "bom vento nem bom casamento". Suja, tamanha hipocrisia e promiscuidade.

Um beijo,

Pedro Namora disse...

A igreja assim mostrada pelo cardeal pode já não recorrer aos autos de fé, por não precisar, mas é a mesma da inquisição. Uma seita, um bando de facínoras, sempre pronto a defender os detentores do dinheiro.
Não há barbárie no mundo a que sejam alheios, por acção ou omissão. Não há ditador e ditadura que não apoiem. Em Portugal, depois de 48 anos de cumplicidade com o fascismo, começaram logo em Abril de 74 a conspirar contra a Revolução. Os cónegos Melo e os bombistas foram unha e carne no propósito anticomunista e no terrorismo subjacente. Que asco.

Anónimo disse...

Homens de sotaina nem vê-los.

Antuã

Fernando Samuel disse...

Graciete Rietsch: um beijo amigo.

Maria: São «isentos» até dizer chega...
Um beijo grande.

do Zambujal: abraço grande.

Mar Arável: percebe-se: cravo não é com ela...
Um abraço.

samuel: a céu aberto... dizes bem.
Um abraço.

smvasconcelos: mas é a santa madre...
Um beijo.

Pedro Namora: com o deus deles, estão em todo o lado... sempre ao lado do diabo...
Um abraço.

Antuã: muito menos ouvi-los...
Um abraço.