Bonito, muito bonito...


José Neves, camarada:

Não comentei o texto do Manuel Alegre no sitio ao comentário destinado. Não, não o fiz. Não que ao fazê-lo aqui queira a atenção deslocada ao local que lhe era devida. Não fosse falar do homem que vou falar e o comentário ao teu texto "de pés descalços" seria feito no sitio a ele destinado. Mas, atrevo-me, e venho aqui dizer-te que conheço um homem de quem quero falar-te. Também o conheces, ainda que não saiba eu se deste pormenor saibas a essência. O homem de que te falo foi menino nos anos de 1950. Andou à escola nas Cortes, ao pé de Leiria, onde, no intervalo dos ensinamentos, se dedicava a ser criança num país de trevas e fomes e jogava à bola. Para que o fizesse sem molestar os pés descalços dos colegas e amigos pobres, este menino descalçava-se a caminho da escola, escondia as botas do seu privilégio de filho da pequena burguesia, e corria as horas dos dias na mesma condição dos amigos. pés frios no chão inflamado pela pobreza dos homens. Este menino, já rapaz feito, nunca calçou as botas enquanto todos os meninos da sua terra o não puderam imitar. às escondidas da mãe - nenhuma mãe quer os pés dos filhos rotos e ensaguentados pelos caminhos! - este menino fez-se homem sempre que escondia as botas nalgum buraco, até à noite, até ao regresso a casa - já calçado. Este menino, já rapaz e no colégio, foi várias vezes apanhado a distribuir propaganda comunista. Livros vermelhos. Sonhos em construção. Este menino fez-se rapaz. Cada vez que era apanhado em tais actividades revolucionárias, o castigo era sempre o mesmo... Correr descalço à volta do colégio, por cima de silvas, urze, tojo... mato. Se o mandavam dar duas voltas, em homenagem aos calos criados enquanto menino a jogar descalço com os amigos pobres - na verdade da sua classe, pois era lá que se encontrava o seu coração - este menino rapaz dava antes quatro ou cinco voltas, era até à exaustão. Das janelas dos seus quartos, das salas do colégio, os amigos - os mesmos da bola! - gritavam
«Manel Faria, manel faria MANEL FARIA». Era a homenagem que lhe faziam na sua coragem. Manuel Faria era um célebre atleta na altura. Este menino era rapaz. E revolucionário. Nas pequenas coisas de criança e nas maiores, como se veio a comprovar pela educação que deu aos seus filhos. Este menino de pés descalços ainda hoje é conhecido por muitos em Leiria - seus amigos - por Manuel Faria. Este menino cresceu. Casou. Teve filhos. Este menino é hoje homem. Chama-se António Galamba (ou Manuel Faria) e é meu pai. para ele o meu grito, desta minha janela de Aljustrel: MANUEL FARIA, MANUEL FARIA, MANUEL FARIA...

8 comentários:

Maria disse...

Emocionada com a estória, deixo-te um abraço, Camarada!

João Galamba disse...

Eu já a conhecia. É bonito poder ouvir- lendo- essa história outra vez. Agora transcrevo o que lhe escrevi, há ano e meio:

Mostraste-me parte da tua infância. E senti que também passei por lá. Também chutei a mesma bola de trapos com que tu jogaste naquele bocado de terra ainda por lavrar. Lembraste-te, Tó, meu pai, da pêra que me deste a provar? Senti que ainda lá estava presente o sangue com que a tua mãe a regou. E o rio onde tanto pescaste. Também eu me sentei, ali junto a ti. Não me perguntes quando. Sei que estive lá contigo. E vi-te pescar o peixe que me serviste na mesa. Quanta força usaste para lavrar todos aqueles campos de ternura a que me habituaste?

Sal disse...

Devo estar a perder qualidades (ou a ganhá-las), visto que depois dos 30 comecei a emocionar-me com mais facilidade. E agora foi um desses momentos.
Que história bonita.

beijinhos

vovó disse...

Que História!...

Abraço

GR disse...

Tão lindas são as tuas palavras. Comove-me a tua escrita.

Camarada para ti,
um grande e Vermelho Cravo de Abril.

GR

Alice disse...

Fui à minha janela e gritei: MANUEL FARIA, MANUEL FARIA, MANUEL FARIA...

Susana Soares disse...

Pois é, há os que dizem e há os que fazem.
E às vezes até há quem diga que faz o que não faz.
Outros há que, por tantas razões, fazem sem dizer.
Obrigada por não deixares imperar o silêncio. (E já agora, por pores as coisas em perspectiva - é que às vezes tanto ruído embrutece os sentidos...)
"L'essentiel est invisible aux yeux", (A. Saint-Exupéry) Mas às vezes era bom que entrasse pelos olhos adentro!
Um abraço comovido,
Susana

João Filipe Rodrigues disse...

Também eu gritei MANUEL FARIA.

E da próxima vez que estiver com o António Galamba, vou dizer-lhe que conheci a história do Manuel Faria.

Abraço